Moscou, Rússia.
Na Praça Vermelha, cartão postal da capital russa, e onde figuram alguns dos maiores ícones culturais locais como o mausoléu de Lênin, a Basílica de São Basílio e o suntuoso complexo de galerias do Kremlin, uma figura feminina caminhava resoluta entre os transeuntes.
Elegantemente vestida numa tradicional Jelabiah, vestimenta típica da cultura árabe semelhante a uma túnica longa até os pés, em tons de azul turquesa, tinha também a cabeça toda coberta por um Niqāb negro, véu de tecido fino que lhe escondia todo o cabelo e rosto, deixando a mostra apenas os belos olhos aquamarines delineados em kajal negro.
Chamava a atenção não por ser uma muçulmana caminhando sozinha entre católicos ortodoxos em sua grande maioria, mas pelo rebolado sedutor e o gingado dos quadris tão incomum às mulheres praticantes do islamismo, sempre muito recatadas.
Vez ou outra parava para ajeitar o sapato que castigava seu pé, já que este era dois números menor, então apoiava uma das mãos na parede, dobrava uma das pernas e massageava os dedinhos do pé com a mão que estava livre. Aliviada, ajeitava a roupa íntima sem nenhum pudor apalpando as próprias nádegas por cima da túnica azul, enfiava o sapato algoz e continuava a caminhada, até que finalmente avistou ao longe o Stalin´s Seven Sister´s Skyscrapers, ou simplesmente Sete Irmãs, como era popularmente conhecido pelos locais. Um complexo de sete prédios construídos entre 1947 e 1953 para celebrar o poderio da União Soviética, e que pode ser visto praticamente de qualquer parte da cidade.
Tomou o cuidado de não usar novamente a velocidade da luz e também de ocultar seu Cosmo, visto que sabia haver o risco de existirem ali cavaleiros renegados trabalhando para a poderosa máfia russa, então seguiu a pé até a entrada do prédio onde ficava uma das sedes da Vory v Zakone, um restaurante na cobertura do Hotel Leningradskaya, ambos mantidos para lavagem de dinheiro, e onde também ficava o escritório de Camus de Aquário.
Piscou os enormes olhos aquamarines quando chegou à entrada do arranha céu e olhou para cima, impressionado com a grandeza e imponência da construção. Sentia, forte e imponente, o Cosmo do aquariano no topo do edifício.
Seu coração batia acelerado. Sabia que estava sendo imprudente, ousado, e até mesmo desajuizado, mas quem é que consegue manter o juízo quando se está apaixonado?
Foi exatamente por isso que respirou fundo e seguiu em frente, adentrando o hall onde ficava a recepção e caminhando com seu rebolado sensual até um dos vários elevadores que davam acesso ao restaurante na cobertura.
Não foi tarefa difícil burlar a segurança do local, visto que, vestido como estava, se passava facilmente por uma das esposas dos xeiques árabes que costumavam se hospedar ali quando vinham à Rússia tratar de negócios, por isso, sem esforço algum logo saltava do elevador, mas ao em vez de entrar no restaurante pegou o corredor oposto e seguiu até o escritório administrativo, dando dois toques na porta de madeira escura antes de agarrar a maçaneta e abri-la sem esperar ter permissão para entrar.
De dentro da sala ampla de decoração sóbria e grandes janelas de vidro, de onde se podia ver ao longe as torres rebuscadas e coloridas do Kremlin, uma bela jovem de cabelos negros e frementes olhos verdes se levantou num sobressalto, assustada com aquela "invasão", e detrás de sua mesa encarou os olhos aquamarines majestosos com um semblante questionador.
— Da? Mogu li ya pomoch'?
— Ah! Excuse, ma cherie... (Ah, me desculpa, querida) — a invasora falou de forma calma, com voz mansa e melodiosa, então adentrou a sala fechando a porta atrás de si para em seguida caminhar até a mesa da recepcionista curiosa —... mais je ne parle pas le russe! Cepedant, je crois que tu parle du français, non? (... mas, eu não falo russo! Porém, creio que você fale francês, estou certa?)
A recepcionista estreitou os olhos verdes, desconfiada.
Ninguém ali usava outra língua que não fosse o russo.
Nem mesmo seu chefe, a quem todos sabiam ser francês, mas faziam questão de ignorar, já que ter um homem à frente dos negócios da máfia que nem ao menos tinha sangue russo figurava para muitos como uma afronta à honra da tradicionalíssima Vory v Zakone.
— Oui... Je parle. (Sim, eu falo) — respondeu a morena em voz baixa, encarando os olhos hipnóticos da mulher com o rosto coberto pelo véu — Comment puis-je l'aider? Vous êtes perdu? (Como posso ajuda-la? Está perdida?)
Dentro da sala de reuniões, empresários, membros da máfia e representantes políticos discutiam negociatas e valores de propinas.
Na ausência de Dimitri Yurievich Volkov era Camus quem cuidava pessoalmente de tudo e dava o veredito das decisões finais, por isso o aquariano andava sobrecarregado nos últimos dias.
Estava cansado. Fora um dia difícil e repleto de acordos que requeriam o máximo de sua atenção e tino para os negócios, e quando achou que poderia encerrar aquela reunião mais cedo, os ânimos dos quinze homens ali reunidos começaram a se exaltar, exigindo ainda mais de seu trato e paciência.
Esta, por sinal, estava prestes a atingir o limite quando em meio a uma discussão acalorada entre o dono da maior empreiteira russa e o porta voz do prefeito local, o interfone começou a tocar insistentemente.
O Santo de Aquário respirou fundo.
Tentou acalmar os ânimos dos brigões e ignorar solenemente a irritante campainha do aparelho, mas num rompante de irritação e impaciência, agarrou o fone e rosnou:
— *Com licença, senhores... — disse com voz firme — Senhorita Lizaveta, o que eu lhe disse? Não quero ser interrompido... O que? Quem? — abaixou o tom de voz para não ser ouvido pelos homens em sua sala — Sobrinha? Que diabo de sobrinha? Eu non tenho nenhuma... Muçulmana? Divorciada? Torturada? MON DIEU! Non estou entendendo nada, senhorita Lizaveta, estou indo ai, um momento.
Bateu o fone no aparelho franzindo as sobrancelhas num misto de cansaço e apreensão.
Não tinha nenhuma sobrinha, tampouco uma que fosse muçulmana divorciada e torturada pelo marido, o que era indício claro de que quem estava atrás daquela porta só poderia ser alguma espiã da facção rival ou uma possível armadilha.
Exatamente por isso, levantou-se apressado de sua cadeira na cabeceira da enorme mesa de madeira já deixando seu Cosmo ativo e sua Desert Eagle, presa ao coldre em seu tronco, destravada.
— *Senhores, não saiam da sala até que eu volte, e não se alarmem. Tenho um pequeno contratempo para resolver, mas não me demorarei.
Dada a ordem, Camus seguiu até a porta e num solavanco a abriu, se deparando do lado de fora com o rosto curioso e assustado de sua secretária e ao lado dela uma alta e longilínea figura de costas, totalmente coberta da cabeça aos pés por uma túnica azul turquesa e um véu preto.
O som da porta se abrindo chamou a atenção da visitante, que se virou de imediato.
Foi quando os olhos aquamarines cruzaram com os olhos avelãs do francês que uma pontada pungente atravessou o peito de Camus lhe fazendo perder o ar, e a fala, momentaneamente.
— Salut! Oncle Camus! (Olá, titio Camus) — a voz doce e melodiosa saudou o ruivo ao mesmo tempo em que os belos olhos azuis lhe sorriram.
— ...
Não houve resposta, já que aquele olhar parecia exercer em Camus o mesmo feitiço petrificante que possuía o olhar da temida Medusa das eras mitológicas.
O ruivo não respirava.
A boca entreaberta estava inerte e os olhos injetados fitavam incrédulos a figura à sua frente, a qual agora se aproximava lentamente e tocava em seu ombro com delicadeza.
— Vim fazer uma visitinha surpresa ao meu titio. — sussurrou próximo ao ouvido do aquariano, que quase se engasgou quando puxou o ar em desespero para dentro dos pulmões.
Atrás de si, Camus podia sentir os olhares curiosos dos quinze homens que estavam na sala, e só de imaginar o perigo que rondava aquele cenário, gotículas de suor brotavam em sua testa e o coração dava saltos dentro do peito.
