Templo de Baco, 16:43pm
Aquele tinha sido um dia fastidioso para Misty de Lagarto.
Salvo as datas em que era incumbido de cumprir alguma missão para o Santuário, os dias em que passava no Templo de Baco resumiam-se a treino após o almoço e um curto período de descanso antes do início do expediente do bordel.
Comparados a todos os outros dias, desde que deixara seu pequeno quarto no alojamento Prata para ocupar um dos luxuosos aposentos do Templo das Bacantes, aquele estava sendo em especial detestável.
Discutir com o cavaleiro de Peixes logo pela manhã era motivo suficiente para minar todo seu ânimo e estragar seu humor, ainda mais agora, que era obrigado a testemunhar, dia após dia, o sorrisinho indelével de alegria que se desenhava no rosto do pisciano desde que reatara seu romance proibido com o Santo de Aquário.
O cavaleiro de Lagarto tentava, a todo custo, ignorar o fato, teimando em convencer a si mesmo de que não se importava, mas sua mente, ardilosa e impiedosa, o traia.
Misty não suportava a ideia de ter falhado em seduzir Camus, ter falhado em convencê-lo do quão canalha e nocivo era Afrodite. Ao menos em seu julgamento ele sempre o seria.
— Canalha, sonso e egoísta! O que todos veem nesse desgraçado? Será possível que sou o único que enxerga além daquela cara bonita? Miserável! — resmungava diante do espelho enquanto prendia os cabelos num rabo de cavalo no alto da cabeça.
Amarrou os cadarços do tênis rosa, vestiu uma camiseta que cobria parte da bermuda esportiva, passou a mão em seu inseparável Walkman, e ouvindo os hits do álbum Girl You Known it´s True, de Milli Vanilli, deixou seu quarto para uma breve sessão de corrida ao entorno do Templo de Baco.
Precisava espairecer, respirar ar puro, colocar as ideias no lugar e, principalmente, botar a mente para arquitetar um novo plano para impedir a felicidade de Afrodite, pois sua conciliação com Camus lhe parecia uma afronta pessoal e não deixaria isso barato.
Desceu as escadarias que davam acesso ao salão todo serelepe. Ajeitando os headfones na cabeça e depois regulando o volume da música no aparelho, atravessou o espaço decorado e saiu pela porta lateral, sem se dar conta de que era observado.
— Hum... finalmente a Lagartixa saiu da toca! — murmurou Afrodite de Peixes, que detrás de um dos pilares ao fundo do salão acompanhou com olhos atentos o cavaleiro de Prata deixar o local.
Era a oportunidade que esperava.
O pisciano havia passado o dia todo na espreita. Nem regressara a seu Templo, no alto das 12 casas, após entregar a lista a Mu de Áries com os pedidos aos fornecedores.
Ao em vez disso, preferiu ficar ali, fazendo hora na cozinha, fosse fervendo Babosa para seu creme milagroso contra pano branco, artrites, otites, micose e toda sorte de males, ou mesmo assistindo aos ensaios dos números de dança que Shina sempre apresentava, fingindo um súbito interesse.
Agora que as bacantes estavam recolhidas em seus aposentos esperando a hora do início do expediente aquela era a hora perfeita.
Impulsionado por uma insegurança que jamais experimentara antes — já que nunca estivera tão apaixonado como agora — pelo fantasma da dúvida que Misty plantara em sua mente quando disse aquelas palavras pela manhã e, principalmente, por uma forte sensação de dejavú, já que conhecia na pele, literalmente, como ninguém a capacidade que Lagarto tinha de conseguir o que queria, Afrodite subiu as escadas ligeiro, cruzou o corredor e invadiu o quarto do cavaleiro de Prata sem pestanejar.
Se existisse algum indício de que Camus tivera algo com Lagarto, além do suposto beijo que presenciara debaixo de sua janela, ele o encontraria ali.
Ao entrar ainda ficou um tempo com as costas coladas na madeira da porta, observando o ambiente à sua frente, que por sinal era muito bem arrumado, limpo, organizado e sóbrio. Aliás, mais sóbrio do que imaginava, sendo Misty quem era.
Divisou cada móvel aveludado e objeto de decoração imprimindo um semblante de asco ao belo rosto. O chão acarpetado era de um tom marfim, e contrastava com o azul escuro e o negro dos estofados ao fundo do cômodo. A cama era redonda e enorme, forrada com um luxuoso jogo de lençóis de seda nos mesmos tons, e em toda parte que se olhava havia um gracioso vaso grego com flores e muitas velas aromáticas dando um tom erótico ao local.
— Humpf... lírios! Sempre esses lírios matim*. Bicha previsível! — ralhou finalmente desencostando da porta fechada, pronto para explorar o local.
Andava a passos lentos, atento para não tirar nada do lugar. Foi até a penteadeira, analisou os perfumes e escovas de cabelo. Abriu as gavetas, escarafunchou em meio alguns itens como pacotes de preservativos, lubrificantes, sexy toys, cremes de toda a sorte, até convencer-se de que não havia nada suspeito e fechar fazendo uma careta de nojo.
Ao encontrar um porta joias o abriu com cautela e divisou algumas peças, concluindo que nenhuma delas fora presente de Camus, já que eram bem simplórias e conhecia muito bem o gosto exuberante do francês.
Foi até o banheiro e mexeu em tudo, shampoo, cremes, armários, até no chuveiro.
Mas, Afrodite ainda não estava convencido. As palavras de Misty ainda pipocavam em sua mente, e se Lagarto e Aquário realmente se encontraram no período em que estivera separado de Camus, iria descobrir ali algum indício que provasse.
Não que Camus não tivesse o direito de se consolar nos braços de outro, desde que esse outro fosse qualquer criatura na Terra, menos Misty de Lagarto.
Abandonou a penteadeira e seguiu até outra peça que havia no quarto, uma prateleira com alguns objetos decorativos e muitas fotos, algumas do próprio cavaleiro, outras de seus colegas da divisão de Prata. Revirou ali também algumas caixas que continham outras fotografias à procura de alguma onde Misty estivesse com Camus, tirada ali mesmo, no quarto, ou talvez em alguma praia particular, quem sabe.
Nada encontrando, largou as caixas ali e caminhou até o centro do quarto, onde ficou parado com ambas as mãos na cintura.
Respirou fundo, pensativo. Nem ele sabia ao certo o que estava procurando ali.
— Como você é abilolado, Afrodite. — riu de si mesmo — É óbvio que meu Camy nunca teria nada com essa cria cascuda do fosso lamacento do Aqueronte.
Estava quase dando a busca por encerrada, quando viu uma fresta aberta na porta do closet de Lagarto e resolveu checar, só por precaução e desencargo de consciência.
Abriu a porta devagar, acendeu a luz e correu os olhos rapidamente pelas tantas araras cheias de roupas, também pares de sapatos e gavetas fechadas.
Caminhou até o interior e remexeu em algumas peças, reconhecendo quase todas, já que infelizmente era obrigado a conviver com a figura de Misty diariamente.
No entanto, quando recuou alguns passos, pronto para deixar o local, algo lhe chamou a atenção.
Um cheiro.
Dono de um olfato muito mais aguçado que a média, parou em frente à porta de saída do closet e olhou para trás. Concentrado, puxou o ar para dentro dos pulmões algumas vezes, reconhecendo aquele cheiro na mesma hora.
— Eu não posso acreditar! — murmurou, sentindo seu coração saltar de súbito dentro do peito.
Na mesma hora, e de forma ágil, tal qual um felino fareja sua presa, Afrodite curvou-se ligeiramente para frente e seguindo o rastro do perfume conhecido abriu uma das gavetas, a última de baixo para cima.
Arregalou os olhos num misto de surpresa e ojeriza.
— Cueca! — esbravejou incrédulo.
A gaveta estava tão cheia de cuecas que ao abri-la algumas saltaram para fora. A princípio Afrodite não deu importância, já que, pela qualidade chinfrim, deveriam ser de Misty, porém o cheiro que sentia exalar daquele molho de cuecas ordinárias não era o do Santo de Prata, mas o de Camus de Aquário.
— Meu coágulo estourou, Dadá! Só pode ser isso! É minha cabeça de truque comigo! Não tem outra explicação!
Ralhava enquanto, enfurecido, retirava as cuecas da gaveta as jogando no chão, uma a uma, até que...
