Capítulo 15 – Moitié

Harry se moveu levemente, gemendo e respirando fundo. Remus se levantou do lado de Severus e foi se sentar na beira da cama, examinando melhor o garoto. Ele estava acordando.

- Harry? – chamou baixinho, vendo os olhos verdes piscarem e se abrirem devagar.

Eles examinaram o ambiente e voltaram a se fechar, como se o garoto se recusasse a ver onde estava. Remus aguardou pacientemente alguma outra reação do garoto. Sua respiração continuava estável, apesar de não leve como estava enquanto dormia. Harry estava acordado, pensando, ciente de onde estava, processando o que aconteceu.

- Você está bem? – Remus perguntou, começando a temer um novo ataque de pânico.

Harry confirmou com a cabeça, o olhando levemente. Seus dedos tocaram a mão do homem apoiada sobre seu peito e ele brincou com seus dedos por alguns segundos, em silêncio. Sua pele estava fria.

- O que aconteceu? – perguntou, por fim.

- Você entrou em pânico e teve uma explosão de magia. Destruiu metade da casa. Fenrir te trouxe para o quarto de Severus.

Ao ouvir o nome do lobisomem, o rosto do garoto se fechou em uma careta e ele se virou, dando as costas para Remus.

- Eu vou deixar vocês à vontade para conversar. – Severus avisou, se levantando para sair do quarto – Se precisar de algo, estou na clareira.

- Não. - Remus o interrompeu – É melhor que você fique. - ele observou Severus erguer as sobrancelhas em desconfiança – O que eu preciso explicar para Harry é algo que vai demorar para ele absorver, não vai mudar de um dia para o outro, e ele vai precisar de toda a ajuda necessária. Fenrir parece confiar em você, por algum motivo, então você também entender melhor a situação pode ser... útil.

Severus deu de ombros e voltou a se sentar, mostrando que estava ouvindo, mas pouco disposto a participar daquela conversa. A presença de Remus havia provocado uma reação curiosa no homem: não era uma presença hostil, os dois conversaram e buscaram formas de ajudar Harry, mas Lupin estar ali significava que seus cuidados com Harry precisariam ser justificados. E talvez Harry não quisesse mais sua proximidade agora.

Remus se levantou, pegando um pouco de água e entregando para Harry, que se sentou na cama para beber.

- Você deve estar com fome. O sol logo vai se por e os lobos estão acordando, acho que posso providenciar algo para você com eles. – Harry não respondeu, somente deixou o copo vazio de lado e apoiou a cabeça na parede. Ele parecia... desamparado – Severus me contou tudo o que aconteceu.

- Você acha que eu tenho alguma chance de fugir antes que Greyback me mate? – o garoto perguntou, sério, e não havia esperanças em sua voz – Eu sei que nenhum de vocês pode me ajudar.

- Harry, você não faz ideia do que está acontecendo, não é mesmo? – Remus perguntou, surpreso com a fala do garoto.

- Eu sei que eu fui literalmente arrastado de Hogwarts até aqui, fui agredido, estuprado, mantido preso naquele quarto. Sei que Fenrir matou Voldemort e está destruindo as horcruxes dele, e Severus me mostrou que Dumbledore acreditava que eu sou uma horcrux. O que você acha que ele vai fazer? – Harry perguntou, e a raiva era a primeira emoção que Remus conseguira perceber no garoto.

- Eu tenho certeza de que ele não vai te matar, Harry. Isso é uma das coisas mais concretas para mim agora. Fenrir não matou Voldemort por causa da guerra ou pelo que for. Ele o matou por você. Porque Voldemort te perseguiria e não permitiria que você ficasse aqui, com ele. Ele terminou com a guerra e com todas as possibilidades de ameaça que você tivesse porque não quer que nada ameace você. Você é la moitié dele, Harry.

- É o que todos dizem, mas eu não vejo como isso pode significar algo diferente do fato de que ele não se importa se eu estou vivo ou morto, desde que possa me fuder mais uma vez. – Harry respondeu com amargura.

- Sexo é só uma parte dessa equação, Harry. Uma parte complicada porque Fenrir não sabe como se comportar e está machucando você, mesmo que não queira isso. – Harry fez um som de descrença e uma lágrima correu pelo seu rosto – Sério, Harry. Eu sei que o que ele fez é horrível e está te violando de muitas formas, eu não quero defender o comportamento dele, mas eu quero te mostrar que não precisa ser assim. O que você sabe sobre la moitié?