— Je ne peux pas croire! (Eu não posso acreditar) — murmurou, com os olhos tão arregalados que pareciam querer saltar das órbitas e correr uma maratona inteira — Crisse fou! (Maldito maluco!) — rosnou a última frase rangendo os dentes, então agarrou no braço da "sobrinha" com uma das mãos enquanto com a outra se apressou em fechar a porta da sala de reuniões — Senhorita Lizaveta, vou conversar com... minha sobrinha em minha sala e não quero ser incomodado de maneira alguma, entendido? Se ela veio até aqui é porque deve estar com sérios problemas, pobrezinha.
— Sim, senhor Camus. — respondeu de pronto a morena, enquanto seus olhos verdes curiosos acompanhavam o patrão que praticamente arrastava a pobre sobrinha divorciada até seu escritório particular, poucos metros à frente.
Aquário então abriu a porta num tranco e logo apressou-se a fechá-la, enquanto empurrava a visita para dentro do cômodo, que por pouco não caiu de joelhos no chão.
— Por todas as geleiras do deserto Siberiano! Ficou maluco, Afrodite? Perdeu o juízo? — rosnou entre dentes.
— Que juízo?
— QUE MERDA VOCÊ FAZ AQUI? E VESTIDO DESSE JEITO? — aproveitou-se do isolamento acústico que revestia a sala para elevar seu tom de voz e descarregar toda sua apreensão.
— Dadá! Que grosseria! — suspirou o pisciano balançando a cabeça negativamente, fingindo estar incomodado com a maneira rude do outro, quando na verdade era exatamente o jeito bruto do francês que o desarmava — Eu venho de tão longe te fazer uma visita, trago até um presente, e é assim que você me trata, titio? — retirou a presilha que prendia o véu em seu rosto deixando o tecido fino escorregar por seus cabelos e revelar enfim sua belíssima face.
— Como me encontrou, seu irresponsável? Você... Você tem ideia do perigo que está correndo aqui? — o tom de voz do francês já se fazia mais ameno, pois o sorriso abrasador que o pisciano agora lhe dirigia minava toda e qualquer razão que pudesse ainda querer cultivar. Seus olhos agora eram cativos dos lábios úmidos que guardavam o mais doce néctar que já provara.
— Perigo eu corro longe de você, Camy. — sussurrou Afrodite ao se aproximar do ruivo e colar seu corpo quente ao dele, deixando Camus sem reação — Você foi embora tão depressa da última vez que estivemos juntos... Eu me senti usado e descartado... Mas, como não tenho amor próprio, vim atrás de você... — correu seus braços por todo o forte tórax do francês até tocar a arma presa ao coldre —... Nossa, que pistola enorme você tem! Atena não nos permite usar armas, sabia?
Encarou os lábios finos do aquariano, mordendo com desejo os seus próprios, para em seguida olhar novamente nas íris avelãs fumegantes.
— Non diga besteiras... — murmurou o francês sentindo seu baixo ventre formigar em resposta aquele contato instigante — Eu o avisei que teria que ser assim, que eu non poderei ficar no Santuário o tempo todo. Você aceitou, non me enlouqueça, Afrodite. — afundou o rosto na curva do pescoço do pisciano aspirando o delicioso perfume de seus sedosos cabelos.
— Sim, aceitei... Mas, já que você não pode ficar lá, eu venho até você aqui. — lambeu delicadamente o lóbulo da orelha de Camus e sem pestanejar esfregou seu rosto ao dele buscando os lábios arfantes, mas quando achou que tomaria a boca do amado na sua sentiu as mãos fortes do ruivo lhe agarrar os ombros o afastando de súbito.
— Non! — Camus o encarou severo — Non pode vir aqui, Afrodite! Non pode! Por Zeus! Será que non entende?
Peixes sorriu.
Adorava contemplar o semblante severo e autoritário do aquariano, justamente porque sabia exatamente como quebrá-lo.
Talvez fosse a única pessoa no mundo que tinha esse poder de desarmar aquele homem por completo, em sua essência, e isso o deixava deveras excitado.
Colocar Camus em situações de risco era outra coisa que instigava sua libido, mesmo sabendo dos riscos que corria junto dele.
— Não, mon amour! Eu não entendo! Me explica? — disse com voz manhosa agarrando a cintura do aquariano para trazê-lo novamente para junto de si — Tudo que sei é que precisava te ver. Sinto sua falta, Camy. Ainda mais depois de ajudar o cabacinho do Mu a se casar com o cabação do Shaka e ver o quanto eles se amam e se completam... O casamento foi tão lindo! Eles ainda vão ficar em lua de mel por mais alguns dias... Você tinha que ver! Shaka estava lindíssimo, e por um dia eu fui a melhor amiga de Shaka de Virgem! Como a vida dá voltas! Depois, todo aquele clima romântico, as juras de amor eterno, todo aquele ouro e pedras preciosas me deixaram com um tesão maluco. Sente só.
Sem nenhuma cerimônia, até porque Afrodite não era uma pessoa de fazer rodeios, o pisciano agarrou a mão do namorado e a levou até seu membro, fazendo o ruivo sentir o quanto estava rijo.
— Você non vale nada... seu... seu sueco gostoso. — sussurrou o francês no mesmo momento em que apalpou a ereção do outro para em seguida envolver todo aquele sexo turgido com a mão por cima do tecido da túnica — Non tem mesmo ideia do perigo que está correndo... que eu estou correndo por sua causa. — os lábios roçavam sedentos os do pisciano — Há quinze homens armados logo atrás daquela porta que se descobrirem o que somos nos matarão sem pestanejar.
— Hum... quinze homens!... Mas, só um consegue deixar os seus joelhos trêmulos, e suas pernas bambas, não é mesmo, Camy? — projetou o quadril para frente, tendo seu sexo deliciosamente massageado por cima da roupa pela mão forte e habilidosa do francês.
Esse, por sinal, detestava admitir, mas as palavras de Afrodite continham uma verdade que a ele ainda soava um tanto quanto assustadora.
Aquele pisciano maluco parecia ter realmente controle total de suas emoções.
Isso lhe assustava deveras, mas também lhe era absurdamente excitante.
— Vai me pagar por essa travessura, peixinho. — levou a outra mão até a nuca do pisciano e agarrou em seus cabelos, dando um puxão com força considerável para trás.
— Aaaaaaaahhh... Isso! — cerrou os dentes e fechou os olhos, sentindo o peito arder e o pulsar em seu sexo tornar-se ainda mais intenso — Eu pago! Eu pago, seu mafioso malvado!
Camus tomou enfim os lábios febris de Afrodite num beijo tão urgente quanto intenso, o qual era correspondido com igual inquietação.
Enquanto as bocas se provavam, matando a sede da saudade que sentiam, os corpos se acariciavam em frenesi, mas quando o Santo de Aquário desceu ambas as mãos às nádegas do pisciano dando uma forte apalpada, este de súbito se afastou, apartando o beijo e dando alguns passos para trás.
— Espera! — disse afoito enquanto pousava as mãos no próprio peito e puxava o ar pela boca para recobrar o fôlego perdido pelo beijo avassalador — Vai estragar a surpresa!
— Achei que a surpresa era você aparecer aqui, em Moscou, no meu escritório, e vestido de mulher. — sorriu de canto de boca, também recuperando o folego enquanto esfregava o rosto corado pela excitação com ambas as mãos.
— Não. O traje foi uma necessidade óbvia. — respondeu entre sorrisos — O seu presente é outro.
Munido de uma sensualidade ímpar, enquanto encarava os olhos atentos do francês, Peixes curvou o tronco para baixo e enfiou ambas as mãos por debaixo da túnica azul turquesa.
Camus acompanhava atento, instigado, fascinado como simples gestos, quando executados por Afrodite de Peixes, tornavam-se implacáveis armas de sedução, até finalmente ver o sueco retirar uma calcinha branca toda rendada e levantá-la na direção de seu rosto.
— Je ne peux pas croire! (Eu não estou acreditando nisso!) — arregalou os olhos, encarando aquela peça minúscula, atônito.
— Gostou? Trouxe para você. — Afrodite sorria satisfeito, percebendo o rubor se intensificar no rosto do aquariano — Como não tinha pacote de presente, eu coloquei em mim, mas ela é sua. Quero que use na sua reunião!
— Non pode estar falando sério. Eu non vou usar isso aqui. Nem tente me convencer. — resmungou o francês em um misto de irritação e vergonha pela proposta.
— Ah, vai sim! Pensa que louco, Camy. Quinze suínos que odeiam viado e o chefe deles lhes dando ordens usando uma calcinha por debaixo da roupa! Por favor, faça isso por mim, meu amor! — Peixes sussurrou se reaproximando do ruivo até roçar seus lábios aos dele — Não vai me fazer essa desfeita, vai? Escolhi uma do jeitinho que você gosta, cheia de rendinhas! Sua bunda vai ficar deliciosa nela. Não quer agradar seu papá?
