Capítulo 19 – Concessions

Harry acordou se sentindo confortável. Uma brisa suave soprou, movendo seus cabelos, e um carinho tão suave quanto a acompanhou. Ele se mexeu de leve no abraço, sentindo o corpo próximo demais. Sabia exatamente aonde e com quem estava e tentava não achar isso estranho demais antes mesmo de abrir os olhos.

Um bocejo o envolveu subitamente e ele escondeu o rosto contra o peito do homem, se apoiando nele para se afastar, mas uma mão cobriu a sua, mantendo-a em contato com a pele quente demais, e Harry finalmente abriu os olhos. Olhos azuis o observavam de uma forma assustadoramente calma.

- Bom dia. - Fenrir disse com a voz rouca, tão evidentemente sonolento que Harry teve vontade de rir. Mas ainda assim não respondeu.

Fenrir o beijou na testa, acariciando seu rosto e cabelos com a própria face, e se aproximou mais, descendo uma das mãos para a cintura do garoto enquanto começava a beijar seu pescoço. O carinho não era agressivo, mas passar daquela suposta paz matutina à excitação evidente nas ações do homem deixava Harry tenso, e tudo em que ele conseguia pensar enquanto o lobisomem o tocava era quais as suas opções de conseguir sair dali antes que... tudo se tornasse demais.

- Fenrir. - o nome foi chamado com urgência, ao mesmo tempo em que soaram os dois toques rápidos na porta do quarto e Severus entrou – Eu... – ele parou, olhando embaraçado a cena dos dois homens abraçados nus sobre a cama, e Harry ficou mais tenso ao ouvir Fenrir rosnar baixo – Desculpe, mas tem um assunto que precisa da sua atenção.

- Eu já vou. - o lobo disse entre dentes e Severus saiu do quarto – Você tem certeza de que precisa dele vivo?

- Eu prefiro assim. - Harry respondeu, sério, pensando que, talvez, se dissesse realmente querer Severus por perto, o quanto isso poderia soar ameaçador para o outro.

Fenrir o puxou para mais perto e afundou o rosto entre seus cabelos, beijando mais uma vez seu pescoço e ombros antes de beijar sua face e soltá-lo, se levantando. O homem vestiu sua única peça de roupa rapidamente e deixou o quarto sem mais palavras.

Harry se virou na cama, encarando o teto, e respirou fundo. Precisava pensar melhor sobre o que estava fazendo, sobre o que tudo aquilo estava se tornando. Ter todo aquele carinho e atenção não era ruim. O contato era estranho, ele não estava habituado a ser tocado todo o tempo, mas justamente por não estar habituado não era ruim. Ele nunca tivera nada parecido, nenhum toque extremo, nenhuma necessidade de estar perto de alguém como Fenrir tinha de estar com ele. Ser necessário era aconchegante, ainda que ser necessário para Fenrir Greyback fosse assustador. Ele podia até gostar de ser tocado daquela forma confortável, e era bom não ter que admitir isso para ninguém, mas por outro lado sabia que isso não bastaria por muito tempo. Não era o suficiente para Fenrir e haveria um momento em que ele não pararia mais com pedidos ou interrupções.

E Harry precisava estar pronto para encarar novamente o homem que o estuprou quando esse momento chegasse.

Encarar Fenrir não era o problema. Ele precisava aprender a lidar com a dor e a humilhação daquele ato.

Ou ele precisava sair dali ou começar a desejar isso.

Harry passou a mão sobre o rosto como se tentasse afastar esses pensamentos e decidiu se levantar também. Do lado de fora do quarto, a escuridão já era total, as luzes das fogueiras dançavam difusas nos vãos da janela fechada. Ele se vestiu, desejando tomar um banho e sair para ver o acampamento pela primeira vez.

O garoto sentou-se no chão do lado de fora do quarto para calçar as botas que deixara ali na noite anterior e ouviu com atenção pela primeira vez a conversa que Remus, Severus e Fenrir estavam tendo na sala. E o tom era muito mais violento do que ele esperava.

- EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ O TRANSFORMOU, FENRIR! - Remus gritava como Harry nunca o havia visto fazer na vida. O homem estava alterado além do que sua racionalidade permitia.

- Eu sou um lobisomem, Lupin, é isso que nós fazemos. - Fenrir respondeu entredentes.

- Está feito, Remus! - Severus segurava o outro professor pelos ombros, como que para impedi-lo de avançar sobre Fenrir – A questão agora é que eles estão precisando de ajuda. - ele se voltou para Greyback, que observava Remus entre a hostilidade e uma curiosidade analítica – Eu posso trazer os dois para cá?