— Minha nossa senhora da samba canção! — a voz saíra falha e trêmula.
Debaixo do molho de cuecas coloridas, bordadas e estilizadas de Misty, Peixes encontrou outro tanto de cuecas, essas muito mais sóbrias, de tons escuros e qualidade impecável, e de onde exalava o perfume a ele tão conhecido, e do qual ele jamais se confundiria.
Segurou uma das peças com ambas as mãos a erguendo na altura dos olhos para analisá-la. Era de uma marca francesa, tão cara quanto famosa, e que por isso não eram encontradas na Grécia, e a mesma marca que o aquariano usava.
Seu coração falhara uma batida ao levá-la até o rosto e aspirar o aroma impregnado no tecido. Não restava dúvida. Tanto aquela, quanto todas as outras que havia naquela gaveta, e que não eram poucas, pertenciam a Camus.
— Desgraçados! — praguejou com os olhos marejados, então se sentou no chão e jogou todas as cuecas de Camus em seu colo — Será que aquele cano de chuveiro enferrujado estava transando com a Lagartixa Cascuda todo esse tempo e escondeu isso de mim? Claro que não, ele teria me contado... Ou não? Atena, são muitas cuecas! Muitas!
— São muitas mesmo. E são minhas. Devolva-as para a gaveta agora.
A voz de Misty de Lagarto invadiu o closet chamando a atenção imediata de Afrodite, que em sobressalto se levantou do chão e o encarou em fúria parado na porta.
Tinha sido pego em flagrante! Ou teria sido o contrário? Tinha pego Camus e Misty o enganando o tempo todo?
— Sua demônia! Desde quando isso está aqui? — esbravejou ao jogar uma das cuecas na cara do cavaleiro de Prata — E não me venha dizer que são suas, porque eu sei bem que não tem acue* para usar essa marca, despacho oxigenado. Como essas cuecas vieram parar aqui?
O loirinho apanhou a peça e riu.
— Ora, Peixosa, elas vieram com as próprias pernas. — disse calmamente, dissimulando uma tranquilidade de dar raiva — Agora, deixe minhas cuecas ai e saia já do meu quarto. Você infringiu as normas da casa e invadiu minha privacidade. Saga não vai gostar nada de saber disso.
Afrodite não podia crer no que estava acontecendo ali, tampouco no que acabara de ouvir. Desnorteado, abaixou-se e rapidamente juntou todas as cuecas de Camus, então puxou a barra da camiseta que usava e embolou todas numa trouxinha improvisada.
Em sua cabeça, a voz de Lagarto dizendo "Elas vieram com as próprias pernas" repetia-se em looping, fazendo seu coração disparar amedrontado e apreensivo.
Baixou a cabeça e divisou aquele monte de cuecas enroladas em sua camiseta, então sua mente fértil e impiedosa já criava a imagem de Camus entrando e saindo daquele quarto, vinte, trinta, quarenta, quantas vezes fossem o número de cuecas em sua trouxinha.
Afrodite suava frio, tremia e sentia náuseas, até que uma força impelida contra si o trouxe de volta daquele transe pavoroso.
Era Misty lhe tomando pelos braços em chacoalhões e trancos violentos.
— Mas que merda pensa que está fazendo, viado? Já mandei você deixar minhas cuecas ai, escamosa! Larga, maldito, e saia já do meu quarto ou eu vou gritar aos quatro ventos que você tem um caso com Camus de Aquário! LARGAAA! — o grito saiu acompanhado de um forte tapa contra o rosto do cavaleiro de Peixes.
Afrodite piscou os olhos, que agora encaravam Lagarto emanando faíscas de raiva, ciúmes e revolta.
Num rompante de fúria, avançou para cima do francesinho o prensando contra a parede do closet, então o prendeu ali apenas usando a força de seu corpo, já que não queria usar o Cosmo para paralisá-lo ou chamaria a atenção dos outros cavaleiros. E sem largar as cuecas!
— Não me ameace, cria do Aqueronte! Verme sujo! — falou entredentes — Isso tá com cara de ser mais um dos seus truques, cafuçu do Pântano! É bem sua cara, né? Pois saiba que eu não acredito em você, sua lunática! Você mente até para si mesmo! Quer me enganar que você é tão bom assim que conseguiu levar ele pra cama? Eu duvido! Eu só quero saber como você conseguiu pegar as cuecas dele.
— Como você é cansativo, Afrodite. Eu acho que já deixei claro como.
— É MENTIRA!
Louco de raiva, o pisciano deu uma cabeçada no rosto de Lagarto acertando em cheio seu nariz.
A resposta veio imediata com uma joelhada de Misty no meio das pernas de Afrodite, que por ter as mãos ocupadas com a trouxa de cuecas tudo que fez foi dar uns poucos passos para trás curvando o tronco, aos gemidos.
— Unh... seu... eu te...
— Maldito... — Misty levou a mão ao nariz que começava a sangrar — Se duvida de mim, pergunte a ele então. — riu satisfeito, pois a muito havia plantado na mente do ruivo a mentira de que realmente haviam transado e agora seria o momento perfeito para se aproveitar dessa mentira — Não suporta a ideia de que você não é o único do ruivo né, ma belle rose? E se quiser continuar brincando de boneca com a fada do gelo, é melhor sair do meu quarto e esquecer o que quer que tenha visto, ou pode ganhar outra surra do ruivo. Ah, e deixe minhas cuecas ai! São minhas!
— Você está me ameaçando, seu verme sujo? E quem disse que acredito nos teus blefes? Seu desgraçado!
Perdendo a cabeça, coisa tão previsível em se tratando de Afrodite de Peixes, o sueco novamente avançou contra o francês e agarrou com a mão que tinha livre a gola da camiseta, o arremessando para fora do closet.
— Sua única salvação é nascer de novo, seu infeliz! — gritou ao correr em direção a ele, que já se punha de pé após ter caído sobre uma das poltronas — Mas aquenda, bilôca*, que dessa vez eu me certifico de que sua mãe réptil vai chocar seu ovo bem longe daqui!
Furioso, Misty elevou seu Cosmo e numa velocidade impressionante agarrou a poltrona a seu lado e a arremessou contra Afrodite, ele mesmo saltando logo em seguida sobre o pisciano, que ao se desviar do estofado voador atirado contra si, não teve tempo de impedir que o loiro lhe agarrasse a trouxa de cuecas que mantinha com a camiseta.
— MANDEI LARGAR MINHAS CUECAS, SUA BICHA MALDITA! — Lagarto gritava enlouquecido, puxando a camiseta de Afrodite com ambas as mãos enquanto se digladiavam no chão — ELAS SÃO MINHAS!
— Truqueira do Submundo! — Peixes também agora elevava seu Cosmo — Elas não são suas, elas são do... do... do Batman! Aaah ROSAS PIRANHAS!
Não levou mais que dois segundos para que as letais rosas negras do Santo de Peixes transformassem cada pedacinho de algodão e elástico em farelos, reduzindo as cuecas caríssimas de Camus de Aquário a pó de desavença.
Misty, incrédulo, afastou-se observando as rosas dançarem em torno do Santo de Ouro, que se levantou do chão ofegante e furioso.
— Seu... maldito! Você as destruiu! VOCÊ AS DESTRUIU! É só isso que você sabe fazer, Afrodite, destruir. Coisas, sonhos, pessoas. — Lagarto tinha os olhos marejados, de raiva, ódio, ressentimento, mas nem assim, tomado por todos esses sentimentos verdadeiros, ele deixava os falsos sentimentos de lado, e ainda dissimulava — Mas, eu devo ser grato a esse seu dom para destruir tudo que toca, porque foi ele que me aproximou do seu precioso Cavaleiro da Noite, bicha cretina.
— Como é? — inquiriu Peixes, confuso.
— Você destruiu o coitado. Arrasou com ele bem à seu modo. Ele estava na fossa por sua causa! O pobrezinho tentou te esquecer. Ouvi ele chamar seu nome muitas vezes com a voz embargada enquanto eu o carregava nos braços até o quarto. Nesses momentos eu era seu único consolo. — Misty distorcia os fatos para causar em Afrodite o efeito que queria.
Estático, sem reação e com o rosto congelado pela perplexidade que aquelas palavras lhe causaram, Afrodite encarava Misty sem nem ao menos piscar, enquanto o outro agora ria de forma debochada.
