Capítulo 16 – Ses yeux

Severus sentou-se nos degraus da casa e observou o sol se pôr ao longe entre as árvores. O covil começava a acordar, pessoas se movendo, acendendo fogueiras, cheiro de comida enchendo o ar, pequenos sons. Pequenas vidas. Ele ainda não compreendia totalmente o funcionamento daquele lugar, mas gostava de observar. Principalmente quando precisava pensar.

As coisas estavam mudando. Não havia mais guerra, não havia mais Voldemort ou Dumbledore, não havia mais lados. Havia Greyback como reminiscência de Voldemort e Harry como reminiscência de Dumbledore. E os dois estavam juntos.

E agora havia Lupin e a certeza de que ele não abandonaria o garoto. De que, por pior que Fenrir fosse, tudo era capaz de terminar bem e Harry se adaptar a tudo aquilo e ser feliz, como as palavras otimistas de Remus traduziram. Severus tinha vontade de rir. Somente um lobisomem para acreditar que um garoto de 16 anos poderia encontrar a felicidade ao lado de um louco homicida como Fenrir. E Harry estava tão desesperado que conseguiu ver lógica e sobrevida nisso. E o pior é que, talvez, com toda essa disposição dele, pudesse dar certo.

Severus passou as mãos no rosto, vendo um grupo de crianças brincando em volta de uma fogueira não muito distante. Precisava começar a pensar em si mesmo. Harry se entender e ficar bem com Fenrir lhe soava absurdo, mas era a melhor opção no momento. Qualquer alternativa a isso seria marcada por sangue e dor, principalmente por parte do garoto. Ele tinha que aceitar que, apesar de absurda, era a escolha mais prudente.

E ele ficaria ali até ter certeza de que Harry estaria bem. Mas o que havia depois? O que haveria para ele ali? O que haveria para ele fora dali? Há tempo demais ele se desacostumara a ter possibilidades, a ter tantos caminhos e escolhas. Talvez precisasse de um tempo para pensar em si mesmo antes que a hora de tomar uma decisão chegasse.

- Snape. - a voz rígida o despertou e Severus se levantou, encarando o homem que se aproximava – Lupin disse que você vai a Londres.

- Nós dois decidimos dar continuidade a educação de Harry aqui. Ele precisa se formar. Você se opõe?

- Não. Vai ser bom ele ter uma atividade. Você vai... buscar livros, é isso? - Fenrir perguntou, desconfiado.

- Sim, e comprar outras coisas de que ele vai precisar no Beco Diagonal. Quer que eu traga algo em específico?

- Sim. Quero que traga a varinha dele. E quero que veja outro assunto para mim. - e o sorriso que acompanhou essa frase alertou Severus de que não seria algo agradável.

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O barulho suave do chá sendo derramado na xícara de forma trêmula era o único som que enchia a sala da diretora de Hogwarts. Minerva McGonagall não era mulher de tremer. Severus sabia que não haveria ninguém melhor do que ela para assumir Hogwarts em um momento crítico como aquele, e ela definitivamente estava fazendo um bom trabalho.

Mas estava cansada.

- Então a guerra acabou. - ela suspirou, sentando-se do outro lado do gabinete e empurrando uma das xícaras em direção a Severus – A custa da vida de Harry.

Os olhos negros observaram o pesar evidente em seu semblante e a consciência de que não havia sequer ideia de como auxiliar o garoto.

- Eu não posso dizer aonde ele está, mas posso afirmar que ele está seguro, Minerva.

- Mas não vai voltar. Seus amigos esperam por ele. Molly está em desespero, Hermione tem tido crises de choro. Ron está prestes a abandonar o colégio para procurar pelo amigo.

- É por isso que eu vim falar com você. Ninguém deve procurá-lo. Harry Potter está morto para a sociedade bruxa. Isso não é literal, evidentemente, mas ele não vai voltar. Uma nova vida foi estipulada para ele por força dos últimos acontecimentos, e eu acredito que foi melhor assim. Vou estar ao lado dele, acredite.

A xícara pousou com violência sobre a mesa, tinindo, e Severus voltou sua atenção para a diretora de forma tensa.

