Capítulo 14 – Réactions

- Remus. – o nome deixou os lábios de Harry como uma prece.

Remus não lutaria por ele.

Ele observou o amigo de seu pai abaixar devagar as mãos, parado no meio da clareira. Distante dele. O mais distante possível. Harry piscou, sem entender, e viu um leve balançar de cabeça de Remus. Ele estava desistindo. Estava desistindo dele. Ele não lutaria por Harry.

O corpo de Harry ficou solto entre os braços de Fenrir. O sentido de abandono o envolveu por inteiro. Ele estava sozinho. Severus não podia fazer nada, Remus não lutaria por ele, ninguém mais viria. Voldemort estava morto, ninguém mais precisava dele, ninguém sabia que ele estava ali.

Ele estava sozinho.

O abraço de Fenrir aumentou, como em resposta ao abandono do garoto. Harry queria gritar, mas a pressão em torno de seu corpo o sufocava. Ele queria chorar, mas sentia tanta coisa ao mesmo tempo que não achava que conseguiria. O calor do corpo de Fenrir o envolvia como no sonho, e a repulsa aumentava na mesma proporção que a sensação de não conseguir respirar.

Ele precisava sair dali.

Harry se debateu, a frustração deixando seu corpo em gritos e violência. Não importava que ele estivesse ferido, não importava que se machucasse mais, não importava se Fenrir o mataria. Ele precisava sair dali.

Mas Fenrir o soltou somente para empurrá-lo para trás de seu corpo. Harry caiu no chão com o movimento, mas se levantou rápido, tentando correr para fora. Dessa vez o empurrão o jogou contra a porta do quarto, e a visão daquele quarto, daquela cama, seu pequeno cárcere, o fez gritar mais alto.

Fenrir bloqueou sua passagem mais uma vez, segurando-o contra o peito. Harry ouvia Severus falando, talvez Remus estivesse falando também. Talvez até Louis.

Louis disse que Fenrir era louco, talvez Harry estivesse ficando louco. Ele ficaria louco se não saísse dali.

Mas então a porta do quarto estava trancada e seu último impacto fora contra o colchão macio sobre a cama. Fenrir estava falando com ele, e ele já não gritava mais, ele chorava, encolhido sobre a cama, e as mãos voltavam a tocá-lo, e ele não queria, aquilo era bom, e quente, mas ele já estava machucado demais.

Chutou a esmo, afastando as mãos, se encolhendo contra a cabeceira, o mais longe que iria. Ele não conseguia sair dali. Ele tremia e Fenrir ainda estava ali, perto demais, sempre perto demais. Ele ainda gritava e seus gritos o deixariam surdo.

Ele não queria.

E esse foi o último pensamento que teve antes de desmaiar, abraçado ao próprio corpo, trêmulo.

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Fenrir olhou o corpo pequeno imóvel.

Sabia que o garoto estava inconsciente. Aquela sensação de desespero diminuía em seu próprio peito, sendo substituída por uma preocupação quase visceral.

Ele não estava acostumado a sentir nada disso.

Olhou com mais atenção. As vestes sujas de sangue nas costas, as mãos e braços arranhados pela luta, o corpo encolhido como se mesmo naquele momento ainda temesse ser ferido, o rosto marcado pelas lágrimas.

O vento entrou pelo buraco no teto e balançou as vestes e os cabelos negros, deixando à vista a cicatriz na testa do garoto.

Os olhos azuis deixaram Harry Potter por um momento e olharam à volta. O teto do quarto havia desabado quase inteiramente. Havia madeira e folhas sobre todo o chão, móveis e cama, exceto no pequeno círculo no qual se encontrava o corpo inconsciente de Harry Potter.

Fenrir afastou a tora que pressionava suas costas e pulou o tronco maior que impedia seu caminho até o garoto, tomando-o nos braços. Ele era tão leve, tão pequeno e tão entregue.

