Capítulo 13 – Possession
Severus Snape observou com atenção as mãos calejadas de Harry mergulharem mais uma vez o trapo que conseguira em uma vasilha artesanal e passá-lo sobre a pele febril de Remus Lupin.
O homem estava inconsciente desde a sua chegada intempestiva no dia anterior, e desde então o comportamento de Harry mudara completamente. Ele voltara a exigir roupas, e Louis providenciou vestes para ele, comeu por vontade própria e havia tentado alimentar Lupin também, e agora não deixava sua cabeceira, cuidando do homem com tanta dedicação que Severus poderia até acreditar que a vida do próprio Harry dependia da melhora do homem.
Ele iria melhorar, era somente exaustão. E talvez Harry realmente dependesse daquilo. A chegada de Remus era uma nova esperança, a visão de alguém realmente amigo, e algo para fazer e em que pensar além de sua própria situação. Severus não o culpava por toda aquela dedicação.
Mas começava a temer pela reação de Fenrir àquilo quando ele retornasse.
Talvez Severus devesse alertar Harry de alguma forma. Mas ele realmente não sabia como dizer para o garoto se afastar da única pessoa que conseguira despertar alguma vida nele depois de ter recobrado a consciência porque o lobisomem homicida que vinha mantendo ele cativo era... ciumento.
Severus Snape não era exatamente um especialista na natureza dos relacionamentos humanos, mas podia afirmar que aquilo que Fenrir e Harry vinham tendo não era saudável. Para nenhum dos dois. Ele conhecia o conceito de moitié e sabia que era exatamente essa a magia antiga que vinha ditando aquele relacionamento, mas Harry parecia não ter noção do que significava ser la moitié de um lobisomem. Assim como Fenrir não tinha noção do que era um relacionamento humano.
E Severus estava disposto a fazer todo o possível para ajudar Harry a sobreviver a tudo aquilo, mas se isso dependesse da sua capacidade de entender aquilo, o garoto estava perdido.
Ele suspirou, observando o sol nascer clareando aos poucos a floresta e a clareira visíveis da janela do quarto. Fenrir não iria demorar, era a última noite de lua cheia, e Remus, inconsciente, já havia voltado à forma humana há algumas horas.
- Harry, você precisa descansar. – ele tentou. Qualquer coisa que tirasse ou Harry ou Remus daquele quarto antes de Greyback chegar.
- Eu estou bem. – o garoto afirmou sem tirar os olhos do homem adormecido na cama.
- Vamos, Potter. – Severus assumiu seu tom professoral – Você quase não dormiu nas últimas 24 horas. Vá para o meu quarto, Fenrir deve estar chegando e não vai gostar de ver Remus na cama dele. Deixe que eu cuido disso.
Harry finalmente o olhou e ficou claro no brilho do verde que ele podia não estar ciente do que um Fenrir Greyback ciumento era capaz de fazer, mas sabia que estar ali, com Remus, era um desafio. E ele queria desafiar.
- Eu não vou sair daqui. – Harry afirmou, sério.
- Harry... – a voz fraca soou e o garoto voltou sua atenção para o homem na cama – O que você está fazendo aqui?
Ele estava mais consciente do que Severus esperava, apesar da sua voz soar um pouco confusa ainda. O bruxo foi até a cômoda, onde havia deixado algumas poções separadas, e escolheu uma combinação, misturando-as enquanto ouvia a conversa dos dois.
- Hey, Moony. Como está se sentindo? – Harry perguntou com quase alegria, afastando os cabelos do rosto do homem.
- Bem. Fraco. Mas é normal. A viagem foi longa e eu estava sendo seguido até a divisa da França, pelo menos.
- O que aconteceu?
Remus ficou em silêncio por um tempo e bebeu a poção que Severus lhe ofereceu, encarando o homem em confusão.
- Severus está comigo, eu confio nele. Ele esteve cuidando de você. – Harry afirmou, o que bastou para Remus engolir a poção.
- Depois que... – Remus pensou um pouco – Vocês desapareceram. Houve a morte de Dumbledore, Malfoy, vocês dois, mais alguns alunos, muita gente morreu ou sumiu naquela noite. Tudo ficou confuso. E faz somente uma semana.
- Tudo bem, Remus. Depois eu conto o que aconteceu naquela noite. O que houve com você? Como estão as coisas com quem ficou no castelo? – Harry perguntou, ansioso.
- Estávamos focados em te encontrar. O ministro direcionou toda a sua atenção nisso, mas no dia seguinte ele foi assassinado. Kingsley e Moody também. Outras pessoas começaram a desaparecer nos próximos dias. Tonks nos orientou a ficar em Hogwarts, era o lugar mais seguro, e McGonagall aceitou e ofereceu proteção a todos que a procuraram. Os Weasley estão lá e a maior parte da Ordem. Eu me afastei um pouco devido à transformação, com a mudança da lua, e não acompanhei todas as notícias. Então, ontem, um grupo de aurores foi enviado para me prender.