— Eu... Eu odeio você. — Peixes disse com a voz trêmula — Você se aproveitou dele, de um momento de fragilidade dele, você... Você é sujo.
— Ah, Afrodite, por Atena, discurso moralista agora? E vindo de você? Justo de você? O cara que fodeu com um pobre bêbado indefeso que nem conseguia dizer o próprio nome? Me poupe.
— Se você sabia de tudo... Tudo que aconteceu entre mim e ele, como você pôde ficar com ele? Como pôde... Não. Eu não acredito que ele tenha se deitado tantas vezes assim com você. Não o homem que eu conheço. Não ele.
— Por que não, meu bem? O que o faz diferente dos outros?
— Alguém nessa história está sendo muito dissimulado! Ou é você, ou é ele! Porque, se ele me deu uma surra porque ameacei seu segredinho e depois disso tudo ele vinha para o seu quarto, quem merece morrer é ele. Mas, você, maldito, deixou de ser meu amigo há muito tempo e sei o quanto me odeia... Não deixaria de pegar o meu homem só para me tripudiar.
Lagarto sorriu. Tinha exatamente o que queria.
Afrodite olhava pra o rosto belo e insano daquela criatura à sua frente. Os olhos injetados e vidrados de Misty lhe transmitiam algo muito ruim. Estava com ganas assassinas e tudo que mais queria era enfiar uma rosa branca no peito daquele infeliz e ver ela se tingir de vermelho lentamente, enquanto dançava uma valsa e bebia champanhe.
Então Peixes lembrou-se de Mônica, e dos três irmãos russos que praticamente obrigou Camus a matar, de Saga quase perdendo a sanidade novamente devido tantas brigas e descontroles, muitas causadas por si em suas crises de histeria. Era um cavaleiro de Atena, treinado para defender a deusa e ajudá-la a proteger a Terra, e estava fazendo tudo errado. Praticamente todas as mortes que ocorreram desde que Saga abriu o maldito bordel tinham alguma ligação consigo.
Afrodite então baixou a cabeça e deixou escapar um suspiro resignado.
— Já te disse para perguntar a ele, caso ache que estou mentindo. Agora vá se entender com seu bofe e saia do meu quarto. O seu cheiro enjoado está me dando rinite. — dramatizou o francesinho coçando o nariz — Vou ter que começar uma coleção nova de cuecas por sua causa!
— Pode ter certeza de que eu vou perguntar sim, subalterna. — agora Peixes chorava copiosamente, não mais escondendo o abalo que toda aquela conversa lhe causara.
Com um empurrão, Afrodite tirou Misty de seu caminho e rumou a passos largos até a porta de saída, mas se deteve, e após alguns segundos pensativo, deu meia volta e voltou a se aproximar do cavaleiro de Prata, que mal tivera tempo de se dar conta do que lhe atingira já cambaleava tombando ao chão após levar um soco no rosto.
— Isso é pra você aprender a não dar em cima do homem dos outros, girino do Tejo! — rosnou as palavras, então avançou novamente contra Lagarto e começou a estapeá-lo, ali mesmo, no chão — Eu devia ter feito isso há muito tempo, eu vou sair, mas vou quebrar a sua cara antes, seu maldito truqueiro! Intrigueiro! Fura olho! Se eu te pegar perto do meu homem de novo eu acabo com tua raça peçonhenta. Cafuçu do Cocito!
— Paraaaa! LOCAAA! — Misty tentava se defender dos tapas e arranhões, mas Afrodite estava tão furioso que sua força parecia dobrada, então não viu alternativa senão partir para o ataque — FURACÃO DAS TREVAS.
O loirinho usou seu ataque para afastar o pisciano de si, que foi arremessado para o fundo do aposento, então apontou o dedo indicador para ele e com ódio no olhar proferiu:
— Eu não dei em cima do homem de ninguém, porque ele não estava com ninguém! Você jogou um balde de água fria nele, humilhou, pisou nos sentimentos do Camus!
— NÃO FALE O NOME DELE!
— Acha que eu o deixaria sozinho naquele estado? Ah, não. Eu estive lá com ele, na casa dele. O ajudei a superar a dor que você lhe causou, a erguer a cabeça e não se destruir por sua causa. Depois o que aconteceu entre nós foi apenas natural, aconteceu. — riu debochado — Você foi impiedoso com ele...
— CALA A BOCA!
— Porque é isso que você faz com as pessoas, você é desprezível, Afrodite. Piranha. Cadela no cio. Mereceu a surra e a perda da exclusividade!
Afrodite se levantou rapidamente do chão e histérico começou a jogar em Misty tudo que via pela frente, cadeira, banqueta, perfume, vaso de flor, e o que mais encontrasse pelo caminho.
— É claro que não iria deixar ele sozinho naquele estado! Você é um puto oportunista! Víbora! Só estava esperando o momento certo de dar o bote! — gritava ensandecido, mas, repentinamente, abaixou o tom de voz para somente Misty lhe escutar — Eu fiquei calado o tempo todo por ele! Eu matei a Mônica, por ele! Posso ter agido errado no caso dos russos, até admito que a surra que ele me deu foi merecida, mas você não tinha o direito de se aproveitar disso para se aproximar dele! — puxava novamente Misty pela gola da camiseta para lhe dar outro golpe enquanto chorava.
— Me solta! Sai do meu quarto! SAAAAI! — Lagarto se debatia, sentindo o Cosmo do cavaleiro de Ouro perigosamente elevado, a ponto de lhe causar vertigens devido suas toxinas nocivas — Sai daqui Afrodite, ou vou chamar o Saga.
— É você quem vai sair daqui! EU NÃO QUERO MAIS VOCÊ AQUI!
Num surto de fúria, Afrodite agarrou Misty pelos cabelos e o puxou até a porta de saída, então com um chute potente a partiu em dois e feito uma besta ensandecida agora andava apressado corredor adentro arrastando o Santo de Prata consigo.
— ME LARGAAA! EU MATO VOCÊ, SEU DESGRAÇADO! — berrava o francês se debatendo.
— Com tanto ocó* disponível nesse mundo você sempre tem que ir atrás do meu. Mas, dessa vez não. Eu não quero você aqui! Achei que você só tinha contato com ele aqui no Templo, mas você foi atrás dele na casa dele!
— Não fui atrás de ninguém, idiota, ele quem me convidou! SOCORRO! SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDA! ELE VAI ME MATAR! — Misty gritava enquanto era arrastado pelas escadas até o salão — ALGUEM CHAME O SAGA!
Ao ouvir o nome de Saga, Afrodite afrouxou os dedos engalfinhados aos cabelos do Lagarto que enfim conseguiu se soltar.
— Não meta o Saga nisso, despacho oxigenado. Esse acerto de contas é entre você e eu!
— Você tem medo dele, não é? Do lado ruim dele. Você pode até persuadir o Saga, mas não o Outro. Eu sei que o Outro te detesta... de longa data! — riu debochado mais uma vez, mas agora não dissimulava sua raiva, a sentia na pele, intensa como nunca.
— Graças a você, né seu maldito! — rosnou o pisciano.
— E eu posso trazê-lo de volta. Sabe que eu posso! É só eu começar a gritar aqui, e quebrar essa porra toda, e para eu parar você vai ter que me matar, Afrodite. Saga voltou a ser gentil como era no passado há tão pouco tempo... Pobre coitado... Essa paz dele pode acabar agora.
Misty deu um passo ao lado e apanhou uma das tantas cadeiras que havia ali, no salão, então, num movimento rápido e decidido a atirou contra um dos grandes espelhos que ornamentavam o saguão, espatifando o vidro em milhares de cacos.
— O QUE ESTÁ FAZENDO! PARE COM ISSO!
Em choque, Afrodite avançou até Lagarto e o agarrou pelos braços, na tentativa de contê-lo e evitar que quebrasse mais alguma coisa ali.
Misty por sua vez, ria, de forma insana, quase histérica.
Nessa mesma hora, atraídas pelo barulho, apareceram ali as bacantes, e junto delas Marin e Geisty, que em seus quartos se arrumavam para o início do expediente.
— Mas o que está acontecendo aqui? — disse a amazona de Serpente ao descer as escadas às pressas, e quando viu Misty e Afrodite no meio do salão, atracados, deu um sinal à Marin que levasse as outras garotas para os quartos, pois ambos tinham os Cosmos ativos e alguém podia se machucar severamente — Que merda vocês acham que estão fazendo? LARGA ELE AFRODITE!
