Capítulo 02 – Une nouvelle voie

Severus tinha uma promessa, uma obrigação e um plano a seguir.

Que ele cumpriria até o fim. O plano estava na obrigação e a obrigação estava na promessa, e ele não sabia mais quando exatamente tudo isso havia começado, mas ele já estava envolvido demais em tudo para saber que quando virou as costas para o corpo de Dumbledore caído da torre, aquilo era o começo, e não um fim.

O fim seria muito pior.

Mesmo o comensal Snape podia sentir aquilo naquele momento. Mesmo o frio mestre de poções Snape podia sentir sua alma se partindo, como ele tanto temeu e sabia que aconteceria, enquanto virava as costas para o corpo caído e tentava se focar em algo prático: precisavam sair dali, ele e Draco.

E foi somente a sua praticidade em se fixar em algo tão concreto que fez com que ele continuasse naquele momento. Que corresse, sem olhar para os lados: os olhos negros fixos e comprometidos demais em achar uma rota segura em meio à praça de guerra que o colégio que habitara por tanto tempo havia se tornado.

Mas nem todo o foco de Severus Snape poderia resistir aos olhos verdes.

Os olhos que o atacavam com feitiços e o encaravam em evidente ira. Raiva, revolta, ódio, fúria e necessidade de vingança. Eles não o perdoavam do passado, do presente e certamente não poderiam perdoá-lo do que teria de fazer no futuro.

Os olhos verdes nunca o perdoariam, e ele já deveria ter entendido isso. Ele não devia mais esperar perdão. Não havia perdão para homens como ele.

O que lhe restava era lutar. E ensiná-lo a lutar, pois era para isso que sua vida fora salva: para morrer no final, ele precisava sobreviver.

E Severus aceitava a fúria e o ódio se isso pudesse ser combustível para que o verde continuasse vivo, mesmo quando a vontade de matá-lo estava tão óbvia em palavras que chegavam diretamente à sua mente.

- Corra, Draco! – e seu foco estava perdido. Ele nunca fora verdadeiro, ele sabia, somente uma distração do seu verdadeiro objetivo: encarar o verde, para sempre. Mesmo que para ensiná-lo a duelar.

Mas quando a sombra se interpôs em seu caminho, bloqueando o verde, Severus percebeu que algo estava errado. Talvez tivesse subestimado a sede de sangue dos comensais, mas precisava proteger Potter.

- Não! – urrou, tentando usar da autoridade dada pelo próprio Lord a ele naquela missão para fazer valer suas vontades – Você esqueceu as suas ordens? Potter pertence ao Lord das Trevas!

Mas mal havia terminado a sentença percebeu que qualquer um recuaria frente a isso, menos o homem que estava sobre Harry.

Sua posição era muito mais de defesa do garoto contra ele do que um ataque. Não havia feitiços, somente o abraço imobilizante e o rosnar contra a ordem de se afastar. Era uma situação delicada e qualquer passo poderia disparar o gatilho irracional do lobisomem.

Talvez fosse o cheiro de sangue, o calor da luta, a frustração de ter que fugir. Severus conhecia Greyback desde a primeira guerra, e ele era somente uma fera enjaulada, incontrolável e faminta, que só deixava o campo depois de não haver mais ninguém vivo ou sob a coleira do Lord.

Severus talvez conseguisse persuadi-lo, embora isso soasse como algo quase impossível. Em qualquer outra situação, simplesmente deixaria Greyback para trás, e ele que lidasse com as consequências de seus atos.

Mas naquele momento tudo o que havia na mente de Severus Snape era o fato de que um lobisomem selvagem estava aprisionando Harry Potter.

E mesmo ele não tinha mais defesas para lidar com isso.

- GREYBACK! TEMOS ORDENS! DEIXE ESSE MENINO!

Sua voz tinha a fraqueza do desespero, e mesmo que não tivesse, sabia que o cheiro de seu medo pairava no ar, e talvez isso tenha sido o gatilho para que a ameaça fosse além, e o homem se erguesse, atirando o corpo do garoto para o alto como uma boneca frágil, enquanto saltava, derrubando Snape e agarrando o garoto ainda no ar, para em seguida correr em uma velocidade que nenhum humano poderia alcançá-lo, se afastando do castelo para dentro da mata.

Um último feitiço, lançado quase às cegas antes de um grito de frustração deixar o corpo de Snape. E o alívio de sentir a angústia da distância, cada vez maior, como resposta.

Fenrir não havia percebido o localizador. Ainda havia uma chance.

o0o

Severus sentou-se em uma pequena caverna formada pelas raízes imensas de uma das muitas árvores milenares da floresta. Fechou os olhos e esperou.

Talvez devesse dormir, possivelmente não poderia dormir por muito tempo, mas não era exatamente uma opção. Sua cabeça doía, e talvez houvesse frio, fome e cansaço, mas nada disso era relevante.

