Capitulo 03 – Instincts

O lugar era... selvagem.

Alguém que tivesse tido uma infância melhor que Severus e fosse talvez um pouco menos observador, poderia dizer que o local era decrépito. Certamente parecia decrépito.

Era uma clareira no meio da mata. Uma floresta parecida com a de Hogwarts, não tão velha, não tão fria, não tão mágica, mas mais densa e escura. Ficava, como previra, em algum ponto ao norte da França, perto de colinas antigas e arredondadas que começavam quando acabava a floresta, tocando a clareira.

Havia cerca de duzentos homens no grande espaço, abrigados sob as árvores, sob pequenas casas feitas de madeira ou simples cabanas arcaicas. A maior parte dormia no chão, encostados nas pedras, em torno de fogueiras que agonizavam às primeiras horas da manhã.

Severus caminhou entre os corpos, entre nus e seminus, como alguém perdido naquele ambiente. Um homem o cumprimentou com um aceno de cabeça, e ele o reconheceu de uma ação que havia feito para o Lord com Greyback. Outros tantos o encaravam e a ardência na marca negra em seu braço parecia que ficava mais latente sob os olhos dos estranhos, mas ele tinha um objetivo.

No fundo da clareira, recostada à encosta de uma das colinas, erguia-se uma casa maior. Severus podia arriscar que era mantida de pé por magia, as tábuas negras, esverdeadas de mofo em alguns pontos, fora de esquadro em outros. Era a melhor construção do lugar e ele tinha quase certeza de que, se fosse o líder, era lá que moraria.

Ele estranhou a falta de guardas ou qualquer tipo de sentinela. O silêncio da floresta e da manhã pálida o envolvia em uma tensão quase sólida. Empunhando a varinha com maior firmeza, subiu os primeiros degraus que levavam à porta, ouvindo o rangido da madeira com apreensão. Parecia ter havido algum tipo de luta ali, a porta estava caída e no primeiro aposento alguns móveis estavam virados. Havia marcas de sangue e garras pelo chão. A luz era menor ali, mas Severus não ousou fazer magia. O aposento continha três portas, mas somente uma estava entreaberta. E o rastro de sangue levava para lá.

Severus se aproximou, devagar, parando ao lado da porta tentando regularizar a respiração e verificar se havia algum sinal de estar sendo seguido. Nada. Tampouco dentro do aposento havia qualquer som. Devagar, deixou o corpo pesar contra a porta, rangendo, e entrou no que parecia ser um quarto.

Havia uma cama, e foi tudo o que a mente de Severus conseguiu registrar, porque em cima dela encontrou o que viera buscar.

Os olhos verdes estavam abertos e o encaravam, estáticos. Da boca entreaberta não havia sinal de respiração, somente um filete de sangue que corria manchando o rosto marcado por hematomas, empoçando nos lençóis. O branco do tecido se tingia de vermelho-sangue quase totalmente. O corpo do garoto estava espalhado sobre ele de forma jogada, de bruços. Suas costas possuíam arranhões fundos, o uniforme do colégio feito em tiras, e o sangue se acumulava entre suas pernas.

- Harry... – o nome deixou os lábios do homem quase como uma prece enquanto ele se ajoelhava ao seu lado, percebendo com alívio que havia pulsação, e mesmo que não fosse aparente, ele ainda respirava.

Severus começou imediatamente a prestar socorro ao garoto, verificando seu real estado, mas ainda não começara a medicá-lo quando algo o atingiu com força, fazendo-o rolar pelo chão e bater a cabeça na parede além. Tentou se erguer, mas um chute em seu abdômen o forçou a se curvar em dor, a varinha escapando entre os dedos.

Rolou para longe quando um segundo chute mirou seu rosto, apanhando a varinha no mesmo movimento, mas um soco rápido em seu rosto o desnorteou antes que pudesse reagir.

- Como chegou aqui, maldito? – a voz rosnada cheia de raiva o alertou sobre quem poderia ser seu atacante. O feitiço silencioso o atingiu e deu tempo para que Severus conseguisse se colocar de pé, se apoiando na parede e cuspindo sangue no chão.

- Estup... – Severus começou, mas o lobisomem foi mais rápido, as garras em sua garganta antes que pudesse terminar o feitiço.

Seus pés deixaram o chão conforme Greyback aumentou o aperto, erguendo-o com razoável facilidade e a varinha caiu de sua mão quando seu corpo tremeu pela falta de oxigênio.

- Harry... – a voz esganiçada saiu em meio ao aperto, que aumentou em resposta, suas mãos subindo em desespero aos pulsos de Greyback, tentando afastá-lo.

- Você tocou nele. – o chiado entre os dentes próximos demais de seu rosto o fez entender que aquilo não era aceitável.

Severus balbuciou e tentou chutá-lo, sufocando, sem conseguir qualquer efeito. As palavras do lobisomem penetravam em sua mente com tanta dificuldade quanto o oxigênio neste momento. Ele não poderia tocar Harry. O que o garoto era para Fenrir, afinal? Algum tipo de caça?

Os olhos azuis do lobo o encaravam com mais ferocidade do que os dentes a mostra e as garras fincadas em seu pescoço poderiam demonstrar. E Severus viu no fundo de sua mente a febre, o desejo, a confusão e o medo.

E finalmente entendeu.

- Ele está morrendo. – ele não sabia se havia realmente dito ou somente seus lábios se mexiam. Precisava respirar – Eu posso ajudar. – o aperto aumentou e Severus se contorceu – Eu não o quero! Quero ajudar. Ferir...