— Papá non está merecendo sua princesa hoje. — respondeu o aquariano com severidade, então agarrou a calcinha das mãos do pisciano e a jogou sobre o sofá de couro negro que havia em sua sala para em seguida tomar Afrodite pela cintura e com um tranco colar seu corpo ao dele novamente — Eu estou bem bravo com você e aquela cena na minha recepção. Agora então eu tenho uma sobrinha muçulmana, divorciada e torturada pelo marido?
— Sim! — riu travesso o sueco — E bem safada também! Do jeito que o titio gosta!
— Louco inconsequente! — meteu uma das pernas entre as do pisciano roçando a coxa em sua virilha — Aqueles homens na minha sala são tarados por meninas novas. Vão me fazer perguntas, vão querer saber seu nome, quem é, onde vive, por que eu nunca falei de uma sobrinha muçulmana... — enquanto beijava o pescoço do pisciano com certa pressa e desespero, Camus levantava a túnica azul turquesa que cobria seu corpo, ávido por tocar as nádegas macias e nuas — Ah, Afrodite, eu deveria te dar outra surra, seu desmiolado.
— Humm... Que mão forte! — Peixes sorriu deixando escapar um leve gemido ao sentir suas nádegas apalpadas de forma despudorada — Isso, me maltrata, me xinga, Camy, mas admita que eu sou bom para você! Eu te tirei daquela sala cheia de suinões alofentos* e ainda te dei um mimo! — sussurrava enquanto beijava calorosamente o pescoço quente do aquariano, instigando ainda mais sua libido, até que não resistindo ao próprio tesão, o qual atingia níveis incontroláveis, deu um chupão na pele alva do francês, que reagiu de imediato.
— Eii! Non me marque, merde, você já... Hummm... Já... mmm...
Sua boca foi calada de imediato pela boca sedenta do pisciano, tornando-se praticamente impossível resistir àquele beijo tão intenso quanto luxurioso.
Poderia simplesmente mandá-lo embora, para sua própria segurança, afinal, se Afrodite não tinha nenhum juízo, ele sim teria que ter pelos dois, mas parecia que assim como as rosas letais do guerreiro de Peixes minavam lentamente a vida de suas vítimas, o corpo, o cheiro, os lábios, a presença de Afrodite minavam todo seu raciocínio.
Movido pela mesma necessidade do pisciano, Camus saboreava os lábios doces do namorado num frenesi impaciente. Não havia um só dia em que não desejasse ter aquela boca unida à sua, o corpo esguio e forte, excitado, colado ao seu.
Sem apartar o beijo o ruivo usava ambas as mãos para subir a túnica de Afrodite acima da cintura, enquanto com igual urgência Peixes já se apressava em agarrar a fivela do cinto de Aquário para soltá-la.
— Non temos tempo... Humm... — murmurou o francês num rompante de juízo quando sentiu o sueco descer o zíper de sua calça — Estão me esperando na sala de... Oh, Dieu!... De reuniões.
— Estou te esperando há muito mais tempo, Camus. — mordiscou os lábios úmidos do amado — Depois, sempre há tempo para uma rapidinha. — baixou a calça do aquariano até os joelhos com um só puxão.
— Você ainda vai me enlouquecer, Afrodite. Isso é... Muito imprudente... Humm... — gemia na boca doce do outro, a qual poderia passar toda a noite beijando que ainda não seria o suficiente para aplacar sua sede.
— Não vai... Levar mais que dez minutos... Ahh... Humm... — segurou na ereção turgida do ruivo iniciando uma estimulação ligeira e habilidosa.
— Ahhh... Non tenho tudo isso... uhnnn...
— Cinco minutos. — o sueco empurrou Camus até a escrivaninha no centro do aposento, derrubando alguns objetos que estavam sobre devido a força do impacto de seus corpos contra o móvel.
— Tenho que voltar ou... Humm... Ou vão desconfiar. — puxou os cabelos azuis com força novamente para abocanhar o pescoço perfumado com um beijo violento, mordiscando a pele sem piedade.
— Com três minutos eu te faço ver estrelas!
Levou bem mais que três minutos para que Camus finalmente regressasse à sala de reuniões, onde os quinze homens o aguardavam impacientes.
Antes de deixar sua sala teve o cuidado de pentear os cabelos desgrenhados, trocar a camisa suada e amarrotada e recomendar infinitas vezes para que Afrodite não saísse dali até voltar, mas nada pode fazer quanto ao rubor que ainda tomava as maçãs de seu rosto e a respiração ainda acelerada, que foram notados de imediato quando o ruivo adentrou à sala de reuniões desculpando-se pela demora.
— *Algum problema? — questionou um dos empresários que estavam presentes.
— *Nada com o que devam se preocupar, senhores. — respondeu categórico e em tom autoritário, indo até o centro da sala onde permaneceu de pé — Vamos fechar logo essas negociatas que creio non haver mais nada a ser discutido. O valor estabelecido pela segurança de seus estabelecimentos permanecerá o mesmo, e eu ainda lhes asseguro que...
Subitamente fora interrompido por duas batidas na porta, e quando direcionou os olhos avelãs surpreendidos à sua direção foi como se seu espírito tivesse se desprendido do corpo e escolhido ir, por sua própria conta e risco, direto ao Hades.
Perdeu a cor.
Os pulmões paralisaram.
As pernas vacilaram e por pouco não desabou na frente dos quinze homens, que agora torciam seus pescoços para olhar para a figura na porta que adentrava a sala sem a menor cerimônia.
— Ah, pardonnez-moi, oncle! (Perdão, titio.) — a voz fininha e melodiosa saia abafada pelo véu que cobria seu rosto deixando apenas os olhos à mostra. Fechou a porta em seguida e todo rebolativo caminhou lentamente até o francês, sendo seguido por quinze pares de olhos famintos e curiosos.
Ao ficar frente a frente com Camus, que não esboçava reação, Afrodite inclinou-se ligeiramente para frente e sussurrou em grego em baixo tom:
— Vim conferir se está mesmo usando meu presente. Mal me deixou ver se ficou bem em você. — estreitou os olhos, recebendo um cáustico e faiscante olhar em retorno vindo do francês.
O Santo de Aquário sentia suas mãos formigarem, o rosto esquentar absurdamente, o couro cabeludo se arrepiar e uma leve vertigem nublar seus sentidos.
Em seu peito o coração pulava frenético, e foi quando rapidamente desviou os olhos para os homens sentados à mesa, os quais olhavam para o sueco como lobos famintos, mesmo estando ele todo coberto, que Camus percebeu que tinha que agir rápido, ou a altura e os ombros avantajados do cavaleiro, mesmo dentro daquele traje, logo o denunciariam.
— Ma... — pigarreou nervoso — Ma cherie! (Minha querida!) — pegou no braço do pisciano apertando com tanta força que obrigou Afrodite a encolher os ombros — Qu'est-ce que tu fais ici? Ne me demandez pas à attendre dans ma chambre, petit? (Querida, o que faz aqui? Não pedi para que me esperasse em minha sala, minha pequena?) — disse num ranger de dentes, encarando em fúria os olhos do amante.
Falava com Peixes em francês. Não podiam falar em grego, ou levantaria suspeitas por se tratar de uma língua nada comercial, mas o francês, além de ser seu idioma natal ainda era uma língua que a maioria dos homens que estavam ali falavam fluentemente, portanto sustentava a farsa de que aquela ali era sua sobrinha.
— *Senhores, perdoem a falta de modos e intromissão de minha sobrinha. Ela viveu muitos anos na França e non está a par dos nossos costumes. — mencionava o fato de tanto na Rússia, quanto dentro da Vory v Zakone, as mulheres não interferirem nos negócios dos homens — E ela está um pouco perdida. Acaba de chegar de viagem, está assustada, mas non oferece risco algum, nem fala nosso idioma. Me deem só um minuto para que eu a conduza até a outra sala e...
— Não é preciso, Camus. Deixe a mocinha ficar. — o porta voz do prefeito interrompeu, lançando um olhar de cobiça para os olhos aquamarines — Se ela não fala russo não vejo problema. — ajeitou-se na cadeira cruzando as pernas, pois estranhamente o perfume forte e adocicado da "jovenzinha" parecia provocar uma reação inesperada em seu corpo. Estava excitado!
Camus percebeu no ato a manobra do pisciano.
Afrodite queria ficar ali, na sala de reuniões, por isso usava suas toxinas para seduzir os homens e, assim, fazê-los desejar sua companhia, impossibilitando Camus de mandá-lo embora.
