Capítulo 09 – I like it rough

Severus entreabriu a porta do quarto devagar. Não esperava encontrar Greyback, sabia que ele ainda estava percorrendo o acampamento verificando a matilha. Seu receio se dirigia ao outro ocupante do quarto e o estado em que o encontraria.

Harry estava sentado no banco de madeira ao lado da cama, ainda enrolado no lençol de que se apoderara quando acordou, e seu corpo estava tão encolhido que parecia haver uma força maior que o empurrava contra a parede, apesar do quarto totalmente vazio e parcialmente escuro, agora que o sol começava a se por.

Os olhos verdes estavam avermelhados, Severus não saberia dizer se por cansaço, choro ou alguma irritação. As três possibilidades lhe soavam igualmente prováveis, e isso o preocupava. Eles deixaram um ponto qualquer do chão de terra e se voltaram para ele quando entrou, mas em seguida se desviaram novamente e Harry engoliu em seco.

Severus deixou a bandeja que trazia sobre a cômoda e foi sentar-se ao lado do garoto. Não sabia exatamente o que dizer naquela situação. Não sabia se havia algo a ser dito, mas mesmo que houvesse, ele não era exatamente bom em consolar pessoas. Afastou a franja e pousou a mão sobre a cicatriz tão famosa, e tudo o que sentiu foi a temperatura do garoto levemente alta, ainda que não preocupante. Examinou seus olhos de perto e não conseguiu identificar nenhuma patologia, provavelmente ele tinha chorado.

- Eu estou bem. – a voz rouca e baixa do garoto tentou assegurá-lo pateticamente. Ele tremia levemente e tudo nele indicava que "bem" ele não estava – O que está acontecendo?

- Greyback está reorganizando o grupo. Estão cuidando dos mortos e feridos e reforçando as defesas do covil. Com as baixas que tiveram e a notícia da derrota do Lord se espalhando, estamos volúveis aqui.

- Alguma chance de aproveitarmos isso para fugir? – Harry perguntou, a voz um pouco mais alta – Eu suponho que agora você consiga pensar em algum lugar para irmos. As coisas mudaram.

- As coisas mudaram, mas eu ainda não sei o que isso significa. – Severus sentiu o peso das próprias palavras quando Harry simplesmente escondeu o rosto entre os braços ao ouvir isso – E Fenrir pode sentir seu cheiro a quilômetros de distância depois desses dias de convivência extrema. Não conseguiríamos ir muito longe.

- Podemos aparatar. Você tem sua varinha, não tem?

- Harry... – Severus respirou fundo, percebendo o desespero claro do garoto por sair dali – Se eu te tirar daqui ou te ajudar a fugir sem o consentimento do Fenrir, provavelmente o voto perpétuo me mata. – o garoto bufou e passou as mãos pelos cabelos em um gesto nervoso, voltando a esconder o rosto. Severus baixou um pouco o tom da voz, pousando uma mão no ombro do garoto – Eu morreria por você, não duvide. Mas eu prefiro fazer isso em um momento em que realmente garanta sua segurança, se não se importa.

- Eu não quero que ninguém morra por mim! – Harry levantou a cabeça, respondendo alterado, para em seguida respirar fundo e retomar aquela falsa calma que já estava afligindo Severus – Eu... Eu não... Faz o que você achar melhor.

Severus assistiu ele voltar a se encolher e fechar os olhos, apoiando a cabeça na parede. Aquela passividade o assustava, Harry Potter não era assim. Ele podia estar com medo e perdido frente à situação, mas Severus sabia que era somente uma questão de tempo até ele fazer algo absurdamente idiota e desesperado. E precisava prever isso antes que Fenrir tomasse qualquer providência que piorasse a situação do garoto.

- Voldemort. O que vai acontecer agora? – a voz de Harry interrompeu seus pensamentos.

- O corpo dele e de Nagine foram queimados. As outras horcruxes estão comigo, vou cuidar delas hoje à noite, quando a matilha sair novamente. Acabou, Harry.

O riso amargo do garoto deixou Severus alerta.

- Acabou? Então não precisava de profecia ou a morte dos meus pais ou o sacrifício do Sirius ou a maldita guerra. Era somente um maldito lobisomem ter vontade suficiente e acabar com tudo?

- Você sabe que não é assim. – a voz de Severus era reprovadora, mas os olhos verdes se voltaram duros para ele.

- É, eu sei. Quando você acha que ele vai me matar? – ele perguntou, e havia quase ferocidade em seu rosto.

