Templo de Baco, 23:00pm
Misty arregalou os olhos e abriu um belo sorriso.
— Desculpa, Camus. Acho que a música vinda de lá de dentro está alta demais e... Como disse? Você e eu? Um relacionamento? — apressou-se a fingir surpresa e certa confusão.
Camus estreitou os olhos e imprimiu força à mão que segurava o braço do cavaleiro de Prata o resfriando até causar incômodo.
— Acho que non me conhece tão bem quanto pensa, Lagarto. — disse o francês de modo ríspido, sem afastar o olhar inquisitorial que lançava ao cavaleiro — Eu non vou perguntar uma segunda vez. Responda!
— Querido, eu não quero ser inconveniente, mas se não for claro não vou entender aonde você quer chegar... Ah... E é melhor soltar o meu braço, já que alguém pode aparecer por aqui de repente e interpretar mal essa nossa... intimidade.
O Santo de Aquário detestava admitir, mas Lagarto tinha razão. Dando um suspiro nervoso soltou o braço do francesinho, porém manteve-se junto dele, cara a cara, e ansiando por tornar aquela conversa o mais breve possível voltou atrás e tornou a questioná-lo.
— Muito bem, vou fingir que non sabe do que estou falando e lhe explicar uma segunda vez. Por que insinuou a Afrodite que você e eu temos um caso, e que eu lhe dei minhas cuecas de presente. E seja breve.
Lagarto ergueu ambas as sobrancelhas e lançou um olhar de espanto para Camus. Uma atuação digna de prêmio!
— Ora bolas, eu é que te pergunto! Que ideia mais descabida, mais fora de lógica, mais... Pera... calma, calma, calma! — estreitou os olhos e abaixou o tom de sua voz — Foi Afrodite quem te disse isso, suponho, não foi?
Camus tragou o cigarro e soltou a fumaça no rosto do cavaleiro à sua frente.
— Quem faz as perguntas aqui sou eu, Lagarto.
— Não senhor! Eu tenho todo direito de saber por que está aqui me fazendo esse tipo de pergunta, Camus. Acha que sou idiota? Hoje Afrodite infringiu a principal norma da casa e invadiu meu quarto, revirou tudo, TUDO, que eu tinha, quebrou meus móveis, destruiu minhas roupas, e olha o que aquela bicha loca fez na minha cara! — alterado, ele apontava para o próprio rosto, furioso — E agora você me aborda no salão e me atrai aqui para fora para me fazer essa pergunta descabida? Acha que tá lidando com algum idiota?
Camus jogou a bituca do cigarro no chão desviando os olhos do rosto irado de Misty apenas para olhar onde ela havia caído e pisar em cima para apagar a brasa. Em seguida, cruzou os braços e voltou a encarar o cavaleiro de Prata sem vacilar.
— E por que ele fez isso, Misty? Por que ele achou que deveria invadir seu quarto? E principalmente, como ele achou minhas cuecas entre suas coisas?
— Por Atena! Mas que cuecas? — fingiu nervosismo.
— Será que Afrodite invadiu o seu quarto porque você lhe disse o que non deveria, Misty? — continuou Camus — O que eu te disse sobre a noite que passou em Aquário comigo? Que ela non significou nada e que deveria ficar apenas entre nós. E você foi falar para Afrodite que passou a noite comigo.
— Não. — Misty ergueu o dedo o apontando para o rosto do ruivo — Auto lá, eu não afirmei nada a ele. Trato é trato, Camus. Eu sou um cavaleiro de Atena e você está insultando a minha honra. — a capacidade de mentir e colocar-se sempre como vítima era tamanha que deixaria médicos psiquiatras assustados — Eu disse à Peixosa que encontrei você nas ruínas não conseguindo parar de pé de tão bêbado, chorando e dizendo o nome dele num volume perigosíssimo, já que estava perto da casa de Áries e qualquer cavaleiro que passasse por ali poderia ouvi-lo... O que fiz foi ajudá-lo a subir até Aquário pensado na segurança dos dois... Eu sou responsável pelo que digo, não pelo que Afrodite entende, Camus.
Atordoado, Camus esfregou o rosto num gesto nervoso.
De fato, quem acabou por confirmar ao namorado que havia feito sexo com Lagarto fora o próprio Camus, ele se dera o tiro de misericórdia. Talvez se tivesse dissimulado e mentido como fazia tão bem dentro da máfia mais poderosa do planeta não estaria naquela situação, mas em se tratando de Afrodite, Camus perdia o tino, o raciocínio. Além disso, estava tão apaixonado que não queria estruturar seu relacionamento com o pisciano em cima de mentiras.
— Merde de vie! Merde! — rosnou em baixo tom, depois abriu os olhos e divisou a face serena de Lagarto que olhava para si esperando alguma conclusão — E você também non fez questão nenhuma de deixar claro para Afrodite que non há nada entre você e eu, ou mesmo mentir sobre aquela noite, non é mesmo, Misty?
— Ai Camus, me poupe. Eu? Vê se eu tenho cara de quem vai ficar dando explicação para aquela bicha burra. Depois, querido, eu até entendo que você queria esquecer que transamos naquela noite e faça uso da sua amnésia alcoólica pra isso, mas eu não. Eu adorei... mas, abafa... E essa história de cueca? Do que você está falando?
Camus abriu ligeiramente a boca, em espanto, depois fechou repetindo o gesto algumas vezes e piscando os olhos confuso. Não podia crer no que acabara de ouvir.
— Como é? Como... Eu non posso acreditar! Lagarto, non faça esse papel, non comigo! Non insulte minha inteligência ou vai acabar sem vida dentro de um esquife de gelo.
Misty não alterou um músculo sequer de sua face. Firmou os olhos sobre a face enrubescida de Camus e se mostrou ressentido.
— Hum... Vai me ameaçar agora por algo que nem sei do que está falando? Se eu tivesse medo de morrer por que então seria um cavaleiro de Atena?
Seus olhos azuis escuros cintilaram, um brilho muito conhecido, por sinal, pelo cavaleiro de gelo.
Camus sabia que Misty não tinha nada a perder, tampouco a ganhar inventando uma história como aquela. Ladrão de cuecas? Quando foi que acreditou nisso? Mas, Afrodite estava tão histérico e alterado que não tinha como supor que ele mentia, ou mesmo que se enganara de alguma forma.
Queria muito acreditar no pisciano, até porque suas cuecas de fato desapareceram de Aquário há algum tempo, mas Afrodite lhe disse que havia destruído todas as peças que encontrara no quarto de Lagarto, e agora não tinha provas para acusar o cavaleiro de Prata.
Era a palavra de Misty contra a de Afrodite.
— Então você está afirmando que non roubou cuecas minhas. É isso, Misty? Está dizendo olhando na minha cara que Afrodite inventou essa história toda. Mesmo ele sendo um cavaleiro de Ouro muito poderoso que possui habilidades especiais, como olfato muito mais aguçado que de qualquer ser humano, e que ele jamais se enganaria com um cheiro... Principalmente se esse cheiro for o meu! Vai continuar negando que ele non encontrou cuecas minhas na sua gaveta? Se Afrodite me disse que as cuecas eram minhas é porque eram, Misty. O que elas faziam em seu quarto, e por que insinuou que eu as dei a você?
— Hum... Agora sim entendi. — disse Lagarto fingindo introspecção ao rolar os olhos para cima e franzir levemente a testa — Agora tudo faz sentido.
— Ah, que ótimo! Pode me esclarecer então?
— Afrodite encontrou de fato uma cueca sua na minha gaveta.
— Ah-há! Então você admite que as roubou! — disse Camus, nervoso.
Normalmente o aquariano era bastante impessoal em interrogatórios, mas aquela conversa mexia consigo mais do que gostaria.