Corajosamente, a morena enfiou-se no meio dos dois cavaleiros, espalmando uma das mãos no peito de cada um os afastando.
— De novo, Afrodite? — encarou o pisciano, enraivecida, pois mal conseguira, com muito custo, fazer Saga recobrar a sanidade, já o imaginava a perdendo novamente ao se deparar com aquela praça de guerra em pleno salão — Por Atena! Será possível que não podemos ter paz um dia sequer nessa pocilga, sem que você arrume alguma encrenca? Porra, você é o gerente dessa merda, cara! Haja como tal! Se você quer ser respeitado, respeite primeiro. Todas as brigas tem dedo seu!
Virou-se para Misty e com a voz mais calma segurou em seu rosto com ambas as mãos. Lagarto estava um trapo, inchado e com escoriações diversas. Geisty sentiu ódio de Peixes, mas respirou fundo e pelo bem de Saga achou melhor colocar logo um ponto final naquilo.
— Covarde. — disse ela em tom mais baixo — Baixo... — tomou um fôlego ruidoso e seguiu para a ação mais sensata que pedia aquele momento — Venha, Misty, vou levá-lo até a enfermaria, e você, Afrodite, melhor dar um jeito nessa zona antes dos clientes começarem a chegar, ou o Grande Mestre aparecer.
— Peraí! Aquenda, Alice! Você tá achando que fui eu quem quebrou essa louça aqui, ô súcubo de franja?
— Faça-me o favor! Eu que não fui! — inclinou-se para o sueco, e o encarou de forma contundente — Se tem problemas com o Lagarto resolva-os longe daqui, longe de Saga... Estou fazendo a minha parte para manter o bem estar do cavaleiro de Gêmeos, como você mesmo me sugeriu, Peixes... Pois, faça a sua!
Geisty voltou-se a Misty e pegando-lhe a mão o conduziu até a porta dos fundos do salão.
Como o excelente ator que era, o francesinho nem sequer olhou para trás, mantendo a cabeça baixa durante todo o percurso e simulando até um manquejar a cada mudada de passo que dava, o que deixou Afrodite ainda mais furioso.
Trêmulo e arfante, Peixes elevou seu Cosmo e chegou a criar diversas Rosas Diabólicas com a intenção de atirá-las contra a amazona e o cavaleiro de Prata, mas reprimiu-se.
Detestava admitir, mas Geisty estava certa. Não podia arriscar a sanidade de Saga, mas podia, e iria, tirar a limpo com Camus tudo que acabara de ouvir de Misty.
Assim, desarmou seu golpe e correu para o escritório de Saga de Gêmeos, já que naquele horário sabia que o cavaleiro estaria no centro de Atenas.
Moscou, Rússia, 18:20pm
Uma negociação com empresários corruptos influentes e cheios da grana não era tarefa fácil. A Vory v Zacone aspirava ao controle absoluto das maiores casas noturnas de Moscou e cidades vizinhas, visando o monitoramento da venda de drogas e lucro com mercado do sexo, mas não era nada simples dobrar os donos dos estabelecimentos.
Por isso, quem lidava diretamente com os três maiores investidores do ramo era Camus de Aquário, num jogo complexo de ameaças veladas que sempre terminava com um xeque mate dado pelo aquariano.
E foi no exato momento em que Camus preparava sua jogada final, quando diria aos empresários que se não cedessem à interferência da Vory em seus estabelecimentos por bem, cederiam por mal, que o interfone de sua sala de reuniões tocou.
Camus respirou fundo, soltando um suspiro antes de, resignado, tirar o aparelho do gancho para atendê-lo.
— **Um momento, senhores. —pediu de forma calma, com os olhos cravados nos rostos apreensivos dos três homens— O que foi, senhorita Lizaveta? Eu disse que non queria ser interrompido... O que?... Quem?... Adiba?... Eu non... Ah... Dieu!... Sim, é... minha sobrinha... Merde!... Non disse nada... Voz grossa? Ela?... Ela deve estar gripada. Olha, senhorita Lizaveta, transfira a ligação para minha sala, eu vou atender lá. Dieu, je ne peux crois pás! Je ne peux!
Atenas, Grécia, 17:26pm
Afrodite segurava o aparelho de telefone com uma das mãos, e o fone com a outra. De pé, andava em círculos em torno de si mesmo, fugando devido ao choro e rangendo os dentes por causa da raiva que lhe corroía por dentro.
Quando ouviu a voz de Camus do outro lado da linha, parou, e sem ao menos respirar abriu as comportas de toda aquela carga emocional que lutava para manter contida.
— Alô, Ca... PRO HADES O SEU NÚMERO PRIVADO, VOCÊ E A SUA REUNIÃO IMPORTANTÍSSIMA! — gritou a plenos pulmões, tossindo, engasgando e soluçando — Por que eu liguei? Porque eu quero saber por que a Lagartixa Cascuda da fossa lamacenta do Aqueronte tem cuecas suas, Camus!... Quantas cuecas você deu para ele depois de ir NO MEU QUARTO pegar minhas calcinhas?... Ah, não está entendendo? Eu te explico! A desgraçada da Lagartixa tem muito mais cuecas suas do que você tem calcinhas minhas! Sabe o que isso significa? Porra nenhuma! Nunca significou porra nenhuma, não é Camus?... Eu sabia que não deveria ter acreditado em você... Eu... Eu te entreguei meu coração e minhas melhores calcinhas, e o que você fez? Você se jogou na cama daquele réptil de ventosas! Seu... seu... Ah, Dadááá!... Alô? Não faz a Egípcia comigo não, bonita! Responde!... Ah, você não está entendendo nada? Quer que eu fale pausadamente? Você-trepou-com-a-Lagartixa-Cascuda-e-deu-cuecas-para-ele-a-cada-trepada!... Porque ele tem, ou melhor, tinha, um zilhão de cuecas suas, Camus!... O que... O QUE? Deve haver algum engano? Mas, é claro que há um engano! O engano fui eu acreditar que você me amava de verdade!... NÃO!... NÃO ESTOU LOUCO!... Por que você está gaguejando?... NÃO! NÃO! Venha agora, Camus, agora! Tá ouvindo? Nem mais tarde, nem amanhã, AGORA! — Afrodite gritava e chutava a cadeira da escrivaninha — Você teve toda a pressa do mundo em ir se consolar com a Lagartixa logo depois da nossa briga e vai miguelar tempo para mim agora? Acho bom você vir logo e me explicar, olhando na minha cara, o que suas cuecas estavam fazendo na gaveta daquele exú loiro.
Bateu o telefone no gancho umas cinco vezes até jogá-lo contra a parede e espatifá-lo, então correu para fora da sala e enquanto descia as escadas esbaforido gritou pelos servos que lidavam da limpeza do Templo de Baco.
— ACÁCIA, HIRONIDES, LÍSIAS, VENHAM JÁ AQUI!
Logo que chegaram, Afrodite lhes mandou limpar os cacos do espelho que fora quebrado e colocar um tecido sobre o espaço vazio, depois correu para o Santuário, subindo às pressas as 12 casas até chegar a Aquário, bufando feito um búfalo raivoso.
Mesmo descontrolado como estava, teve o cuidado de ativar o Cosmo de sua armadura em Peixes para que todos acreditassem que estava lá, e dirigiu-se à sala do Templo de gelo para esperar por Camus.
Sentou-se no sofá, mas logo se levantou ao lembrar que Misty dissera ter estado ali. Sentiu tanta raiva ao imaginar que puderam ter sentado naquele sofá juntos, ele e Camus, que num rompante de ira agarrou o móvel e o atirou pela janela.
Se Camus demorasse a vir para a Grécia, iria encontrar toda sua mobília do lado de fora da casa!
Felizmente o Santo de Aquário soubera reconhecer a gravidade da situação e assim que conseguiu fechar acordo com os empresários russos partiu, usando a velocidade da Luz, para Atenas.
Havia se passado não mais que duas horas, mesmo assim quando Camus subia as escadarias de seu Templo viu do lado de fora seu sofá, uma poltrona e uma das cortinas de sua sala, todos espalhados pelos degraus mais próximos à entrada.
— Sacre Bleu! Eu non posso acreditar nisso... Atena!
Murmurou assustado, então, apressadamente, levou tudo para a parte dos fundos do Templo antes que algum cavaleiro, que porventura passasse por ali, os visse, e entrou em sua morada a passos largos.
