Capítulo 12 – Trahison

Seu corpo doía. Suas patas quase não tocavam o chão enquanto corria por entre as árvores. Suas veias queimavam enquanto o horizonte se alaranjava, o céu perdendo o tom de azul denso, a lua já não mais visível.

Tropeçou, rolando entre as folhas, e seu corpo se chocou violentamente contra uma das árvores. Suas costas arquearam contra o tronco e todo o ar escapou de seus pulmões. A mente lúcida demais com a poção quase enlouquecendo frente à dor da mutação dos ossos, os órgãos se contraindo, o uivo de desespero cortando o ar frio até se tornar progressivamente um grito humano.

Durante alguns segundos, tentou simplesmente respirar. O frio da manhã se condensava contra a pele quente do sangue do lobo ainda, ele estava nu, ferido e cansado, mas ainda sentia o cheiro dos bruxos que o seguiam. Usou a árvore de apoio para se levantar e continuou correndo, agora muito mais lentamente devido a sua humanidade, mas o cheiro de sangue e fogo o informava que não estava longe.

Quando conseguiu visualizar a clareira, já não corria há alguns quilômetros. Suas pernas trançavam no esforço de manter o corpo de pé, a luz do sol o cegava e o frio contra a pele nua era a única coisa que o mantinha lúcido além da dor.

Homens dormiam jogados no chão à sombra das árvores, perto de fogueiras apagadas ou dentro de barracas precárias. Ele quase sentiu falta do cheiro animal daquele lugar miserável. Era o último lugar onde queria estar e, no entanto, talvez fosse o único seguro naquele momento.

Mas o cheiro estava diferente. Havia algo... humano no ar.

O homem caiu de joelhos na terra e vomitou. Ergueu-se com a ajuda de alguém que falava com ele em francês, mas não deu atenção. Os olhos embaçados pela fraqueza tentaram focar a casa grande mais além. Era de lá que vinha o cheiro. Ele conhecia aquele cheiro.

Não podia ser.

Cambaleou até a porta e a abriu, tropeçando no degrau de entrada. Caiu de joelhos no chão e não conseguiu mais se levantar. Não podia ser. Engatinhou até a porta em frente e a empurrou com todas as suas forças, desmaiando antes que conseguisse ver qualquer coisa.

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O som dos saltos ressoava no piso de madeira do átrio do Ministério da Magia. Não havia nenhum tipo de barreira ou segurança no prédio. Os bruxos que ocupavam aquele espaço abriam caminho para o homem alto demais, forte demais, hostil demais, passar levando seu fardo diretamente ao elevador e de lá ao antigo gabinete do Ministro.

Fenrir Greyback nunca havia pisado no Ministério da Magia antes, mas conhecia o lugar de plantas dos planos dos comensais, sabia aonde ir e sabia quem encontraria. Sentados na cabeceira de uma grande mesa coberta de papéis, como resultado do fim de uma importante reunião, estavam Lucius Malfoy e Rodolphus Lestrange.

O corpo caiu com estrondo sobre os papéis, manchando os documentos com sangue, e o lobisomem conseguiu imediatamente a atenção dos dois bruxos.

- Como entrou aqui? – Lucius perguntou, assustado, fechando as portas da sala com um aceno de varinha.

- Ninguém tentou me impedir. Aparentemente, os seus aurores estão matando na rua.

- Ninguém está matando em lugar nenhum. Eles estão fazendo a segurança da população, não há fiscalização civil o suficiente no momento. E isso não te dá o direito de matar um deles.

- Ele tentou me matar, eu o matei. Aparentemente ele estava seguindo a lei. Espero que isto tenha sido um erro somente dele.

Os dois homens se entreolharam por um momento e Rodolphus convocou os documentos do homem com um feitiço silencioso.

- Ele estava responsável por um dos bairros mais violentos da cidade. O que você estava fazendo lá? – perguntou, voltando-se para Fenrir.

- Tenho meus negócios. – ele respondeu, seco – E estar lá não significa nada. Ele disse que eu não poderia estar em lugar nenhum. Eu espero que vocês tenham uma boa explicação para isto.

Ouve uma nova troca de olhares entre os dois e Lucius tentou conduzir a conversa em um tom calmo e racional.

- Fenrir, a população está apavorada. Houve ataques de inferis, gigantes e saques de duendes. Não há segurança o suficiente, todos estão passíveis de corrupção. Estamos tentando colocar ordem na sociedade! Tivemos que proibir e coibir as atividades de qualquer criatura não humana! Pela segurança dos bruxos!

- Pela segurança dos bruxos, claro. – Fenrir afirmou no mesmo tom calmo. Lucius estava cometendo o mesmo erro que impediu Voldemort de se defender – Vocês sabem qual era a legislação para lobisomens no governo anterior?

- Não podiam frequentar locais de grande concentração humana e tinham direitos legais restritos no período de lua cheia. Os menores de idade só podiam se expor ao convívio social com supervisão de um responsável não infectado.

- Sim. Era exatamente infectado a palavra que utilizavam, Rodolphus. – Fenrir encarou longamente cada um dos dois – E o que vocês fizeram?

