Capítulo 17 – Enclore

Os olhos verdes se levantaram do livro assim que a porta se abriu e Harry ficou tenso no banco em que estava sentado.

Fenrir não pediu licença para entrar, somente entrou e fechou a porta. Também não pediu que Louis e Remus saissem do quarto, o que deixava Harry um pouco mais calmo, mas não muito: o lobo não se impediria de fazer qualquer coisa com ele só porque tinha testemunhas.

- Bon soir, ma moitié. - ele disse, se aproximando.

Harry não entendeu, mas não lhe soou hostil. Ele tentava por tudo no mundo não se encolher mais a cada passo que o lobisomem dava em sua direção. Não demonstrar medo, Remus o havia aconselhado. Mas nada impedia que seu coração estivesse prestes a arrebentar seu peito.

Fenrir sorria.

- Está melhor? - o garoto concordou com um gesto de cabeça – Eu trouxe presentes para você.

Harry sentou-se em uma postura menos casual do que a que havia se acomodado para ler, dando uma indicação de que estava atento e aguardava pelo que seria. Não esperava que Fenrir se sentasse ao seu lado com isso. E, dessa vez, se encolher foi inevitável.

- Você não precisa me temer. Talvez seja a única pessoa que pode ter certeza disso.

- Eu estou tentando. - Harry disse entredentes, mas o carinho sutil dos dedos rusticos do lobo contra sua face era muito para ele. Ele desviou o rosto, olhando para Remus que fingia ler compenetrado no outro lado do quarto, como se os dois não estivessem ali.

- Eu percebi que a maior parte dos livros que Severus trouxe para você são sobre lobisomens. - Fenrir constatou, desistindo do carinho para colocar sobre o banco um pequeno fardo.

- Remus disse que eu preciso entender melhor o que está acontecendo comigo agora. - Harry justificou e viu um pequeno sorriso surgir no rosto do lobo.

- Lobisomens já foram grandes guerreiros. Os livros não contam isso. - Fenrir começou – Nós não lutamos por causas bruxas, então não entramos nas histórias deles. Mas somos guerreiros. Essa era uma roupa que costumavamos usar antes que os bruxos nos rebaixassem a animais e nos acostumássemos a andar nus. Eu gostaria que você usasse.

Ele ofereceu a Harry duas peças de tecido pesado e grosso preto e cinza: uma calça, larga, mas no comprimento exato para uma pessoa do tamanho de Harry, com a cintura marcada pelo fecho cinza de acabamento metálico, e uma blusa mais justa, com detalhes cinza na gola extremamente aberta.

- Porque tão aberto? - Harry perguntou, olhando o decote.

- É um orgulho exibir a marca. - Fenrir explicou, passando a mão levemente pelo pescoço e ombros de Harry, que não conseguiu conter um arrepio com o movimento – Se me permitir, ma moitié, eu gostaria de te vestir. - a voz do lobo era baixa e ele observou a tensão passar pelo rosto delicado do garoto antes que ele fechasse os olhos com força e concordasse com um gesto de cabeça, como se se obrigasse a fazer aquilo.

O garoto se levantou, dando as costas para os outros ocupantes do quarto e se afastando o máximo possível enquanto desabotoava as vestes simples que Severus havia conseguido para ele apenas no dia anterior. Mas seu gesto foi interrompido quando mãos grandes cobriram as suas e o corpo que ele já reconhecia pelo calor encostou-se às suas costas.

Harry fechou os olhos, deixando as mãos cair ao lado do corpo quando Fenrir o impediu de continuar, tomando a tarefa de tirar sua roupa para si. A cada toque eventual em sua pele, Harry ofegava, sua respiração agitada, o corpo tenso contra o outro. Em um carinho que começou na base do seu pescoço, as mãos de Fenrir afastaram o tecido de seus ombros, fazendo com que caísse no chão, e o garoto estava completamente nu.

- Calma. Eu não vou fazer nada. - a voz tocou baixa seu ouvido e Harry se arrepiou involuntariamente mais uma vez quando os lábios desceram por sua pele, seguindo o caminho das mãos pelos seus ombros, depositando pequenos beijos em seu corpo enquanto as mãos fortes envolviam sua cintura, pressionando-o cada vez mais contra o corpo maior.