- Eu não acho que você precise morrer agora, Harry. Vamos esperar e ver como fica a situação. Ele concorda com o fato de que ninguém deve te ameaçar. – aquela insegurança de não saber o que aconteceria começou a irritar Severus também. Ele veio ali para tentar acalmar o garoto, não para discutir a sua morte - Coma alguma coisa e tente descansar. Não acho que ele venha te procurar ainda hoje.

Harry pareceu que ia protestar por um momento, mas concordou com a cabeça. Severus se levantou para pegar a bandeja, indo ao outro lado do aposento, mas não chegou a alcançá-la quando a porta se abriu.

- Saia. – a ordem era evidentemente para o homem, mas os olhos azuis estavam pregados na figura encolhida contra a parede.

Severus observou Harry passar de simplesmente encolhido para tenso. Os olhos verdes o buscaram como se implorassem algo silenciosamente, tanto ele quanto Severus sabiam exatamente o que aconteceria quando ele deixasse o quarto. E o que aconteceria se ele não deixasse ficou claro quando Fenrir se voltou para ele, um som semelhante a um rosnado baixo soando entre os dentes aparentes. E a porta batida com força quando Severus finalmente estava do lado de fora.

Agora Harry estava sozinho. E ele não podia fazer nada quanto a isso.

o0o

A barra do lençol branco caia pelo chão de terra, subindo em um tom de poeira vermelha até a borda do banco. Os pés pequenos estavam sujos também, mais do que o lençol, e havia pequenos arranhões na pele branca. Mas era tudo o que havia a mostra, o lençol branco retornava na altura do tornozelo, cobrindo as pernas dobradas juntas. O tecido leve contornava suas formas, e Fenrir quase podia sentir a textura da pele sob suas mãos conforme seus olhos subiam, acariciando-o.

Os joelhos estavam pressionados contra o peito, as mãos juntas, apertando com força o lençol, mantendo-o fechado em volta do tórax reto. E mesmo assim a visão da pele branca e limpa na altura dos ombros, em volta do pescoço, era linda. O rosto magro, um pouco mais moreno, a pele mais delicada, o contraste do branco com o negro dos cabelos revoltos, o verde fixo nele.

- Pare com isso. – a voz tremia. Como Fenrir podia ver o corpo tremer e a respiração ficar mais agitada a cada segundo.

E era delicioso aquele poder de perturbar. A primeira reação que Harry tivera a ele, naquela primeira noite, foi o desespero e a luta. Rejeição. E Fenrir não poderia culpá-lo, Harry não teria sido tratado muito diferente se tivesse lutado diretamente com o lobo. E isso quase matou a ambos. Na segunda vez, a raiva deu lugar à indiferença, a falta total de reação, a não-expressão. Fenrir preferiria mil vezes que ele lutasse e gritasse do que aquela ausência.

E agora ele não sabia o que via, mas havia algo. Havia cheiro de medo no ar, e toda aquela postura indicava defesa, mas não era só isso. Ele o olhava, e seu olhar parecia queimar. Era um desafio a dar o próximo passo, a chegar mais perto.

Ele riu.

- Por quê? – e ele quase pôde ver todo o corpo a sua frente se arrepiar ao som da sua voz. Não importava realmente se de medo ou qualquer outra coisa. Harry Potter reagia a ele, à sua presença, e isso era o importante.

Fenrir deu um passo em direção ao garoto, e como reação imediata, ele se ergueu, ágil, correndo para a outra parede, ao lado da cama. Os olhos azuis seguiram os verdes em direção à janela. Era uma saída possível, já que Fenrir estava entre ele e a porta, mas havia a cama no caminho, e até que o garoto a pulasse, o lobisomem já o teria alcançado.

Ambos sabiam disso.

- Você me insulta ao pensar em fugir de mim, ma moitié. – sua voz era baixa e rouca e a cada palavra a respiração de Harry ficava mais agitada. Fenrir deu outro passo em sua direção, devagar, como se não quisesse assustá-lo, mas o tremor no corpo do garoto e a aflição evidente em seu rosto somente aumentavam com o caminhar que acompanhava suas palavras – Aqui você está seguro. Tem tudo o que precisa. Você está com medo por quê?

- Você tentou me matar. – Harry respondeu entre dentes, os olhos voando da porta para a janela continuamente, evitando o rosto de Greyback cada vez mais próximo.

Fenrir tocou seu rosto e foi como se Harry tomasse um choque, tentando se afastar ao máximo em reação. O lobo o olhou com mais atenção. Os olhos agora fechados com força, o rosto baixo, os dedos brancos de tanta força que aplicavam para manter o lençol em torno do corpo. Sua única e frágil defesa.

