Capítulo 07 – Réveil

Harry se sentia febril. Ele estava sobre uma cama, de frente para uma parede de madeira, mas o mundo todo parecia balançar sob seu corpo. Respirar era difícil, como se algo pressionasse seu peito, mas percebeu vagamente que era somente o efeito de estar tão contraído, seus próprios braços o envolvendo com força, como se ele sentisse dor.

Ele sentia dor. Sua cabeça doía, seus olhos ardiam, seu corpo doía de cansaço ou tensão ou algo parecido. Seus braços doíam como se alguém tivesse tentado esmagá-lo em um abraço mortal, e ele tinha uma bandagem no antebraço. E a consciência da dor o fez se encolher mais, ficando em posição fetal, fechando os olhos com força e tentando somente respirar.

E então ele percebeu uma outra dor. E essa dor subiu pelo seu púbis e ventre e pela sua coluna, chegando ao peito e o fazendo arrebentar em soluços. Porque toda a dor estava ali, dentro dele. E as lembranças vieram em flashes sanguinolentos e cheiro de terra e dele.

- Calma. – uma voz suave soou próxima. Perto demais. E Harry se arrastou sobre a cama, se afastando dela por instinto, antes mesmo de abrir os olhos. E quando ele o fez, encontrou um garoto mais ou menos da sua idade lhe sorrindo, sentado na beira da cama – Eu não vou te fazer mal. Estou aqui para te ajudar. Você está bem?

Harry não respondeu. Respirou fundo, encarando o outro, e ergueu o corpo devagar, se apoiando na cama, para poder examinar o ambiente. Era um quarto, todo feito de madeira, com o chão de terra batida. Havia somente a cama, um armário precário em um canto e uma cadeira longa para duas ou três pessoas ao lado da cama, perto da única porta, tudo feito de madeira.

E o lugar todo tinha aquele cheiro. Um cheiro... animal, que o fazia pensar em suor e sangue.

Subitamente, Harry percebeu que estava nu, e puxou os lençóis cobrindo o próprio corpo, se encolhendo sentado contra a cabeceira da cama.

- Onde está o professor Snape? – perguntou, sua voz baixa e rouca. Falar doía também, e o fazia lembrar do quanto havia gritado.

- Acho que você pode me chamar de Severus, Potter. – os olhos verdes se voltaram subitamente para a porta, encontrando o homem abatido amparado contra o batente – Afinal, eu recolhi seus pedaços e te remendei e vi mais do que queria nos últimos dias, acho que isso nos dá um pouco de intimidade, além do fato de que estamos meio sozinhos por aqui.

Os olhos negros se voltaram para Louis e Harry entendeu que mesmo o garoto seguia as ordens de Greyback. Ele deu um aceno leve de cabeça e voltou a se acomodar contra a cabeceira da cama.

Severus se aproximou, tocando sua testa e depois retirando a faixa que envolvia seu braço, revelando a pele lisa, marcada por finas cicatrizes. Em seguida ele examinou os olhos, a boca e tomou o pulso de Harry.

- Onde está doendo? – perguntou, sério, a mão pousada sobre o peito nu do garoto para sentir sua respiração.

O som do riso de Harry em resposta àquela pergunta era pura amargura.

- Você pode me tirar daqui? – Harry perguntou, a voz somente um sussurro.

Severus hesitou por um momento, então se voltou para o outro garoto.

- Louis, você pode nos dar um instante, por favor?

- Não, sinto muito. – e seu olhar pedia desculpas sinceras aos dois – Se eu sair do quarto muito tempo, provavelmente ele vai saber quando voltar, ele sente essas coisas no ar, e eu posso ser punido. Mas... – ele pareceu pensar por um momento – eu não preciso contar tudo o que disserem aqui.

Severus concordou com um aceno de cabeça. Na pior das hipóteses, poderia usar legiminência para conversar com Potter. Mas enquanto ele precisasse ser acalmado, seria melhor que sua presença fosse completa ali. Se é que ele realmente confiava em sua presença.

- Potter, a situação está mais complicada do que você pode imaginar. Antes de mais nada, eu preciso saber qual é seu real estado.

- Eu tenho condições de ir para onde você quiser, desde que seja muito longe daqui. – havia uma nota clara de desespero em sua voz, mesmo que ele tentasse disfarçar isso.

- Desculpe, Harry. – e a voz de Severus pareceu se aquecer ao dizer o nome – Eu simplesmente não tenho para onde ir.

Harry concordou com um gesto de cabeça, indicando que compreendia, mas seu corpo todo tremia agora.