— Eu disse uma, Camus. Uma cueca. — fixou os olhos no ruivo sem desviar ou ao menos piscar — Na noite que te ajudei a chegar ao seu Templo no alto da montanha, a gente transou, e quando fui embora não encontrei minha cueca e vesti a sua. Ainda tinha um cliente para atender antes do fim do expediente e não podia parecer um puto relapso, não é mesmo? Tomei um banho, no seu banheiro, e vesti sua cueca com sua autorização... Aliás, que isso fique bem claro! Cheguei aqui, subi para o quarto com o cliente e depois do programa, como faço todas as noites me troquei no meu closet e fui dormir. Devo ter enfiado sua cueca na minha gaveta sem nem perceber. Foi justamente essa cueca que Afrodite encontrou quando revirou minhas coisas, fez um escândalo e a destruiu.
Camus estava tão nervoso que tinha dificuldade em acender um cigarro que mantinha preso entre os lábios. Suas mãos tremiam. Misty lhe atirava fatos incontestáveis e não conseguia argumentos racionais para combatê-lo.
— Você está mentindo. Afrodite disse que eram centenas de cuecas, Misty. Non apenas uma. — grunhiu enquanto tragava a fumaça.
— Ah, claro, e você acreditou! Por Atena, Camus! Você é um homem tão inteligente e perspicaz! Não vê o que ele está fazendo com você? Você acreditou mesmo nesse absurdo? Querido, Afrodite mexeu tanto com você que te faz pensar apenas com a cabeça de baixo, não é mesmo? Pois eu vou te alertar mais uma vez: Abre teu olho, Camus. Você também acreditou nele quando ele te disse que era especial, o único, e dias depois te armou aquela presepada covarde te trancando no quarto dele com teus três capangas russos. Acreditou também que ele sofria por tua causa, enquanto ele estava aqui afogando as mágoas no colo do Saga... Afrodite é louco, é perturbado, e eu tentei te avisar. Ele enfiou na cabeça que eu quero te tirar dele e vai fazer de tudo pra te convencer disso.
Lá se foi mais um cigarro e novamente a confiança de Camus em Afrodite posta em xeque.
Misty encarava o francês sentindo-se vitorioso. O silêncio do Santo de Aquário era sua glória e certeza de que havia conseguido dobrá-lo como queria. Pois agora o aquariano de fato começava a duvidar do próprio julgamento, não a toa que seu mestre sempre lhe ensinara que a emoção era inimiga da razão.
— Olha, Camus. Não que eu queria jogar você contra o cara que você ama, mas eu tenho direito de me defender. Então agora eu passei de puto a ladrãozinho barato de cuecas? Por Atena, Camus, a idiotice do Afrodite agora é sexualmente transmissível?
— Non me ofenda lagarto!
— Ok! Você realmente acha que eu iria me sujeitar a roubar cuecas suas? Servos entram e saem do seu Templo todos os dias. Você vive mais na Rússia do que aqui na Grécia. Eles precisam manter sua casa limpa e pode ter sido qualquer um deles, ou mesmo o seu querido Afrodite para colocar a culpa em mim.
— Ora, Afrodite nunca faria isso.
— Será mesmo, Camus? Desde quando você se tornou essa pessoa ingênua e tola? Você deve conhecer o Afrodite até muito melhor que eu, então também conhece todo o histórico de problemas que ele trouxe ao Santuário desde quando Shion era vivo. Antes de cair na armadilha dele você viu tudo com seus próprios olhos. Pelos deuses vocês são vizinhos!
— N-non... ele... Afrodite mudou. — Camus dizia sério, ele melhor do que ninguém sabia do quão inconsequente, baixa e danosa havia sido a juventude do sueco — Ele non é mais aquele garoto inconsequente do passado.
— Ah, claro. E o responsável por essa mudança brusca e repentina dele foi o seu amor. Ah, Camus, me poupe. Essa máxima do amor operar milagres na vida das pessoas é lindo, é romântico, mas só funciona mesmo na ficção. Aqui é vida real. Afrodite é baixo, promíscuo, depravado, joga sujo para ter o que quer. Essa é a natureza dele. Eu tentei te alertar e mesmo assim você caiu como um patinho.
Camus soltou um suspiro cansado. Sua cabeça agora fervia, flashes do passado de devassidão do amado surgiam um atrás do outro. Não queria se deixar levar pelas palavras do outro, mas não conseguia encontrar uma maneira de defender aquele a quem amava. O passado de Afrodite era tão sujo que lhe deixava de mãos atadas, mudo diante das alegações do cavaleiro de Prata.
— E quer saber? Não ache que faço tudo isso por puro altruísmo, eu sei que não é tão ingênuo, então sejamos claros. Eu não estaria do teu lado, não me preocuparia com você se a tua queda não fosse a de todos nós aqui, cavaleiro de Aquário. Mais do que Saga, é a sua influência com os russos que nos garante certa estabilidade. Eu imagino o quanto deva ser difícil para você não poder se assumir gay e ainda ter que provar o tempo todo para a Vory o quanto é macho... E, não vou negar, por algum motivo me simpatizei muito com você. Não quero que sofra pela homofobia da Vory nem pela loucura do Afrodite. — agora Misty abaixava o tom de voz e de forma delicada e até carinhosa tocava o ombro de Camus fazendo uma leve carícia — Essa merda desse Santuário está falid seu patrão quem tem posto alguma comida na nossa boca... Mas, se Dimitri souber o que você tem posto na sua boca Camus... estamos todos mortos. Se não for por uma guerra será de fome mesmo.
Camus olhou firme para Misty. Sua respiração agora era pesada e ruidosa. As palavras dele eram tão duras quanto verdadeiras. Lagarto atirava na cara do aquariano toda sua situação decadente, a realidade nua e crua, assim aproveitando da confusão e sofrimento do ruivo para desviar o foco da conversa, como a víbora mentirosa que era.
— Eu estou fazendo a minha parte para colaborar com a paz e a ordem, faça a sua. Segura a onda do Afrodite o quanto você puder e me deixem em paz. Eu sei que estar apaixonado é ótimo, mas nos deixa cegos e muitas vezes burros. Está claro que Afrodite está com ciúmes da nossa amizade. Ele não é capaz de enxergar que pessoas podem ser amigas sem terem, necessariamente, que ir para cama. Prova maior disso é que ele já trepou com todos os "amigos" dele, até mesmo com o chefe. Lembra quando Shion o trancou no Cabo Sunion?
O ruivo acenou de leve com a cabeça, pois infelizmente Camus se lembrava desse lastimável episódio muito bem, com todos os detalhes sórdidos e, inclusive, da repulsa que sentiu pelo pisciano na época.
— Você e todos aqui sabemos bem qual foi o motivo. Ele pode até estar mesmo apaixonado por você, mas isso nunca vai mudar o fato de ele ser um puto promíscuo... Agora, se me der licença, e se já terminou o interrogatório, eu tenho que voltar ao trabalho. Os dois clientes que seriam do Afrodite hoje agendaram comigo porque a agenda da escamosa para essa semana está lotada... e já imagino quem é que está pagando essa pequena fortuna por ele.
Com um sorrisinho vitorioso nos lábios cintilantes pelo batom pérola, Misty de Lagarto deixou Camus ali e voltou para o salão. No caminho comemorava em silêncio sua vitória rebolando e saracoteando pelas mesas até chegar ao bar e pedir uma dose dupla de Gin Tônica.
Brindou com Aldebaran, que nada entendeu.
Do lado de fora do salão, Camus encontrava-se tão introspectivo que sequer havia se movido desde que Misty lhe deixara sozinho.
Ficou por longos minutos parado, no mesmo lugar, encarando o horizonte à sua frente enquanto fumava outro cigarro. Vez ou outra olhava para cima na direção da janela do quarto de Afrodite, estranhando o fato de ela ter permanecido fechada o tempo todo, já que o sueco havia lhe dito que ficaria ali, ouvindo a conversa, e não ter se manifestado em nenhum momento diante das tantas acusações e palavras duras de Misty só comprovavam a veracidade delas.