— Permettez-moi de rester ici avec vous, oncle! (Me deixe ficar aqui com você, titio!) — suplicou o pisciano com voz manhosa e em alto e bom tom — Je promets que je ne sera pas gâcher sa rencontre avec ces messieurs fort et noble! (Prometo que não vou atrapalhar sua reunião com esses nobres e fortes senhores tão distintos!) — disse, por fim, encarando os olhos de Camus.
Este, por sinal, entrou em desespero.
Usava de todo seu autocontrole e perícia em dissimulação para disfarçar o nervosismo e a vontade de esganar aquele sueco abusado na frente dos quinze homens, que agora pareciam enfeitiçados por ele.
Puxou bem fundo o ar para dentro dos pulmões soltando um suspiro agastado, então trouxe Afrodite pelo braço até um sofá de couro que ficava um pouco mais ao fundo da sala, propositalmente posicionado atrás da cabeceira da mesa de reuniões, assim poderia reparar em qualquer um dos homens ali que ousassem olhar em demasia para o pisciano e repreendê-lo com seu conhecido gélido olhar.
— Petite, rester ici, si immobile! (Pequena, fique aqui, quietinha!) — praticamente jogou o namorado sobre o estofado, não crendo no que tinha ele mesmo acabado de fazer — Oncle mettra fin à la réunion et ensuite vous prendre personnellement à votre Maison. Il est très dangereux de se promener seul ici, ma cherie. (O titio vai terminar a reunião e depois levarei você pessoalmente para sua casa. É muito perigoso andar por aqui sozinha, minha querida.) — ditou com voz calma, encarando o sueco com um estreitar de olhos que denotava toda sua gana em trucidá-lo ali mesmo.
Dando as costas ao pisciano, Aquário regressou à mesa retomando a reunião como podia.
Abalado e desconcertado, nem ao mesmo sentou em sua cadeira novamente, pois agora se preocupava mais em usar o próprio corpo para bloquear Afrodite do campo de visão dos olhares curiosos dos homens, mandando para os ares as negociatas e disposto a aceitar qualquer condição proposta para dar aquele martírio de reunião por encerrada o quanto antes.
Peixes por sua vez, não poderia ter ficado mais satisfeito. Havia conseguido novamente o que queria. Estava no sofá, nos fundos da sala, de onde tinha a visão privilegiada do que fora buscar ali.
Os olhos aquamarines mal piscavam, vidrados nas nádegas de Camus e na marca discretíssima do elástico e das rendinhas da calcinha que ele usava por debaixo da calça de alfaiataria em tom grafite claro.
Ainda não acreditava que conseguira de fato convencê-lo a usá-la.
— "Dadá! Me abana! Que delícia de bunda!" — pensou, ficando até ligeiramente vesgo ao delinear com os olhos as sombras discretas da peça que deixavam as nádegas avantajadas do aquariano ainda mais em evidência.
Vez ou outra desviava o olhar para não dar bandeira, e quando olhava para os homens à sua frente, uma enxurrada de olhares e expressões lascivas era despejada sobre si.
Nessas horas era obrigado a conter um ataque de risos. Camus deveria de fato estar tendo muito trabalho pra controlar aquilo, tanto que seu nervosismo era nítido, dados os gestos frenéticos e inquietos que executava.
Riu internamente, instigado pela ocasião.
Ver Camus ditar ordens e regras à sua maneira tão autoritária e severa aqueles homens homofóbicos, e que provavelmente eram a escória da escória da Rússia, usando uma calcinha de rendas por baixo da roupa sóbria de trabalho, estava lhe deixando extremamente excitado.
Somado a isso, os olhos felinos fitavam vidrados novamente a bunda do francês, e percebendo que uma banda da lingerie tinha escorregado e se enterrado no meio daquelas fartas nádegas, sentiu seu membro pulsar deliciosamente entre as pernas.
Estava ficando muito excitado.
Para piorar sua situação, sua mente divagava, e Afrodite se via levantando daquele sofá e indo até o francês, onde metia a mão dentro da calça que ele usava para puxar com força a calcinha para cima e enterrá-la toda de uma vez naquela carne macia. Depois, empurrava o ruivo contra a mesa, descia sua calça, puxava a peça para o lado e o tomava ali mesmo, na frente dos homens que ele comandava.
Toda aquela cena ousada em sua mente fazia seu sexo crescer por debaixo da túnica, então rapidamente cruzou as pernas, encostando as costas no acento do sofá sentindo uma onda de calor lancinante subir pelas pernas, descer pelos braços e se chocar, uma com a outra, em seu baixo ventre com a mesma intensidade de uma colisão entre duas carretas em alta velocidade, quase o levando à loucura.
Camus não estava em mais confortável situação.
A maldita calcinha enterrada em si lhe causava vergonha, medo e desconforto, e com eles surgia o tão famigerado furor excitante que tanto o arrebatava.
Para piorar, enquanto assinava algumas promissórias falsas, sentia a cosmo energia do pisciano vibrar. Peixes tentava controlá-la, mas era tão quente que se chocava com a sua, produzindo vibrações que apenas eles, cavaleiros, podiam sentir ali.
Aquário desesperou-se, pois ele mesmo já começava a sentir seu corpo responder ao Cosmo quente do pisciano.
"Ah, Dieu! Aie pitié de moi! Ne me faire ça, Aphrodite!" (Ah, Deus, tenha piedade de mim! Não faz isso comigo, Afrodite!), pensava juntando a papelada feito um bólido para enfiar em seguida na pasta que deveria ser entregue ao prefeito de Moscou.
Seu coração pulava desenfreado dentro do peito, as palmas de suas frias mãos suavam quase em bicas, e uma ereção vigorosa começava a despontar dentro da calça, lhe causando um aperto delicioso devido estar usando uma calcinha dois números menores que o seu tamanho.
A verdade era que o perigo também excitava a Camus de uma maneira que ele era incapaz de compreender, mas graças à Atena e todo o panteão Olímpico, o Santo de Aquário era um depravado, porém um depravado bem mais ajuizado que o cavaleiro da casa vizinha.
— *Está tudo certo, senhores. — disse apressado em puxar a cadeira para se sentar antes que alguém notasse o volume em sua calça — Reunião encerrada. A partir de amanhã a Vory v Zakone será responsável pela segurança de vossos estabelecimentos, e assim que o prefeito assinar essas mesmas notas a negociação estará oficializada. Encerramos por hoje. — pegou o interfone e chamou a secretária — Senhorita Lizaveta, venha acompanhar meus clientes até a saída, por favor.
Apesar do estranhamento que se fez geral, dada a pressa em encerrar os trabalhos sem mais nada discutir, os homens apanharam suas pastas, ajeitaram suas gravatas, abotoaram seus casacos e sem dizer nada levantaram-se e seguiram para a porta, onde a secretária já os esperava.
— *Feche a porta, senhorita Lizaveta. — gritou da mesa, sem se levantar.
O bater da madeira contra o batente era a deixa que esperava pra saltar da cadeira e correr até Afrodite no sofá, agarrar em seus braços com força, com ambas as mãos, e levantá-lo do estofado com um solavanco violento para, espantosamente, puxar para baixo o véu que cobria o rosto do namorado e tomar sua boca num beijo voluptuoso e selvagem, o qual em poucos minutos tirou completamente o fôlego de ambos.
— Você passou... uhmm... de todos os... ahn... limites, Peixes! — disse o ruivo entre beijos molhados, mordidas no queixo e lambidas no lóbulo da orelha do amado.
— E você adorou, não foi? — Afrodite respondeu retomando o beijo enquanto descia as mãos para as nádegas do aquariano realizando o gesto que fantasiara momentos antes ao puxar a calcinha, por dentro da calça, até fazê-la enterrar-se por completo no corpo do outro.
— Ahn... você non vale nada! — Camus gemeu ao sentir o tecido rendado lhe apertar ainda mais o membro já muito excitado.
— Ah, valho sim! E eu sou um homem muito caro, mon amour! Muito caro! — lambeu a lateral do pescoço do francês, levemente suada devido à excitação crescente que se encontrava.
— Sorte a minha então, non? Que tenho muito dinheiro! — Camus sorriu fechando os olhos, experimentando um arrepio frenético causado pelo contado da língua quente do outro em sua pele.
— Você podia sozinho tirar o Santuário da lama, não podia? Heim, safado? — mordiscou os lábios do cavaleiro de gelo, mas dessa vez encarando seus olhos de forma questionadora.
