Capítulo 20 – Tensions
- Você consegue ao menos pensar nele?
Harry piscou, confuso, arrancado de seus pensamentos pela pergunta de Louis. Estavam sentados à beira do rio, haviam tomado banho e ficado na água até enjoar. Harry não se sentia disposto a fazer qualquer outra coisa no momento além de olhar o céu e aproveitar o silêncio noturno da mata em volta. Não se lembrava de ter feito algo assim em toda a sua vida e aquilo estava lhe dando uma paz tamanha que ele se assustou ao perceber que o outro ainda estava ali, deitado ao seu lado.
- Eu não sei do que você está falando.
Louis riu. Era óbvio que ele sabia, mas não queria falar nisso. Fenrir o perturbava, ele não reclamaria se pudesse se esquecer da existência do lobisomem pelo menos por aqueles minutos de silêncio.
- Ele pensa em você, e isso o está perturbando mais do que você pode imaginar. Fenrir não é o tipo de homem que se preocupa com os outros ou que considera longamente as consequências de suas atitudes pessoais. Agora, querendo ou não, tudo o que ele faz passa antes pelo seu julgamento.
- Como assim? - Harry perguntou, mas em seguida tentou disfarçar seu interesse – Ele nunca me pergunta nada. E vocês dizem que ele é o líder, como poderia não pensar em consequências ou se deixar guiar por... mim?
- Ele não acabou de fazer isso? Ele tinha uma decisão política, mas, por um beijo seu, agiu de outra forma. Ele tem impulsos, mas agora, antes de fazer qualquer coisa, seu primeiro pensamento é se vai te machucar ou magoar com isso. Ele está mudando de comportamento por causa de você, não finja que não vê. - havia quase uma ofensa no tom de voz final do garoto que fez Harry se voltar para olhar para ele, mas Louis encarava o céu.
Louis era... estranho. Nos primeiros dias, Harry o via somente como um seguidor das ordens de Fenrir, um subalterno dominado qualquer, especialmente depois que contara como fora parar no bando e sua relação com o alfa. Harry não sentia ciúmes naquele momento, seria estranho sentir ciúmes de seu estuprador, mas agora a ideia de Fenrir com outros homens lhe causava... algo. Em que Harry não queria pensar.
Mas Louis ajudara Harry, o apoiara, cuidara dele, com carinho e dedicação, junto com Severus, mesmo sem efetivamente precisar fazer isso, e Harry sentiu gratidão e simpatia por ele. Era, talvez, o mais próximo de um amigo que ele teria ali. E, com a convivência e a chegada de Remus, Harry passou a associar os dois homens. Silenciosos, reflexivos, doces. Eles eram parecidos, e isso fez com que o garoto simpatizasse cada vez mais por Louis.
Só que, diferente de Remus, Louis defendia Fenrir de uma forma que Harry ainda não conseguia entender. Não era somente obedecer, Louis o admirava. Mesmo depois de tudo o que Fenrir fez com ele, depois de tudo o que Louis presenciou Fenrir fazer com outros, inclusive Harry, ele falava no lobisomem com quase orgulho de poder servi-lo. E não eram poucas as vezes em que saiam de seus lábios finos palavras como aquelas, de indignação por Harry não entender Fenrir como Louis entendia.
E essa sensação de não compreensão era quase uma ofensa a Harry. Louis achava que Harry não entendia que ele estava em um relacionamento abusivo? O que haveria ali para entender que não estava ao alcance dele?
- Eu vou estudar. - Harry resmungou, se levantando.
Aquela conversa acabara com toda e qualquer disposição que tinha mais cedo. Ele olhou o movimento em torno de uma fogueira no acampamento não muito distante, não havia mais impulso de ir até lá e saber do que se tratava, quem eram aquelas pessoas ou como funcionava aquele lugar. Era somente um bando de lobisomens e seu lugar não era ali, era tudo de que precisava saber. Somente não ia embora naquele momento porque Severus estava fora, e ele viera ali por causa dele, não partiria sem o bruxo ou sem ao menos consultá-lo.
Voltou para a casa. Não era como se sentisse uma vontade irresistível de estudar, mas era a única coisa que tinha para fazer naquele lugar. Na sala, Fenrir conversava com dois homens e Harry não lhes deu atenção, somente voltou para o quarto, onde suas coisas estavam guardadas. Fechou a porta e sentou-se à vontade no banco do lado da cama, pegando um livro de poções. Era um dos poucos que Severus trouxera em que a chance de um lobisomem ser citado era mínima, a menos que fosse ingrediente de algo.