- O que ele quer comigo? Por que ele não me mata logo? – e agora uma raiva quase autodestrutiva se unia ao desespero em sua voz, e Severus teve que tocar seu rosto para fazê-lo voltar a olhar para ele, mas quem respondeu foi Louis.

- Ele não quer matar você! – ele parecia angustiado, fosse pelo estado de Harry, fosse pelo próprio pensamento – Você é la moitié dele! Ele morreria se te matasse!

- O que... que... Eu não me importo! Olhe o que ele fez comigo!

- Harry, calma! – Severus o empurrou quando ele tentou se erguer da cama – Se você não se acalmar, vou ter que te dopar de novo. – ele não arriscaria fazer isso, pela sua própria segurança, mas Harry não sabia e poderia ser uma ameaça válida. Ele já presenciara explosões juvenis vindas do bruxo a sua frente o suficiente para toda a vida, e não queria uma agora.

- Você concorda com isso? – Harry perguntou, acusador.

- Não! Você confia em mim? – o garoto pareceu pensar por alguns segundos, mas concordou com a cabeça, sem deixar de encará-lo – Eu não concordo, mas não posso fazer nada a respeito, você viu o juramento que Fenrir me obrigou a fazer. Eu preciso que ele fique mais... estável. E então posso pensar em alguma coisa. Mas por enquanto...

Severus não conseguiu completar. Era simplesmente muito exigir aquilo de qualquer pessoa. Mas Harry entendeu o que estava tentando dizer e não conseguiu mais encarar o rosto do homem.

- Harry... – Severus tentou, mas não sabia ao certo o que dizer.

- Meu corpo dói como se eu tivesse sido atropelado. Minha bunda dói. Eu estou cansado, acho que estou com febre, estou com fome e gostaria muito de colocar uma roupa. Quero saber o que é moitié e o que diabos isso significa, e quando o desgraçado vai voltar. Aliás, onde ele está?

- Ele foi matar Voldemort para proteger você. – havia um sorriso no canto dos lábios de Louis ao dizer isso, que só aumentou ao ver os olhos verdes se arregalarem e o encarar em descrença.

- Eu vou ver se consigo roupa e comida para você. – anunciou Severus - Trago também os medicamentos, mas acho que não está ao meu alcance te dar a dimensão do que significa ser la moitié de um lobisomem. Você poderia explicar, Louis?

- Eu posso tentar. – ele sorriu para Severus, que se levantou e saiu do quarto – Meu nome é Louis DeVille. – Harry sorriu de leve para ele – Me formei em Beauxbatons há três anos e é um grande prazer conhecer Harry Potter.

- Você é bruxo? – Harry perguntou, surpreso.

- Muitos lobisomens são. Fenrir é, eu também sou. Deve haver mais uma dúzia somente aqui no covil. Os poderes aumentam depois da transformação na mesma proporção que nossos sentidos, é muito interessante. Embora eu tenha demorado algum tempo para perceber isso. – o garoto pareceu meditar por alguns segundos – Fenrir me recolheu no grupo provavelmente porque eu era bruxo. Eu estava vagando pelas ruas com a magia descontrolada naquela época, isso deve ter chamado a atenção dele em algum momento. Dizem que aconteceu o mesmo com ele, que foi assim que ele enlouqueceu.

- Ah, que bom. Ele é louco.

- Não, não louco nesse padrão. Você só vai entender convivendo com ele, mas um dos fatores da loucura do Fenrir é que ele não se lembra de nada relacionado à sua transformação. Nem antes, nem como aconteceu, nem um período indeterminado depois. Ele é o que é, sem mais referências.

Harry abraçou os joelhos contra o peito quase em um ato defensivo.

- Não quero saber dele. O que é moitié? – perguntou diretamente em uma tentativa de objetividade.

- Há moitié para os bruxos também. Quando eu estava na escola, eu conheci a minha. Cláudia. – o nome foi acompanhado por um sorriso doce – Ela era minha paz, meu equilíbrio e minha felicidade. Nós nos apaixonamos na primeira vez que nos vimos, crescemos juntos, sabendo que um dia nos casaríamos. Tínhamos acabado de comprar nosso apartamento e estávamos juntando dinheiro para a festa quando um dia, na saída de um restaurante, o lobo nos achou.

- Fenrir transformou vocês? – Harry perguntou, angustiado.

- Não. Ele me achou semanas depois. Não sei quem me atacou, mas a intenção era nos matar, como em geral é em todo ataque natural de lobisomem. Nossos gritos chamaram a atenção de passantes e fomos levados para um hospital. Cláudia não sobreviveu. – ele hesitou por um momento, parecendo se lembrar da dor daquilo – Eu fui liberado dois dias depois, com as feridas mal curadas porque ninguém queria tocar no sangue de um lobisomem, e a receita de mata-cão nas mãos. Eu não consegui chegar em casa, minha sanidade se perdeu em algum ponto do caminho.