— Afrodite? — chamou aos sussurros, então viu o pisciano na sala e rumou para lá com o coração dando pulos dentro do peito — Estou aqui.
— Estou vendo.
Afrodite respirava fundo, tentando conter a vontade de meter a mão na cara de Camus logo que o viu, mas tinha aprendido alguma coisa desde a última briga feia que tivera com o francês e se continha.
Já Camus, acreditando ter mesmo feito sexo com Misty naquela noite em que Lagarto o ajudara a voltar para casa após uma bebedeira, engolia em seco, temeroso com o rumo que aquela conversa poderia tomar, e também suas consequências. Sentia-se culpado e aflito, não esperava que o namorado descobrisse tão cedo seu suposto vacilo.
— Mon amour...
— Para! — Peixes ergueu o braço e lhe apontou o dedo indicador — Sem esse drama de mon amour. Vamos direto ao ponto, Camus de Aquário. Você deu suas cuecas para a truqueira da Lagartixa cascuda? E não minta pra mim, Camus!
— Mas, que absurdo. Afrodite! — exclamou vivamente ele.
— Desaquenda do drama e responde a minha pergunta, Camus. — o encarava com veemência.
— Non. É claro que non dei minhas cuecas para ele. De onde tirou essa ideia estapafúrdia? Por que daria minhas roupas íntimas para o cavaleiro de Lagarto, ma fleur? Enlouqueceu?
— Então me diga como o maldito tinha uma gaveta cheia de cuecas suas no meio das casqueiras dele, Camus de Aquário? Como?
— Como?
— É, como?
— Como? Como? Uma gaveta cheia... Cheia de cuecas? Minhas? Como? — confuso, Aquário encarava o namorado em assombro, pois há meses atrás suas cuecas haviam desaparecido, de fato, de suas gavetas em Aquário, mas daí a elas terem migrado para a gaveta do cavaleiro de Lagarto simplesmente lhe parecia bizarro — Afrodite, eu... Eu non estou entendo nada. Está dizendo que Misty tinha... cuecas minhas?
— Não faz a bilôca*, Alice. Você sabe muito bem como ele tem cuecas suas. Você as deu para ele.
— Non! Non dei, merde! Por que faria isso? — já estava começado a ficar irritado.
— Deu! Ele disse que deu! Vai negar que você transou com ele também?
Um silêncio repentino se fez entre eles. Camus encarou os olhos de Afrodite, que lhe divisavam com fúria, porém marejados devido à mágoa. Não podia mentir para o amado, seria pior, mesmo que a "verdade" doesse até mais para si mesmo.
— Non. — baixou a cabeça, envergonhado e entristecido — Non vou negar.
Ouvir aquela confirmação da boca do homem que amava foi como sentir uma lâmina afiada ser enterrada em seu peito num único golpe, seco, certeiro e impiedoso.
Afrodite perdeu o ar, o chão, os sentidos. Uma vertigem lhe acometeu e como havia arremessado os móveis do aquariano pela janela sentou-se no chão mesmo, levando as mãos à cabeça e embrenhando os dedos nas madeixas azuis piscina.
— Então não foi só um beijo. — balbuciou para si mesmo — Todas aquelas cuecas... Foram mesmo com as próprias pernas até o quarto daquele despacho loiro...
— Non dei cueca alguma para ele, Afrodite, merde! Eu non vou negar que... Que dormi com ele, mas... Foi uma vez, uma única vez... Um erro, um engano... Eu non estava bem... Tinha bebido além da conta, perdi o tino... Você tinha acabado comigo e eu... Eu desabei... Ele me ajudou a subir até aqui e... Merde, eu non me lembro de nada, mas... eu acho que aconteceu...
Afrodite não conseguia mais conter o choro.
— Com tanta biba nesse mundo... tinha que ser logo com ele? LOGO COM ELE? E tantas vezes?
— Que tantas vezes, Afrodite? — Camus dizia consternado tentando se explicar — Ma fleur, non diga bobagem, eu já disse, foi uma única vez! E eu nem lembro como aconteceu!
— E tudo porque eu fui infeliz em te fazer uma proposta que você simplesmente poderia ter dito não, mas em vez disso me deu um coió* e foi pular na cama da Lagartixa cascuda. — jogou um cinzeiro na direção de Camus, que desviou facilmente — Agora o exú de ventosa quer tirar você de mim... e não vai sossegar enquanto não conseguir. Já conseguiu suas cuecas. — se arrastou até uma mesinha de centro e jogou dois vasos na direção de Camus, que também desviou.
— Para com isso, mon Dieu! — apanhou um dos vasos no ar e o colocou no chão, em seguida ajoelhou-se ao lado do namorado e segurou firme em seus pulsos — Presta atenção, mon amour, me escute! Non sei te dizer como as porcarias das minhas cuecas foram parar na gaveta do Lagarto, mas eu te dou minha palavra, Afrodite. Eu non dei cueca nenhuma para ele.
— MENTIRA! Eu vi! Eu cheirei uma a uma! Eram suas! Enquanto eu sofria com o coió* que você me deu, você dava cuecas para ele.
— MAS NÃO FUI EU QUEM DEU PARA ELE! Você quer falar daquela noite? Daquela maldita noite em que eu fui amar você no seu quarto e você me armou aquela armadilha? Muito bem, vamos falar daquela noite.
— NÃO! — gritou Peixes, agora chorando copiosamente.
— Achou que eu iria aceitar aquela proposta infeliz? Ou mesmo que iria assistir você trepando com meus três subordinados, um deles meu melhor amigo, calado e trancado dentro de um closet? Você me deixou na merde, Afrodite. Uma merde tão grande que aceitei a ajuda do cavaleiro de Lagarto e acabei... Bem... Eu nem sei como aconteceu, estava no fundo do poço. — soltou os pulsos do pisciano levando as próprias mãos ao rosto, esfregando nervosamente —... E a culpa foi sua.
Afrodite olhava incrédulo para Camus.
— Minha?
— Eu nunca quis transar com Misty. Eu nunca quis transar com ninguém nessa vida, Afrodite... Apenas com você. — disse o ruivo, afinal, pegando na mão do pisciano, agora de forma delicada — Começamos mal, muito mal... Mas, eu o amo o suficiente para passar por tudo isso e ficar apenas com o que realmente me importa. Você, ma fleur, ma belle rose. Será que você também consegue? Será que também me ama o suficiente para acreditar em mim? Eu nunca dei cuecas para Misty. Eu nunca estive no quarto dele, nem uma única vez, e o que houve aqui entre mim e ele non significou nada.
As palavras de Camus eram duras, como sempre foram, porém verdadeiras.
Dentro de sua loucura passional, Afrodite conseguia, mesmo que por poucos segundos, absorver cada palavra que o aquariano lhe dizia, e quando ele mesmo já admitia seu erro ficava ainda mais fácil entender a postura de Camus.
Deitou-se no chão de costas, tapando o rosto com as mãos enquanto chorava de soluçar.
— Não fale o nome dele. Eu não suporto ouvir o nome dele saindo da sua boca. — deu algumas fungadas e então se sentou sobre o tapete de frente para Camus — Sim, eu te amo o suficiente para acreditar em você e não nele, mas...
— Ah, oui! Sempre tem que ter um, mas.
Irritado, Camus levantou-se de forma brusca, mas antes de pudesse dar um passo sequer teve ambas as pernas abraçadas por Afrodite, que ao imprimir força no ato quase fez o francês se desequilibrar e cair.
— Espera! Não vai embora... O meu coração sangra, Camus, de pensar que aquele réptil de ventosas tocou em você... beijou sua boca... Ela vai fazer de tudo para tirar você de mim, eu conheço a desgraçada. Ela não vai sossegar enquanto não acabar com a minha vida, enquanto não fizer o Saga me trancar no Cabo Sunion e ficar com o caminho livre.
Devagar Camus se abaixou e pegou na mão de Afrodite o ajudando a se levantar. Era nítido o descontrole do pisciano, e percebeu que não adiantaria tentar acalmá-lo discutindo com ele, sequer tentar entender o que o levou a lhe acusar de dar peças íntimas a Lagarto.
Por isso, Camus achou melhor encerrar aquele debate ali e ir, pessoalmente, interrogar Misty acerca do que havia acontecido, que história absurda era aquela das cuecas.