Aquela conversa com toda a certeza não havia saído como imaginara.
Era como se o pequeno conto romântico que vivia com o pisciano agora não fosse mais tão belo como antes. A realidade cruel dava as caras.
Queria tanto acreditar no amado... Todavia, isso lhe parecia uma tarefa impossível, dado o histórico dele.
Camus levou a mão aos cabelos apertando-os com nervosismo. Estava atordoado e perturbado, com dolorosa perplexidade, já que de fato tinha consciência de que Afrodite a vida toda se mostrara uma pessoa confusa, compulsiva, inclinado a escândalos e exageros.
Por outro lado, seus beijos, seus sussurros de amor, os olhares cúmplices, os toques dedicados, a canção que lhe cantara, era tudo tão verdadeiro que sentia-se capaz de enxergar a própria alma do pisciano, a verdadeira!
Terminou de tragar o último de seus cigarros sem ânimo.
Camus não havia pensado em beber naquela noite. Não fora ao bordel com essa intenção, mas quando se deu conta já havia retornado ao salão e pedido uma dose tripla da melhor vodca russa a Aldebaran no bar.
Sentado no balcão, entre um copo e outro da forte bebida, o ruivo tentava se convencer de que não poderia estar tão enganado acerca do namorado.
Talvez suas emoções de fato estivessem em conflito, e por isso tinha uma visão romantizada de Afrodite que lhe impedia de enxergar o óbvio, mas por que não considerar que realmente o pisciano tinha mudado?
Ele mesmo já odiara Peixes e agora o amava.
Passara uma vida inteira sentindo uma repulsa tão grande por Afrodite que por diversas vezes chegaram às vias de fato, se agredindo, mas o amor que sentia hoje por ele era tão grande que varreu para longe todo esse passado de ódio e violência.
Se conseguiu transformar ódio em amor, por que Afrodite não conseguiria também ser uma pessoa melhor pelo mesmo motivo? Por amá-lo.
Mesmo sendo uma pessoa totalmente sem juízo, mesmo confuso e meio pirado, Afrodite também podia estar se transformando por amor.
Ou seria tolo em acreditar nisso?
Camus ficou naquele bar por longos minutos, perdido em suas reflexões até tomar animo para subir. Pensou muitas vezes em ir embora, mas já tinha ido embora das outras vezes e de nada adiantara, apenas sofrera mais.
Já meio zonzo e embriagado, bateu o copo vazio no balcão do bar e voltou-se para o salão. Correu os olhos rapidamente pelo local e acenou para uma das bacantes que parecia estar disponível. A moça logo veio e juntos subiram aos quartos.
Fizera o teatro de sempre, mas dessa vez, dado o teor alcoólico em seu sangue, a tristeza em seu coração e a confusão em sua mente sabia que não conseguiria fazer sexo com aquela mulher que se despia sobre a cama a seu pedido.
Camus então pediu licença a ela e foi até o banheiro cumprir outro ritual.
De dentro do bolso do casaco retirou um estreito e fino estojo de prata, menor que um maço de cigarros, onde trazia guardadas duas cápsulas de cocaína, porém uma já lhe era suficiente.
A droga era a única maneira que o aquariano encontrara para conseguir fazer sexo com as prostitutas antes que pudesse ir para o quarto de Afrodite, já que desde que se assumira gay era bem mais difícil conseguir ficar excitado com as mulheres, ainda bêbado como estava seria praticamente impossível.
Abriu uma das cápsulas e aspirou a droga com pressa, fazendo uma careta e fechando os olhos fortemente. Devolveu a cápsula ao estojo e o guardou no bolso. Anulava também seu Cosmo gelado para que não congelasse a substância em seu sangue e impedisse o efeito.
Quando voltou ao quarto, a mulher já lhe esperava nua sobre a cama. Enrolou por alguns minutos e a mandou chupá-lo até que sentisse o efeito da droga operar o milagre que precisava.
Não demorou mais que trinta minutos ali. O ato em si era sempre muito rápido, e depois de oferecer à bacante uma alta quantia em dinheiro deixou o quarto às pressas pela saída dos fundos, indo bater na porta do quarto de Afrodite.
Enquanto isso no salão, assim que viu o político escocês que subira com Geisty descer sozinho as escadas, Saga, que perambulava pelas mesas afoito e nervoso, galgou o caminho rumo ao quarto da amazona com impaciência e pressa.
Abriu a porta num solavanco brusco e sem cerimônia entrou apressado já a batendo atrás de si.
Com o ambiente à meia luz, a morena, que estava de costas e distraída, deu um pulinho em sobressalto virando-se para trás.
Geisty havia acabado de tomar uma ducha e vestia apenas um robe longo de Chiffon preto que não ocultava nada de seu corpo, a deixando ainda mais instigante aos olhos que a fitavam em um misto de raiva e desejo, fazendo o coração já agitado do geminiano dar uma batida mais dolorosa e a mente, aturdida pelo álcool, esquecer-se momentaneamente de todo o discurso que redigira mentalmente.
Sedutora como só ela conseguia ser aos olhos de Gêmeos, Geisty se aproximou a passos languidos e sorrindo atraente passou os braços pelos ombros largos do grego num abraço manhoso.
— Estava te esperando, meu cavaleiro. — disse galante, mas Saga foi enfático.
— O que foi aquilo tudo, Geisty? Será que você poderia me explicar?
A italiana pode sentir de imediato a respiração quente e pesada carregada pelo odor alcoólico, e sem desfazer o sorriso respondeu:
— Uma apresentação... Sensual. Por que? Não gostou? Estava muito ruim?
— Geisty, não faça pouco caso de mim! Não estou para brincadeiras hoje. — disse Saga enquanto a segurava firme pela cintura e a afastava de si para encará-la.
— Então não faça perguntas retóricas. Como assim o que foi aquilo! Aquilo foi uma apresentação sensual para chamar a atenção dos clientes, porque, pelo que me consta, essa porra aqui ainda continua sendo um puteiro.
— Você está bêbada. — proferiu o grego entredentes.
— Você também. E daí?
Nesse instante o geminiano fechou os olhos com força e respirou fundo tentando buscar calma. Em um gesto nervoso, esfregava o cenho com o polegar e o indicador.
— Geisty, por todos os deuses... Qual a necessidade daquilo? Não precisava se expor daquela forma. — disse Gêmeos parando o gesto e olhando firme diretamente nos olhos violetas que o observavam — Você quer me enlouquecer de vez? É isso? Quer jogar a minha sanidade ralo abaixo, mulher? Foi Zeus que me segurou naquela hora para que eu não subisse naquele palco e mandasse aquele escocês de merda pra puta que o pariu da outra dimensão.
— Saga, pelos deuses, não faça isso. Você vai por tudo a perder. — respirou fundo tentando, assim, galgar a coragem para contar ao amado o que decidira — Você precisa arrecadar mais dinheiro para manter o Santuário sozinho, sem influência da Vory, e esse bordel é sua principal fonte de renda no momento. Nós temos uma meta. EU tenho uma meta!... Uma meta pessoal, Saga. Eu preciso conseguir pagar a dívida que tenho com a Vory. Sem isso nós não podemos sequer cogitar um futuro, Saga.
Uma pausa se fez enquanto o casal se encarava digerindo cada palavra dita, até que o Santo de Gêmeos irrompeu o silêncio.
— Foi para isso então esse show que você deu hoje? — perguntou degastado e irritado — Para chamar atenção?
— Foi! Foi para isso. E graças a ele eu arranquei daquele pazzo o dobro do valor do programa. — sorriu satisfeita — Era o dobro ou nada, foi o que cochichei no ouvido daquele porco marinado em Scotch. Em uma única noite, com um só cliente eu consegui quatro vezes o que consegui na noite passada.
Contra os números o grego não tinha o que argumentar, mas ainda olhava aborrecido para a mulher à sua frente.