Longos minutos se passaram até que alguém abriu a porta, ficando parado em silêncio, olhando-o. Ergueu os olhos do livro, desconcentrado, somente para encontrar a figura de Fenrir estática a poucos passos. Suspirou, irritado, e voltou a ler. Aquela mistura de tédio e frustração não deixava espaço nem para o medo habitual surgir naquele momento.
- Você está chateado. - Fenrir constatou, ainda o observando – E só isso.
- E o que vai fazer a respeito? Me chamar para terapia de casal? - Harry perguntou, o olhando em desafio.
Fenrir sorriu de um modo estranho que alertou Harry pela primeira vez, e ele se encolheu quando o lobisomem veio se sentar ao seu lado, mas ainda era mais uma precaução do que medo. O lobo, porém, não fez nada além de continuar encarando-o, e o efeito disso foi que nem estudar Harry conseguia mais. Sentindo-se ainda mais irritado, o garoto jogou o livro de lado e se levantou, sentindo necessidade de simplesmente sair dali, mas a mão de Fenrir interceptou seu braço a meio caminho e o impediu de se afastar.
- O que você quer? - Harry perguntou em desafio, tentando se soltar, mas o lobo o puxou pelos joelhos até tê-lo sentado de frente em seu colo e o garoto sabia perfeitamente o que ele queria.
Era a única coisa que ele sempre queria, e por um momento Harry chegou a se questionar se era prudente lutar para se afastar e mandar o outro se fuder, como tanto gostaria. Mas, assim que os lábios quentes demais tocaram sua pele, Harry ofegou, sentindo um arrepio subir pela sua coluna. Era como se a tensão o tivesse deixado supersensível e, ao mesmo tempo, as mãos correndo pelas suas pernas, colando-o mais ao corpo quente, a respiração agitada o tocando faziam a sensação de irritação se tornar secundária. Harry estava esperando o medo irracional que o paralisava emergir a qualquer momento, mas esse medo também o deixava irritado, e ser abraçado daquela forma era tão mais interessante quando havia roupas entre eles e nenhuma ameaça no ato.
O garoto entreabriu os lábios sem resistência quando a boca de Fenrir tocou a sua e seus dedos correram pelos cabelos castanhos enquanto, pela primeira vez, ele correspondia ao beijo. Não era violento a ponto de machucá-lo como o anterior, mas ainda era intenso, e Harry estava agitado demais, aquela intensidade era mais que bem vinda. A mesma intensidade das mãos que passeavam por seu corpo, fazendo-o ondular sobre o colo do lobo entre os carinhos.
Fenrir gemeu contra sua boca e, em um movimento mais abrupto, correu as mãos pelos lados do corpo de Harry, arrancando a camiseta para puxá-lo contra seu próprio peito, colando-os e voltando a beijá-lo, fazendo o garoto ofegar. Desceu a boca pela sua mandíbula e pescoço, passando os dentes sobre a pele fina, até chegar ao peito. Harry se inclinou para trás, dando mais espaço para que ele explorasse seu corpo, e Fenrir o olhou: as mãos pequenas firmes em seus ombros, os olhos verdes fechados, o corpo em abandono em seus braços, mas o rosto tenso, como se, apesar de corresponder como nunca havia feito, ainda lutasse contra algo.
E aquilo precisava acabar.
Fenrir correu os dedos pelos cabelos negros, pelo rosto delicado, pelo pescoço, ombros e peito tão frágeis e másculos ao mesmo tempo, pelo ventre magro e a cintura mais estreita. Harry respirava com dificuldade e os olhos verdes se abriram em surpresa quando a mão áspera venceu a linha do cós da calça e o tocou.
- Fenrir! - havia uma ponta de desespero na voz, mas o lobo o puxou de volta para o beijo, o impedindo de falar. Harry falava demais.
E agora tudo o que ele podia fazer era ofegar contra sua boca, o corpo se movendo de forma quase inconsciente, os olhos fechados novamente. As mãos pequenas até tentaram evitar que Fenrir abrisse sua calça, mas o esforço era trêmulo e inútil, e Harry o abraçou com força quando sua mão o envolveu por inteiro, o estimulando enquanto seus lábios ainda pontuavam beijos trêmulos sobre seus ombros, os dois corpos tão juntos que o ondular do quadril do garoto era quase imperceptível, ritmado com seus gemidos.
E Harry poderia chamar aquilo de frustração ou irritação ou o que fosse. Tudo havia se diluído entre os dedos de Fenrir em um último impulso contra seu corpo, e Harry se viu colado ao lobisomem sem que nada o obrigasse a isso, ainda trêmulo das sensações que abandonavam seu corpo lentamente, levando consigo qualquer vestígio de medo de estar exatamente ali.