— Non, non podia! — Camus o encarou de volta, assumindo um semblante sério — Non confunda as coisas! Meu dinheiro é da Vory. Dinheiro sujo e que é, até certo ponto, monitorado pela máfia. Muito dele non está em espécime, mas em obras de arte roubadas, carros de luxo, propriedades frias, empresas fantasmas... Eu non tenho dever algum em bancar dívidas antigas da má administração do antigo Patriarca, e nem poderia fazê-lo sem levantar suspeitas, ainda mais quando o Santuário deve fortunas a Dimitri.
— Sim, eu sei. — Afrodite respondeu cabisbaixo, mas não se deixou abater, e no mesmo instante colou seu corpo ao do ruivo e beijou a curva de seu pescoço — E isso pouco me importa. Estar com você... Assim... — escorregava a mão para dentro da calça do francês dando uma apalpada forte em suas nádegas ao mesmo tempo em que voltava a beijar a boca arfante — Quando eu quiser... Onde eu quiser... Uhnm... E saber que você também me quer, já me é suficiente.
— Sim eu quero, Afrodite! — gemeu na boca do pisciano, tão arrebatado de desejo que sentia o peito queimar — Mas, non aqui. É arriscado demais. Meus homens estão no restaurante me aguardando e muitos membros da Vory estão hospedados nesse hotel. Vamos para minha casa. Quero que passe a noite comigo.
— Sua casa! — arregalou os olhos surpreso — Dadá, me varre que eu tô no chão! Vai me apresentar para sua família?
— Que família, peixinho maluco? — afastou-se minimamente para tentar se recompor. Puxou a farta franja para cima e suspirou, recuperando o fôlego, então só depois andou até a cadeira que ocupava na ponta da mesa e apanhou seu casaco. No percurso tentava retirar a calcinha atolada no meio de suas nádegas, sem muito sucesso — Eu lhe disse que só tenho uma irmã e ela non mora comigo. Enfer du lanières de merde! (Inferno de calcinha de merda!)
Afrodite vinha atrás, apressado e eufórico.
Voltou a cobrir o rosto, agora sorridente, com o véu, mas como não usava nada por baixo da túnica sua ereção ainda era visível.
— Camus, sua bunda Odara* está me impossibilitando de desarmar a barraca. — encostou novamente no francês, que imediatamente se afastou.
— Por Dieu, Afrodite. Non me enlouqueça! Non encosta! — fechou os olhos e respirou fundo, ele mesmo tentando conter sua própria excitação — Temos que sair logo daqui. Dê algumas voltas pela sala, faça umas flexões... Pense em... em... mulheres! Isso, mulheres com seios grandes e fartos... Pense na Shina de pernas abertas... se tocando... mostrando a...
— JÁ! — um grito fez o aquariano abrir os olhos, e à sua frente o sueco franzia as sobrancelhas desconcertado, como se tivesse visto algo que lhe causasse extremo desconforto — Já funcionou, não precisa continuar. Você é bom nisso, heim! Aloca!
— Vem! — esticou o braço tomando a mão do pisciano na sua — Preste atenção, ande alguns passos atrás de mim. Non olhe para ninguém, entendeu? Andreas, Chesla e Nicolai estão lá em baixo e conhecem você. Já foram comigo no Templo das Bacantes diversas vezes. Meu carro estará na entrada do Hotel. Até lá apenas me siga, e por tudo que é mais sagrado, Afrodite de Peixes, sem gracinha, entendido?
— Sim senhor, meu mafioso malvado! — respondeu em tom de riso dando um apertão nas nádegas do namorado.
— Ei! O que eu disse? Sem gracinhas! Dieu! Se você nos colocar em risco eu o congelo na mesma hora!... E pare de rebolar.
Deixaram a sala apressados, e como Aquário havia instruído, Peixes vinha logo atrás de cabeça baixa e dando passos pequenos, porém ligeiros.
Ao passarem pela recepção, Camus instruiu a secretária para que não lhe passasse nenhuma ligação naquela noite e seguiu até o corredor que dava acesso aos elevadores, onde Andreas, seu braço direito, e também Nicolai e Chesla, que trabalhavam consigo a pouco tempo, o aguardavam.
Ficou apreensivo quando parou diante deles, e com seu corpo maior tentava tampar a visão de Afrodite, logo atrás de si.
Bastou uma ordem direta e firme os dispensando de mais serviços naquela noite para que logo se visse sozinho dentro do elevador junto com o sueco.
Havia muitas câmeras, e por isso mantiveram uma distância segura um do outro, apesar de suas cosmo energias vibrarem juntas, em uníssono, chocando-se instigadas pela excitação que ainda os acometia.
O Cosmo de Afrodite era tão apaixonado e quente que o francês sentia seu Cosmo gélido abraçado por ele, fazendo seu corpo entrar em ebulição.
Para a sorte de ambos, não havia muitos hóspedes, e nem funcionários, rondando pelo saguão do Hotel naquela hora.
Percorreram o grande hall a passos ligeiros e logo chegaram ao veículo que já era estacionado por um dos manobristas na frente do arranha céu.
Era um modelo esportivo de luxo, na cor vermelha.
Camus abriu a porta para Afrodite e assim que o pisciano sentou-se no banco do passageiro a fechou com uma batida forte e deu a volta, tomando seu lugar no banco do condutor para em poucos segundos arrancar cantando pneus.
Afrodite deixou o corpo deslizar pelo banco de couro, respirando aliviado.
— Dadá me abana com seu leque de lantejoulas! — puxou o véu do rosto, mas manteve os cabelos cobertos por ele — Que sufoco! Você viu as caras deles? — riu da situação, mas quando se virou para olhar para Camus se surpreendeu com seu semblante sério — Está muito bravo?
— Non.
Peixes então tombou para o lado, escorregando pelo banco até aproximar-se de Camus e lhe dar um beijo na face quente.
— Não briga comigo. — outro beijo, agora na orelha — Eu não resisti, Camy. Sinto tanto sua falta... E depois, é você quem me faz fazer essas coisas malucas. Você e meu coágulo! Por isso eu o batizei com seu nome. — enfiou o rosto entre as madeixas ruivas e aspirou o perfume amadeirado do cavaleiro, soltando um gemido em seguida.
Camus quase sorriu, tamanho o absurdo que ouvira. Porém, manteve-se sério, usando o resto da concentração que tinha para dirigir o carro em alta velocidade pelas ruas de Moscou enquanto Afrodite esticava-se todo até ficar debruçado no vão entre os bancos do passageiro e do condutor para levar uma das mãos até o cós da calça do aquariano e abrir a fivela de seu cinto.
— O que está fazendo agora? — murmurou o ruivo desviando os olhos da rua por poucos segundos apenas para mirar o olhar lascivo do namorado.
— Me deixe mostrar que estou arrependido? — sussurrou o pisciano desabotoando a calça e descendo o zíper, já de pronto metendo a mão dentro da calcinha do namorado para puxar seu sexo, ainda não totalmente rígido, para fora e dar uma lambida generosa na glande.
— Aah! Afro... Afrodite! — gemeu ao sentir o pisciano manipulando seu pênis com os dedos de uma forma tão deliciosa que seu corpo todo respondia com leves tremores — Por todos os deuses, estamos no meio da cidade... a 120 quilômetros por hora... Aahh...
Camus ainda tentava resistir, mas sua verdadeira vontade era de parar aquele carro ali mesmo, no meio da famosa rua Tverskaya, e transar com o sueco até não poder mais se mexer.
Suava frio e contraía os músculos pélvicos a cada novo estímulo da boca quente do pisciano envolvendo, ávida, seu membro, agora rijo como pedra.
Acelerou ainda mais o carro, desesperado por entrar na rodovia que levava até sua mansão isolada do perímetro urbano.
Afrodite sugava seu sexo com furor, e não fosse por estar a 180 quilómetros por hora na pista, quando finalmente a acessou, teria se derramado ali mesmo, na boca habilidosa do namorado, antes de chegar em casa.
A sorte dos dois, pois durante o percurso piscou os olhos por duas vezes, extasiado, e quase bateu em duas árvores. Deu graças à Atena quando avistou o luxuoso portão eletrônico de sua propriedade, que já se abria para sua passagem.
Aquela porcaria, aliás, nunca lhe pareceu tão lenta para abrir!
Seguiu cantando pneus no longo caminho que levava até a garagem nos fundos da casa, então meteu o carro na única vaga que estava disponível dentre tantas que havia, as quais abrigavam modelos de luxo de valores inestimáveis, e estacionou de qualquer jeito próximo à entrada que dava acesso à cozinha.
— Mon Dieu! Chegamos! — exclamou Camus, quase em aflição, então desligou o carro, agarrou nos cabelos azuis piscina de Afrodite com véu e tudo, e puxando sua cabeça para cima tomou voraz a boca do amante com um beijo que beirava o desespero — Uhn... você... você me enlouquece... Afrodite...
