Capítulo 04 – Promises
Os olhos negros se abriram atentos ao ouvir a porta do quarto ranger e ser fechada em seguida. Greyback passou reto por ele e o homem ficou sem saber se deveria segui-lo ou não, mas, pela sua percepção, não haviam se passado duas horas ainda. Optou por manter sua posição e, alguns minutos depois, Greyback voltou, nu e molhado, passando em silêncio por uma das outras portas, para retornar vestido por fim.
O homem pegou uma das cadeiras caídas no chão, posicionou-a bem em frente a Severus, e sentou-se imediatamente de frente a ele, o encosto da cadeira entre as pernas, e se Snape já não estivesse acostumado à sua presença, se sentiria intimidado pela postura do homem.
- Você disse que precisava falar comigo. – Greyback começou, o tom de voz mais limpo do que Severus se lembrava de já ter ouvido, mas duro – Isso não me importa.
- Eu acredito que import... – Severus foi interrompido por um rosnado e notou que o homem tinha os dentes expostos de forma ameaçadora. Optou por ficar em silêncio.
- Eu quero saber como chegou aqui. – a pergunta direta exigia claramente uma resposta.
- Lancei um feitiço rastreador em você quando deixava Hogwarts.
- E por que você fez isso?
- Porque você estava carregando Harry Potter.
- Isso não diz respeito a você. – e a afirmação deixava claro que Severus não tinha o direito de falar agora – Eu sempre soube que você era um maldito duas caras. Ao matar Dumbledore, você traiu o lado da luz, mas ao se oferecer para salvar a vida de Harry Potter você trai o lado do Lorde também. De que lado você está, afinal, Snape?
- Eu tenho razões pessoais para querer Potter vivo.
O movimento foi rápido, e Severus usou de todos os seus reflexos para se proteger. O resultado foi ter a manga das vestes retalhada e quatro cortes fundos no braço quando o erguera para impedir que as garras do lobisomem atingissem seu rosto. Fenrir estava de pé, os dentes à mostra mais uma vez, e Severus tinha certeza de que qualquer coisa daquela conversa agora ameaçava sua vida. E não era difícil descobrir qual.
- Eu não quero a ele! Não quero seu moitié! Mas eu sou responsável por ele!
- Quem disse isso? – a voz voltara a ser um chiado ameaçador, e Severus sabia que ainda não estava seguro. Qualquer autoridade se esvaia frente à fúria de Fenrir.
- A mãe dele. – disse, baixo, se arrependendo no mesmo instante ao sentir a pontada que aquele pensamento lhe provocava – Lily Evans.
Houve um momento de silêncio em que nem mesmo a respiração dos dois era perceptível na sala vazia. Depois Fenrir se abaixou, pegando novamente a cadeira que havia caído no chão, e voltou a se sentar na mesma posição, ao que Severus relaxou e se endireitou também para voltar a encará-lo.
- Eu não me importo com sua história com a sangue ruim. – Fenrir disse, e Severus estava certo ao supor que ele sabia do que se tratava. A investida do Lorde contra ele na primeira guerra ao considerar Lily uma ameaça à fidelidade de Severus não foi algo mantido exatamente em segredo – Eu ainda me incomodo de te ver perto demais de ma moitié. – havia possessividade pura em sua voz ao dizer o termo, e isso só confirmou as hipóteses mais temidas por Severus: eles estavam destinados – Você é útil e não sei o quanto prejudicaria Harry se eu te matasse. Mas quero uma garantia da sua fidelidade.
Severus fechou os olhos pesadamente. Sabia do que Greyback estava falando. Ele já havia feito isso antes, muito recentemente, mas havia muito mais certezas do que agora. Ele sequer sabia qual a dimensão do que Fenrir exigiria dele...
Mas ele não podia sair dali sem Harry, então aceitaria qualquer coisa. E disse isso para o homem sentado à sua frente com um pequeno gesto de cabeça.
Greyback se levantou, indo até a porta, e disse algumas palavras em francês, ao que um garoto se aproximou dele. Ele não parecia muito mais velho do que Harry, os cabelos de um castanho claro, quase loiro, os olhos de um azul forte, escuro, e o peito nu era bronzeado, marcado por sardas.
- Este é Louis. É um dos mais recentes no grupo, mas o único bruxo que eu tenho no momento em que eu confio. Ele vai selar o feitiço e pode ficar como companhia para ma moitié quando ele acordar. – Severus viu o rosto do garoto se iluminar em surpresa quando o termo foi dito e percebeu que aquela explicação não era somente para ele.
Fenrir colocou a mesa que ocupava o centro da sala antes da luta da noite anterior de volta em seu lugar e sentou-se no lado oposto a Severus, apoiando o cotovelo sobre a superfície. O bruxo o imitou, enlaçando as mãos dos dois, e Louis se aproximou, colocando a ponta da varinha sobre as mãos unidas.
- Você, Severus Snape, protegerá Harry Potter mesmo que custe sua vida, de qualquer um menos seu moitié.
- Protegerei.
Uma língua fina de fogo saiu da varinha e envolveu as mãos como um arame em brasa.
- E você guardará a ele de suas próprias atitudes, não vai prejudicá-lo, feri-lo, magoá-lo ou tomar qualquer atitude que o prejudique física ou moralmente.
- Guardarei.
Uma segunda língua de fogo saiu da varinha e se entrelaçou com a primeira, formando uma fina corrente luminosa.
- E você permanecerá com ele, não vai traí-lo ou ao seu moitié, permanecendo fiel aos dois, nunca os abandonando, até que seja desejo dele que o faça.
- Permanecerei.