- Severus, eu o respeito como bruxo e como o professor dessa escola que tive o prazer de acompanhar durante anos, mas você não pode me privar de informações dessa maneira. Eu tenho testemunhas que indicam claramente que você estava envolvido na morte de Dumbledore. Até dias atrás, antes da indefinição que está nosso governo no momento, havia a orientação de que você deveria ser entregue a aurores assim que avistado, e, no entanto, eu te concedi essa visita privada. Eu acredito que mereço saber o que está acontecendo.

- Você merece. Mas você realmente quer saber, Minerva? - Severus a observou ficar rígida na cadeira por um momento, os lábios fortemente pressionados - Você já tem trabalho demais aqui, Minerva, e eu já lhe disse mais do que posso ao revelar tudo isso. O destino de Harry não está mais nas suas mãos, não está mais nas mãos de ninguém aqui, nem mesmo nas minhas. Eu vim falar com você por respeito e para que você conseguisse evitar que algum aluno imprudente cometesse mais erros. Acredito que chega de mortes para todos nós.

Severus se levantou, fazendo um aceno para a diretora, que permaneceu em silêncio em sua cadeira.

- Obrigado pelo chá, Minerva. E obrigado por me receber. Acredito que não voltaremos a nos ver tão cedo. Posso pegar o que vim buscar aqui?

Ela acenou afirmativamente, desviando os olhos para a sua xícara enquanto ouvia o bruxo executar o feitiço convocatório e a varinha de Harry Potter saiu de um armário ao lado diretamente para as suas mãos.

- Adeus, Minerva.

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Uma vela solitária apoiada sobre a mesa de cabeceira da cama iluminava o quarto. O menor quarto que já tivera na sua vida. Seu pai havia prometido que aquela casa era somente uma transição, momentânea, que assim que conseguisse se estabilizar estariam de volta para seu lugar, seus padrões, sua vida.

Ele nunca voltaria para sua vida.

O garoto ignorou a batida na porta e a voz amena de sua mãe dizendo que tinha visitas. Não lhe interessava. Nada mais lhe interessava. Ela vinha toda manhã e cuidava de seus ferimentos que não cicatrizaram ainda e lhe dizia coisas que ele queria ouvir, mas ele sabia que nada mais seria o mesmo. Ele queria que ela se afastasse, como todos se afastaram, assim não teria medo de morrer.

- Draco.

A voz conhecida e inesperada o fez se voltar para a porta. Severus estava parado no meio do quarto, mais perto do círculo de luz do que ele, e os olhos negros refletiam aflição de uma forma como nunca vira antes em todos os seus anos de Slytherin, ou mesmo antes, quando o professor era ainda somente um amigo de seu pai visitando eventualmente sua casa.

Talvez ele não suportasse olhar para ele, como seu pai não suportava.

Draco voltou a deixar a cabeça cair contra o encosto da poltrona, olhando para a janela, e ignorou seu visitante.

Severus examinou atentamente o quarto destruído. A janela quebrada, os cacos de vidro no chão, a cama se sustentando em somente três pernas, a cortina do dossel feita em retalhos, a porta e as paredes arranhadas violentamente. Draco não tivera sua primeira lua cheia facilitada ao ser trancado naquele lugar.

- Severus veio a mando de Greyback, Draco. - Narcissa explicou, fechando a porta semidestruída às suas costas.

O garoto se levantou de forma violenta. Narcissa estava abatida, mas nada se comparava ao estado do garoto. O movimento o forçou a dobrar o corpo em dor e ele cambaleou, se apoiando na poltrona, antes de conseguir encarar o homem novamente.

- Então primeiro você me abandona para Voldemort e agora vem terminar o trabalho do lobisomem, professor. - ele disse, toda a amargura correndo em sua voz.

- Ele me mandou ver como você e Rabastan estavam. - Severus disse, sério. Era mentira.

Fenrir não tinha nenhum interesse nos dois, Severus tinha. Fenrir o havia enviado para descobrir se Lucius e Rodolphus haviam tomado alguma providência contra a lei dos lobisomens após o ataque a seus entes mais próximos. Fenrir teria ido ao ministério, matado alguém, ameaçado outras pessoas, pressionado os dois e conseguido uma meia verdade. Severus sabia que a verdade completa estaria na face de Draco e Rabastan, e não em Lucius e Rodolphus.

- Você já viu. - Draco disse, a amargura presente em cada sílaba – Já viu o que ele fez, já viu no que me tornei, já viu o que está acontecendo aqui enquanto conversava com minha mãe. Não precisava vir até aqui e me ver cair mais uma vez. Vá embora e deixe a gente em paz.