Ele engoliu em seco, fitando as próprias mãos por um tempo.

- Sabe, acho que esse é um dos motivos pelo qual Fenrir me designou como seu acompanhante. A dor ainda é grande demais, de forma alguma eu poderia olhar para você com qualquer tipo de atração. Tem dias que eu acordo e ainda sinto que preciso dela para respirar. Nada é mais o mesmo sem ela. Mesmo com a ampliação de sentidos que a transformação traz, tem dias que parece que nada é o suficiente, que nada tem graça. E então eu me lembro do perfume dela, do gosto da pele dela, do toque dos seus dedos em mim, daquela sensação de ser completo e todo o desejo e satisfação de simplesmente estar com ela. E isso é moitié. E é por isso que eu digo que ele não vai te matar. Você é parte dele.

- Ele quase me abriu ao meio. – Harry disse com nojo na voz, as cenas voltando novamente – Ele fez... coisas comigo como um animal! Em nenhum momento ele sequer olhou para mim para saber se eu ainda estava vivo!

- Harry, isso é o instinto! Entenda, Fenrir é talvez o lobo mais velho desse covil, talvez de toda a França, e um lobo vive no mínimo o dobro que um bruxo, um lobo bruxo vive muito. E Fenrir parece estar em seu auge. Imagine passar tanto tempo sem origem, sem equilíbrio, sem nada além do impulso de matar e de cuidar do grupo. Um grupo ao qual ele não consegue se entrosar justamente porque não tem um moitié. Ele não tem o sentido de todo. E sobre o que ele fez com você, - Louis sorriu, triste – coisas animais, como disse. Bem, ele me forçou a fazer também, e fez com outros. Principalmente nessa época de lua cheia, ele procurava por você, mesmo que não soubesse. Não sei se ele acreditava ter um moitié ainda.

- Ele não podia me procurar. – Harry disse com desprezo e incredulidade na voz.

- Ele ataca crianças e jovens, Harry. Até lobos acham isso cruel, mas é do que ele gosta. E ele escolhe homens jovens para... bem. A primeira palavra é estupro, não tem outro termo. O que vem depois não é um relacionamento. Em geral não passa de uma vez, ele nos vigia por tempo o suficiente para garantir que não causou danos, mas é isso. Alguns acham uma honra ter intimidade com o alfa, quando ele me pegou, eu não sabia o que isso significava, então resisti. Eu estava assustado demais com tudo ainda, perdido demais na minha Cláudia. E talvez pela minha reação ele tenha confiado mais em mim, também.

- Ele espera que você me conte tudo isso? – Harry perguntou, sério.

- Não sei se ele espera. Acho que não. Acho que ele espera que o bruxo que te seguiu, Snape, converse com você. Mas vou dizer para ele que eu te contei, acho justo.

Harry concordou com um gesto de cabeça, mas ficou em silêncio. Louis o examinava com o olhar, sabia que o garoto estava analisando o quanto do que ele falava era plausível, o quanto ele poderia usar contra Fenrir, no quanto ele deveria acreditar.

- Harry, você não precisa sofrer com tudo isso. Ele te machuca porque não sabe fazer de uma forma diferente, se você estiver disposto a ensinar, ele é capaz de te tratar melhor do que você imagina. E ser la moitié de alguém não significa algo só para esse alguém. Você deve sentir algo por ele também, um início de desejo, proteção, equilíbrio. Pense nisso, para além de toda a violência. E, mais importante: você não precisa destruí-lo. Machucá-lo e resistir vai ser somente uma forma de tornar ele cada vez mais agressivo e desconfiado, e de se machucar também. Se ele te matar, ele morre, mas se você agredi-lo de qualquer forma, vai sentir o impacto também, mesmo que ainda não acredite nisso. Além do mais, - Louis sorriu de uma forma quase travessa - você tem poderes sobre ele que nem imagina.

- Isso tudo se ele voltar vivo, não é mesmo? Senão, eu posso simplesmente retomar minha vida do momento em que ele me atacou. – Harry disse com raiva e Louis abriu a boca para responder, mas a porta se abriu com violência e Severus avisou em um tom urgente.

- Eles voltaram.

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Réveil – Despertar, em francês

NA: Olá, pessoas.

Eu gosto tanto desse capítulo. Para quem estava esperando a reação do Harry quando ele acordasse, bem, começa ai XD

Até semana que vem, pessoas! Espero pelo que vocês acharam!

Beijos