Os lábios sedentos se provavam com furor, as línguas exploravam impacientes cada milímetro das bocas febris, enquanto Camus tinha pressa em arrancar aquele véu da cabeça do amado para sentir as madeixas sedosas livres e perfumadas tocarem sua pele.
O sueco pulou para o colo do aquariano sem desgrudar os lábios dos dele, que enquanto terminava de arrancar aquele longo véu e jogá-lo no banco ao lado já se punha a tatear a porta do automóvel buscando o puxador para abri-la.
O contado das nádegas do pisciano com o sexo pulsante de Camus lhe tirava toda a destreza e concentração, mas enfim, após algumas tentativas falhas, finalmente abriu a porta e desceu do veículo trazendo Peixes consigo, que estava praticamente pendurado em seu corpo, com as pernas em torno de sua cintura e os braços em volta de seu pescoço.
Mal conseguindo andar, o Santo de Aquário deu poucos passos, saboreando os lábios doces do companheiro, pela lateral do carro e o sentou sobre o capô, puxando para cima a túnica longa e desnudando as pernas longas e torneadas do pisciano com muita pressa.
Afrodite por sua vez, já descia a calça do francês com igual afobação e lhe ajudava a retirar também o casaco e a camisa.
Nem ele mesmo era capaz de entender aquela urgência que o acometia de forma tão arrebatadora.
— Eu quero você... — Camus murmurava rouco, puxando com tanta força aquele amontoado de tecido que chegava a rasgá-lo em algumas partes —... Preciso ter você agora!
— Então me fode, Camus! Anda! Me fode logo, meu mafioso! — sussurrava alucinado, delirando ao som de cada rasgo em sua túnica, enquanto mordiscava e lambia os mamilos, pescoço e ombros nus do aquariano.
Ouvir aquele pedido ateou ainda mais fogo no braseiro que já tomava todo seu corpo.
Camus espalmou ambas as mãos no peito arfante do pisciano e o fez se deitar sobre a lataria, então segurou em suas coxas com força e puxando seu quadril para frente encaixou-se no meio de suas pernas.
Curvando-se para baixo, lambeu de forma despudorada o pênis ereto do amante, sentindo o gosto de sua excitação, e com mais duas ou três lambidas lubrificou sua intimidade apenas para facilitar o contato inicial, sem preocupar-se muito com preparações.
Ambos estavam sedentos e alucinados demais para rodeios.
Posicionando-se novamente, Aquário desceu aflito a infame calcina até o meio das coxas e imediatamente em seguida introduziu-se dentro do pisciano de uma só vez, com um único tranco forte.
— Ahn... aahhhh... — Peixes gritou, finalmente podendo liberar todo aquele tesão contido — Isso aaaaaahh... Me fode assim, Camus! — ondulou os quadris ligeiramente para acolher ainda mais fundo o amado dentro de si, ponto o francês louco.
— (1)Vous êtes un misérable chienne! — dizia o ruivo pondo-se a estocar o namorado alucinadamente, em êxtase por sentir seu pênis estrangulado pelo corpo quente e apertado — Tu as excité ton oncle toute la nuit... Uhnn... devant qui ne devraient pas... Vous me payer pour cela... Pèdè chaude! (Provocou o seu tio a noite toda, na frente de quem não deveria. Vai me pagar por isso. Viado gostoso!)
— Ahn... Isso fala francês! Fala! Oui, oncle, oui! Uhnn... (Sim, titio, sim.) — gemia em alto e bom tom o Santo de Peixes, enquanto tinha o corpo chacoalhado com violência pelas investidas vigorosas do aquariano — Me castiga... me fode... aahhh...
Camus então curvou o corpo para frente e agarrou os cabelos de Afrodite com uma das mãos.
Mantendo sua cabeça segura onde queria, com a mão que tinha livre Aquário desferiu três sonoros tapas contra o rosto do pisciano, que cerrou os olhos com força e grunhiu algumas palavras inaudíveis.
Aquele gesto inesperado incendiou ainda mais o corpo de Afrodite, e quando uma corrente elétrica avassaladora começou a correr por seus músculos, o fazendo sofrer espasmos, Peixes levou uma das mãos a seu próprio sexo e começou a masturbar-se tresloucadamente.
Camus olhava para ele vidrado.
As pupilas dilatadas, a boca salivante, o suor brotando de todos os poros, denotavam a excitação frenética que tomava todo o ser do sisudo Mago do Gelo.
Afrodite sabia como ninguém derreter seu gelo e transformá-lo em um vulcão em erupção!
— (2) Aaahhh... ce même... uhnn... vien, vien... sale... délicieux — gemia insano, atento ao rosto docemente agonizante do cavaleiro sob si no limiar do gozo, arremetendo-se dentro dele feito um animal no cio.
A cada gemido do sueco e contorcida violenta de seu corpo em enleio, Camus lhe desferia um novo tapa na face já vermelha e levemente inchada.
— Aaahhhh... Isso... me bate... Uhn... Camus... eu vou... Ahhhh...
O vai e vem alucinado, somado aos tapas e palavras obscenas ditas em tom depravado, fizeram Afrodite gozar deliciosamente em pouco tempo, apertando ainda mais o pênis do amado devido as contrações que sofria involuntariamente, e enquanto ainda experimentava os espasmos violentos que sacodiam ainda mais seu corpo, sentiu quando Camus debruçou-se sobre si para tomar sua boca num beijo voraz.
Retribuiu em igual desespero. Sentia que precisava daqueles lábios, daquele corpo como se lhe fossem alimento vital.
Sem aviso prévio, Aquário saiu de Peixes e agarrando-lhe pela cintura o virou de costas o fazendo se debruçar sobre o capô do automóvel para imediatamente em seguida penetrá-lo novamente, entrando com ainda mais voracidade, estocando-o rapidamente enquanto agarrava em seus cabelos pra puxá-los para trás e poder sussurrar em seu ouvido.
— (3) Je étais toute la réunion souhaitant baiser avec toi, pèdè... Ahn... Ma bite ça fait mal dans ses petites culottes de merde... ohnn... humm... — com a mão que tinha livre, dava tapas na lateral das nádegas empinadas do sueco.
Mais um tanto de obscenidades eram ditas no ouvido de Afrodite enquanto Camus mantinha o mesmo ritmo frenético das estocadas.
Os corpos se chocavam agora violentamente, produzindo estalidos altos que ecoavam pelo amplo ambiente, os quais eram magistralmente ignorados pelo dono da casa, pois ali não havia mais ninguém além deles dois e seu mordomo de confiança, que àquela hora já deveria estar recolhido em seus aposentos.
Por isso o francês se permitia gemer alto, e delirava com os gritos e gemidos de prazer do pisciano, que com as mãos espalmadas na lataria do carro sentia o peito e o baixo ventre pulsar em arrebatamento.
A fricção constante e vigorosa do membro do ruivo contra sua intimidade já lhe causava certo ardor, mas o prazer era infinitamente maior, por isso Afrodite pedia mais, e mais, enlouquecendo o aquariano que agora o agarrava pelos quadris estocando num vai e vem frenético.
— (4) Ahh... Aphrodite... je viendrai dans ton cul... Uhnn... je viendrai dans ce bâtard arrière! Vous voulez?
— Ahh... uhnn... Sim... Eu quero... Eu quero, mon amour... Me dá... Me dá tudo... Aahh... Camus... — a voz quente e sensual pedia como numa súplica, e a visão do cavaleiro sobre o capô do carro, os braços esticados, as mãos segurando firmemente os para-brisas, os cabeços espalhados, o corpo chacoalhando violentamente, compunham um cenário irresistível.
Camus gozou deliciosamente, sacudido pelos choques e espasmos do violento orgasmo, exatamente como disse que faria.
Enfiou-se entre as pernas do sueco o mais profundo que conseguiu, até desabar exausto seu vigoroso peito sobre as costas suadas do companheiro.
— Aaaaaaaaaaaahhh... Mon Dieu! — gemeu, respirando pesadamente, por alguns segundos pensando que não teria forças para levantar dali nunca mais.
Um sorriso sapeca desenhou-se na face vermelha do pisciano.
— Uhnn... Foi... Ahnn... Foi uma trepada Odara*! Achei que fosse me matar de foder.
— E você lá morre disso?
— Alôca! Espero que isso tenha sido um elogio! Você acabou comigo, mafioso. — Afrodite gemeu, com o rosto colado na lataria do carro e Camus não estava em melhor situação.
— É você quem acaba comigo, Ma belle rose... Em todos os sentidos! Cabeça, corpo e coração.