Por hora, se preocuparia apenas em acalmar o namorado, pois se para si a ideia de ter transado com Misty era desprezível, para seu amado peixinho deveria ser ainda mais hedionda. Assim, o abraçou com força, fazendo um cafuné em seus cabelos.
— Eu non tenho motivo algum para mentir para você. Se non contei antes foi porque realmente non significou nada para mim. Eu amo você, Afrodite, e se nem toda a desgraça que caiu sobre nós no começo foi capaz de nos separar, e nem todos os contratempos que envolvem nossa vida pessoal, non será o Lagarto que fará isso, non acha? Quanto às minhas cuecas... Bem... Terei uma conversa séria com ele sobre isso. Agora eu que quero saber como elas foram parar no quarto dele.
Afrodite enxugou os olhos com a manga da camiseta e encarou os olhos avelãs do aquariano.
— Não quero que vá. Ele vai te enrolar, vai dissimular, vai mentir e vai cair no truque dele de novo.
— Eu? Está maluco? Eu tenho mais anos de Vory do que Lagarto tem de vida, Afrodite. Confie em mim.
— Me desculpe... — balbuciou baixinho o pisciano — Eu perdi o controle... Eu... me desculpe pelo Ivan, pelo seu sofá e a cortina, os vasos... pelo balde de água fria, todos os cuspes, tapas, arranhões... Eu nunca amei ninguém na minha vida e ainda não sei como lidar com esse sentimento que às vezes me corrói por dentro e às vezes que dá paz! — abraçou Camus e lhe beijou com carinho — Que bom que você veio... Eu confio em você sim, Camy, confio muito, mas aquela truqueira é mais louca do que eu imaginava! Ele então deu a Elza nas suas cuecas! Ele é diabólico!
— Elza? Quem é Elza? — perguntou Camus confuso.
— Ele roubou Camus! Ele roubou! Além de mau caráter ele é um gatuno safado.
— Olha, vamos parar por aqui, está bem? E non vamos falar mais de passado. Já fiz o depósito na conta do bordel referente ao valor total da sua semana de trabalho. Irei até lá e tirarei a limpo com Misty essa história de cuecas. Non gostei nada de saber também que ele fez insinuações falsas sobre um possível caso entre mim e ele. Depois fazemos como sempre. Subo com uma das meninas e depois vou para seu quarto. Melhor non nos encontrarmos no Santuário essa semana. Todos os cavaleiros estão presentes, non há ninguém em missão, pode ser arriscado.
— Tudo bem, mas vou ficar de olho! Você pode ser esperto, mas a Lagartixa é ardilosa, aquele girino lodoso do Tejo! — puxou Aquário para um beijo rápido antes de se despedir — Eu te amo... Muito... Muito... Muito...
— Eu também, Afrodite. Também te amo muito, ma fleur.
Peixes deixou o Templo de Gelo mais aliviado, mas não menos tranquilo ou preocupado, pois conhecia melhor que ninguém a mente maquiavélica de Misty de Lagarto, e temia pela conversa que Camus teria com ele.
Templo de Baco 20:00pm
A passos firmes, Saga de Gêmeos adentrava o salão do bordel após passar a tarde toda fora, resolvendo diversos pormenores.
No peito o coração do grego batia ligeiramente mais acelerado que o habitual, tanto pela ansiedade, já que não queria chegar tão atrasado, quanto pelo que ocasionou seu atraso. Trazia consigo uma surpresa para a amada, mas somente lhe entregaria no final do expediente, o que não lhe impedia de fazer uma visita rápida ao quarto da amazona para trocar algumas palavras e, certamente, alguns beijos.
Assim, certificando-se de que Aldebaran ainda não havia chegado para assumir o bar e Máscara da Morte e Shura estavam do lado de fora do salão, o qual, por sinal, ainda estava completamente vazio, Gêmeos rumou apressado para as escadarias, o coração ia alegre e impaciente.
Quando, no entanto, passou por um grupo de garotas que na frente dos espelhos do palco de pole dance davam os últimos retoques em seus sensuais figurinos, teve sua atenção capturada pela conversa e, bisbilhoteiro como todo bom geminiano, deteve os passos a uma sincronia mais lenta para ouvir sobre o que falavam.
Não era custoso entender o que conversavam, já que quase todas usavam o inglês ali como língua oficial, arranhando um pouco de grego ou outra língua que fosse necessária.
— ***Ah, para! — exclamou Ághata, uma bela jovem turca de longos cabelos cor de mel que caiam em cachos pelas costas esguias — É sério que você achou mesmo isso Fúlvia? Que ele ia te dar bola?
— E por que não, Ághata? — rebateu a garota de cabelos platinados e olhos de um verde bravio — Qual o problema? Ele era um partidão, e sempre foi muito simpático e gentil comigo.
— Se enxerga Fúlvia, você é prostituta. — insistiu Ághata — Seu Mu é gentil e simpático com todas, querida. Achou mesmo que teria chance com um cara como ele?
— Cruzes! Que grosseria! — repreendeu Karina, a jovem loira que apenas observava. — Deixa ela sonhar.
— Que grosseria que nada, Karina! Eu sou realista. Seu Mu não é para o nosso bico não. Desde quando homem gentil e educado dá mole pra prostituta?
— É, eu detesto admitir, mas nisso Ághata está certa, Fúlvia. — postulou Karina. — Seu Mu sempre foi muito respeitador e bonzinho. Compra tudo para nós e até nos ajuda quando precisamos consertar algo. Mas, ele nunca faz nenhuma gracinha, nem fica olhando para gente quinem os outros olham.
— Ah, vocês duas me deem licença tá? Eu sou sonhadora mesmo e sonhar ainda é de graça. Piranha amarga!
— Vai ficar só no sonho mesmo, Fúlvia, porque o Seu Mu casou, querida. Acabou de voltar da Lua de Mel. — disse Karina em voz baixa, com um sorriso sorrateiro no rosto.
— Para, Karina! Não me assusta! — Fúlvia deu um tapa leve no braço da loira.
— Mentira! Tá brincando né? — exclamou Ághata, igualmente surpresa.
— Não, não estou. Pode ir lá conferir a aliança de quase dois dedos de grossura que ele está usando na mão esquerda. Casou casado! — afirmou Karina.
— Casou? Mas casou com quem? — Ághata perguntou incrédula.
— Pelo que o Seu Aldebaran me disse, foi com o moço monge. Aquele loiro criador de caso. Você lembra dele, né? — explicou Karina.
Fúlvia arregalou os olhos em espanto, levou ambas as mãos ao rosto e sufocou um grito.
— O que quebrou a cara do Afrodite? — inquiriu Fúlvia.
— O próprio. — Ághata confirmou.
— Então, meu bem, melhor nem sonhar muito alto mais, porque dizem que com ele não se brinca... Ele castiga as pessoas! Dizem até que ele é mau e pode deixar os homens boxas e as mulheres estéreis. — alertou Karina.
— Não pode ser! — lamentava Fúlvia, ainda inconformada — Seu Mu então é gay? Mas o outro não é religioso?
— Ora, deve ser, mas tenho minhas dúvidas. — explicou Karina — Lembram que Seu Mu ganhou a Marin na estreia do bordel? Talvez ele corte para os dois lados, vai saber! Mas isso é o menos relevante, Fúlvia. O que te interessa saber é que o tal moço monge criador de caso é poderoso e muito bravo. Então, pode tirando seu cavalinho da chuva, porque em casos assim não dá nem pra ser amante.
— Nisso ela tá certa. — confirmou Ághata — Você viu muito bem o que ele fez com Afrodite, que é guerreiro também, imagina o que não faria conosco, um bando de piranha pobre que ninguém vai dar falta nessa vida.
— Não estou acreditando, acho um desperdício. Os dois são tão gatinhos... Seu Mu então, era um puta partidão. — dizia Fúlvia visivelmente emburrada.
Nesse momento, Marin, já pronta para mais um penoso dia de expediente no Templo, descia as escadas quando cruzou com Saga, que subia aos risos depois de ouvir a conversa.
— Boa noite Marin. — o geminiano a cumprimentou.
— Boa noite, Grande Mestre. — ela respondeu o seguindo com os olhos até vê-lo entrar no quarto que ocupava no estabelecimento. Quando se certificasse de que não havia mais ninguém por ali, Saga iria aos aposentos de Geisty.
Marin então juntou-se às outras garotas, que instigadas pela conversa a bombardearam de perguntas.