- Parece que eu sou capaz de te dar prazer. - Fenrir constatou, beijando sua face uma última vez.
Harry somente deixou a cabeça cair sobre o ombro do homem, sentindo-se esgotado. Ele não sabia mais o que estava acontecendo. E quando uma lágrima correu pela face do garoto e ele fechou calmamente os olhos, entrelaçando os dedos aos cabelos castanhos como se não tivesse nenhuma intenção de sair dali, Fenrir conseguiu sentir suas dúvidas queimando a própria pele.
o0o
Harry se sentou no degrau da frente da casa e pousou uma mão no ombro de Remus. O ex-professor não se moveu, somente piscou e continuou encarando o chão além. O garoto quase se sentia culpado por não ter dado atenção ao amigo toda aquela noite, mergulhado como estava nos próprios problemas. Remus devia estar em uma espécie de inferno pessoal.
- Eles já terminaram? - o homem perguntou, rouco, algum tempo depois.
- Ainda não. - Harry olhou a porta da casa trancada logo atrás. Severus havia chegado há algumas horas e desde então ele, Louis, Fenrir, Draco e Rabastan estavam trancados na casa – O que está acontecendo, exatamente?
- Fenrir está conversando com eles. - Remus respondeu engolindo com dificuldade, ainda sem encarar o garoto – Ele oferece proteção e abrigo no covil, em troca eles devem oferecer lealdade e obediência.
- Isso é meio... feudal. - Harry constatou
- Sim, é. Na verdade, é muito mais instintivo que uma questão social. É interessante para Fenrir ter mais lobos no bando, para conseguir comida e força para proteger a todos, mas ele não pode dormir com um suposto inimigo debaixo do teto dele, então precisa testar o quão sincero é o desejo deles viverem aqui.
- Como assim "testar"? Eles vão ter que cumprir algum tipo de tarefa ou algo assim?
- Depois eles terão obrigações no covil, agora é algo mais... psicológico. Você já deve ter percebido que, apesar de não falar muito ou esbanjar argumentação, Fenrir é inteligente e extremamente astuto. Ele percebe as coisas. Medo, mentira, meias verdades. Ele está interrogando os dois e o teor de suas respostas e a forma como eles respondem vai determinar se Fenrir confia neles o suficiente para deixar que fiquem aqui ou não.
- Se ele não deixar, - Harry hesitou – você vai embora com o Draco?
- Eu não sei. - Remus passou as mãos pelo rosto, cansado – Eu devo protegê-lo. Ele precisa de mim, Harry. Principalmente agora que é um lobisomem. Eu... sinto... que preciso ficar com ele. Mais forte do que nunca. Quando eu dei aulas para vocês no colégio e descobri que ele era ma moitié, eu tinha delírios com ele nas vésperas da lua cheia e sonhava com o dia em que poderia tocá-lo, mas sabia que isso nunca aconteceria e a distância aquietou isso em mim. Agora eu sinto ele o tempo todo, Harry. Sinto o medo dele, o desamparo, a mágoa, o desespero. Ele está gritando por mim e eu não sei o que fazer porque ele sequer sabe quem eu sou. - ele olhou para o garoto e seus olhos eram pura angústia – Ele ainda pode não me aceitar, Harry.
- Isso não parece importar muito entre lobisomens. - Harry respondeu, baixinho, ainda que as lembranças do que acontecera entre ele e Fenrir mais cedo o deixassem confuso – Como assim você "sente" ele?
- Lasmoitiés são sensíveis uma a outra, não somente fisicamente, mas podem compartilhar sentimentos fortes. Você ainda não percebeu? Você pode sentir o que Fenrir sente, assim como ele consegue sentir o que você sente também. E essa partilha é o que me faz te assegurar que eu não sou como ele, eu nunca conseguiria forçar Draco a nada.
- Isso explica muita coisa. - Harry resmungou e ficou em silêncio, fitando a noite junto com Remus.
Nenhum dos dois saberia dizer quanto tempo se passou até o momento em que a porta foi aberta, mas o sol já começava a aparecer fraco entre as árvores da floresta que cercava o covil.
- Lupin. - Fenrir chamou e voltou para dentro da casa. Harry e Remus o seguiram.
