Capítulo 11 – Temps

Harry estava correndo pela floresta.

A mata era fechada, ele olhava para cima e as árvores altas se perdiam em meio à densa névoa. Seus pés tropeçavam nas raízes e afundavam nas folhas mortas que se acumulavam. Não havia trilha. Ele não sabia para onde estava indo, mas precisava continuar correndo.

- Harry.

Ele olhou para trás sem parar de correr, ofegante. A voz conhecida soava perto, mas ele não conseguia dizer de onde vinha, e não via ninguém no meio da mata. Ele não podia parar de correr. Precisava sair dali. Precisava se esconder.

Tropeçou mais uma vez, se agarrando ao tronco de uma árvore para não cair. Estava descalço e seus pés estavam cobertos de terra e pequenos machucados. Mas ele precisava continuar. Era sua única chance.

- Harry.

A voz lhe dava vontade de chorar. Ele precisava voltar, aquela pessoa precisava dele, ele precisava saber quem era, mas precisava continuar, precisava correr, não podia parar.

O vento movia as brumas em volta de seu corpo e ele ofegava, cansado, sua respiração se consolidando no ar frio que o rodeava, ele estava nu e seus cabelos pingavam orvalho e suor. Ele precisava de ajuda.

Parou, apoiando as mãos nos joelhos tentando regularizar a respiração, e então olhou à volta. O silêncio era total, quase tão denso quanto a bruma, ele via somente poucos metros a sua volta, mas tinha certeza absoluta de que não havia mais ninguém ali, mais nada além das árvores.

Ele se deixou cair aos pés de uma delas, se encolhendo contra o tronco, e imediatamente um calor o envolveu, como se a árvore o abraçasse. Era bom, confortante, e ele estava seguro. Nada poderia alcançá-lo ali, nada poderia machucá-lo. Os galhos da árvore acariciavam seu rosto e cabelos e ele estava calmo, o cansaço o dominando em meio ao calor. Ele acomodou a cabeça contra o tronco e adormeceu.

Seus dedos tocavam algo macio e ele se sentia confortável. Ele estava bem. Queria agradecer por aquilo, mas estava dormindo, não poderia falar. Acariciou aquela superfície quente e se ouviu resmungar. Uma risada baixa e rouca soou próxima e ele sentiu vontade de sorrir também. Estava confortável e não sentia vontade de sair daquele abraço, por isso somente piscou e abriu os olhos preguiçoso.

Olhos azuis o encaravam com um brilho quase divertido. Mas não havia bondade ou calma neles. Era um azul escuro, metálico, feroz, que se destacava no rosto marcado de sol e pequenas cicatrizes e no contraste com os cabelos castanhos, quase dourados. O homem sorria para ele, mas havia malícia e vitória nesse sorriso, os dentes maciços aparecendo como uma ameaça.

Harry empurrou com força o peito contra o qual estava aninhado, mas os braços de Fenrir em volta de seu corpo não permitiram que ele se afastasse.

- Calma, ma moitié. – a voz sussurrou contra seu ouvido, no mesmo tom baixo e rouco da risada.

Harry fechou os olhos com força, sentindo o corpo imobilizado no abraço forte do outro, sua respiração se alterou imediatamente e o medo começava a penetrar seu corpo como gelo injetado em suas veias. O calor do corpo do lobisomem o incomodava agora, fazendo-o queimar. Ele se incendiaria a qualquer momento.

Fenrir acariciou seus cabelos e beijou seu rosto antes de afundar o rosto em seu pescoço, aspirando seu cheiro, beijando-o, puxando-o mais para perto, sua mão correndo seu corpo de forma invasiva e brusca.

- Pare! – Harry pediu, e sua voz falhava. Ele tremia tentando afastar o homem muito maior.

Fenrir se virou, deitando sobre ele, seu corpo pesando sobre o menor, em uma posição mais propícia para o que tanto desejava.

- Você pareceu gostar ontem. - Harry se debateu, tentando desalojá-lo, e Fenrir se afastou, puxando as pernas do outro em torno de sua cintura, erguendo seu quadril – Você quer isso.

- EU NÃO QUERO! – Harry se agarrou à cabeceira da cama, tentando se afastar, apesar do homem continuar segurando-o firmemente pela cintura. Era humilhante e desesperador. Ele tremia e as lágrimas corriam pelo seu rosto frente a sua incapacidade de ação contra aquilo.

E ele não sabia dizer se o que o impedia de reagir era somente a força de Fenrir. Ele simplesmente não conseguia pensar no que fazer enquanto as mãos ásperas corriam seu corpo deixando um rastro daquele calor que queimava por dentro.

Os dedos ásperos tocaram seu rosto, o corpo cobrindo o seu novamente, e Harry abriu os olhos para se deparar com uma expressão estranha no rosto do homem.