— ***Sortuda foi você, né Marin? Estreou logo com o Seu Mu. Como foi?— disse Fúlvia, agora curiosíssima.
— É! Conta pra gente Marin, foi bom? — reforçou Ághata.
— Ele é aquele anjinho de candura também na cama? — foi a vez de Karina, que cedeu à curiosidade.
— O que? — respondeu sobressaltada a japonesa, que foi pega tão de surpresa que mal conseguira assimilar o assunto.
— Por Deus, Karina! Quem consegue transar com um cara comparando ele a um anjinho de candura? Você é doida? Dizem que ele também é ferreiro, então deve ter uma pegada forte. — debochava Ághata às gargalhadas.
— É mesmo! Já viu o tamanho da mão desse homem? Nossa! — exclamou Fúlvia abanando o rosto com um dos cardápios que apanhara da mesa próxima para espantar um calor que de súbito lhe subia pelas coxas.
Finalmente situada, Marin logo resolveu por fim àquela conversa inconveniente.
— Ei, vocês três, parem de fofocar da vida alheia. Não é hora para isso. E antes que você me perturbe de novo, Fúlvia, o que acontece nos atendimentos é sigiloso. Da porta do meu quarto para dentro é assunto só meu e dos meus clientes. — pontuou firme a Águia, mas por dentro sentia todo o peso de suas palavras lhe causando um desgosto amargo, porém, imperceptível às ouvintes.
— Hum... A dona ética não trafica informação sigilosa. Larga de ser chata e conta logo Marin, o que custa? Afinal, o Seu Mu se casou com um homem, né gente!— disse Ághata, também se roendo de curiosidade.
— É, fala aí, Marin, ele é um anjinho ou um diabinho? — Fúlvia ria, e percebendo que a conversa pegara um rumo perigoso, Marin deu as costas às garotas e seguiu para o bar.
Karina, a única que notou o desconforto aparente da amazona, freou os ânimos exaltados das colegas com um beliscão no braço de cada uma.
— Já chega. Deixem ela em paz. Os clientes estão chegando. — apontou para a entrada do salão onde uma comitiva de atletas poloneses ocupavam as mesas — Vamos trabalhar.
No andar de cima, Saga, agora vendo o corredor livre, caminhou apressado até o quarto de Geisty, mas assim que tocou a maçaneta da porta, foi surpreendido pela voz calorosa de Shina, que parecia ter surgido ali por algum passe de mágica.
— Ela já desceu, patrão. — disse a amazona estreitando os olhos. Não era de hoje que pegava no pulo as escapadas do geminiano para o quarto da amiga, mas fingia-se de cega, surda e muda.
Saga deixou escapar um suspiro, misto de susto e frustração.
— Obrigado, Shina... Desça logo, por favor. — esfregou os olhos irritado — E não aborde as pessoas assim... Quase me mata de susto, mulher.
— Hum... E assustou por que? Estava fazendo coisa errada? — Ofiúco riu.
Gêmeos olhou para ela e ateve-se somente a deixar o corredor antes da garota, descendo para o salão que já começava a ficar lotado.
Geisty se concentrava dentro do camarim, localizado atrás do palco principal.
Refazia incansáveis vezes os passos que havia aprendido com Shina no dia anterior.
A cada série concluída dava um gole nervoso na taça de Chianti que jazia no chão a seu lado, buscando no álcool a coragem que parecia lhe fugir conforme o avançar dos minutos.
Detestava ter de subir ao palco, mas para conseguir por em prática seu plano era necessário, já que precisaria chamar ainda mais atenção da clientela a partir de agora, e aquela noite lhe estava bem propícia.
Um grupo de ricos escoceses tinha agendado programas com as moças mais belas que a casa tinha a oferecer, e não podia perder a oportunidade de lhes chamar a atenção.
O som dos aplausos e assovios após a apresentação de Shina anunciou que era chegada a hora. Era sua vez de se apresentar.
Ansiosa, Geisty respirou fundo, passou a mão na taça de vinho, sorveu o restante da bebida com um único e generoso gole e deixou às pressas o camarim seguindo para o palco.
Enquanto isso, no salão, Saga tratava de algumas minúcias com mercadores chineses. Acomodados em uma mesa discreta na lateral do recinto, calaram-se quando as luzes se apagaram e os holofotes iluminaram o tablado.
Sem grandes expectativas, Saga olhou naquela direção apenas para conferir quem seria a próxima a se apresentar, mas quando reconheceu a silhueta da mulher que rebolava ao ritmo dos acordes lentos e sensuais da canção que começara a tocar, atrás de um biombo iluminado por um jogo de luzes, imediatamente sentiu seu coração disparar e a garganta secar.
Era Geisty ali, que lentamente, e a passos muito bem ensaiados, seduzia o público numa dança plena de erotismo.
Ainda se mantendo incógnita atrás do biombo, revelava-se aos poucos, ora esticando no ar uma das longas pernas torneadas vestida em uma fina meia de seda 7/8, causando alvoroço na plateia, ora expondo um dos braços languidos, nus, hipnotizando o público com o chacoalhar dos dedos delicados que exibiam longas unhas esmaltadas em roxo, até que, com um giro sensual finalmente revelou-se por inteiro, provocando furor na audiência, que agora vislumbrava embevecida as tão cobiçadas curvas da joia da casa.
Com um sorriso sensual no rosto maquiado, a bela morena caminhou rebolativa até a beira do palco, onde virou-se de costas para o público e pôs a correr as mãos pelos quadris, coxas e panturrilhas, remexendo as nádegas empinadas ao som da música enquanto jogava os cabelos soltos para um lado, depois para o outro, observando a multidão que a assistia e já encontrando seu alvo em meio a ela.
Era o cliente agendado para aquela noite. O mais influente dos escoceses que vieram na comitiva. Um político célebre que fazia parte da câmara dos comuns e que estava sentando em uma das mesas no centro do salão.
Não foi difícil de encontrá-lo, dado ao número de garrafas do mais legítimo Scotch distribuídas sobre a mesa.
Decidida, desceu do palco e caminhou languidamente até o local, sem cortar o contato visual com o homem de pequenos olhos castanhos e sobrancelhas fartas e severas, o qual a observava em expectativa. Sentou-se sobre a mesa e ergueu uma das pernas, deixando o scarpin de salto altíssimo cair despretensioso no chão.
Mantendo o homem prisioneiro de seu olhar abrasador, a morena corria ambas as mãos pelas curvas de sua perna até segurar na borda rendada da meia de seda e retirá-la, lentamente. O perfume da pele nua logo atiçou o cliente, que ergueu a mão para tocá-la, mas a amazona foi mais rápida e levantou-se da mesa segundos antes, então calçou o sapato e girando a meia no ar voltou a executar a coreografia, agora rebolando em frente ao homem que a divisava com olhos felinos.
Num movimento ligeiro, enlaçou o pescoço do escocês com a meia e o fez levantar-se da cadeira, e tal qual um cão guiado pela coleira, ela o conduziu até o palco, sendo acompanhada por centenas de olhos voluptuosos.
Sorria satisfeita com o seu feito.
Tinha ganhado a atenção do público e atiçado sua curiosidade. Partiria agora para a parte principal de seu plano, queria conquistar toda aquela plateia, conseguir novos clientes e fazer com que a propaganda boca a boca corresse solta por toda a Europa.
Subiu no palco trazendo consigo o homem preso à sua "coleira" de seda. Com a mão que tinha livre, Geisty arrastou até o centro do tablado uma cadeira que deixara estrategicamente ali, então fez com que o escocês se sentasse para atar suas mãos para trás das costas com a meia fina.
Ele sorria, fanfarrão, excitado e totalmente rendido aos encantos daquela bela mulher, aos olhos violetas que o divisavam com lascívia, aos lábios tintos em vermelho vivo, aos seios fartos cobertos apenas por um pequeno top rendado.
Esticou o pescoço tencionando tocar os lábios próximos aos seus, mas Geisty era ligeira e arisca. Dando um giro sensual afastou-se e jogou os cabelos para o lado, enquanto ouvia as risadas e pedidos imorais vindos da audiência.
Sem esperar mais, a morena desabotoou o sutiã e livrou-se da peça a jogando sobre o rosto do homem, revelando parcialmente os seios que tinham apenas os mamilos cobertos por adesivos metálicos em formato de estrelas.