- Pare! - Harry pediu, fraco, sentindo que aquilo estava indo longe demais. Seu pedido era inútil frente a vontade do lobisomem, ele já tinha tido comprovações demais disso, mas sabia também que não tinha armas para realmente fazê-lo parar.

A respiração de Fenrir ainda batia contra seu ombro e ele ainda estava preso em seu abraço, mas nenhum dos dois se movia. Ele havia parado. E Harry respirava agitado frente a tensão do momento. O que o lobo estava fazendo, afinal?

Em um movimento súbito, a pressão em sua cintura foi maior, e Harry se viu erguido do chão alguns centímetros. A calça passou sob seus pés e as mãos de Fenrir correram suas pernas, as vestindo, até chegar à cintura, onde cada fecho foi cerrado lentamente enquanto Harry tentava somente respirar em meio a tanta intimidade.

Ele sentiu seus pés tocarem o chão novamente. As mãos correram todo seu ventre e peito antes de chegar aos ombros e descerem pelos braços até suas mãos. Fenrir as elevou em um movimento suave sobre a sua cabeça e a blusa desceu pelo seu corpo como um carinho frio em comparação ao calor do corpo do lobo, ainda tão próximo. Fenrir alinhou a roupa em seu corpo em um último abraço antes de voltar a beijar seu pescoço.

- Você está lindo. E somente um guerreiro como você pode honrar essas vestes. - a voz bateu suave contra sua pele e Harry se sentia zonzo frente a tantos estímulos. Seu corpo estava completamente solto entre os braços do lobo.

Fenrir poderia fazer o que quisesse com ele, ele não tinha mais forças. No entanto, tudo o que fez foi conduzí-lo de volta ao banco, sentando-o. E um frio súbito atingiu Harry ao se separarem, forçando-o a voltar para a realidade.

- Eu sei que te machuquei. - Fenrir confessou, o encarando – Agradeço a confiança por me permitir te tocar. Eu quero que entenda meu segundo presente como um gesto de confiança também.

Ele estendeu um embrulho fino de panos para o garoto, e ao tocá-lo, Harry sabia o que era.

- Minha varinha. - ele sussurrou, surpreso, descobrindo o objeto e conferindo que era exatamente o que esperava. Encarou Fenrir, surpreso e confuso – O que isso significa? Você está me libertando?

- A única coisa que te prende aqui é a sua necessidade de ficar perto de mim. - o lobo respondeu sério, e essa afirmação deixou Harry ainda mais surpreso. Ele não sentia nenhuma necessidade de ficar perto do lobisomem, ao contrário, ele queria sair dali, ir embora. E, no entando, Fenrir acabara de depositar em suas mãos o que precisava para isso.

– Eu posso sair da casa? - Harry testou – Sair do covil?

- Eu nunca disse que não podia. Só peço que não entre na floresta porque é perigoso demais, há outras criaturas que buscam abrigo nos limites do covil. E que fique na casa nas noites de lua cheia.

Então havia liberdade, ainda que houvessem limites.

- Obrigado. - Harry disse, baixinho. Ter sua varinha de volta significava muito naquele momento. Era quase como ter de volta uma parte de si mesmo que havia perdido.

- Eu tenho um pedido para te fazer. - a frase devolveu imediatamente a tensão ao garoto. Tudo tinha um preço – Eu quero que volte a dormir comigo. Severus voltou ontem e três homens dormindo no quarto dele não é confortável. Louis e Lupin podem te fazer companhia durante a noite, mas vão voltar para repousar no covil durante o dia. Você fica comigo.

A última sentença foi dita de forma autoritária e irrevogável, quase como uma ordem. Harry se sentiu inseguro. Mesmo a presença dos outros homens ali não significava muita segurança contra os atos do lobisomem, agora perderia até isso. E mais! Uma coisa era deixá-lo despí-lo, outra era deitar ao seu lado e adormecer. Ele não conseguiria dormir. Não conseguiria fazer isso. Era confiança demais.

Os olhos verdes correram em um pedido mudo de socorro para Remus, mas Fenrir percebeu o movimento e sua mão forçou em um carinho rústico o garoto a voltar a encará-lo.

- Eu estou disposto a me conter enquanto você não me quiser. - ele disse e havia quase dor em sua voz. Pedir aquilo era, de alguma forma, difícil para ele - Não vou te forçar a nada. Eu só preciso da sua presença do meu lado.