- Eu não gosto que você chore. – sua voz soava tão ameaçadora como todas as vezes, mas aquela fala tinha algo de preocupação real.

- Me solta. – Harry soluçou e conseguiu voltar a respirar ao sentir as mãos o deixarem. Se arrastou sobre a cama, se encolhendo contra a cabeceira, abraçando o próprio peito e encarando firmemente o homem que ainda o observava ajoelhado sobre a cama.

Fenrir o olhou de forma perturbadora durante longos minutos. Não havia palavras entre eles. Harry não sabia como protestar contra aquilo, o que exigir. Que ele o deixasse ir? Que ele saísse do quarto? Que ele parasse com tudo aquilo? Não tem sentido implorar para seu assassino que ele não o mate, e ele não imploraria. Os olhos azuis pareciam queimar sua pele tanto quanto os dedos ásperos e ele queria sumir dali, queria se cobrir, pois havia desejo óbvio neles.

Mesmo que algo o houvesse feito parar. E Harry não sabia se aquele olhar era realmente menos violento do que o que ele havia feito no dia anterior.

Fenrir finalmente se levantou, se vestiu e saiu do quarto, sem falar nada. Só então Harry conseguiu voltar a respirar normalmente.

o0o

- Eu preciso transformá-lo hoje. – a voz grave soou pelo ambiente como um trovão junto com o som da porta se abrindo com violência e Severus quase deixou o vidro de poção que manipulava cair de volta no cadeirão – O que você está fazendo?

- Você não vai transformar ninguém hoje à noite. – o homem disse baixo e fechou o vidro, entregando-o para Fenrir – Mata cão. Se for precisar para mais alguém, me avise.

- E por que eu tomaria a poção? Amanhã é a última noite de lua cheia, eu vou fazer o ritual hoje!

- O medalhão de Slytherin era falso. Um dos comensais descobriu a horcrux e o trocou há muitos anos. Nem Harry nem Dumbledore sabiam disso. E eu tenho razões para acreditar que a horcrux não foi destruída. Você precisa encontrá-la o mais rápido possível ou o seu precioso moitié pode ser assassinado antes mesmo que você consiga explicar para ele porque o estupra todos os dias e vai estraçalhar o corpo dele em frente de toda a matilha sob a luz da...

O golpe que o acertou interrompeu sua fala. Severus cuspiu sangue no chão e voltou a encarar o lobisomem com raiva.

- O que faço com Harry não é problema seu. Me fale da horcrux.

Severus foi até a pequena cômoda no canto do quarto e pegou o medalhão quebrado, estendendo o bilhete para Fenrir, que o leu rapidamente.

- Eu conheço essa caligrafia, é de Regulus Black, o nome dele confere com a sigla da assinatura. - Snape informou, falando baixo.

- Ele está morto.

- Sim, Voldemort ordenou sua execução por deserção, mas esse bilhete me faz acreditar que Regulus sabia que isso aconteceria e tentou se vingar antes de ser morto. Obviamente ele pensava que o Lord possuía somente uma horcrux e provavelmente não teve tempo para confirmar a eficácia da sua ousadia.

- O que isso significa?

- Dumbledore voltou para Hogwarts quase morto depois de resgatar esse medalhão. Regulus deve ter passado pelo mesmo tipo de provação e as chances de ele saber como se destrói realmente uma horcrux são poucas.

- Ele não destruiu. – Fenrir resmungou, relendo o bilhete – Onde ele escondeu?

- Sabendo que ia morrer, como sabia, e enfraquecido pelo resgate do medalhão, o mais lógico era que ele tivesse deixado para outra pessoa a tarefa de destruir a horcrux, mas um desertor não tem amigos. Eu acredito que ele deva ter guardado no local mais seguro que tinha na época: a casa da família Black.

- Que está protegida pela sua Ordem da Fênix. Você vai até lá. – Fenrir ordenou, andando agitado pela sala.

- Eu acredito que não esteja mais lá. Mundungus Fletcher vem saqueando a casa desde antes de deixar de ser a sede da Ordem. Alguém precisa passar um pente fino no mercado negro atrás do medalhão de Slytherin. Não deve ser difícil interceptar algo tão raro. – Severus observou o homem amassar o bilhete com violência – Ora, vamos, Fenrir. Você sabe como lidar com esse tipo de gente, talvez até volte antes da última lua.

O som da porta batendo com estrondo quase fez Severus Snape sorrir. Talvez tivesse acabado de conseguir um tempo precioso para Harry.

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Temps – Tempo, em francês.

NA: Oi, queridos!

Feliz páscoa! Muito chocolate na vida de vocês!

E agora as coisas parecem estar entrando em ordem por aqui e pretendo responder todas as reviews atrasadas. Me digam o que estão achando, ok? *o*

Beijos e até a próxima semana! o/