O homem o soltou e Severus desabou no chão, aspirando o ar em grandes sorvos e cuspindo sangue enquanto tentava normalizar o próprio organismo.

- Não o toque. Faça o que puder, mas se ele morrer, você morre. – a voz rouca soava um pouco mais alta do que o chiado habitual, mas ainda assim era uma ameaça latente.

- Eu vou precisar tocá-lo. – Severus disse baixo, se aproximando da cama novamente – Ou você mesmo pode medicá-lo.

O lobisomem somente se sentou ao lado da cama e os olhos azuis o fitaram em chamas frias, ao que Severus entendeu que poderia agir, mas Greyback não sairia dali.

Voltou sua atenção para o garoto, conjurando uma caixa com poções básicas. Harry havia perdido muito sangue, tinha alguns ossos quebrados e machucados por todo o corpo, mas nada muito complexo de tratar, apesar do estado grave do garoto. Não foi difícil parar o sangramento e medicá-lo, no dia seguinte ele estaria bem.

O que mais o preocupava era seu estado psicológico. Ao que parecia, ele fora arrastado até ali, violentado e estuprado. Pelo visto, por Greyback. Jogou a luz da varinha nos olhos verdes abertos e as pupilas se contraíram normalmente. Ele estava em estado de choque, nada mais grave.

Como se isso não fosse grave o suficiente.

Severus deu-lhe alguns tônicos para que não precisasse se alimentar tão cedo e o induziu a um sono artificial, os olhos verdes piscando por um momento até se fecharem de forma tranquilizadora.

O homem registrou os olhos azuis ferozes a sua frente e entendeu que não seria tão fácil tirar Harry dali. Nada seria fácil naquela situação. Talvez o caminho agora para saírem dali vivos envolvesse convencer Greyback a libertar o garoto, e isso levaria tempo. Tempo que, provavelmente, o lobisomem gastaria fazendo coisas como as que fizera naquela noite com Harry.

E o garoto não suportaria isso.

Quando derramou a última poção entre os lábios de Potter, as mãos de Snape tremiam, e ele não tinha certeza se estava fazendo a coisa certa, mas era o máximo de proteção que poderia dar ao garoto por enquanto.

- Pronto. Ele precisa ficar em repouso por 24 horas para os ossos fraturados se curarem e as feridas mais profundas fecharem.

- Ele vai ficar bem?

- Não sei como ele vai acordar. Ele está em choque...

- Eu lido com isso. – Greyback o interrompeu e Severus entendeu essa frase como uma dispensa.

- Eu preciso conversar com você.

- Eu preciso dormir. Me espere longe daqui.

- Você sabe que o Lord pode estar mandando homens para buscá-lo nesse momento, não sabe?

Os olhos azuis o encararam por alguns segundos.

- Você pode ficar na sala, mas eu não garanto sua segurança. Me dê duas horas.

Severus concordou com a cabeça e saiu, fechando a porta. Com um gesto de varinha, fez com que um banco jogado de lado ficasse novamente de pé, recostado à parede, e sentou-se, a cabeça pousada contra a madeira e os olhos fechados, mas todos os seus sentidos alertas para o que quer que acontecesse.

o0o

Fenrir não se levantou. Observou o homem sair pela porta e rosnou ao sentir o cheiro dele ainda perto demais. Mas Severus Snape era um assunto para mais tarde.

Seus olhos se voltaram para o garoto sobre a cama. Seu corpo, agora limpo e envolto em curativos, brilhava pálido sobre os lençóis sujos de sangue. Fenrir não gostava de usar magia. Gostava desse poder, mas simplesmente perdera o costume de usá-lo com frequência, ou poderia ter limpado os lençóis com algumas palavras.

Mas, no fundo, não queria. O quarto agora tinha o cheiro de Snape e de luta e de poções, mas no sangue dos lençóis ainda estava Harry.

Levantou-se, indo se sentar na beira da cama grande demais para o corpo pequeno do garoto. A mão grande do homem, ainda suja do sangue de Snape, correu a pele de seu peito. As unhas rústicas tocando-o de forma sutil. Ele era tão frágil, tão pequeno. Tão fácil de rasgar.

Ele o havia feito na noite passada. O vento nos jardins de Hogwarts trouxe um cheiro que nunca havia sentido com tanta intensidade em sua vida, e Fenrir estava preso em delírios particulares desde então. Não se lembrava ao certo o que havia feito, mas a satisfação ainda estava impregnada com o sangue nos lençóis, e mesmo naquele momento, em que se sentia cansado e o medo de perder aquilo que o corpo sobre a cama significava para ele de alguma forma ainda pulsava em suas veias, ele sentia impulsos de consumi-lo por inteiro.

Deitou-se ao seu lado, puxando-o o máximo contra seu corpo, sentindo-o quase frio contra sua pele quente. Afundou o rosto em meio aos cabelos negros e aspirou novamente, fechando os olhos.

Agora conseguiria dormir.

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Instincts – Instintos, em francês.

NA: Olá, pessoas.

Finalmente Fenrir e Harry para vocês *o*

E é por esse caminho que a fic vai. Espero que estejam gostando.

Quero pedir desculpas, nesse fim de semana não vai ter Aarde, eu não consegui terminar o capítulo a tempo, mas prometo para o carnaval.

E amanhã tem Trapped!

Beijos, xuxuzes! Me digam o que estão achando!