- Basicamente ampliamos um pouco essa lei, mas é provisória, Greyback. – Lucius disse com um breve sorriso para o lobo. Ele claramente já se esquecera com quem estava falando – Nós temos um acordo, eu não me esqueci, só estou fazendo o que precisa ser feito. Não vamos mexer com o seu covil, pode estar certo disso. E obviamente você tem passe livre, se conseguiu entrar aqui. – suas palavras eram forçosamente pausadas e havia uma empatia plantada a cada pausa, como se o homem a sua frente explicasse algo óbvio a uma criança – Você pode confiar em nós, Fenrir. Não queremos um inimigo como você.

- É claro que não querem. – o lobisomem disse baixo, deixando a sala em silêncio depois disso.

O corpo do auror continuava sobre a mesa de reuniões do gabinete do ministro da magia.

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A casa não era uma mansão, mas havia algo de rico e suntuoso nela. Uma marca do tradicionalismo bruxo, da magia antiga que corria pelos brasões esculpidos nas portas de madeira barata.

Fenrir riu ao passar as mãos sobre a insígnia entrelaçada dos brasões dos Malfoy e dos Lestrange. Em geral as famílias faziam esse tipo de união com casamentos, mas, pelo visto, tempos de crise e oportunidades não exigem tanto. Eles estavam juntos nisso, e era tudo o que Fenrir precisava saber. Com contida impaciência, soou a sineta da entrada, esperando que alguém viesse recebê-lo à porta da residência dos novos líderes do país.

- Boa noite, senhor Greyback. – o elfo abriu a porta e o conduziu para dentro.

Fenrir sorriu mais ao vê-lo mancar sobre o carpete corroído enquanto o conduzia para a pequena sala de estar da casa modesta. Narcissa lia em uma poltrona junto à lareira, Draco estava polindo sua varinha e a da mãe em uma mesa no canto.

- Posso ajudar, Greyback? – Narcissa se levantou, mas Fenrir fez um sinal para que voltasse a se sentar.

- Falei com Lucius e Rodolphus agora à tarde, mas me lembrei de um outro tópico que gostaria de discutir com eles de forma mais privada. Importa-se se eu aguardar que cheguem do Ministério? – ele perguntou, a polidez das palavras quase estranha ao seu comportamento usual fazendo a mulher sorrir levemente e concordar com um gesto de cabeça.

Ela voltou a ler e Fenrir se aproximou de Draco, observando o cuidado com que manuseava as varinhas, utilizando uma poção para dar brilho na madeira e, podia supor, preservar o poder de seu cerne mágico.

- A varinha é o símbolo dos bruxos. – Fenrir começou a falar, desviando o olhar do garoto para a janela próxima, assistindo o sol se pôr no horizonte – É seu orgulho maior, a grande habilidade de canalizar a magia, controlá-la e fixar todo o seu poder em um único ponto. O domínio da natureza.

- Sim, sei disso. – Draco disse com certa arrogância – Eu estive na escola.

- Eu não. – Fenrir respondeu – E não preciso de varinha para fazer magia. Minha magia está no sangue.

- Sangue de lobisomem. A magia da maldição. – Draco disse baixo, sua voz revelando certa desconfiança frente àquela conversa inusitada.

- Aprendeu sobre lobisomens na escola também? – Fenrir perguntou, olhando-o sério, e o garoto confirmou com um aceno de cabeça – Bom, então não deve se surpreender com o que vai acontecer.

Mal acabara de falar, sua cabeça se jogou com violência para trás, um grito de dor deixando sua garganta, seu corpo se elevou, se esticando, os ossos se modificando sob a pele, os pelos dourados a cobrindo, até que um lobo gigantesco ocupou o lugar onde antes havia o homem, derrubando a mesa e pulando sobre o garoto.

Narcissa gritou, Fenrir sabia que ela estava desarmada, o desespero da mãe enchia toda a casa ao ver o sangue do filho correr entre os dentes e as garras do lobo, o corpo pequeno do garoto convulsionando sobre o chão, até que o brilho do feitiço se refletiu por todo o ambiente, atingindo em cheio o lobo.

Os dentes deixaram a carne macia de Draco quando os olhos azuis procuraram seu atacante. Rabastan estava de pé na porta da sala, seus lábios se movendo rápidos em uma série de feitiços lançados contra o lobo. Mas o couro brilhante da criatura parecia absorver a magia, e nada o impediu de saltar sobre o homem, o arrastando da sala até a entrada da casa, o sangue marcando o caminho até o corpo que ficou caído à porta quando o lobo sumiu na noite.

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Trahison – Traição, do francês.

NA: Ok, respirem.

E ai, estão gostando? XD

Vem cá, vamos conversar, pessoas:

Eu ando meio negligente com meus leitores, seja de Moonlit, seja de Trapped, que são as duas fics que eu estou postando atualmente – nem vou entrar no mérito de Aarde ou Asmodeus porque, ne, paciência, um dia elas virão -. Mas essas duas fics – Trapped e Moonlit – são importantes para mim porque são densas e eu gosto muito delas e, no caso de Moonlit, eu ainda preciso terminar de escrever.

E a vida não está deixando. Nem eu escrever, nem eu curtir as fics, acompanhando as respostas de vocês e relendo e tal.

Por isso, eu tomei a decisão de alternar a postagem delas. Em uma semana eu atualizo Moonlit, em outra Trapped. Nessa ordem, para que Trapped continue alinhada com Glass Cage, da twin, e porque Moonlit é mais longa – Trapped estaria na metade se eu postasse hoje, olha só.

Enfim, espero que entendam e nos vemos aqui daqui 15 dias, então.

Beijos.