Caminhou até a margem do tablado e fazendo um sinal para uma das mesas pediu que lhe entregassem uma garrafa de Scotch. Tendo ela em mãos retornou ao homem no centro, então abriu as pernas e sentou-se em seu colo. Em seguida correu a língua em círculos macilentos pelo gargalo da garrafa e num gesto de extremo erotismo deu uma golada na bebida, deixando que escorresse pelos cantos da boca, queixo, pescoço, até descer em um estreito veio por seus seios e fino abdome.
Em desespero o homem atado à cadeira esticava-se todo para capturar com a língua a bebida servida no corpo da mulher, enquanto a plateia, formada em quase sua totalidade por homens, batia nas mesas, gritava, e urrava em polvorosa.
Enquanto isso, Geisty ria faceira e perguntou quase encostando seus lábios no rosto do escocês cativo:
— Do you want? (Você quer?)
A resposta veio num sacolejar positivo e frenético de cabeça, tão frenético quanto os dedos que tamborilavam nervosos na mesa dos chineses que eram acompanhados por Saga de Gêmeos.
Este, por sinal, assim que viu a namorada surgir no palco vestida apenas com meias de seda, um minúsculo sutiã e uma calcinha rendada menor ainda, sentiu seu coração falhar uma batida e a respiração estacionar.
Os lábios ficaram imóveis, gélidos, como se tivessem sido transformados em mármore frio, assim como todo seu rosto. Somente seus olhos, incrédulos e alarmados, acompanhavam a movimentação de sua amazona.
Gêmeos não acreditava no que via. Deveria estar preso em uma poderosa armadilha ilusória criada pelo próprio Hades a fim de tirar-lhe a pouca sanidade que lhe restava.
Em desespero mudo e contido, somente conseguiu reagir afrouxando o nó da gravata para que, talvez assim, o ar entrasse nos pulmões sem tanta dificuldade, pois parecia que o oxigênio simplesmente havia se extinguido naquele trecho amaldiçoado de bordel, enquanto no palco o show ainda não havia chegado ao fim, para deleite dos clientes e desespero do cafetão.
Geisty agora esticava a perna que ainda mantinha vestida com a meia de seda a apoiando no encosto da cadeira. Lentamente despiu-se dela, deixando cair o sapato e atirando a meio ao ar.
Pousando o pé nu no ombro do homem, iniciou uma massagem com os dedinhos cuidadosamente esmaltados em roxo, então lhe sussurrou:
— Open your mouth! (Abra a boca!)
Junto daquela ordem, Geisty corria o pé até a boca do escocês, usando os dedos agora para acariciar seus lábios febris, então, com a garrafa de Scotch em mãos, dobrou ligeiramente o joelho e despejou o líquido canela abaixo, que deslizou pela pele bronzeada até a ponta dos dedos, os quais eram sugados com avidez pelo homem atado à cadeira, já quase em agonia tamanha sua excitação. Em sua mente já atônita e embriagada, só se imaginava provando cada curva daquele corpo que parecia lhe ser a personificação da luxúria.
— I want you! I want you sweet! (Eu quero você! Quero você, princesa!) — grunhia ele em delírio rouco.
Satisfeita, Geisty recolheu a perna com delicadeza e sorrindo para ele debruçou-se apoiando ambas as mãos em suas coxas. A garrafa fora antes deixada no tablado, ao lado da cadeira.
Apertou com força a carne trêmula do escocês, fazendo suas unhas serem sentidas, enquanto o provocava roçando os lábios em sua orelha.
— Double or nothing! (O dobro ou nada!) — sussurrou, vendo o cliente fechar os olhos em delírio.
A resposta veio sem vacilo, e como era de se esperar.
— Yes! Double... Double. (Sim! O dobro! Eu pago o dobro!)
Ela sorriu, vitoriosa.
No salão, os presentes ainda se mantinham agitados enquanto acompanhavam a joia desamarrar o homem preso à cadeira pela fina meia, a qual foi novamente enrolada em seu pescoço.
O show terminou com Geisty conduzindo o parlamentar pela "coleira" de seda até a escadaria que levava aos quartos, e em total silêncio Saga de Gêmeos os acompanhava com os olhos.
Não conseguia nem mesmo ordenar os próprios pensamentos, que dirá o que estava sentindo. O ar lhe saia queimando as narinas, enquanto o whisky lhe descia estranhamente refrescando a garganta, tamanha era a agitação interna que sofria.
Sem responder a nenhum questionamento ou comentário que era tecido pelos chineses sobre a apresentação que acabara de acontecer, o geminiano apenas pousava o copo vazio na mesa com raiva contida e logo apanhava outro que lhe era servido pelo garçom, tomando a fortíssima bebida como se fosse água, enquanto mastigava os cubos de gelo como se triturasse os ossos daquele maldito escocês que subia com sua amazona para o quarto.
As próximas horas seriam, sem dúvida, as piores de sua vida. Teria que esperar o programa acabar, e pelo show que vira a namorada dando no palco ela parecia bem empenhada em agradar aquele estupor estrangeiro.
Poucos instantes antes, enquanto Geisty prendia a atenção de todos com sua apresentação, Camus de Aquário chegava ao bordel.
O francês cumprimentou alguns colegas e ficou um pouco no bar.
Não havia nenhum russo na casa naquela noite, o que lhe deixava um pouco mais aliviado para executar a ação pela qual estava ali.
Afrodite havia chegado um pouco antes e já subido para seu quarto, onde vigiava ansioso a área externa abaixo de sua janela, pois fizera Camus lhe prometer que conversaria com Misty ali por perto para que pudesse ouvir.
Aproveitando a distração no palco, e querendo resolver de uma vez aquele impasse, Camus vasculhou o salão com os olhos até encontrar quem procurava. O cavaleiro de Lagarto estava de pé, perto de uma das portas laterais do salão, assistindo à apresentação entediado.
O ruivo então não se demorou, e usando a desculpa de sair para fumar um cigarro rumou pelo caminho onde cruzaria com Misty enquanto apanhava o maço no bolso do casaco, sempre atento para certificar-se de que ninguém prestava a atenção em si.
Lagarto por sua vez, distraído com o súbito erotismo exacerbado de Geisty no palco, teve a atenção capturada repentinamente ao divisar o olhar severo do ruivo sobre si, que deteve-se apenas alguns segundos em sua frente antes de deixar o salão.
— Me encontre lá fora em três minutos. — disse Camus em voz baixa, e logo em seguida cruzou a porta já acendendo um cigarro do lado de fora.
Misty levou um susto e seu coração disparou.
Não era para Camus estar no bordel naquela noite, e a julgar pelo modo como fora abordado, estava claro que Afrodite cumprira o que dissera e já havia ido dar com a língua nos dentes para o namorado sobre o roubo das cuecas.
O cavaleiro de Prata engoliu em seco, nervoso. Suas mãos começaram a transpirar, mas sua mente, ardilosa e ágil, já agia a seu favor. Por isso, fechou os olhos e respirou fundo. Usaria os três minutos que lhe foram dados para se acalmar e pensar no que diria a Camus que não prejudicasse todo o avanço que conseguira até ali.
Precisaria usar de todo seu jogo de cintura, pois não queria se queimar com o ruivo, e com um cinismo nato e uma confiança irredutível, três minutos após a convocação de Camus lá estava ele, indo para a parte externa do Templo de Baco com um sorrisinho alegre no rosto marcado.
Foi com certa dificuldade que encontrou o aquariano num ponto mais distante, escondido atrás de uma pilastra, mas quando engrandeceu seu sorrisinho cínico para cumprimenta-lo, foi surpreendido pela mão forte e fria do francês lhe agarrando o braço para empurrá-lo contra a parede.
— Eeeei! — exclamou surpreso — Tá maluco, Camus? Isso é jeito de cumprimentar um amigo?
— Sem conversinhas, Lagarto! — pontuou Aquário, nervoso — Vai me dizer agora que história é essa de termos um relacionamento e de que eu lhe dei cuecas minhas! — inquiriu com a voz grave, visivelmente irritado.
Misty arregalou os olhos, e abriu um belo sorriso.
*Dicionário Afroditesco
Acué - dinheiro
Bilôca - Homem homossexual com comportamento não muito bem aceito socialmente.
Coió - surra
Matim – pobre, chinfrim
Ocó – homem heterossexual
** traduzido do russo
*** traduzido do inglês