— Isso... isso não está certo. Não foi para isso que eu salvei a sua vida... Não foi... Pelos deuses, isso não está certo.
— É claro que não está certo. — exclamou Geisty com brusquidão — Não me tornei amazona para rebolar a minha bunda e exibir meu corpo para um monte de patife em um bordel. Nem você se tornou cavaleiro para abrir uma zona e virar cafetão. — gesticulava ansiosa e firme no que dizia — Mas, afogadas a mágoas, esquecidos os rancores, ouvidas as explicações que me deu, agora faço isso por uma causa maior. Muito maior!
— Causa maior? Não estou entendendo onde quer chegar.
— Eu vou fazer esse bordel ser mais lucrativo para o Santuário nem que para isso eu tenha que me tornar a puta mais conhecida da Europa. — postulou com voz embargada e os olhos marejados.
— Geisty... Por Atena... — Saga esfregou o rosto.
— Eu vou pagar essa dívida, Saga, custe o que custar, e estaremos livres para assumir nosso amor sem medo. Mas, você precisa cumprir a sua parte no nosso acordo, precisa fazer o que me prometeu, lembra? Eu pago a dívida, devolvo aos porcos russos todo o dinheiro que o infeliz do Kanon lhes roubou, moeda por moeda, e você livra minha barra com a Vory v Zakone. Eu não sou ingênua. Eu sei que dinheiro apenas não basta para eles, e que só estou viva pelo acordo que fez com o porco do Camus, mas, se eu pagar, Saga, você pode usar o Camus e sua influência para obrigá-los a me deixar em paz. Essa será minha prova de amor a você... Usarei minhas ilusões até à exaustão, mas pagarei essa dívida muito antes que qualquer um deles possa imaginar. — tocou o indicador no peito do geminiano que a olhava vidrado e perplexo.
Saga estava desorientado diante daquela confissão.
Sentia seu peito se apertar em um misto frenético de raiva, dor, orgulho e paixão, o último sentimento, aliás, lhe era o mais sufocante. Seu choque era tamanho que lhe abafava o raciocínio e o impedia de formular qualquer resposta que fosse o tomando de assalto, deixando seu instinto agir naquele momento.
Em um gesto repentino, puxou para si a amada tomando-lhe a boca num beijo afoito, quase desesperado, faminto. Sugava-lhe os lábios, o ar, a invadindo com a língua ansiosa enquanto corria as mãos pelas curvas do corpo feminino o apertando libidinosamente.
Era retribuído na mesma euforia pela amazona, que desatava o laço que prendia o robe finíssimo expondo o corpo nu por baixo da peça.
Em meio à penumbra, e com ganas em provar aquele corpo de todas as formas possíveis, Gêmeos a tomou nos braços e usando sua memória fotográfica a carregou até a penteadeira, onde a apoiou derrubando alguns objetos ao chão. Sem reservas, beijou os seios nus e firmes deliciando-se com a pele levemente perfumada, provando com a língua lasciva e quente a textura macia até tomar-lhe a boca novamente.
— Ahh... Geisty... Não estou nem um pouco feliz... hum... com essa sua... dedicação toda... hum... Não mesmo... Não gostei nada... aahhhh — Saga sussurrava ao ouvido da amazona, enquanto em agonia louca estreitava seus corpos, roçando sua excitação na intimidade desnuda dela que com as mãos nervosas se apressava em desafivelar seu cinto para com pressa abrir-lhe a calça e puxar o membro rígido para fora.
— Hum... Não gostou? E disso, você gosta, Saga? — provocou a morena ao mordiscar de leve os lábios febris do cavaleiro enquanto iniciava uma massagem erótica e deliciosa em seu membro.
Saga fechou os olhos em delírio. O sangue lhe subindo ao rosto lhe causando uma sensação de calor excitante e deliciosa. Com pressa, retirou o paletó o jogando longe enquanto beijava a amazona em ânsia voluptuosa.
Queria tomá-la ali mesmo, mas com o ranger da madeira, o espelho que sacudia perigosamente e a quantidade de objetos que caiam pelo chão era notório que toda a estrutura viria abaixo em poucos segundos de sacolejar.
Sem querer ir para a cama, a qual ainda estava totalmente bagunçada pela orgia ilusória a que foi submetido o parlamentar escocês, Saga ergueu novamente Geisty no colo e tomado em ansiedade a deitou no chão acarpetado para mergulhar naquele corpo quente como almejava, soltando um gemido longo de satisfação que escapara junto de um chiado arfante da amada.
Em meio à movimentação agitada, gemidos longos e arfadas ruidosas de ambos, Geisty tentava retirar a roupa de Saga sem muito sucesso, conseguindo apenas abrir os botões da camisa para correr as unhas longas sobre o abdômen exposto. Gêmeos ainda se mantinha de gravata, somente com a calça e a camisa abertas, enquanto se remexia convulso ansiando por tocar e apertar cada pedacinho daquele corpo abaixo de si que se contorcia luxurioso no chão.
Sua mente, mesmo aturdida pelo prazer e pelo álcool, ainda tinha viva a imagem da amazona dançando no palco, linda, sensual, excitante!
Súbito, num rompante de desejo e furor, o cavaleiro segurou na cintura da amazona a virando de costas para si e a colocando de quatro. Deslizou libidinosamente as mãos pelas curvas do corpo exposto e novamente a segurando firme pela cintura a invadiu, sentindo o corpo se arrepiar todo ao ouvir o gemido rouco de prazer da amada.
Já Geisty levara para o quarto o jogo de sedução que iniciara no palco, arqueando as costas e rebolando voluptuosa enquanto gemia manhosa, deslizando a língua úmida pelos lábios carmins entreabertos.
O geminiano sentia seu membro pulsar intensamente a cada vez que ouvia os mesmos lábios que o seduziam gemer seu nome e pedir por mais.
Com um tapa estalado na nádega da italiana, Saga a segurou com firmeza afundando os dedos na carne macia e aumentando o ritmo de seus movimentos, que se tornavam mais vigorosos e profundos, sacudindo o corpo abaixo do seu.
— Ahh, é assim que você quer? É? Sua safada... gostosa!
— É! Ahh... isso Saga, mais... mais...
— Vou te dar o que você quer! Ahhh... Vai aprender a não me provocar...
Gemiam, gritavam os nomes um do outro sem se preocuparem em serem ouvidos pelo outro lado da porta. Por sorte, o som da música no salão estava alto o suficiente para abafar ao mundo exterior o que acontecia entre aquelas quatro paredes do quarto da joia.
Mergulhada naquele frenesi de prazer, o corpo de Geisty já dava sinais de fraqueza se deixando abater pelo orgasmo eminente. Deixou a cabeça pender para frente, mas no mesmo instante sentiu o ardor dos fios de sua nuca sendo agarrados pela mão pesada e avantajada do grego, que a puxando para trás lhe deu uma ordem com voz carregada em luxúria.
— Não, amazona. Quero que olhe para mim... — disse ele, seguido de uma bufada.
Aquele foi o limite para a italiana, que se entregou a um orgasmo intenso. O corpo trêmulo, as íris iluminadas em púrpura se escondendo sob as pálpebras e a boca entreaberta deixava escapar um gemido fraco, quase mudo.
Diante daquela reação da amada, Saga não conseguiu também se conter e sentindo o corpo abaixo do seu se contrair, vigoroso e trêmulo, sucumbiu à agonia deliciosa do gozo apertando com furor a nádega dela, enquanto arqueava o corpo torpe de prazer para trás, sendo arrebatado pelos espasmos incontroláveis até se deixar abater pelo cansaço.
Junto de si, Geisty também se rendia escorregando pelo carpete escuro e sentindo desabar sobre si o corpo cansado do geminiano.
Estavam ofegantes e exaustos, mal conseguiam reagir, somente sentiam a respiração quente um do outro lhes tocando a pele.