O rosto assustado de Louis se iluminou com a luz vermelha que emanou da terceira língua de fogo que saiu da varinha, se enrolando às outras duas e envolvendo por completo as mãos, como uma serpente de fogo.
- Agora você é bem vindo à minha casa. – e Severus podia considerar o sorriso de Fenrir qualquer coisa, menos acolhedor.
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O garoto Louis o conduziu até um dos aposentos da casa de Fenrir, que era maior do que parecia por fora. Este deveria ser seu quarto, uma suíte pequena e mal mobiliada, como tudo por ali. Ele tomou um banho, cuidou da ferida no braço e conjurou roupas limpas, deixando para mais tarde a possibilidade de encontrar algo comestível ali.
Sua conversa com Greyback ainda estava longe de acabar e suas preocupações não haviam de forma alguma diminuído, ao contrário.
Quase que de forma automática, seguiu até o quarto onde sabia que encontraria Harry, mas somente se deu conta de que era também o quarto de Greyback quando abriu a porta e se deparou com o olhar duro em azul.
Por um momento se debateu se o juramento que havia acabado de fazer permitiria exigir ver como Harry estava. O arrependimento começava a tomá-lo quando concluiu que não se importava realmente, ele viria Harry.
- Sua marca está queimando? – a pergunta era simples e amena, o que surpreendeu Snape.
- Sim. Continuamente desde ontem. – ele respondeu, se lembrando que provavelmente Greyback não era marcado. Voldemort não colocaria sua marca em um lobisomem.
O homem concordou com a cabeça e seus olhos deixaram Snape, se voltando para o garoto deitado com a cabeça em seu colo.
- Eu gostaria de examiná-lo.
- Ele está bem. Deve ter acordado quando eu voltar. Converse com ele e o deixe confortável.
- Eu já fiz o juramento, Greyback, agradeceria se não se desse ao trabalho de me dar ordens. - um sorriso dúbio e ainda feroz surgiu no rosto do homem com o comentário e Snape tentou ignorá-lo, dando atenção para algo mais importante – Você vai sair?
- Era sobre isso que você queria falar comigo, não? Eu vou resolver esse problema. – e os olhos azuis voltaram a encará-lo – Isso agora é do seu interesse também, Snape. Eu recomendo que, se há algo que queira me contar, tente se lembrar enquanto eu estou fora.
Severus somente concordou com a cabeça e esperou que ele se retirasse. Mas quase que em um mesmo movimento, Louis entrou no quarto, sentando-se em uma cadeira, no canto. Era óbvio que Greyback não o deixaria sozinho com seu precioso moitié.
Severus assumiu a posição em que Fenrir estava até então, acomodando com cuidado a cabeça de Potter sobre seu colo. Com alguns feitiços, verificou que ele já estava completamente restabelecido, ainda que permanecesse inconsciente. Conjurou uma poção fortificante e deu-lhe de beber para então executar um feitiço animador, vendo os olhos verdes se abrirem molemente.
- Harry, pode me ouvir? – o garoto confirmou com a cabeça em um gesto simples – Você sabe quem eu sou? – o mesmo gesto repetido – Você sabe onde está? – o garoto negou.
Os olhos verdes estavam apagados e fitavam a parede além, sem olhar para nada em específico. Severus reconheceu o efeito da poção que lhe dera pela manhã, deveria durar pelo menos 24 horas, mas ele esperava poder ministrar outra dose antes disso. Mesmo sabendo que era exatamente esse o efeito esperado – um amortecimento dos sentidos, de forma que a dor e o impacto de tudo que acontecesse com ele não fosse de fato sentido até que pudesse lidar com tudo isso – ficou surpreso por não haver nenhuma reação maior à sua pessoa. Ou Potter estava realmente desesperado, ou ele havia exagerado na dose da poção.
E Severus tinha tanta coisa para saber em tão pouco tempo que não conseguiu evitar o pensamento de que talvez essa fosse, de fato, a forma mais fácil de fazer aquilo.
- Olhe para mim, Harry. – ele sentiu o garoto estremecer e continuar fitando a parede – Está tudo bem. – ele tentou amenizar a voz – Vai ficar tudo bem, Harry, eu só preciso que você olhe para mim.
E quando o verde encontrou o negro mais uma vez, sua mente estava completamente inerte, e Severus quase se sentiu culpado por ele mesmo ter tornado aquilo tão fácil.
Mas a culpa se misturou ao desespero ao ver no verde o que, exatamente, precisariam enfrentar, e os planos de Dumbledore começaram a fazer sentido de uma forma desesperadora. Ele entendia agora porque Albus havia dividido as responsabilidades por aquilo entre ele e Harry.
E o mínimo que poderia fazer pelo garoto era mostrar, afinal, onde estava a sua fidelidade em suas próprias lembranças, de sua mãe ao juramento que fizera a Fenrir.
Assim, talvez, quando e se ele acordasse, poderia odiá-lo um pouco menos.
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Promises – Promessas, em francês.
NA: Olá, pessoas. Tudo bem?
Antes de mais nada, queria fazer uma observação sobre esse capítulo: o conceito de moitié que eu uso aqui é o mesmo que eu apliquei em uma fic Harry/Draco minha cujo título é "Moitié". Foi uma apropriação proposital e que eu achei propícia. Quem tiver curiosidade para saber sobre as maiores implicações do que é um ser o moitié do outro, fique a vontade para ler a outra fic, eu vou desenvolver o termo de forma mais específica aqui em Moonlit. Em Moitié, como era o objetivo da fic, eu fui mais generalista.
Enfim, espero que tenham gostado do capítulo!
Beijos e até semana que vem o/
Bom carnaval!