- É o feitiço que sela o casamento dos bruxos, não é?

- Não é bem isso. É o nome que os bruxos dão à harmonia da magia entre duas pessoas. É o equilíbrio do ser em relação ao outro. Encontrar a pessoa que o completa em todos os sentidos: magicamente, fisicamente, psicologicamente. La moitié é o par ideal, a pessoa que pode trazer paz, força e equilíbrio para a outra. Você e Fenrir são la moitié um do outro.

Harry o encarava firmemente, a testa vincada e a boca entreaberta, como se fosse incapaz de entender aquele conceito. Remus continuou.

- Esse equilíbrio é mais facilmente encontrado quando as pessoas já estão equilibradas. Duas pessoas em geral basta e facilita o processo, mas não é um número fechado. Há comunidades formadas por pessoas que buscam esse equilíbrio de forma conjunta. A ideia de metade, que é o significado da palavra moitié, vem dessa união de dois, mas ela passa a ideia errada de que são pessoas incompletas que se completam quando estão juntas, mas isso não é verdade. O processo é muito mais fácil quando cada um dos envolvidos consegue se compreender como ser juntamente com a sua magia de forma completa para então buscar o equilíbrio com outros.

- Mas nem sempre é isso o que acontece. – Louis começou a falar, baixinho – Infelizmente, ou felizmente, eu não sei, é muito mais comum que pessoas que tenham algum tipo de desequilíbrio, com sua vida ou sua magia, busquem uma completude na moitié. Cláudia era um aborto, ela podia sentir o fluxo da magia e fazer coisas simples, mas o fato de que ela não podia usar a magia de forma plena a perturbava, e eu sabia que minha forma de lidar com isso trazia paz para ela, ainda que não fosse algo que ela tivesse resolvido consigo mesma. Eu tinha meus problemas também. – ele parou de falar, refletindo.

- Pessoas que fazem isso, que buscam esse tipo de apoio em sua moitié, em geral vem de algum tipo de trauma, seja violência, abandono, exclusão. Ter alguém que te apoie e te complete em algo que você não consegue lidar é bom, mas nem sempre é saudável. E eu temo que seja esse o tipo de relação que você e o Fenrir estão desenvolvendo.

Harry balançou a cabeça em negação violentamente e Remus segurou seu rosto entre suas mãos, beijando sua testa para acalmá-lo.

- Escute. Não é algo terrível como você está pensando. Tudo foi muito repentino e violento para você. Não era para ser assim. Se acalme, Harry.

- Como eu posso me acalmar? Você está me dizendo que eu estou magicamente unido a um lobisomem! – Harry gritou, tentando se soltar, mas Remus o manteve parado até que ele parasse de se debater.

- Fenrir é um lobisomem em sua forma mais legítima. E, sim, é exatamente isso que está complicando tudo. Mas você não está preso a ele, Harry. Se você exigisse que ele te deixasse ir e não te procurasse nunca mais, da forma correta, ele o faria, porque não suportaria te prender infeliz. A própria consciência de que ele te faz infeliz o está ferindo neste momento e mudando a forma dele agir com você.

- Eu não estou vendo mudança nenhuma e não acredito que ele sequer me ouviria.

- Harry, em qualquer outra situação eu nunca insistiria nisso. Se eu encontrasse qualquer outra pessoa que tivesse passado pelo que você passou com ele, eu diria para ir embora. Eu ajudaria a ir embora, não importa as consequências. Mas são vocês dois, e eu estou pessoalmente assustado com o quão violento a relação de vocês ainda pode ficar, na verdade. Porque eu conheço você e conheço ele e no momento que eu percebi o que estava acontecendo, eu soube que vocês podem salvar um ao outro, especialmente no contexto em que estamos.

- Eu quero matar ele! – Harry disse entre dentes, como se simplesmente falar isso fosse um esforço.

- E por que não fez isso até agora? Você podia ter feito isso tranquilamente na última noite com se a explosão de magia que você teve fosse direcionada para ele com a raiva que você está sentindo. E eu te digo: seria completamente justificável, legítima defesa, pura e simples.

Ele observou a expressão de Harry passar da raiva a uma tristeza, e o garoto se remexeu na cama, incomodado.