O resultado prático do feitiço rastreador em Fenrir era um incômodo constante em seu peito que lhe dizia que ele havia finalmente parado há muitas milhas ao sul, possivelmente em algum ponto do norte da França ou na Bélgica, ele não sabia bem daquele ponto, teria que se aproximar mais para ter uma localização mais exata. Talvez aparatar no norte da França, já na Europa continental, fosse suficiente para se relocalizar.

Mas nada disso poderia ser feito antes de amanhecer. Mesmo não sendo lua cheia, ele não se arriscaria a entrar em um covil de lobisomens durante a noite. Ainda que ele desejasse com todas as suas forças que não tenha sido para um covil que Greyback levara Harry. Se fosse, seus esforços talvez fossem inúteis quando conseguisse encontrá-lo.

Fechou os olhos com força, tentando não imaginar o que lobisomens estariam fazendo com Harry Potter naquele momento. Respirou fundo, tentando enumerar questões mais práticas e que poderia considerar nas horas que tinha antes do amanhecer.

Não podia sair dali. A essa hora, mesmo sem testemunhas do ocorrido, os demais professores, e talvez até o governo, já deveriam saber que ele era o possível assassino de Dumbledore. Sua fuga com Malfoy não fora exatamente discreta, principalmente sendo seguidos pelos demais comensais. Mas isso já era esperado, a única consequência súbita era que precisava se esconder por conta própria.

O plano era ter aparatado com Draco e ter se apresentado para o Lord, respondendo pelos seus atos. Não queria exatamente imaginar que tipo de enfrentamento o garoto deveria estar tendo neste momento sem ele para argumentar segundo os planos de Dumbledore.

Dumbledore tinha planos. Ele precisava sobreviver e não ser preso para que dessem certo, para que pudesse dar apoio para o que Potter estava buscando e ajudar quando o fim chegasse, seja ele qual for.

Era um plano incompleto, e agora jamais se completaria, tudo havia mudado.

Talvez Dumbledore soubesse formas de lhe passar mais informações se tudo tivesse dado certo, mas Greyback nunca estivera nos planos de Dumbledore, e agora tudo o que Snape sabia era que, para se chegar ao fim da guerra, ele possuía metade das informações, Potter outra metade, e eles precisariam se juntar e decidir o que fazer sem a ajuda de ninguém.

Assim que ele encontrasse o garoto, claro. Se o garoto ainda estivesse vivo e ele conseguisse chegar até ele vivo também, claro.

A situação estava mais complicada do que jamais previra.

Havia ainda a questão que o perturbava desde o momento em que Greyback cruzara seu caminho naquela noite: por que, afinal, ele levara Potter?

Severus poderia entender se ele o tivesse matado. Não conseguia supor qual seria sua reação se o lobisomem de fato tentasse fazer isso ali, nos jardins de Hogwarts, naquele momento, mas seria o mais racional para Greyback fazer.

Exceto talvez por Greyback não ser exatamente racional.

Mas não, ele havia enfrentado sua autoridade e o levado consigo. E esse ato, sim, continha uma racionalidade a que Snape não conseguia alcançar. Havia um motivo além do sangue e da fúria do lobisomem para que ele simplesmente fugisse de Hogwarts levando Harry Potter.

E não fora se encontrar com o Lord. Severus sabia que ele estava na mansão Malfoy, e certamente ela não ficava tão ao sul assim. O que, afinal, Greyback pretendia?

Certamente o comportamento dele também seria de conhecimento do Lord em breve e o fato de ele estar com Harry Potter não seria desconsiderado, nem como uma afronta à ordem de não tocá-lo, nem como a oferenda que isso soava ser.

Severus deixou a cabeça cair contra uma raiz, respirando fundo e tentando se concentrar. Precisava de um plano. Um plano novo, um plano seu. Precisava saber qual seria seu próximo passo após encontrar Potter.

Porque ele encontraria Potter. Vivo ou morto, no meio de um covil de lobisomens ou no fim do mundo, ele o encontraria.

Se o encontrasse vivo, teria de tirá-lo de lá, tratá-lo, pois já durante a batalha ele parecia ferido, e convencê-lo de que, apesar de ter matado Dumbledore e ter sido levemente hostil durante toda a sua vida, ele era confiável. E juntos descobririam como Dumbledore pretendia vencer aquela guerra.

Se o encontrasse morto... Estaria tudo perdido.

Seja o que for que garantiria o fim da guerra, Harry não podia estar morto antes que ele chegasse.

E ele estaria perdido.

Era sua obrigação garantir a segurança de Harry após matar Dumbledore, e o que acontecia? Permitia que um lobisomem o levasse minutos depois.

Ele precisava salvar Harry, ou teria que encontrar coragem para fazer o que não conseguiu quando Lily morreu por sua causa: terminar com tudo isso.

O sol bateu em seu rosto leve e frio, como um carinho, e Severus se colocou de pé, aparatando.

Tinha uma última missão a cumprir.

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Une nouvelle voie – Um novo caminho, em francês

NA: Antes de mais nada, uma pequena observação: francês eu sei um pouquinho mais do que africaner, pelo menos não preciso do google XD

Enfim, a fic está ganhando cores. O que vocês estão achando?

Beijos, pessoas!