- Eu não quero te machucar. – Fenrir sussurrou, os lábios seguindo a pouca distância os dedos que contornavam os traços do garoto. Ele quase podia sentir o gosto de sua pele. Ele queria sentir o gosto de sua pele.

- Me deixa sair daqui. – Harry não implorava, era quase uma ordem, mas sua voz tremia e uma lágrima correu dos olhos fechados. Ele sabia exatamente o que estava acontecendo.

Ele sentia o que estava acontecendo. E Fenrir sabia disso.

Mas ele não entendia por quê Harry estava reagindo assim. Ele não era seu prisioneiro, ele era sua moitié. Ele só precisava entender o que isso significa, e ele nunca conseguiria se não deixasse de lado todo aquele medo.

- Me dê um beijo e eu sei que não vai me pedir isso novamente. – suas palavras bateram contra os lábios de Harry, mas o garoto não abriu os olhos, virou o rosto para o outro lado, os punhos batendo contra o peito de Fenrir, quase colado ao seu, e o lençol deslizou um pouco com esse movimento, revelando seus ombros.

O lobisomem se inclinou sobre ele, beijando sua pele, a boca correndo seu peito, seus braços, seu pescoço, pressionando-o com força contra a parede.

- Não! – a voz do garoto tremia, perdida entre a respiração descompassada e o esforço para afastar o homem. E falar se mostrou um erro quando a palavra permitiu o toque dos lábios de Fenrir nos seus, e todo o controle se esvaiu quando as bocas entreabertas se tocaram em um beijo violento.

A mão de Fenrir puxou seus cabelos, fazendo-o ofegar com a dor em meio ao beijo, o que permitiu que ele ficasse mais intenso, mais fundo. Seu lábio sangrava, mas não havia a consciência disso enquanto o lobisomem parecia capaz de devorá-lo pela boca, pressionando seu corpo contra o dele com tanta força quanto as mãos que o imobilizavam, e Harry não tinha qualquer reação àquilo além de corresponder com a mesma ferocidade.

O lençol se desprendeu totalmente em meio ao atrito dos corpos e, ao perceber isso, Fenrir rosnou, abrindo a própria calça com violência, deixando-a escorregar para o chão quando ergueu Harry pelos joelhos, mantendo-o firme contra a parede enquanto investia em seu corpo em um só movimento.

O garoto gritou, virando o rosto contra a parede, como se fosse possível se afastar do homem que o invadia, a dor se diluindo em meio ao prazer conforme os movimentos aumentavam, ficando mais rápidos, a respiração de Fenrir agora ritmada com a sua, suas unhas ferindo sua perna e seu pulso, que segurava com força.

Harry gritava, mas seu corpo tremia e o calor que emanava de Fenrir parecia invadi-lo com a mesma força que o corpo do homem, se espalhando em suas veias, como um veneno que o estava matando ou o faria viver para sempre imerso e inconsciente naquele turbilhão de sensações. E então ele estava tremendo de forma incontrolável e Fenrir o beijava de novo, de uma forma quase desesperada, até que tudo acabou.

Fenrir abriu os olhos devagar sem realmente enxergar algo. Ver não era importante. Sentia o cheiro de Harry e respirava o mesmo ar que saia de seu corpo. A união perfeita. Riu, breve e ofegante, seu corpo estremecendo ao se afastar minimamente do garoto para enfim poder enxergá-lo.

Ele parecia inconsciente, os olhos fechados, o corpo abandonado em seus braços, mas engoliu em seco, suspirando, e abriu os olhos por alguns segundos, antes de voltar a fechá-los e deixar a cabeça pousar contra a parede novamente.

O homem passou os braços sob seus joelhos e seus ombros e o depositou sobre a cama, acariciando seu rosto. O observou por alguns segundos, registrando seus machucados e o filete de sangue correndo entre suas pernas, mas Harry somente se virou de costas para ele, se encolhendo no meio da cama. Não havia mais preocupação em cobrir o corpo nu.

- É lua cheia e eu preciso ir à Inglaterra amanhã. Antes do sol se por, eu volto, ma moitié. – e Fenrir Greyback não sabia ao certo o que essa promessa significaria para o menino ferido jogado em sua cama.

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I like it rough – Eu gosto disso rude, do inglês.

NA: Olá, pessoas.

Em primeiro lugar, desculpas pela demora e pela falta de respostas às reviews. Semana infernal, sério. Prometo que até a próxima postagem vai estar tudo ok.

E capítulo com título em inglês dessa vez, mas é que eu PLOTEI a fic pensando no conceito dessa música. Espero que tenham gostado!

Até, pessoas! o/