- Por quê? – Harry perguntou, assustado.
- Nova lei. Nenhum lobisomem pode viver em sociedade sem um responsável legal bruxo pelos seus atos, e mesmo assim há uma série de restrições. Me disseram que Lucius Malfoy, que era membro do Conselho Ministerial, assumiu o poder junto com Rodolphus Lestrange, e eles estão promovendo uma limpeza social sob as ordens de Voldemort.
- Não sob as ordens de Voldemort. – Harry falou, baixo – Mas já falo sobre isso. Então você fugiu para cá?
- Sim. Eu ficaria preso até pelo menos o fim da lua antes de encontrar um tutor e me enquadrar na lei, e eu fui encontrado dentro de Hogwarts, o fato de eu não ser partidário ao novo governo era inegável. Eu preferi fugir na esperança de Greyback se posicionar quanto a isso.
- E por que ele faria alguma coisa? – Harry perguntou com desdém.
- Ele é um alfa, Harry. – Remus respondeu, confuso – Se o grupo corre perigo, ele é responsável, e repressão do governo pode ameaçar a liderança dele e a segurança dos lobos do covil que ainda estavam na Inglaterra.
Harry ficou em silêncio, parecendo deglutir aquela informação.
- Mas você. Como você veio parar aqui?
Harry abriu a boca para responder, mas Severus o interrompeu, os olhos fixos na mata visível pela janela.
- Eu conto para ele, Harry. – sua voz soava aflita – Por favor, vá para o meu quarto. Eu não sei como ele vai reagir ao te ver com ele.
- Não pode ficar pior. Só se ele me matar de uma vez por todas. – Harry respondeu, amargo.
- Exato! Saia daqui! – Severus falou com quase desespero ao ver o homem atravessar a clareira, e não esperou resposta – Louis! – ele chamou o garoto que sabia estar por perto – Leve o Harry para o meu quarto!
- Você não pode... – Harry começou a protestar, mas o barulho da porta se abrindo com violência o interrompeu.
Os olhos de Fenrir registraram vagamente a presença de Severus e Louis no quarto, antes de avaliarem a postura de Harry, vestido, sentado à cabeceira da cama, e se fixarem em Remus, pálido, seminu, deitado na sua cama, ao lado do seu moitié.
Em um passo, Fenrir agarrou Remus pelos pés, puxando-o para fora da cama, jogando-o ao chão, e o chutou até sair do quarto. Severus e Louis correram, agarrando os braços do homem para que ele não avançasse sobre o outro, mas em segundos ele havia se livrado da distração, as unhas rasgando o peito de Remus, avançando para mordê-lo.
- Não! – Harry empurrou Remus, afastando-o de Fenrir, se colocando entre os dois, o que lhe custou quatro fundos arranhões nas costas quando o lobisomem golpeou mais uma vez.
O grito do garoto encobriu o acesso de fúria de Fenrir e ele parou subitamente, puxando Harry pelos ombros até tê-lo na altura de seu rosto.
- Você é MEU! Não ouse me desafiar! Eu não vou permitir que mais ninguém te toque! – a voz do homem era a concretização da ameaça traduzida em fúria.
Remus olhou assustado de Harry para Fenrir. O garoto estava com medo, era óbvio, mas a fala de Fenrir e o fato de ele ter simplesmente parado – e não parado para atacar outra pessoa, ao contrário, ele parecia abalado pelo ferimento que havia provocado em Harry – fizeram com que a ideia mais absurda, mas ao mesmo tempo clara naquela cena, lhe ocorresse.
- Eu não quero sua moitié! – ele declarou, erguendo as mãos e se afastando o máximo possível de Harry – Eu não vou tocá-lo. Não estava fazendo nada, Greyback! Ele estava cuidando de mim, mas isso não significa nada! Ele é seu!
- Remus, o que... – Harry começou, mas Fenrir o virou, passando os braços sobre seu peito em um gesto extremamente protetor, quase sufocante, apertando-o contra o próprio peito.
Os dentes cerrados à mostra deixavam escapar um claro rosnado direcionado a Remus, que, sem deixar de encará-lo, se arrastou até a porta, os olhos baixos e as mãos ainda erguidas em sinal de rendição, até deixar a casa.
- Não o quero, Fenrir. – ele repetiu, ficando de pé no meio da clareira – Não vou lutar por sua moitié.
E Remus não precisava mais de explicações. Sabia exatamente como e porque Harry estava ali. E sabia que não havia nada que pudesse fazer para mudar isso.
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Possession – Possessão, em francês.
NA: Eu adoro o Fenrir em mode macho copulador alfa *o*
XD
Espero que estejam gostando, pessoas!
Beijos e até dia 29 []
