Capítulo 06 - Souhaite

O garoto estava nu, deitado encolhido na cama de lençóis limpos, encarando um ponto fixo da parede. A ideia de que alguém o despiu passou rapidamente pela mente de Fenrir, deixando uma trilha de fogo que foi aplacada pela consciência de que ele estava acordado.

Um lençol branco o cobria até a cintura, suas mãos estavam pousadas perto do rosto de forma quase jogada, os ombros contraídos e as pernas encolhidas lhe davam uma aparência de ser ainda menor do que era.

Fenrir sentou-se à beira da cama. O sol subia pelo céu do lado de fora, jogando uma luz suave sobre a cama, e ele podia ouvir movimento no acampamento no que supunha ser os preparativos para o que fariam na próxima noite. Deveria partir ao entardecer e ele precisava dormir para estar em sua melhor forma.

Não seria fácil fazer o que planejava, ele não tinha a ambição de pensar que seria. Mas também não lhe soava tão impossível quanto sabia que soava para Snape, por exemplo.

E ainda precisaria conversar com Snape para obter o máximo de informações antes de partir. Definitivamente precisava dormir.

Levantou-se, se despindo, e voltou à cama, se inclinando sobre o garoto até poder sentir o toque dos cabelos negros contra seu rosto. Harry não se mexeu e Fenrir interpretou isso como algo positivo. Cenas da noite anterior voltavam à sua mente junto com a sensação de tocar a pele branca e o cheiro de Harry.

Sangue. Fúria. Gritos.

Harry lutara contra ele com todas suas forças, até o fim, até o momento em que se deixou cair satisfeito sobre seu corpo e só então o viu em retalhos, o sangue se espalhando por tudo o que olhava e os olhos verdes abertos, fixos, silenciosos.

Os olhos verdes piscaram, lentos e estáticos, quando seus dedos correram os contornos do rosto jovem demais. Ele não fazia ideia da idade do garoto. Tinha uma leve noção tomando como referência as duas guerras e o que vivera desde que o Lord desaparecera, mas ainda assim era inexato. Parecia que ele havia vivido tantas eras a mais que aquele curto período de tempo que não sabia explicar como algo tão jovem e fraco o fazia se sentir tão... volúvel.

Sua mão correu pela pele delicada do pescoço e ombros. Havia cicatrizes ali. Algumas recentes, outras nem tanto. Em breve, haveria uma definitiva: sua marca em Harry. Inclinou-se, deixando os dentes passearem por aquele ponto, e a vontade de mordê-lo o fazia ofegar. Instintivamente, puxou o corpo do garoto mais contra o seu, abraçando-o, envolvendo-o. Era aterrador.

Sua mão contornou a cintura, descendo por entre as pernas, ao que Harry reagiu com uma breve oscilação em sua respiração, quebrando momentaneamente o delírio de Fenrir.

O lobisomem se inclinou sobre o rapaz, vendo que ele agora escondia o rosto contra a cama e agarrava o lençol com força, com as duas mãos, mas não parecia mais tenso do que antes de Fenrir chegar. Talvez Snape tivesse realmente conversado com ele, talvez ele simplesmente tivesse aceitado.

Não importa. A simples falta de luta e resistência por parte de Harry era o suficiente como permissão para que Fenrir fizesse... qualquer coisa. Sem precisar necessariamente feri-lo.

Não queria feri-lo. O cheiro de sangue era simplesmente demais e a ameaça de se descobrir coberto de sangue ao lado de um Harry morto o apavorava. E nada o apavorava. Ou ao menos, nada desde que fora transformado.

Ele precisava transformar Harry logo. Não era somente uma questão de colocar sua marca nele e assim evitar que qualquer outro o reclamasse. Não. Ele, Fenrir, era lobo. Mais que tudo, mais que humano, mais que bruxo, ele era lobo. E o lobo pedia por um moitié, pedia por Harry, e o fazia enlouquecer, principalmente na véspera da lua, como estavam.

Iria transformar Harry ainda naquela semana, e eles correriam juntos pela mata e acordariam nus na beira do lago e Fenrir suportaria a dor e a maldição ao máximo somente para assisti-lo se transformar.

Sua mão se moveu, sentindo e entrelaçando os pelos ásperos e grossos entre as pernas do garoto e voltou a se deitar sobre ele, sentindo-o se excitar com o toque íntimo, e afundou o rosto contra os cabelos negros, sentindo seu perfume mais uma vez enquanto o tocava, fazendo-o gemer baixinho sob seu corpo.

Ele seria um belo lobo. Provavelmente negro como a noite, e somente eles dois, Fenrir e a noite, poderiam amá-lo e tocá-lo daquela forma.

Seu corpo se arrepiou com o pensamento e, com um movimento mais brusco, puxou o quadril do garoto com força contra o seu, tomando-o mais uma vez, sentindo-o se retrair em seus braços conforme investia com mais força, seus gemidos perdidos entre os fios negros, suas mãos perdidas no corpo pequeno, fluindo para dentro dele em um êxtase que nada, em toda a sua longa existência, havia lhe dado igual.

Abriu os olhos, ofegante, e sentiu que Harry respirava agitado, as costas coladas em seu peito, mas seu rosto continuava oculto contra a cama. Suas unhas estavam cravadas em seu braço e, quando ele o soltou, havia cinco feridas sangrando no lugar, e ao se afastar de seu corpo, sêmen e sangue correram pelos lençóis.