Harry engoliu em seco e concordou com a cabeça no mesmo gesto tímido que fizera até então. Os olhos azuis ainda o fitaram durante um longo momento, primeiro fixo em seus olhos, como se fossem lhe roubar a alma, quase tão invasivo quanto oclumência, depois descendo para seus lábios, e Harry estremeceu ao perceber quanto desejo havia neles.

Ele não estava pronto pra isso.

E Fenrir entendeu quando o garoto se afastou, rompendo qualquer contato entre os dois. Sem mais palavras, o lobisomem se levantou, seu tamanho oprimindo Harry por um momento antes que ele se virasse e deixasse o quarto, batendo a porta.

Harry ouviu Remus soltar a respiração de uma vez só e olhar para ele preocupado. Harry escondeu o rosto nas mãos e o ex-professor riu de forma quase nervosa.

- Você foi bem, Harry.

- Bem? Por Merlin, Harry! Eu nunca vi Fenrir assim! - e o comentário de Louis definia muito a sua situação.

À sua maneira, Fenrir estava se esforçando tanto quanto ele.

o0o

Já havia amanhecido quando Harry entrou no quarto de Fenrir, abrindo e fechando a porta no maior silêncio possível. Louis havia arrumado botas de couro para ele, e ele as tirara antes de entrar, mesmo no chão de terra, não queria o risco de fazer nenhum barulho. Sua maior esperança era que Fenrir já estivesse dormindo.

Ele mesmo estava caindo de sono. Apesar de não ter feito muita coisa desde o incidente em que desmaiara, de certa forma seu organismo estava acompanhando o cotidiano do covil: havia trocado a noite pelo dia quase sem perceber.

E, mesmo com todo o esforço, o lobisomem estava sentado no banco ao lado da cama, aparentemente o esperando, mais desperto do que nunca.

Ele sorriu daquela forma que assustava Harry quando viu o garoto entrar e se levantou, indo de encontro a ele. Harry se encolheu contra a porta quando o lobisomem acariciou sua face, pousando um beijo em sua testa antes de seguir para a cama. Ele tentou não olhar enquanto o lobisomem despia a calça – que só então repara ser do mesmo tipo que a que lhe dera -, deixando-a no chão e deitando-se nu sobre os lençóis.

Os olhos azuis ainda o aguardavam, atentos, e Harry concluiu que somente estar no quarto não seria o suficiente para Fenrir. Devagar, foi até o outro lado da cama, erguendo as cobertas e refletindo sobre a melhor forma de conseguir dormir ali o mais distante possível do outro.

- Tire a roupa. - era claramente uma ordem e Harry olhou surpreso para Fenrir – Você pode usá-la com orgulho o quanto quiser, mas comigo você dorme nu.

Sua voz não tinha qualquer traço de gentileza e Harry temeu o que um enfrentamento àquilo poderia significar. De qualquer forma, Fenrir já o tivera nu naquele mesmo dia, e não fizera nada além de acariciá-lo. Remus lhe alertara que ele não deixaria de fazer, e, apesar de invasivo, não foi tão ruim quanto Harry temia.

O mais rápido possível, Harry tirou as vestes e as deixou jogadas sobre o banco, deitando-se na beira da cama e se cobrindo ao máximo com os lençóis. Ouviu o riso de Fenrir ao seu lado e sentiu ele se mover. Em segundos, sua mão o envolvia pela cintura, puxando seu corpo contra o dele até estarem completamente em contato.

- Fenrir! - Harry pediu, como um aviso, mas sua voz tremia.

- Doux rêves, ma moitié. - o sussurro o atingiu leve acompanhado por um beijo longo em seu pescoço.

E só. Logo Harry podia sentir a respiração regular do outro contra seus cabelos e o toque quente o envolveu por completo, deixando-se vencer também pelo sono.

-:=:-

Enclore – encerrar em francês

Bon soir, ma moitié. - Boa noite, minha metade.

Doux rêves, ma moitié. - Doces sonhos, minha metade.

NA: Olá, pessoas!

Capítulo bem cedo nesse domingo HAUHAUAHUAHUAHUA

Entrei em férias hoje e fiquei com medo de não conseguir aparecer durante o dia para postar.

Fenrir mudando táticas. No que será que vai dar isso? XDDD

Espero que gostem e aguardo comentários!

Beijos e até o próximo o/