Saga tombou lentamente para o lado, aliviando o peso sobre a amazona, então procurou a mão delicada dela e entrelaçou seus dedos num carinho singelo. Com a outra mão puxou a gravata até retirá-la por completo do pescoço e respirar fundo em alívio.
Ainda ofegante, encostou delicadamente os lábios no rosto da amazona em um beijo suave, a qual lhe retribuiu com um sorriso fatigado, porém satisfeito e feliz.
— Desculpe por isso. — disse ele ofegante.
— Pelo que? — perguntou a morena sem nem abrir os olhos.
— Por termos feito amor no chão... Mas, não consegui esperar.
-— Ah... amore mio, o chão é o ninho de amor dos amantes mais ávidos.
— Sim... — ele respondeu fazendo um carinho nos fios negros dos cabelos dela — E me desculpe também se fui muito bruto.
— Como? — respondeu em um fiapo de voz o olhando com certa dificuldade pelo cansaço que a tomava.
— Se por ventura te machuquei. Acho que me excedi e posso ter te machucado ou causado algum incômodo.
Foi interrompido por um riso baixo e abafado da amazona.
— Ah, Saga, eu sou uma amazona, você parece que se esquece disso. Fica tranquilo... Eu aguento o tranco. — disse dando um sorriso sedutor e uma piscadinha.
— Que bom! Bom saber disso... Muito bom saber disso! — disse o grego rindo divertido e dando uma apalpada na nádega nua da italiana.
— Hum... Disponha! — ela respondeu aninhando o rosto junto ao corpo do amado.
— Vamos para o meu quarto, querida?
— Ah não. Ainda não. Vamos descansar aqui mesmo, no chão... Só um cochilinho...
— Hum... — respondeu em um resmungo o geminiano, que já fechando os olhos, exausto e sem forças para questionar, apenas abraçou o corpo esguio da namorada e entregou-se ao sono.
Na outra extremidade do largo corredor acarpetado de vermelho vivo, Afrodite de Peixes entrava às pressas no quarto que ocupava ali no Templo de Baco.
Trancou a porta com a chave que trazia sempre consigo e caminhou apressado até uma pequena ala separada do cômodo por um grande biombo de madeira, pintada de branco com desenhos de rosas entalhadas, onde ficava uma poltrona aconchegante e uma pequena mesa de canto com um abajur.
— Me desculpe pela demora, amor. Eu vi quando você subiu com a Ághata, mas não consegui vir antes. Na verdade nem era para eu ter descido hoje, mas a sonsa da Marin teve um problema com o suíno das Arábias e me chamou para ajudá-la... Marin só me dá trabalho... Ah, mas depois foi o cliente da Rebeca querendo dar o truque* nela. Eu nem consegui chegar perto da minha janela para poder vibrar com a cara de nena* que a Lagartixa deve ter feito quando você desmascarou aquele ebó de... — fez uma pausa quando percebeu que desde que chegara ali e desandara a falar Camus não esboçara reação alguma, permanecia sentado na poltrona, pernas em paralelo, ombros caídos, cabeça baixa, olhos fixos nos próprios sapatos — Camus? Está tudo bem?
— Por que non estaria tudo bem... Afrodite? — o francês respondeu em voz baixa sem levantar os olhos para ele.
— Alôca! Porque você está ai todo desmilinguido quando tinha que estar era fulo da tua vida depois de ter descoberto os truques* daquele girino do Tejo... Não... Espera! — interrompeu-se atabalhoado, depois se inclinou para Camus e segurou firme em seu queixo o fazendo olhar em seus olhos — Aquele exú de picumã de equê* confessou que roubou suas cuecas, não foi? Ele, ele, ele... Que cheiro é esse de otim*, Camus? Você bebeu? — a voz de Afrodite tremia.
— Bebi... um pouco. — Aquário o contemplou por algum momento o analisando — O que isso importa?
— Você não veio hoje aqui para encher a cara de vodca que eu sei. Nem para entupir o teu nariz de padê*. Você veio hoje aqui para tirar de uma vez por todas a maldita daquela Lagartixa da tua vida, Camus. Você veio hoje aqui para colocar aquele cafuçu* no lugar dele, para exorcizar da sua e da minha vida aquele exú, e agora você me aparece aqui colocada*, mais murcho que neca* de Irene* em dia de inverno e me pergunta o que isso importa? Ah, tá boa, Santa! Mas eu já sei o que aconteceu, Camus, eu já sei! A maldita deu a volta em você, não é? A desgraçada conseguiu te levar no papo. EU SABIA! — gritou já totalmente alterado.
— Ta gueule, Afrodite! (Cala a boca.) — Camus levantou da poltrona nervoso, exaltando-se com o rumo da conversa — Ninguém me deu a volta. Misty e eu conversamos o que tínhamos que conversar e foi só isso.
— Eu não estou acreditando! — Peixes arregalou os olhos divisando Aquário com tanto espanto que parecia estar olhando para uma assombração — Que Whitney e Mariah furem meus tímpanos com seus agudos porque eu não quero ouvir isso. Ele, ele, ele ao menos confessou que roubou suas cuecas? Confessou? Por Atena, Camus, ele confessou?
Camus olhou para o namorado em agonia muda. Mal respirava de tão apreensivo, confuso e aflito que estava.
O rosto de Afrodite contraiu-se numa careta de espanto horrível.
— DESGRAÇADO! — foi o grito que saiu de sua garganta apertada e do peito oprimido — Ele conseguiu mais uma vez! MAIS UMA VEZ! Mas essa vai ser a última.
Tresloucado, o Santo de Peixes empurrou o biombo quase o levando ao chão e já corria em direção à porta quando Camus, de modo firme e vigoroso, lhe interceptou o agarrando por ambos os braços e girando seu corpo de modo a ficaram frente a frente, cara a cara.
— Non! Você vai ficar aqui! Non vai a lugar nenhum, Afrodite!
— Eu vou sim! Eu vou matar aquele maldito que era o que eu já deveria ter feito há anos atrás! — pontuou o pisciano rangendo os dentes tamanha sua ira.
— Non, non vai. Você vai ficar aqui, comigo, e vamos continuar levando nossa vida da melhor forma que conseguirmos, Afrodite. Juntos. Que importa o que Lagarto tenha feito ou dito, ma fleur? Afrodite... Nós já temos tantos, tantos problemas...
— Será que não percebe, Camus? Eu estou me acabando com isso, você está se acabando com isso!... E é tudo culpa dele!... Não quero que se torne uma biba padezeira*.
— Uma o que?
— Não quero que use drogas! Tem que parar com isso! Se não fosse a desgraçada da Lagartixa fazer sua cabeça contra mim, porque eu conheço aquele demônio e eu sei que foi isso que ela fez, não teria bebido, não teria se drogado, não estaríamos agora tendo essa discussão. É tudo culpa dela, Camus!
— Non, non é! Tem que parar de culpar o Misty...
— NÃO FALA ESSE NOME! — berrou o sueco.
— Non grite comigo! Merde!... Misty non é o culpado por tudo que dá errado na sua vida, tem que entender isso. Non bebi por causa dele, non cheirei por causa dele. Sabe muito bem que para mim é praticamente impossível ter uma ereção natural com uma mulher. Sabe que esse é o único meio que encontrei de conseguir trepar com elas só para poder vir para o seu quarto depois... Para poder sentir o seu corpo, o seu cheiro delicioso, os seus toques, pois eles sim me levam ao delírio sem que precise de entorpecente nenhum, Afrodite.
O rosto do Santo de Peixes mudou de repente. Toda a ira anterior transfigurou-se em melancolia.
— Por favor... — Camus agora corria os olhos pelo rosto corado do namorado enquanto deslizava as mãos por seus ombros de modo delicado — Por favor, eu quero esquecer o passado, eu preciso esquecer o passado, ma belle, porque algo que diz que tanto eu, quanto você, se ficarmos revirando muito ele jamais teremos paz... Esqueça o Lagarto, ele non significa nada para mim, nada! Faça isso por mim, por nós, Afrodite, por favor.