- Quem você mordeu? - Harry perguntou, preocupado com a reação de Remus. A ideia de que Fenrir havia atacado alguém durante a lua o deixava enojado, mas não era esse o seu foco no momento. Queria entender por que o ex-professor estava fora de si daquela forma.

- Draco Malfoy! - Remus cuspiu, avançando sobre Fenrir novamente, sendo detido por Severus, que completou a resposta.

- E Rabastan Lestrange. Chegou durante o dia uma coruja dos dois. Estão em Londres e pediram para serem acolhidos no covil para fugir das novas leis. Dependem somente da aceitação de Greyback.

- Seu problema é com Malfoy. - Fenrir constatou, fitando Remus com atenção e malícia, mas seu raciocínio foi interrompido por Harry.

- Fenrir, você precisa ajudá-los! - o garoto pediu com angústia.

- Eu não preciso fazer nada! - o lobo respondeu com raiva, o encarando com agressividade, e Harry percebeu que o fato de ele não tomar o partido de sua moitié naquela briga poderia soar como uma ameaça.

- Fenrir o mordeu, e os lobisomens costumam se tornar responsáveis pelos lobos feitos por eles, principalmente o alfa de um bando. – Severus explicou para Harry, encarando Fenrir – Mas nada os obriga a isso. Fenrir precisa permitir que eles venham, e terão que jurar fidelidade a ele.

- E em nenhum momento eu quis dar asilo ao filho de Lucius Malfoy. - Fenrir disse entredentes, ainda fitando atentamente Remus.

- Fenrir, ele tem a minha idade. - Harry pediu, a imagem do desespero de Malfoy na torre na noite do ataque voltando à sua mente – Estou te pedindo isso, não deixe Draco sem proteção nessa situação. Já deve estar sendo bem difícil sem lei nenhuma, e, se eles estão em um hotel, imagino que tenha acontecido algum atrito entre...

- Lucius os colocou para fora de casa, provavelmente. - Severus completou – A situação já estava tensa o suficiente quando eu estive lá pela última vez. E se eles estão juntos, Rabastan deve ter se responsabilizado por Draco. Não há como conceder asilo a um e não a outro.

- Por favor. - Harry pediu, baixinho, se aproximando do lobo, o encarando com certa resistência – Eu estou te pedindo. Por favor.

- Me beije. - Fenrir pediu. Sua voz era dura e objetiva, como uma ordem. E Harry sabia que na verdade era uma condição: Fenrir só aceitaria os dois no covil se Harry passasse a fazer aquela concessão para ele, beijá-lo.

Harry o encarou, surpreso. E sentiu raiva do homem a sua frente e de sua própria inocência. Como pode acreditar que qualquer coisa que ele lhe desse seria sem algo em troca naquela maldita ordem em que precisavam ficar juntos? Fechou os olhos com força pensando em Malfoy. Havia, além de tudo, o terror que ele imaginava que Draco estava passando ao se ver longe da família, transformado em algo que, pelo que ele vira no ano em que tiveram aula com Remus, ele odiava tanto.

Não era compaixão ou piedade por Draco, talvez não houvesse melhor lição para ele deixar de ser tão insuportável quanto era, mas Harry não conseguia desejar isso para ninguém. Ele certamente não queria ser transformado, assim como não queria matar Dumbledore e não queria ser perseguido e condenado. E Harry era o único que sabia disso. Ali, pelo menos, Draco não estaria sozinho.

- Eu faço. - Harry disse firme, o encarando. E o fato de dizer em voz alta mostrava que era uma decisão puramente racional.

Fenrir sorriu, vitorioso, e o puxou pela cintura para mais perto, colando seu corpo ao dele. Seus dedos correram entre os cabelos negros e Harry ofegou ao se ver tão próximo do homem. Os lábios se tocaram, fechados em um primeiro momento, até Fenrir o morder, sugando seu sangue, e Harry se sentia fraco em seus braços. Não demorou a ceder e entreabrir a boca, permitindo a consumação do beijo. O lobo gemeu ao tocá-lo, para em seguida segurar sua mandíbula com força enquanto violava sua boca, impedindo-o de sair do beijo. O garoto buscava ar e só encontrava o fôlego do lobo o alimentando, fazendo o beijo durar indefinidamente, até que sua mão se agarrou com força aos cabelos dourados, buscando uma referência qualquer antes que perdesse a consciência, e Fenrir se afastou levemente, ainda o sustentando, enquanto ambos regularizavam a respiração.