- Sente-se, ou vai piorar esse ferimento. - Severus seguiu até a mesa de cabeceira, conjurando algumas poções.

- EU NÃO ME IMPORTO! SAI DAQUI! - Draco gritou, o esforço levando seu corpo a se curvar de dor novamente, as lágrimas vindo de forma involuntária.

- Não seja idiota. - havia quase carinho na voz de Severus quando ele empurrou o garoto de volta para a poltrona, derramando entre seus lábios as poções que poderiam curar os últimos vestígios do ataque de Fenrir e da lua cheia.

Mas ele continuaria sendo um lobisomem.

- Ele vai ficar bem? - Narcissa perguntou, insegura, ao ver o filho se encolher na poltrona novamente.

- Ele vai se curar, mas eu duvido muito que ele vá ficar bem. Como Lucius está reagindo a isso? - Severus ouviu o garoto soluçar mais alto ao ouvi-lo citar o pai.

- Ele ainda não compreendeu a profundidade da situação. - Narcissa respondeu com um sorriso triste – Nós precisamos conversar melhor, foi tudo muito recente, ele não está sabendo como reagir.

- Ele sabe perfeitamente como reagir. - a voz seca entrou no quarto na forma sombria de Rabastan – Pode me ajudar também, Severus?

O homem concordou e o mais novo dos Lestrange caminhou mancando até a cama bamba, retirando a parte de cima das vestes para que Severus pudesse curar a ferida em seu pescoço e ombros. Um silêncio tenso caiu no quarto enquanto o homem trabalhava, pontuado pelo choro baixo de Draco e os passos agitados que revelavam a tensão de Narcissa.

- O que Fenrir pode nos oferecer? - Rabastan perguntou objetivamente, ainda deitado.

Os olhos negros encararam os castanhos por algum momento. Rabastan estava tomando uma decisão. Uma decisão que nem Lucius, nem Rodolphus, nem Narcissa, nem Draco – nem mesmo Severus ou Fenrir – haviam sequer cogitado ainda: ele queria se unir ao covil. Era uma decisão súbita e desesperada, Severus sabia pelo pouco que conhecia das tradições bruxas.

Eles eram criaturas agora, Rabastan e Draco. E isso tirava todos os direitos de herdeiros, pelas tradições, ou de bruxos, pelas novas leis do Ministério. E, se Rabastan, um puro sangue tradicionalista que havia lutado ao lado de Voldemort por seus valores, estava cogitando abandonar tudo isso e se unir a um bando de lobos, assumindo sua condição de criatura, significava que nem as tradições nem as leis eram passíveis de mudanças.

- Eu não posso responder por Fenrir. - Severus assumiu – Não sei como serão recebidos. Mas se ele os transformou, acho que tem um motivo, fosse afastá-los da sociedade, fosse afastá-los da família de vocês. Ir até ele só vai reforçar esse motivo. E ele é um Alfa, não vai negar proteção se a devida lealdade for oferecida.

- Eu vou tentar falar com Rodolphus.

- E eu com Lucius. - Narcissa o interrompeu, mas Rabastan continuou.

- Se eles não voltarem atrás, antes da próxima lua cheia, vou até Greyback. Não vou passar o resto da minha vida trancado como um animal.

E a determinação em seus olhos convenceu Severus de que, se isso não dobrasse o Ministério, nada mais dobraria. E, de qualquer forma, Fenrir teria alcançado seus objetivos.

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Sesyeux - Seus olhos, em francês

NA: Olá, pessoas!

Vocês são uns sem vergonha, mas me fizeram TÃO FELIZ no último capítulo.

Eu espero ter respondido as milhares de reviews que vocês me mandaram lindamente, mas não sei se foram todas, porque o site tava trocando o sistema e está dando erro até agora.

Mas MUITO MUITO MUITO OBRIGADA. Sério, pela primeira vez eu tive real ideia da aceitação e do volume de leitores que Moonlit tem, e eu realmente não esperava tanto. Me surpreendeu de uma forma muito boa. Muito obrigada.

E esse é um capítulo de transição. Espero que ele faça vocês pensarem por um bom tempo XD Capítulo que vem, voltamos para o covil e o Harry XD

Beijos e até o próximo!