— Como posso esquecer aquele ebó mal despachado se foi o desgraçado que...
— Chega!... Esquecendo! — interrompeu Camus — Non falando dele, ignorando! Ele nuca vai me tirar de você. Non fizemos um pacto quando você cantou para mim? "Esquecer de tudo, pois tudo pode ser esquecido", non foi? Eu posso esquecer, e você também pode.
Afrodite encarava Camus com zanga. Contento a respiração e espalmando ambas as mãos no peito como que para comprimir as batidas tresloucadas de seu coração agitado, ele tentava assimilar o que o francês lhe dizia. Sentia-se sufocado, porém tão cansado quanto o namorado lhe parecia.
— Era tudo que eu mais queria, Camus. Esquecer tudo... mas, é tão difícil! — disse quase num chiado inaudível — Só eu sei do que aquela ariranha oxigenada é capaz.
— Por favor, esqueça ele. Fique comigo, mon amour... Me ame. — sussurrando, Camus beijava o pescoço de Afrodite com sofreguidão — Me ame, Afrodite. Eu preciso sentir o seu amor, preciso que me mostre o porquê de eu estar aqui, bêbado e arriscando a minha vida por você.
Quase de forma suplique, Camus lentamente deslizou seu corpo para baixo até colocar-se de joelhos ainda abraçado a Afrodite. Enquanto o fazia, corria as mãos pelo corpo do pisciano lhe apalpando a carne trêmula até agarrar no cós da calça de lycra e paetês e puxá-la até o meio das coxas roliças do namorado.
Afrodite finalmente puxou o ar pela boca voltando a respirar com fluidez.
Fechando os olhos e soltando um longo suspiro, levou ambas as mãos à cabeça de Camus acariciando os cabelos ruivos quando o sentiu correr a língua por sua virilha até lhe beijar os testículos e pênis ainda adormecido por cima da cueca.
Apesar da já esperada resposta tão rápida de seu corpo aos estímulos do aquariano, o coração do Santo de Peixes não serenava. Pelo contrário, batia agora ainda mais rápido, aflito, num misto de excitação, mágoa, medo e raiva, muita raiva.
Enquanto sentia Camus lhe puxar o membro já semi túrgido para fora da cueca e enfiá-lo na boca iniciando uma estimulação oral deliciosa, repensava tudo que aconteceu desde a manhã daquele dia.
Estava clara a intenção do cavaleiro de Prata em destruir sua relação com o aquariano. Sabia como Misty agia, mas e Aquário?
Conhecia Camus tão pouco...
Sim, esse Camus, o homem apaixonado, o amante fervoroso, o companheiro dedicado, Afrodite conhecia a pouquíssimo tempo. Estaria ele falando a verdade?
As cuecas foram mesmo roubadas ou entraram no quarto de Lagarto com as próprias pernas?
Misty se aproveitara de um momento de fragilidade de Camus ou de fato havia algo mais entre os dois?
A verdade era que ambos, Aquário e Peixes, tinham somente a palavra um do outro, e mais nada.
A vida desde muito cedo não tinha sido especialmente gentil com esses dois cavaleiros. Cada qual a seu modo, precisaram aprender a lidar com as adversidades antes mesmo de darem os primeiros passos que iniciariam suas grandes jornadas.
Um aprendeu a ser excessivamente livre, o outro a se reprimir aprisionado dentro de si mesmo.
Cavaleiros, homens, apaixonados. Tão apaixonados e acostumados a lidar com situações de risco que ali, naquele momento, dentro daquele quarto, e mesmo diante das tantas dúvidas que povoavam os corações de ambos, em nada mais conseguiam pensar além do amor que sentiam um pelo outro. Do desejo que os corroía por dentro. Da usura que queimava seus corpos.
Tinham apenas a palavra um do outro para sossegar seus corações, e foi a ela que se apegaram.
Afrodite sentia a boca quente de Camus a lhe envolver completamente o pênis túrgido e pulsante. Os dentes do aquariano roçavam levemente a pele fina e sensível a cada movimento de vai e vem que executava na felação lhe causando um frenesi delicioso. Seu coração batia frenético e no estômago as borboletas já começavam a se agitar tresloucadas.
— Aaaah... Camus... — gemeu precipitando o quadril para frente enquanto empurrava a cabeça do ruivo de encontro a si, e quando Camus deu sinais de que começava a se engasgar com aquele falo robusto todo dentro de sua boca, num rompante Afrodite o puxou para trás agarrando em seus cabelos.
Aquário ainda recobrava o fôlego quando Peixes o tomou nos braços em ânsia louca e o carregou até a cama. Sorte que a distância era curta, pois o sueco tinha as calças abaixadas até a metade das coxas e andava com certa dificuldade.
No leito, Afrodite atirou Camus sobre os lençóis brancos de seda e então finalmente pode tomar sua boca num beijo possessivo, urgente e abrasador.
— Hum... você está entrando no meu mundo... e está fazendo dele um lugar melhor. — dizia o pisciano em pequenos momentos quando interrompia o beijo para tomar fôlego — Sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor... Eu sou seu, e você é meu... Camy. Meu.
— Oui, ma fleur, eu sou seu, Afrodite...
Peixes sorriu divisando, ainda que com um resquício de melancolia, os olhos avelãs faiscantes de Aquário. Deslizando lentamente pelo corpo do francês enquanto lhe mordiscava o dorso ainda coberto pela roupa, o pisciano desceu da cama, e sem tirar os olhos do rosto em fogo de Camus terminou de tirar a calça e os sapatos, depois puxou a cadeira rústica que usava na penteadeira e a colocou no centro do aposento.
— Sente-se aqui. — disse em tom autoritário recuando uns poucos passos, então esticou o braço e apertou o play de uma pequena vitrola que ficava sobre o móvel ao lado da penteadeira.
Uma canção antiga, com uma batida sexy em ritmo lento inundou o quarto.
Camus se levantou da cama e sem conseguir tirar os olhos da face doce, e ao mesmo tempo lasciva, do namorado executou a ordem sentando-se na cadeira.
Afrodite então se colocou atrás do francês, e em gestos lentos, na cadência da canção erótica, mergulhou uma das mãos nas madeixas ruivas juntando um bom punhado.
Camus soltou um chiado e fechou os olhos, em seguida o sueco puxou sua cabeça para trás e o beijou com ardor.
Provaram-se por longos minutos, até que Afrodite soltou os dedos do cabelo de Camus e separou as bocas para dar a volta em torno da cadeira e se colocar agora na frente de Aquário, porém de costas para ele.
Por cima dos ombros, Peixes lhe lançava um olhar tão sedutor que Camus sentia o ar lhe faltar e as pernas tremerem. No ritmo da música, o pisciano agora rebolava enquanto retirava a blusa com a qual ainda estava vestido, expondo suas costas, nádegas e coxas nuas ao olhar cobiçoso do aquariano que mal piscava, completamente hipnotizado. Suava frio, ofegava, e sentia o membro pulsar tão violentamente que chegava encolher as pernas e contrair os dedos dos pés dentro dos sapatos.
Afrodite lhe lançou a blusa, a qual fora de imediato apanhada no ar e levada ao rosto.
Como adorava o cheiro dele!
Peixes então se agachou até ficar com as costas entre os joelhos de Camus, e jogando a cabeça para trás buscou os olhos avelãs os contemplando com desejo.
— Eu te amo! — sussurrou.
— Je t´aime! — Camus respondeu lhe fazendo uma carícia nos cabelos azuis piscina espalhados por seu colo.
Após um sorriso, Afrodite se levantou e sem sair de onde estava curvou o tronco para frente num ângulo de noventa graus, pousando ambas as mãos nos próprios joelhos, e rebolando macilento levava Camus à loucura com a visão que dava a ele de sua intimidade exposta.