Aos poucos foram recobrando o fôlego e as forças, então Camus saiu de cima do companheiro percebendo um fio de sêmen escorrer por entre as pernas do pisciano quando saiu de dentro dele.
Endireitou a postura e subiu a calcinha e a calça, afivelando o cinto enquanto olhava para o amado ainda estirado sobre o capo do carro. Sua pele estava toda marcada, por tapas e arranhões, mas seu Cosmo era feliz e pleno.
A visão da intimidade do namorado era tentadora e instigante, e movido por um sentimento que jamais imaginara ter, quanto menos não ter controle sobre, Camus curvou-se e deu uma mordida suave no interior das coxas roliças do pisciano, o fazendo gemer e rir baixinho.
Foi apenas um ímpeto. Logo ajudou Afrodite a se erguer e o tomou gentilmente nos braços.
— Venha. Vamos para dentro. Nem era para termos feito isso aqui. Você me tira toda razão, mon ange. — beijou os lábios doces enquanto o outro passava os braços ao entorno de seu pescoço.
— Tá brincando? Foi uma delícia! Sua garagem é maior que o meu Templo!
— Non exagera. — sorriu enquanto carregava o outro para dentro da mansão.
Na cozinha, colocou Afrodite no chão e só então viu o tamanho do estrago que fizera em suas vestes, a qual estava sem uma das mangas, com um enorme rasgo no peito e algumas tiras penduradas no que antes era uma longa saia toda bordada. Aquele peixinho maluco! Que poder era esse que exercia sobre si a ponto de lhe deixar totalmente descontrolado?
— Sinto muito pelas roupas. Te darei roupas novas antes de voltar à Grécia. Amanhã peço para Andreas comprar algumas camisas e calças como se fosse para mim. — envolveu a cintura delgada com os braços e depositou um beijo terno na face ainda rubra do sueco — E... Apesar de ainda achar que foi uma tremenda irresponsabilidade e imprudência da sua parte... Eu adorei a visita, mon amour.
O pisciano mirou os olhos avelãs, agora serenos, e sorriu para o ruivo.
— Eu precisava te ver. Foi só nisso que pensei. — beijou suavemente os lábios do amado e trocaram um beijo carinhoso, breve e pleno de ternura, até Afrodite afastar-se alguns passos — Não vai me mostrar seu castelo, princesa?
Camus sorriu, e caminhando até um dos armários apanhou uma cigarreira dentre as tantas que haviam espalhadas pela casa e acendeu um cigarro.
O hábito havia começado quando rompera seu relacionamento com Peixes, mas agora tornara-se um vício, intenso e difícil de ser abandonado.
— Venha. — disse apanhando a mão do sueco na sua e o conduzindo até a sala — Vou te mostrar a casa e depois tomamos um banho e eu cozinho algo para comermos.
Ao cruzarem um corredor largo todo calçado com pisos de mármore, chegaram a uma enorme sala, cuja arquitetura lembrava a de um casarão antigo.
Haviam muitas janelas, emolduradas por largos batentes de madeira escura e cobertas por grossas cortinas de veludo carmim.
No chão tapetes persas ornamentados com desenhos lindíssimos, quase nos mesmos tons das cortinas, davam um ar aconchegante em contraste com o mármore, e no teto dois suntuosos lustres, com lâmpadas a perder a conta, iluminavam o local de maneira acolhedora.
Os móveis eram um show à parte. O requinte da mobília remetia aos tempos dos Czares russos, dada sua rusticidade e luxo, e um odor amadeirado pairava no ar.
Contudo, nem de longe todo aquele luxo era o que mais chamava a atenção na morada russa do Santo de Aquário, mas o tanto de obras de arte, entre esculturas, objetos assinados e telas que compunham a decoração do ambiente.
Maravilhado com tudo aquilo, Afrodite corria os olhos por cada detalhe, de cada móvel ou objeto de arte sem ao menos piscar.
Soltando a mão do aquariano, caminhou entre eles verificando as assinaturas.
— Que bafo essa tua casa! Tá explicado porque você prefere ficar aqui. — riu baixinho, agora olhando para cima vendo o brilho dos cristais do suntuoso lustre ofuscar suas vistas.
Tocou com a ponta do dedo indicador o ombro do amante que pela eternidade beijava sua amada na aclamada escultura O Beijo, do francês Auguste Rodin, depois passeou pelo recinto, e entre tantos Caravaggios, Renoires e Kandinskys, parou em frente à renomada tela de Botticelli que retratava o nascimento da deusa Vênus.
Ficou eufórico!
Almejou tocá-la, mas deteve-se. Era desastrado e não queria estragar aquele momento único com sua afobação sem jeito.
— Não acredito que você tem essa tela! Sempre foi minha preferida! — declarou admirado — Minha xará nascendo das ondas do mar! Como ela é linda!... E se parece comigo! Não acha?
Peixes então sorriu e virando-se para Aquário imitou a pose da deusa Afrodite sobre a concha, usando seu próprio cabelo e fazendo uma careta adorável.
Camus não resistiu e caiu na risada, ao mesmo tempo em que constatava que de todas aquelas obras lindíssimas que tinha ali em seu acervo particular, Afrodite de Peixes, sem sombra de dúvida, era a mais bela de todas.
— Sim, ma rose, vocês são muito parecidos. Ambos lindos e capazes de fazer qualquer homem perder o juízo. — respondeu enquanto caminhava até ele.
— Você deve ter muito acué* mesmo, Camy! O que viu num pé rapado como eu? Essas réplicas devem ter custado uma fortuna!
— Non são réplicas. São originais. — disse casualmente, enquanto apagava o cigarro num cinzeiro que havia sobre um móvel ao lado de um dos estofados — Todas elas. Por exemplo, O Nascimento de Vênus, essa ai que você tanto gosta, deveria estar no Louvre, non?
— Mas... Ela está... Ou...
— A do Louvre sim é uma réplica. Uma réplica perfeita, a qual foi posta no lugar dessa sem que ninguém tivesse conhecimento, e sem levantar suspeitas. Temos muitos farsantes que fazem esse tipo de serviço trabalhando para nós na Vory. Eu mesmo acompanhei pessoalmente essa "troca".
— E... E para quê?
— O comércio de obras de arte entre facções criminosas é algo muito rentável e intenso. Digamos que, se uma obra pode, e será, roubada do museu, quem chegar primeiro está no lucro. A Vory detém um capital altíssimo somente em obras de arte. Uma forma, também, a meu ver, de proteger o patrimônio cultural da nossa história. Digamos que eu me sinta mais seguro com elas aqui comigo do que na parede de algum inimigo boçal que nem de arte entende.
— Alôca! Então não é roubo, mas um serviço prestado à humanidade! Sei. — ironizou.
Camus abraçou o pisciano sorrindo de sua reação. Sabia que Afrodite pouco entendia daqueles tramites entre facções criminosas, e, por ele, continuaria sem entender, para sua própria segurança.
— Eu non preciso de mais dinheiro, nem de poder, mon amour. Apenas cedo minha casa para proteger as obras originais... Também obedeço ao Santuário porque fiz um voto, e o honrarei até minha morte. Sou cavaleiro e aceito apenas o julgamento de Atena. Dinheiro, obras de arte, carros luxuosos, joias... Eu posso ter tudo isso quando quiser num estalar de dedos, mas eu jamais fui feliz, e a cada dia me tornava um homem mais frio. Tão frio quanto as geleiras siberianas... Até você me encontrar bêbado dentro do seu quarto e fazer amor comigo ao em vez de me entregar aos homens que me acompanhavam. — segurou no queixo do pisciano e encarou as íris aquamarines profundamente — Percebe, agora, o que foi que eu vi em você? Eu non preciso de alguém que me dê o que eu já tenho, mas alguém que me mostre um mundo novo, que me apresente a mim mesmo, e isso só você fez por mim, ma belle rose.
Afrodite se derreteu todo com aquela declaração.
Em sua ingênua compreensão de mundo, não podia compreender como alguém que possuía tanto dinheiro pudesse não ser feliz. Mas, era só pensar por poucos segundos que fosse e já obtinha uma resposta.
Ninguém, afinal, podia ser feliz fingindo ser algo que não era. Camuflando, castrando sua essência.
— E pensar que fomos vizinhos por tanto tempo e nem nos olhávamos na cara um do outro! — disse, por fim, encarando de volta os olhos avelãs — Você tinha asco de mim, e eu te achava frio e incapaz de sentir qualquer coisa que fosse, até mesmo uma dor de dente! Só eu sei o quanto você é quente, Camus de Aquário, e quanto sentimento cabe ai, nesse coração grande! — pouso a mão no peito do companheiro e lhe deu um beijo apaixonado.