Com mais cuidado, venceu os obstáculos até a porta, que caiu do batente mal a tocou. Parte da sala estava destruída também, e Snape, Lupin e Louis o olhavam assustados. Fenrir fez um sinal para que o seguissem e entrou no pequeno corredor que levava ao outro lado da casa. Depositou Harry sobre a cama de Severus e sentou-se ao lado dele, observando o homem se aproximar imediatamente para examinar o garoto.

- Cuide dos ferimentos dele e dê alguma coisa para acalmá-lo. – Fenrir pediu, se dirigindo a Severus em uma voz quase cansada – Deixe que ele durma o quanto achar necessário e quero que alguém fique o tempo todo com ele enquanto eu conserto a casa.

- Tente fazer um trabalho melhor antes que mate alguém. – Severus respondeu, áspero. Suas mãos tremiam enquanto ele limpava os ferimentos de Harry em visível nervosismo.

- Ele fez isso. – Fenrir disse, o encarando, e, não tendo reação do homem, acrescentou – Você duvida?

- Não. – Severus respondeu, mais calmo – Ele seria capaz de fazer. Eu já vi ele fazendo coisas piores.

- Como o que?

Não era curiosidade ou desafio o que havia na voz de Fenrir, mas Severus sentiu que aquela pergunta era realmente necessária. Ele pensou por um momento antes de responder, olhando diretamente para o homem a sua frente.

- Aos 12 anos ele matou um basilisco, aos 13 enfrentou uma centena de dementadores, aos 14 passou por dragões, esfinges e duelou com o próprio Voldemort, aos 15 ele invadiu o departamento de Mistérios do Ministério da Magia. Ele tem 16 anos, é um bruxo quase formado que estava se preparando para caçar horcruxes. Tudo isso sozinho. Você é só um lobisomem, Fenrir, devia respeitar seu moitié.

Remus riu baixo, olhando para Harry com carinho. O que lhe rendeu um olhar hostil de Fenrir.

- Você – ele apontou para o ex-professor -, coloque uma roupa e volte aqui para ficar com ele. Não pense que confio em você, e se fizer algo com ele, ninguém vai me impedir de te matar. Mas ele parece gostar de você. Quero que converse com ele quando acordar, os dois inúteis parecem não conseguir fazer isso.

- E por que você não faz? – Remus perguntou, sua voz suave, sem apresentar o desafio que aquela pergunta representava.

- E o que eu poderia dizer? – Fenrir o encarou, sério, e Remus fez um sinal afirmativo.

Um lobo como Fenrir não entendia, ele agia por seus impulsos, seus instintos, e isso não era explicável, controlável ou justificável. Ele não sabia por que estava mantendo Harry ali, por que arriscaria a própria vida e tudo o que tinha para protegê-lo, por que estava sofrendo pelo garoto estar infeliz. Ele não tinha como explicar ou se justificar com Harry se ele mesmo não compreendia suas ações.

Severus encarou Remus e a mesma compreensão se tornou clara. Ele voltou a cuidar de Harry com mais atenção, sem nervosismo. Harry ficaria bem, alguma coisa mudaria em Fenrir depois daquela demonstração de poder do garoto. Aquilo fora instinto, e era instinto que guiava o lobisomem. E ele seria capaz de respeitar Harry por aquilo.

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- Snape!

Severus se ergueu da cabeceira de Harry ao ouvir o chamado, indo encontrar Fenrir sentado ao pé de uma árvore no extremo da clareira, uma fogueira acesa ao lado. Ele parou de pé à sua frente, mas o lobisomem ainda manteve silêncio durante alguns segundos antes de se dirigir a ele.

- Ele acordou? – havia preocupação em sua voz, já não disfarçada pela hostilidade.

- Ainda não. Pela dosagem de calmante que eu dei e considerando tudo pelo que ele passou, deve acordar amanhã à tarde.

Fenrir concordou com a cabeça. Harry dormira o dia todo. Ele consertara a casa e descansara um pouco, tendo acordado quando o sol já se punha. Lupin, Snape e Louis haviam ficado o tempo todo com ele, mas agora tinha um último assunto a resolver e precisava de Snape.