A figura de Rabastan Lestrange ainda assustava Harry. Era um homem sombrio que o garoto associava à necessidade iminente de sacar a varinha. Esse sentimento se confirmou ao encará-lo, ainda que, quando o homem retornou seu olhar, não houvesse a hostilidade de antes. Ele parecia simplesmente cansado. Mesmo assim, essa troca de olhares foi o suficiente para que Fenrir se aproximasse, pousando uma das mãos possessivamente no ombro do garoto.
Draco, por outro lado, revelava em sua face toda a complexidade da situação. Harry havia percebido o quanto ele estivera abatido no último ano, e agora sabia o motivo, mas, naquele momento, "abatido" ou "cansado" nem começava a definir o semblante de Malfoy. Ele parecia doente. Havia dor, tristeza e um desamparo tão grandes em seu olhar que o garoto sentiu necessidade de dizer alguma coisa que pudesse consolá-lo, mas Draco somente olhava para o chão, aparentemente alheio a qualquer presença da sala.
- Os dois ficam. - Fenrir sentenciou – Eu acredito que eles compreenderam as implicações disso e concordaram com seus deveres. - ele fez uma pausa, olhando seriamente para Remus – A minha última condição é que a união de Lupin e Malfoy seja consumada imediatamente.
- Quê? - Draco ergueu o rosto assustado, olhando fixamente para Fenrir, e Harry teve a certeza de que ele não fazia ideia ao que o lobo se referia.
- VOCÊ NÃO TEM ESSE DIREITO! - Remus começou a gritar, mas Fenrir o pegou pela frente das vestes, jogando-o contra a parede.
- Já está na hora de você entender o que é ser um lobisomem, Lupin. - o lobo disse entredentes e atirou o homem no chão do próprio quarto.
Os olhos azuis voltaram-se ferozes para Draco, que se encolheu, negando desesperadamente com um gesto de cabeça, mas Fenrir o ignorou, agarrando-o pelo braço e atirando-o dentro do quarto também, enquanto Lupin tentava se levantar. Harry não conseguiu saber como, mas sabia que a porta do quarto fora trancada com magia. Podia sentir isso.
- Fenrir, por favor! - ele tentou, se aproximando do homem, mas recebeu um olhar de fúria.
- Qualquer um que se aproximar desse quarto vai sofrer consequências. - ele disse com autoridade e olhou fixamente para Harry – Até você, ma moitié.
- ABRE A DROGA DESSA PORTA, FENRIR! - Remus gritava do lado de dentro, esmurrando a madeira.
- Eu recomendo que se concentre no que tem que fazer, Lupin. Vocês tem tempo para isso, eu não vou sair daqui.
- Fenrir, você não pode esperar que Remus aja... - Harry começou, sentindo raiva do homem que estava forçando alguém como Remus a fazer algo tão fora de sua natureza.
- Ele vai agir como o lobo que ele é. - Fenrir sentenciou – Eu não o estou forçando a isso, ele simplesmente vai fazer antes de poder parar.
- VOCÊ É UM MONSTRO! - Harry gritou.
- ME SOLTA! - o grito de Draco soou do lado de dentro do quarto e Harry cobriu os ouvidos. Ele não queria presenciar aquilo.
- FENRIR! - ele pediu, sentindo lágrimas virem aos seus olhos e uma sensação de impotência e desespero tão conhecidos o engolfar.
Gritos soavam dentro do quarto e o garoto já não sabia dizer de quem. Sons de luta e móveis quebrados. Ele se abraçou, se encolhendo contra a parede, deixando as lágrimas caírem e embaçarem a imagem de Fenrir o encarando, sério.
- SOCORRO! - Draco gritou do outro lado da porta, fazendo Harry tremer – POR FAVOR, AJUDEM! ELE VAI MORRER!
Fenrir abriu a porta do quarto e Draco caiu no chão, tremendo, o rosto coberto de lágrimas. Harry se ajoelhou ao seu lado, passando um braço pelos seus ombros, mas o garoto não parecia perceber.
- Ele vai morrer. Ele vai morrer. - ele repetia, desesperado, e Harry entendeu quando viu Fenrir deixar o quarto com o corpo de Remus nos braços, coberto de sangue e transpassado por um pedaço de madeira.
-:=:-
Tensions – tensões, do francês.
NA: Hey, guys!
E eu atrasei de novo. Fu. Cara, aconteceu tanta coisa nos últimos dias que eu nem sei como explicar isso. E o pior é que é capaz que o próximo capítulo, daqui há 15 dias, atrase também, mas dessa vez será por um ótimo motivo: vou estar em Recife com a Karla Kollynew own!
Esse capítulo é meio dicotômico: tudo de bom e tudo de ruim ao mesmo tempo. Quero saber o que estão achando!
Beijos!