Fenrir o olhou incerto. Harry parecia indiferente. Indiferente ao que acabara de fazer, à dor, ao sangue ou à sua própria presença ali. Quando sentou ao seu lado, tudo o que fez foi se encolher mais, os joelhos quase tocando o peito magro, as mãos ainda agarrando o lençol e o rosto escondido. Mas a respiração já estava regular e Fenrir poderia pensar que ele estava dormindo.

Em um carinho, afastou os cabelos negros, forçando-o a virar a cabeça até que pudesse olhar o verde dos olhos mortos. Quase não havia verde. A pupila dilatada, mesmo com a luz que invadia o quarto, quase conseguira esconder a cor, e não havia expressão em seu rosto.

Em um impulso, levantou da cama, sem se preocupar em se vestir, e deixou o quarto, atravessando a casa até onde o cheiro de poções e dele o levasse. Abriu a porta do pequeno laboratório improvisado de forma abrupta e parou somente para tentar localizar o homem em meio à nuvem de fumaça que envolvia todo o aposento.

- Se você pretende me agredir, eu recomendo esperar até que eu termine a poção. Não é exatamente simples e, se você consegue fazer um número tamanho de obscenidades na forma humana, vai realmente precisar dela quando se transformar.

Em dois passos, empurrava o homem fortemente contra a parede, e tudo o que ele fazia era encará-lo, resoluto.

- Se você drogá-lo novamente, eu te mato sem me importar com mais nada.

- Você não vai mais vê-lo depois dessa noite mesmo, eu não me preocuparia.

Seus pés deixaram o chão quando o aperto aumentou, junto com um rosnado baixo.

- Isso é uma ameaça?

- Não, é uma constatação. Se você pretende mesmo investir contra Voldemort, então Harry estará morto pela manhã, junto com você.

Fenrir riu e permitiu que ele voltasse ao chão, ainda que não se afastasse. O som rouco do seu riso ecoou junto com o brilho dos olhos azuis.

- Seu medo te faz desistir antes de lutar. Isso é bem típico de você, Snape. Eu vou até o fim por ele.

- Você não sabe o que está enfrentando. O que você pretende fazer? Bater na porta dele com um bando de lobos e gritar 'surpresa'?

- Ele me subestima e subestima a importância do garoto para mim. Ele não espera um ataque, e será noite de lua cheia. Ele não vai sobreviver, eu garanto.

- Ele vai, eu garanto. Tanto quanto ele sobreviveu da primeira vez. – Snape fitou o rosto feroz do lobisomem, vendo no fundo dos olhos azuis o medo por Harry – Horcrux, Fenrir – ele disse, a voz um tom mais baixo, e percebeu um leve franzir na testa do outro – Você sabe o que é isso? Ele tem sete, e uma delas é seu precioso moitié.

- Você está mentindo. Está jogando comigo como jogava com ele e com Dumbledore.

- Existe uma profecia sobre eles e você sabe disso. Você estava lá quando ele tentou saber toda a verdade, e Dumbledore contou ao garoto, e já destruiu pelo menos uma das horcruxes, e ela o matou, Fenrir! Dumbledore foi morto por uma horcrux de Voldemort! E esse era o principal motivo de ele ter me permitido fazer o que fiz naquela torre! Nem você, nem Harry, têm qualquer chance contra isso!

Havia desespero claro em sua voz, mas Snape não se importava. Há anos ele se continha em demonstrar qualquer tipo de sentimento enquanto a desesperança o engolfava, pensando que, com isso, seria útil a alguém: Lily, Dumbledore, Harry, não importa. Agora, naquela situação, a cada palavra que saía de sua boca ele via que nada tinha mais sentido. Eles estavam em um beco sem saída e não havia volta.

- Você sabe o que são? – Fenrir perguntou um momento de silêncio após a explosão inesperada de Snape – Vocês sabe, Snape?

- Não. Não todas. A maioria.

- Sabe onde estão? – Fenrir perguntou com mais ênfase.

- Algumas.

- Pode descobrir as que faltam?

Snape balançou a cabeça, desnorteado, e Fenrir voltou a pressioná-lo contra a parede.

- Eu vou destruir essa merda toda, Snape. Se ele quer matar Harry ou usar ele como um maldito objeto para guardar sua maldita alma, pode apostar, eu vou matar esse desgraçado e todas as partes que fazem parte dele!

- Até Harry? – Snape perguntou, sério.

- Eu penso nisso depois. – Fenrir vacilou, mas voltou a encarar o bruxo – Você vai me dar as informações? Voldemort quer a sua cabeça, também. – acrescentou com um sorriso dúbio.

- Sim, claro. – Snape ainda parecia atordoado, mas isso só reforçava para Fenrir a verdade de suas intenções.

- Eu vou mandar os bruxos que houver no acampamento para que te ajudem com a poção. Quando terminar, me chame, eu estarei descansando com Harry, e nós conversamos sobre as horcruxes.

Snape concordou com a cabeça e observou o homem sair do quarto se amparando contra a parede. Não tinha certeza de qual tinha sido a natureza daquela conversa, se boa ou ruim, mas a fúria de Fenrir quase conseguia fazer com que acreditasse que toda aquela loucura podia dar certo.

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Souhaite – Desejos, em francês

NA: Olá, meus queridos.

Cara, o fanfition ponto net é um cretino! Estou desde sábado tentando postar e não consigo! Mas, enfim, capítulo novinho para vocês e, se tudo der certo, sábado que vem tem mais.

O Fenrir é um querido, não é? XD

E, pelo jeito, teremos um pouco de guerra no próximo capítulo XD

Vejo vocês lá, xuxuzes! o/

Beijos e espero o comentário de vocês ^ ^