- O que você usa para destruir as horcruxes?

- A espada de Gryffindor.

- Vá buscá-la.

Severus concordou e, quando voltou, Fenrir encarava o medalhão de Slytherin contra a luz do fogo.

- Estava com um contrabandista, ele comprou do Fletcher e já estava com a venda feita para uma joalheria do centro de Londres. Tive que matar o desgraçado. – ele desviou o olhar do fogo e entregou a joia para Severus – Quero ver você fazer. Como tem certeza de que funcionou?

- Você vai ver.

Ele pegou o medalhão, o apoiando sobre uma das raízes da árvore. Por um momento, a luz do fogo reluziu sobre a superfície trabalhada, as contas brilhando em verde, e Severus se lembrou dos olhos de Harry brilhando em desespero. A espada baixou no golpe final e um longo lamento subiu na noite, anunciando a destruição do pedaço de alma.

Fenrir recolheu os pedaços do medalhão do chão e os jogou no fogo, olhando as chamas avermelharem o metal por alguns segundos.

- Ainda resta uma horcrux. – ele disse, a voz pesada, e Severus sabia que ele se referia a Harry – O que acontece se não for destruída?

- Eu não sei. – Severus admitiu – No passado, pela existência das horcruxes e o fato de que o que o destituiu de corpo não era algo capaz de destruir a alma, Voldemort pôde voltar com um feitiço poderoso. Ele não chegou a se utilizar das horcruxes. Agora é diferente. – Severus pensou um pouco – A parte inicial da alma dele, que ocupava seu corpo, foi destruída pelo fogo maldito. Destruímos também todas as horcruxes, exceto a parte da alma que está em Harry. Essa parte de alma precisaria de força para se libertar e desenvolver um novo ser. Harry é forte, poderoso, íntegro. Sua alma está inteira. Enquanto ele se mantiver assim, eu não acredito que Voldemort possa se utilizar do que resta nele para voltar.

Fenrir não respondeu, ainda fitava o fogo de forma constante, a expressão tensa.

- Você cogitou a possibilidade de matá-lo? – Snape perguntou, sua voz não transparecendo a incerteza que sentia. Era isso que Dumbledore pretendia fazer, afinal.

- Nunca. – Fenrir respondeu, depois o encarou – Eu viveria com Voldemort ao meu lado, mas não seria capaz de matar ma moitié. Eu só tenho medo que isso possa machucar Harry de alguma forma.

- Eu posso pesquisar sobre, apesar de não acreditar que seja algo que já tenha sido feito antes. – ele se ofereceu e Fenrir fez um aceno, aceitando.

O silêncio os envolveu e Severus sentou-se ao seu lado, fitando o fogo como ele.

De qualquer forma, ele estaria ali para Harry se e quando qualquer coisa acontecesse.

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Réactions – reações, em francês.

NA: Olá, pessoas!

Mil perdões por não ter conseguido postar o capítulo semana passada, como prometido. Meus pais vieram me visitar e eu não conseguir parar para ligar o computador. Pensei em postar durante a semana, mas esse é um capítulo importante, o caminho de todos vai mudar a partir do que aconteceu aqui, e ele não deve ser lido às pressas, por isso aqui estamos nós.

Posto hoje também um capítulo de Trapped, é a semana dela, mas Moonlit volta semana que vem, pontualmente desta vez, fiquem tranquilos.

Espero que estejam gostando. Eu ainda não consegui parar para responder as reviews, e acho que não vou conseguir tão cedo. Eu vou fazer o seguinte: responderei às que vocês me enviarem a partir de agora, ok? Eu li todas e lembro que algumas tinham perguntas, se alguém quiser muito uma resposta, pode me escrever com um "oi, olha eu aqui, responde minha review que eu quero saber o/" que eu respondo. Desculpem por isso, pessoas. Não é desatenção, adoro o que vocês me escrevem, é só que passei por uns períodos tensos na vida e realmente não consegui retribuir esse gesto tão legal de vocês. Desculpem.

Enfim, é isso. Beijos e até semana que vem!