— Dieu... você me enlouquece Afrodite! — sussurrou o francês mordendo os lábios e apertando os dedos das mãos.
Quando sentiu a mão forte de Aquário lhe apalpar uma das nádegas, Afrodite se pôs ereto e deu um passo a frente. Virou-se de frente para o namorado e erguendo a mão direita à altura de seu rosto criou uma rosa vermelha que em segundos perfumou todo o aposento.
Colocando a rosa entre os lábios, Peixes se ajoelhou no chão e de quatro engatinhou até a cadeira, os fios azuis de seus longos cabelos arrastando pelo carpete marfim. Camus sentia seu membro tão duro que procurava certo alívio levando a mão até ele e o apertando com força.
Agora Afrodite corria as mãos dos joelhos às coxas grossas e fortes do aquariano, e mergulhando, literalmente, em seu colo esfregava o rosto desde o meio das pernas, passando pelo abdome até finalmente chegar ao rosto e tomar os lábios finos do amado num leve toque apenas para passar a rosa para a sua boca enquanto lhe desafivelava o cinto e abria a calça.
– Uhnn... — o francês gemeu ao sentir o outro lhe puxar o membro para fora da cueca.
Os olhos de Afrodite faiscavam de desejo. Olhava para Camus em delírio, como se já estivesse fazendo amor com ele só pelo olhar.
Segurou firme no tecido da calça e a puxou junto com a cueca, fazendo Aquário chutar as peças para longe juntamente com os sapatos, então se levantou e abrindo as pernas sentou-se no colo do francês, de frente para ele.
Apoiou-se no encosto da cadeira deixando seus braços sobre os ombros de Camus e rebolando agora provocava o namorado roçando sua ereção túrgida na dele.
Sem interromper a provocação, Afrodite buscou os botões da camisa do ruivo e um por um os desabotoou para retirá-la e jogá-la para o ar em seguida. Ambos nus, agora o sueco procurava acariciar o francês usando todo seu corpo, braços, coxas, pés, abdome, boca...
Após Aquário deixar cair a rosa entre os lábios que aflitos se abriram buscando os do amante sueco, beijaram-se longamente enquanto as mãos decifravam cada fração de pele e músculo, correndo ávidas o objeto de desejo de cada um.
O coração do Santo de Aquário batia tão rápido que ele temeu ter um mal súbito, tamanho seu arrebatamento. Era a primeira vez que sentia um tesão tão abrasador. Ofegava, tocava e beijava o pisciano quase em desespero, querendo fazer tudo ao mesmo tempo.
— Você me enlouquece, Afrodite... me domina... me controla... — as palavras febris saiam roucas e vieram acompanhadas de uma mordida de Camus no ombro de Afrodite.
— Hum... e você gosta! — o sueco riu delirante — Não! Você adora, Camus!
— Oui! — respondeu correndo uma das mãos ao membro do pisciano para agarrá-lo com vigor — Aphrodite, je ai besoin de vous! Ma belle rose! Mon amour! (Eu preciso de você.)
Ouvir aquilo era mais excitante que qualquer carícia.
Pulando para fora do colo do francês, Afrodite o pegou pela mão e entre beijos e amassos acalorados, trocados durante o trajeto até a cama, fez com que o ruivo se deitasse de bruços no leito para no instante seguinte mergulhar seu rosto entre as nádegas volumosas e macias do amante, lambendo, umedecendo e estimulando sua intimidade com um beijo grego habilidoso e enlouquecedor.
Camus apertava em desespero os lençóis de seda, remexendo-se e soltando um gemido mais intenso a cada vez que sentia a língua quente do outro lhe invadindo deliciosamente.
Já as borboletas no estômago de Afrodite nunca estiveram tão agitadas!
O corpo todo do pisciano vibrava. Estar com Camus de Aquário, tocá-lo, senti-lo, ouvi-lo gemer de prazer não era para si somente a satisfação de uma necessidade fisiológica, sexual. Seu desejo por Camus transcendia o carnal. Tinha necessidade dele, da presença, da voz, do cheiro, do gosto, do calor do Cosmo quente daquele cavaleiro do gelo.
Súbito, um tapa estalado nas nádegas trêmulas fez o aquariano contrair-se todo, dado o susto do estalido juntamente com a dor do tapa, que viera de imediato. Soltou um grunhido, mas cada vez mais desavergonhadamente empinava os quadris para cima, e abrindo as pernas deixava clara sua entrega.
— Baise moi, Aphrodite! (Me fode) Aaah... Esperei a noite toda por isso... por favor ...
Em êxtase, Afrodite encaixava-se entre as pernas do francês enquanto deslizava as longas unhas por suas costas imprimindo sua marca, uma assinatura na carne exibida que demoraria dias a desaparecer, e quando Camus ainda se contorcia atracado aos lençóis, sentindo as costas ardidas pelos vergões que se levantavam, Afrodite iniciava uma penetração lenta e torturante, deslizando seu membro duro como rocha no interior do amado o fazendo arquejar as costas e afundar o rosto nos lençóis.
— É assim que você gosta, princesa?... Sente... Hummm... Está sentindo ele todo dentro de você? — sussurrou o pisciano ao debruçar-se sobre as costas do ruivo para lhe mordiscar os ombros.
— Aaah... Oui! Aphrodite je me sens!... Uhn... Plus! Me donner plus, papa... Aaah... baise moi jusqu'à ce que j'oublie mon nom, mon amour! (Sim, Afrodite, eu estou sentindo. Mais! Dê-me mais... me fode até que eu me esqueça do meu próprio nome, meu amor.)
Camus gemia enlouquecido.
Enquanto isso, no salão do Templo de Baco a boemia rolava solta.
Já havia passado pouco mais da meia noite quando Milo de Escorpião chegou na casa desfilando seu bom humor e extravagância natos!
Caminhou pelas mesas correndo os olhos rapidamente pelo recinto à procura de certa amazona de Prata e, não a encontrando, encostou-se ao balcão do bar e pediu uma cerveja a Aldebaran, que o atendeu de pronto.
— E ai brother, quais são as novidades? — disse o grego.
— Porra cara... — respondeu o taurino já esboçando um sorriso animado — Tu num sabe da que eu soube.
— Não, num sei, conta aí que agora me deixou curioso. — Milo se remexeu animado erguendo as sobrancelhas e abrindo um sorriso que mostrava todos os dentes perfeitamente alinhados e muito brancos.
— Opa, fofoca? — de repente uma voz feminina juntou-se a eles. Era Shina, que acabar de chegar ali toda animada — Adoro! Conta aí Touro chifrudo.
— Você já tá sabendo, Shina. — disse aborrecido o taurino — Então não estraga a surpresa.
— Pelo jeito então eu sou o último a saber! Vai cara... conta logo! — pediu ansioso e sorridente o escorpiano.
— Tu num sabe quem casou. — disse o brasileiro fazendo suspense.
— Ah, essa é a fofoca? Já estou sabendo mesmo. — exclamou Ofiúco desinteressada.
— Mas eu não tô sabendo. Vai, fala logo Deba, quem foi que juntou as escovas de dentes. — Milo ria olhando de um para o outro ansioso pela resposta.
— O Mu, truta!
— O... O Mu! Que isso, truta? — Milo exclamou em espanto, quase num grito.
— Shii... Fala baixo, porra, moleque escandaloso. — repreendeu Aldebaran — E eu te pago uma das gatinhas hoje se você descobrir com quem.
— Com quem? — Escorpião arregalou os olhos.
Nesse momento Shina soltou uma gargalhada escandalosa.
— Eu duvido você acertar Milo! — disse a amazona caindo na risada.
— Contigo que não foi, né piranha? — o grego a encarou divertido, depois voltou-se a Aldebaran — Sei lá com quem, eu nunca vi o Mu de conversinha com gatinha nenhuma, pô! Achava até que ele não gostava da fruta... Fala logo, Debão, para de ensebar.