- Vocês não conversaram, não é? – Remus observou o garoto, que não respondeu – Você provavelmente acha que não tem nada a dizer para ele, deve estar com medo demais depois de tudo o que aconteceu, e ele não sabe como falar com você, como lidar com você. Ele nem ao menos sabe como te tocar sem te ferir, porque essa é a natureza dele, mas se fosse somente sexo e violência, como eu sei que você pensa que é, ele teria te violentado mesmo inconsciente na noite passada. E, no entanto, ele te pegou e te trouxe para que Severus te tratasse e me deixou vir aqui conversar com você mesmo que não confie em mim.

- Ele tentou te matar!

- Porque eu sou um lobisomem, estava dentro do território dele, em uma situação de intimidade com la moitié dele. Eu entendi isso imediatamente ao ver a reação possessiva que ele teve com você quando você tentou me defender. Aquilo foi loucura, Harry.

- Ele não tinha o direito... – Harry começou, com raiva.

- Não, ele não tinha. Ele não tem. É extremamente abusivo da parte dele determinar com quem você fala ou o que você faz. Mas o lobo dentro dele diz que você estava em risco. Ele tentou te preservar de mim tanto quanto ele tentou te preservar de Voldemort, eliminando ameaças. Você o está rejeitando, demonstrando asco e medo quando ele tenta se aproximar. Você está infeliz na companhia dele. Ele sente tudo isso, seja pelos sentidos mais sensíveis do lobisomem, seja pela ligação que há entre vocês. Ele precisa de você, Harry. Precisa que você o aceite e queira ficar junto dele como ele deseja ficar junto de você. Uma criatura com a força de Fenrir destruiria o mundo para ter isso, e quanto mais você o rejeita, mais inseguro e violento ele fica. Eu acredito que ele esteja tão desesperado com a situação quanto você. E enquanto o que vocês sentirem na companhia do outro seja desespero, vocês só vão conseguir se agredir.

- Eu duvido disso. – Harry disse, ainda amargurado.

- Harry, eu sei que você está com raiva, está machucado, está com medo e se vê como vítima dessa situação toda. E repito: com razão. Não nego seu direito de se sentir assim. Mas tudo aconteceu dessa forma, súbita e violenta, justamente porque Fenrir não é uma criatura que pensa antes de agir. Eu acredito que ele mesmo ainda não racionalizou tudo isso que eu estou tentando colocar em palavras simples para você. E se ele é somente instintos e você se tornar pura raiva, vocês vão acabar se matando. Eu peço somente que você tente entender, e tente mudar a forma como as coisas estão.

- E por que eu faria isso? Eu NÃO QUERO estar aqui, Remus!

- Sim, você quer. – Remus sorriu, triste – O mesmo desejo que ele tem por você, você tem por ele. Se você conseguir se concentrar no que sente quando está com ele, por baixo de todo medo e toda a raiva, você vai encontrar paz, segurança e equilíbrio. Se ele tem essa necessidade extrema de te proteger é porque você sente uma necessidade extrema de ser protegido, e ninguém vai te oferecer isso de forma mais completa do que ele. Ele é parte da sua alma, Harry. Parte da sua magia e da sua felicidade. Você está muito assustado para admitir isso, por isso eu peço que tente, por um tempo mínimo, não pensar em fugir. Não pensar que ele está para te machucar ou te forçar a algo e tentar olhar para ele. Você vai ver isso.

- Mas se eu abaixar a guarda...

- Ele vai deixar de se sentir ameaçado e passar a olhar para você. A realmente olhar para você. A te sentir e sentir o que você precisa e o que ele pode ou não pode fazer. Vocês se encontraram literalmente no meio de uma batalha, Harry, e vocês não pararam de se atacar ou de se defender até agora. Se vocês pararem de lutar um contra o outro, vocês vão se encontrar, Harry.

- Ele vai ter me matado antes que isso aconteça. – Harry disse baixo, abraçando as pernas contra o peito.

- Todos nós ficamos assustados com o que aconteceu ontem, Harry, até ele, mesmo que ele não demonstre. Eu não acho que ele vá tentar te tocar novamente sem seu consentimento tão cedo. Ele pode te acariciar e olhar para você, mas não sexo antes que você realmente queira ou ele chegue a um novo nível de frustração. E, se não houver ameaça de você ir embora ou de te tirarem dele, isso não deve acontecer. Se acostume a ele, Harry. Se permita gostar do que ele pode te oferecer. Ninguém pode atender melhor às suas necessidades.