No quarto do aquariano, o qual era tão ou mais luxuoso quanto o resto todo da casa apesar da decoração bem mais sóbria e minimalista, após um longo banho de hidromassagem, regado a muita espuma, beijos, champanhe e morangos fresquinhos dados na boca, Afrodite fuçava o closet do namorado, vestido num felpudo roupão bordô, enquanto Camus, encostado à porta, o observava divertido.
— Já disse que non devo ter nada que lhe sirva como se deve, peixinho. Amanhã mando Andreas comprar roupas do seu tamanho.
— Mas, eu não quero compradas, quero as suas! Eu devolvo depois, não se preocupe. — assegurou o pisciano enquanto fuçava nos armários e gavetas — Ai, mas é tudo tão sóbrio, tão sem cor... Nem uma lantejoula, ou bordado... Vou precisar tomar providências quanto a isso! — disse dando uma olhadinha para trás e piscando para Camus.
— Ah, claro! Vai transformar meus ternos e camisas em roupas de bordel! — disse o aquariano, segundos depois se arrependendo do que acabara de dizer — Falando nisso... Non gosto de saber que trabalha naquele bordel... Non gosto de pensar que... Que se deita com outros homens, e que a culpa é minha.
— Ei! Nada disso. — Peixes se levantou rapidamente e caminhou até o namorado — A culpa não é sua. A culpa é nossa. Foi uma série de acontecimentos em cadeia que acabaram numa grande e profunda fossa de merda que nós dois cagamos juntos.
— Afrodite! — Aquário o repreendeu pelo linguajar chulo.
— Me perdoe, amor, mas foi isso. Não quero que se culpe sozinho.
— Non sabe a dor que sinto em saber que non posso fazer nada para impedir, a non ser comprar todos os seus horários, e mesmo assim...
— Mesmo assim eu tenho clientes fixos que não posso nem sonhar em negar, ou Saga me escalpela, já que depende deles para suas negociações políticas ou lhes deve favor por conta dos negócios da máfia grega.
— Mas eu vou te tirar de lá!... Ainda non sei como, mas vou!... Eu preciso descobrir uma maneira! E o quanto antes!
— Camus, se descobrir um jeito eu vou ficar muito feliz, porque para mim se tornou um martírio me deitar com aqueles homens nojentos, e até mesmo com os bonitinhos, sendo que só tenho você na cabeça! É o seu corpo que eu quero, o seu cheiro, os seus beijos... — abraçou o francês pousando a cabeça na curva de seu pescoço — Mas não é tão simples assim! Você sabe que a máfia está de olho naquilo lá. Mas, se te alegra saber, eu já perdi dois clientes fixos. Então, são dois suínos a menos. Acredita que os dois morreram quase na mesma época, e da mesma causa?
— Ah! É mesmo? E do que foi que morreram?
— De hipotermia! Acredita? Ambos estavam em casa e se acidentaram. Um com a geladeira, o outro com a mangueira de regar o jardim.
— Sabre Bleu! A morte vem de onde menos se espera, non? — pigarreou.
— Exatamente! Então sem tristeza, mon amour! Já é tão triste não poder assumir para todo mundo meu amor por você... Gritar aos quatro ventos o quanto eu te amo! Viver livre, andando de mãos dadas com você por ai, passear em Paris... Fazer piquenique pelados em Amsterdam... Tomar champanhe em Bora Bora... Navegar de iate no Mediterrâneo...
— Eu sei de tudo isso... Também gostaria muito de assumir nosso amor, dizer a todos que você é meu, só meu... Mas, também tenho minhas obrigações. Ainda preciso levar os clientes russos ao bordel, depois subir com uma garota para eles verem, para provar que sou "homem"... É meu dever... — balançou a cabeça negativamente, inconformado —... Mal consigo beijá-las... Tudo que queria era poder te prender aqui comigo, para sempre. Mesmo agora, tenho a impressão de que irei perdê-lo a qualquer momento de novo e serei jogado novamente naquele pesadelo que foi ficar sem você.
— Isso não vai acontecer mais, Camy.
— Atena queira que non!... Mas, vamos falar do presente que comprei para você?
— Presente? — bastou aquilo para o sueco levantar a cabeça e arregalar os olhos — Quero!
Aquário então enfiou a mão no bolso do roupão que usava e de dentro retirou uma chave presa a um chaveiro em formato de uma pequena lancha.
— Non podemos sair e viajar por ai, como você deseja... Ainda! Mas, podemos dar umas voltas em alto mar no iate que comprei para nós. — disse sorridente, balançando a chave em frente aos olhos arregalados do pisciano, que parecia hipnotizado por aquele objeto tão pequeno sendo chacoalhado no ar.
Camus querer tirá-lo do bordel e da ínfima obrigação de se deitar com todos aqueles homens por quem agora nutria um asco terrível, já lhe era uma prova de amor significativa, agora um iate, era certeza de amor eterno!
Balançou a cabeça piscando os olhos para acordar daquele transe catatônico e quando despertou esticou o braço para apanhar a chave, mas Camus o impediu levando seu próprio braço para trás das costas.
— Shi! Ei! — fez o francês franzindo as sobrancelhas, expressando um semblante severo — Non vou te entregar agora. Você foi muito imprudente indo até meu escritório e nos colocando em situação de risco. Seu presente vai ficar guardadinho comigo.
— Ah! Não! Dá pra mim! Um iate! Dadá, eu tô sonhando! Como vamos chamá-lo? Camite? Não, parece nome de inflamação! Afrodimus! — riram os dois na mesma hora — Ah, Camus, meu amor! Eu te dou calcinha e você me dá iate! Como a vida é justa! — segurou no rosto de Aquário com ambas as mãos o beijando com paixão — Eu amo você, sabia? Meu mafioso malvado. Meu ruivo gostoso... Meu picolé generoso...
— Na verdade esse iate é apenas um protótipo bem menor de um que estou negociando com uma empresa alemã, para um futuro próximo. O outro terá piscina, heliporto, quadra de vôlei de praia... Só que o preço desse era tão ínfimo que decidi ficar com ele, mas... Terá que fazer por merecer! Nada de voltar ao meu escritório, entendeu? — abriu o roupão do pisciano correndo suas mãos por seus ombros e deslizando a língua no pescoço quente.
— Hum... Entendi, seu safado. — Afrodite gemeu com um sorriso no rosto e um arrepio lhe percorrendo toda a espinha.
— Quando quiser vir me ver, me avise primeiro. Dispensarei os empregados e você pode vir direto para minha casa. Agora já sabe onde fica. — deslizou os dedos pelo peito alvo do namorado acariciando um dos mamilos.
— Hu-hum... Pode ter certeza que venho! — confessou Afrodite ao apanhar uma mecha dos cabelos ruivos e levar até seu rosto para lhe aspirar o perfume — E o que eu tenho que fazer para merecer o meu presente? — passeou a outra mão pelas costas largas do amado até descê-las às nádegas, onde deu um apertão generoso.
— Hum... Deixa-me pensar... — ergueu o olhar, fixando um ponto qualquer acima da cabeça do pisciano, depois voltou a encarar suas íris aquamarines em chamas — Você terá que foder sua princesa bem gostoso, mas bem gostoso mesmo, porque é um presente muito caro, non acha?
— Ah, se acho! Acho sim!
Súbito, o sueco arrancou o roupão do francês num puxão forte e eficiente, o deixando completamente nu em segundos, e ai foi sua vez de pegar Camus no colo e carregá-lo até a enorme cama no centro do aposento, onde o jogou com cuidado sobre os lençóis de seda marfim para debruçar-se sobre seu corpo até ficar completamente deitado sobre o ruivo.
— Isso você nem precisa me pedir, mon amour. Meu mafioso. É exatamente o que quero fazer o resto de minha vida! Amar você! De todas as formas. — sussurrou, contornando o rosto másculo do cavaleiro com seus dedos delicados, enquanto o olhava nos olhos.
— Eu amo você, Afrodite. Que bom que está aqui. — confessou o ruivo emocionado — Me ame... — beijou os lábios do pisciano entregando-se de corpo e alma como só a ele conseguia e sentia-se capaz de fazer.
* Traduzido do russo
Dicionário Afroditesco
Acué – dinheiro
Alofento - fedido
Odara – algo grandioso, incrível, grande.
(1)Você é uma cadela desgraçada.
(2)Isso, goza... goza... safado... gostoso.
(3)Passei a reunião toda querendo foder você, viado gostoso... Meu pau chegou a doer de tesão dentro dessa merda de calcinha tão pequena...
(4)Ah, Afrodite, eu vou gozar no seu rabo... vou gozar dentro desse traseiro safado. Você quer?