— É e achou certo. Mu casou com o Shaka.
Satisfeito, Aldebaran assistia Milo arregalar os olhos azuis e abrir a boca tão exageradamente que podia jurar que ele estava a um passo de deslocar os maxilares, tamanho o assombro.
— Mano do céu! — exclamou o escorpiano após alguns segundos de perplexidade — Com o Shaka? Mas, justo o Shaka!... O que deu nele? Tá pagando alguma penitência?
— Ah, rapaiz, foi justamente o que perguntei para ele, mas ele disse que não. Casou porque quis, vê se pode! — respondeu Aldebaran.
— Mas, aquele maluco do Shaka não é monge? Ele não fez voto de cabaço vitalício? Além de encher nosso saco pagando de santo e... Rapaz! Não tô acreditando.
— É, pelo jeito perdeu a santidade e o cabaço. — disse Touro enquanto passava um paninho no balcão.
— Caceta cara! Esse Santuário tá mesmo uma bagunça! — Escorpião ria, agora já menos atônito — Bom, menos um solteiro na área. Eu acho isso ótimo! — afirmou Milo, pensativo.
— É... — confirmavam Touro e Shina em coro, com os mesmos olhares perdidos.
— Sobra mais mina pra nós! Se bem que, se o Mu é gay já não oferecia perigo. — disse Milo com um sorriso no rosto tomando um chute de leve na perna dado pela amiga italiana.
— Assim que se fala! — exclamou Aldebaran — Mas e você? Quais as novidades?
— Ah, Debão, só o de sempre... Trabalhando que nem mula no chão quente, levando umas mina bem marromeno pros russos, tentando achar outras mais alto nível pra trazer pro chefe... Esse então, toda hora me enfia numas missões fudidas que me toma o dia todo... Tá osso, tá osso de viver. Mas, o bom de tudo é que tô com uma graninha aqui pra gastar. Falando nisso, cadê a gostosa da Geistynha? Tá por ai dando sopa?
— Ah, Milo, chegou tarde de novo. Hoje a Geisty fez uma apresentação no palco que deixou todo mundo eriçado... — respondeu de pronto Ofiúco, já sendo interrompida pelo ansioso escorpiano.
— Que? Eu não acredito que não vi... Cheguei atrasado de novo...
— Nem fala dessa apresentação porque hoje ela tava pitel demais... Virgem Santa! — Aldebaran enxugou a testa com o paninho do balcão.
— Pois é, chegou tarde, gato. Que pena. — disse Shina — Mas, pode tirando teu pangaré da chuva porque hoje ela não atende mais ninguém.
— Ah, mano! Que vacilo! Tem certeza ou você tá de caô comigo?
— Certeza! Ela já está trancada no quarto dela. Quando o cliente da noite vai embora ela não atende mais ninguém... Nem desce mais para o salão. Ela é a joia, esqueceu? — fez a pergunta de forma debochada.
— É, tô sabendo... — respondeu dando um gole generoso na cerveja — Não se fazem mais bordeis como antigamente...
— Nem fala Milo, hoje eu estou entediada. Essa noite foi uma chatice.
— A minha está sendo bem bosta também. — respondeu num muxoxo o loiro.
— Está afim de deixar a noite mais animada? Lá no meu quarto? Eu já estou livre.
— Opa! Gostei da ideia! — Escorpião sorriu animado — Pô, mas rola um desconto pros amigos?
— Ah, por Baco, né Milo! E desde quando eu te cobro alguma coisa, seu safado? Você é meu amigo. — Shina se debruçou sobre o rapaz para cochichar em seu ouvido — Meu amigo de pinto! — deu uma risada divertida sendo acompanhada por ele.
— Falou Shinão! Nessa vida a gente tem que estar servido é de bons amigos mesmo.
— Vocês dois são dois safados mesmo, cruzes! Se merecem! — falava às gargalhadas Aldebaran enquanto esfregava o balcão úmido com o mesmo paninho.
— Mas e o patrão, não vai empombar contigo? — perguntou Milo à Shina.
— Vai nada, Milo... Ele está ocupadíssimo, vai por mim. Sem contar que já encerrei meu expediente hoje, e depois que encerro, com quem eu durmo é de interesse exclusivamente meu, não dele.
— Falou e disse!
Sorridente, os dois amigos subiam as escadas em direção ao quarto da amazona de Ofiúco.
Para eles a noite só começava.
Poucos minutos depois de Milo e Shina deixarem o bar, Shura de Capricórnio encostou-se ao balcão fazendo um sinal para Aldebaran.
— Fala Shura, o que manda? — respondeu o brasileiro sorridente e solícito.
— Uma dose de tequila e uma informação. Viu o Máscara por ai?
— Subiu com a Karina já faz um tempo. E pelo jeito o carcamano não vai descer tão cedo, ou pelo menos em condições de retomar o posto, porque os dois estavam bem animados. Levaram três garrafas de vinho junto com eles.
— Hijo de la puta! — Shura resmungou irritado, depois despejou de uma só vez a dose de tequila garganta abaixo.
— É, tu se fodeu amigo, mas ó, num fica chateado não, só quem trabalha até o último pinguço ir embora somos nós dois mesmo. — disse o Touro, e serviu outra dose de tequila ao espanhol, colocando também uma para si mesmo — Saúde parceiro. Nossa vaga nos Elísios é garantida.
Em um outro canto do salão lotado, Marin de Águia se aproximava lentamente de uma mesa quase isolada das demais. Nela, Aiolia de Leão bebida uma dose de whisky sozinho, cabisbaixo e pensativo.
A amazona se aproximou tão sutilmente que o grego só percebeu sua presença ali quando ela puxou uma cadeira e sentou-se à sua frente.
— Graças a Atena! — Aiolia sussurrou ao olhar para os olhos amendoados da garota ruiva que tanto mexia consigo — Temi que não viesse.
— Desculpe por esses trajes. — disse ela referindo ao vestido sensual com o qual estava vestida — Eu tive um problema com um... cliente... que bebeu além da conta.
— Você está linda. — disse Aiolia esticando o braço para tomar a mão da amazona nas suas, mas Marin recuou ao primeiro toque.
— Aiolia... Eu recebi o seu recado. O bilhete... — disse ela voltando a encará-lo com certa aflição — E eu...
— Por favor, Marin. Tem que dar uma chance para nós. — Leão dizia aflito.
— Eu não estou preparada. — pontuou ela de maneira firme.
— Marin...
— Um relacionamento com você agora só me deixaria ainda mais perturbada. Eu só tenho cabeça para pensar no que foi feito do meu irmão, e Saga me prometeu que iria encontrá-lo, depois... — baixou os olhos novamente —Depois, essa é minha nova realidade. Tanto a mim, quanto a você, só nos resta aceitá-la. E não quero que você se disponha de forma alguma para mudá-la e acabe se prejudicando por minha causa.
Arrastando a cadeira para trás Marin levantou-se apressada. Aiolia fez o mesmo dando a volta na mesa e segurando em seus ombros.
— Eu gosto de você Marin, e sei que gosta de mim... Nos dê uma chance!
— Por favor, não insista. Preciso ir. — disse ela resignada.
Não vendo alternativa, Aiolia deixou a Águia partir, a seguindo com os olhos melancólicos enquanto a via se embrenhar entre as pessoas no salão.
Sem mais o que fazer ou dizer, Leão deu as costas e se retirou dali, indo diretamente para seu Templo amargar a realidade a que todos ali, naquele Santuário decadente, estavam sujeitos.
***
Dicionário Afroditesco
Biba padezeira – homossexual viciado em cocaína
Cafuçu – pessoa ruim, grosseira, mal caráter, invejosa, de má índole
Colocada - drogada
Neca de Irêne - pênis de homossexual idoso
Nena – fezes
Otim – bebida alcóolica
Padê - cocaína
Picumã de equê - cabelo falso, com aplique. Peruca.
Truque – mentira, engano