Harry pousou a testa sobre os joelhos e respirou fundo por um tempo.

- Eu estou com medo, Moony. – ele confessou, a voz abafada – Eu não sentia medo de lutar ou do que fosse preciso fazer para ajudar alguém. Mas isso...

- É ficar parado e deixar o cão de três cabeças te farejar, eu sei, Harry. – Remus sorriu, erguendo novamente o rosto do garoto – Mas você seria capaz de montar dragões, por isso eu acredito que vocês podem realmente dar certo. Eu te garanto que, se você demonstrar confiança, ele vai virar e pedir para você fazer cócegas na barriga dele.

Harry sorriu com a comparação e mais algumas lágrimas rolaram pelo seu rosto, mas ele concordou com a cabeça. Remus enxugou sua face e sorriu de leve para o garoto.

- Eu não posso impedir que ele aja do jeito que ele age. Eu neguei esse tipo de comportamento minha vida toda e ele me repudia por isso. Mas eu acho que posso ser uma ponte interessante entre vocês dois, se vocês me deixarem ajudar. E se ele me deixou conversar com você, é porque já entendeu isso. Então pare com os planos de fuga, Harry, Fenrir te libertou de tudo o que você poderia querer fugir justamente para que ficasse junto dele. E ele não quer te matar, eu te garanto, você é precioso demais para ele para que essa ideia sequer o alcance.

Harry sorriu, aceitando o abraço de Remus, e os dois ficaram em silêncio confortável enquanto o garoto parava de chorar. Ele não tinha certeza se aquilo iria funcionar e não se sentia seguro de nada, mas Remus era professor de defesa contra as artes das trevas, e lobisomens deviam ser sua especialidade, não é? Harry sorriu com esse pensamento e se endireitou para olhar melhor o rosto do homem que fora amigo de seu pai e que agora lhe dava conselhos.

Ele estava mais velho e mais cansado, mas sorria de volta e havia alguma serenidade em seu sorriso. Um sorriso calmo e triste. Remus também merecia um pouco de paz, afinal, a guerra não terminara somente para Harry.

- Moony, você já encontrou sua moitié?

- Sim. – o homem sorriu triste ao ver a surpresa no rosto do garoto – É um homem também. Eu convivi com ele por tempo o suficiente para achar que iria enlouquecer por não poder tocá-lo, e eu me achava um monstro por simplesmente sentir isso, então eu sei exatamente o que fez Fenrir agir dessa forma com você.

- Vocês não ficaram juntos? – Harry perguntou, preocupado com o que poderia ter acontecido com alguém tão caro para o homem.

- Não. Nós... éramos muito diferentes. Havia empecilhos demais para que ficássemos juntos. Não dependia só de nós e isso nunca vai ser possível.

- Diferentes demais? – Harry riu – Moony, seu moitié devia ser filho de um trasgo com um gigante descendente de hipogrifos. Só assim para você dizer que eu e Fenrir Greyback podemos ficar juntos e você não conseguiu.

- É quase isso, Harry. - Remus sorriu com a comparação, ciente da presença atenta de Severus no quarto, e não disse mais nada, de forma que Harry entendeu que havia muito mais nessa história.

Talvez simplesmente não fosse o momento de falar. Ou talvez se conseguisse se entender com Fenrir, Remus também poderia voltar a acreditar.

E por isso ele tentaria.

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Moitié – metade, em francês

NA: Olá, queridos.

Cara, estou triste com vocês. Eu só recebi UMA review de domingo passado até hoje ._.

Moonlit não é uma fic muito popular, eu sei, mas ela estava tendo uma média de 4 reviews por capítulo, alguns menos, outros mais, mas 4 em média. Agora UMA me deixou triste .-.

Eu sei que é fim de semestre e sei que as pessoas correm e são ocupadas e às vezes lêem correndo e tal, mas eu gosto tanto dessa fic e estou me esforçando tanto pra manter ela com postagens mesmo que minha própria vida esteja meio infernal que não ter respostas sobre o que vocês estão achando dela me desanima ._.

Enfim, espero que vocês voltem a me mimar nesses 15 dias até o próximo capítulo. Eu sinto falta de vocês []

Ah, e comecei a postar outras fics entre semana passada e essa para projetos da HD, quem quiser, dê uma olhada.

Beijos

E um beijo especial para a SamaraKiss, que foi a única que comentou o capítulo 14 []