- Severus, vá buscá-los. - o lobisomem ainda mantinha Harry junto a si, e o garoto não parecia se importar, realmente, enquanto os outros homens o encaravam.

- Eu vou junto. - Remus declarou, dando as costas para sair da sala.

- Não. - Fenrir disse, sério, e sua voz saiu como um chiado de ameaça pura – Você não toca sua moitié enquanto eu não tiver certeza de que ele é fiel a mim. E da próxima vez que achar que pode esconder uma informação dessas de mim, eu cuido para que nunca mais sequer o veja.

o0o

- Draco é la moitié do Remus? - Harry perguntou, cético e surpreso, observando os dois homens saírem.

- Nada mais justifica o comportamento dele. - Fenrir voltou sua atenção para o garoto e recolheu o fio de sangue presente no canto de sua boca com o dedo – Eu não queria te machucar.

Harry afastou a mão do homem de seu rosto com um gesto violento e fez um som de desprezo.

- Preciso de um banho. - ele disse baixo.

- Usamos o rio para isso. Ele corre da montanha para a floresta, você pode ter alguma privacidade no trecho atrás da casa, mas tenha cuidado. Louis vai com você.

- Eu sei me lavar sozinho. - Harry resmungou, ainda contrariado, saindo da casa sem voltar a olhar para o lobo.

Não foi difícil achar o rio. Ele sentou na borda, tirou as botas, atirando longe, e deixou o corpo cair para trás sobre a grama, cobrindo o rosto com as mãos e somente respirando fundo para tentar se acalmar. Sentia raiva, sentia desespero, sentia vontade de chorar. Aquele impulso louco de somente ir para bem longe dali voltava a engolfá-lo e ele poderia sair correndo a qualquer minuto. Mas não saia. E era tudo tão contraditório. O bem estar que Fenrir lhe dava em seu esforço de deixá-lo confortável e lhe dar carinho para em seguida forçá-lo a fazer algo que ele claramente não queria com chantagem barata. Havia vidas em questão! E tudo em que Harry conseguia pensar era em como havia ficado desnorteado com o beijo.

Não podia estar tão entregue assim. Não fizera aquilo porque queria. Fizera aquilo por Draco. E por Remus. Embora não soubesse claramente a importância que aquele ato teria para o ex-professor no momento. Remus se arriscara a ser expulso do bando pelo seu moitié, arriscara ser afastado de Harry somente por saber que Draco havia sido transformado. Fenrir nunca arriscara nada por ele que não envolvesse chantagem e violência.

Ele só matara Voldemort e destruíra suas horcruxes.

Harry deixou escapar um som de raiva e frustração entre os dedos. Ele preferiria que as atitudes do lobo não parecessem tão coerentes, que não fosse tão evidente o desejo que tinha por ele, que ele não estivesse se esforçando. Que não abrisse mão de sua autoridade por causa de um beijo. Seria muito mais fácil lutar contra se não fosse tão... bom.

- Você está bem? - uma voz estranha, grave e próxima demais o tirou de seus pensamentos, fazendo-o afastar as mãos do rosto e abrir os olhos.

- Sim. - disse, envergonhado, sentando-se no chão para encarar o homem parado ao seu lado.

Ele era quase tão grande quanto Fenrir, embora um pouco menos encorpado. Os cabelos negros caíam lisos sobre os ombros largos e as costas e os olhos negros brilhavam divertidos ao observá-lo. Quase com a mesma malícia dos olhos de Fenrir.

- Meu nome é Lincan. Você precisa de ajuda?

- Não, obrigado. - Harry se levantou de vez, percebendo o quão menor do que o homem ele era – Só vou tomar um banho. Eu sou...

- Eu sei quem você é. - o homem disse – Seu pagem já está vindo, preciso ir. Só te vi de longe e resolvi ver ser estava bem. - ele se aproximou um pouco, olhando fixamente para Harry e dizendo em tom de segredo – Você tem em mim um servo.

Harry sorriu, surpreso e envergonhado com aquela declaração, e acompanhou com o olhar o homem lhe dar as costas e se afastar, esbarrando em Louis no caminho.

- Desculpe a demora, Harry.

- Tudo bem. - Harry sorriu, esquecido momentaneamente dos seus problemas. Se despiu e mergulhou na água, aproveitando o frescor da noite.

-:=:-

Concessions – concessões em francês.