Capítulo 21 – Safidélité

Draco suspirou e deixou a cabeça pousar contra a parede, fechando os olhos, cansado. Ele olhou para Potter, que estava encolhido no banco do outro lado da cama, dormindo todo torto. Não fazia ideia do que ele estava fazendo ali. Começava a duvidar dos seus próprios motivos para estar ali. E sua cabeça doía. Não queria pensar.

Devagar, pegou o pedaço de pano de dentro da tigela com água e deixou pingar entre os lábios ressecados de Remus Lupin. Ele estava com febre, consequência do processo mágico de cicatrização dos ferimentos, Severus explicara. Draco se sentia incapaz de entender qualquer coisa no momento. Era simplesmente demais.

Deixou o pano pousado sobre a testa do homem e fechou os olhos novamente. As imagens do que acontecera voltavam sempre que fazia isso, confusas. A fúria de Fenrir, Remus tentando sair daquele quarto desesperadamente, a forma que ele o olhou quando percebeu que não havia saída. Sua força ao empurrá-lo contra a parede subitamente.

Seus olhos. Sua boca. A forma trêmula como ele o tocara. Seu grito de desespero o tirando daquele torpor estranho. O grito do homem no esforço de se afastar. Os olhos desesperados voltando-se para a janela. O corpo caído entre vidro e madeira, quebrados.

A mão de Draco estremeceu. Aquele homem que ele mal conhecia, fora aquele terceiro ano em Hogwarts, quase morrera para se evitar de... fazer algo com ele. Mas, acima de tudo, havia a ideia de que ele ia, efetivamente, fazer algo com ele. E por que Draco estava cuidando dele, afinal? Por que sentiu que ele mesmo fosse morrer quando viu o corpo caído no chão? Por que aquela angústia não o abandonava?

- Draco. - a voz soou rouca e baixa e o garoto se assustou. Remus havia despertado e seus olhos o encaravam, cansados – Desculpe. - ele tentou começar a falar, mas teve uma crise de tosse, pondo sangue.

- Você não está bem. - Draco constatou – Vou chamar ajuda.

Ele se levantou para sair, mas um toque frio na sua mão não permitiu que ele se afastasse. Remus o encarava, segurando sua mão, e acenou que não com a cabeça. Draco voltou a se sentar, deixando que sua mão pousasse entre as do homem. Por quê?

- O que está acontecendo? - perguntou, baixo.

Remus respirou fundo e entrelaçou seus dedos aos de Draco, mas não falou nada. O garoto não sabia se por ele não ter forças para falar ou por não saber o que dizer, mas ficar ali, em silêncio, lhe trouxe uma sensação de conforto tão grande que ele não insistiu. Suas dúvidas poderiam esperar. Ele só queria ficar ali.

- Ele é seu moitié. - a voz baixa de Potter respondeu do outro lado do quarto – Você sabe o que isso significa?

As ações de Draco responderam por ele. Imediatamente ele tentou se afastar de Remus, pavor estampado em seu rosto, mas quando a mão do homem segurou a sua com mais força, ela tremeu e o garoto hesitou.

- Draco, por favor. - Remus pediu, baixo.

Harry se levantou, derramando outra dose da poção entre seus lábios, e Remus perdeu a consciência. Draco se afastou da cama ao máximo, abraçando o próprio corpo, e se voltou para encarar Potter, que o olhava atento.

- O que você está fazendo em um lugar como esse, Potter? O que você sabe disso tudo?

- Fenrir Greyback é ma moitié. - Harry respondeu – E eu prefiro não falar sobre isso. Quando você e Remus estiverem bem, ele pode te contar o que aconteceu.

- Nós não vamos ficar bem! - Draco começou a falar compulsivamente, na defensiva - Nós não existe! Tudo isso deve ser uma tentativa patética de você...

- Nós não estamos mais no colégio, Draco. Nós também não estamos mais em guerra. Eu não tenho nenhum motivo para tentar te prejudicar. - Potter respondeu, sério.

- Ah! Da última vez que você me viu em um momento vulnerável, Potter, eu acabei ensanguentado no chão de um banheiro, então não venha me dizer...

- Da última vez que eu te vi vulnerável, Draco, você estava apontando uma varinha para Dumbledore sem conseguir dizer o feitiço que o mataria. Eu te admiro por isso e quero te ajudar dessa vez, ok? - Draco mordeu o lábio e respirou fundo várias vezes seguidas – Fenrir te aceitou porque eu pedi. Pense bem, por que ele mataria Voldemort? Por que te procurar depois de te morder para se vingar do seu pai?

Houve um momento de silêncio em que os dois se encararam, tentando impor verdades um ao outro. Mas Draco estava cansado demais de... tudo.

- Tudo bem. - o loiro respirou fundo, desviando os olhos para o homem inconsciente na cama – Então... Então é verdade?

- Você sabe que é. - Potter o encarou – Você está aqui, ao lado dele, não está? - Draco negou com a cabeça e uma lágrima correu pelo seu rosto – Olha, eu só quero te pedir que não machuque ele. A situação já está bem ruim porque Fenrir tem uma tensão com Remus que eu não consigo entender e ele vai fazer de tudo para forçar Remus a... talvez fazer coisas horríveis com você. Mas Remus gosta de você. De verdade. Seria horrível se vocês se odiassem.

- Eu não o odeio. - Draco disse, baixinho.

- Não. - Potter o observou, descrente – Só o desprezava e fazia de tudo para humilhar ele no colégio.

- Eu tinha 13 anos. - Draco o olhou com rancor – E não conseguia, de qualquer forma. Agora é diferente. Eu... eu só... sei.

Os olhos de Draco estavam presos no rosto de Remus e as lágrimas ainda corriam pela face do loiro, mas ele estava calmo. Harry o assistiu sentar-se ao lado da cama mais uma vez, pousando a cabeça contra a parede e continuar observando o homem. Draco sabia que Remus era sua moitié. Remus sentia Draco por ser sua moitié. O loiro ainda parecia em choque com aquele excesso de informações e certamente o fato de ele ser um lobisomem agora e ter perdido seu nome e estar longe de sua família devia tornar aquela aceitação imensamente mais fácil. Mas mesmo assim, Harry estava achando fácil demais.

Os olhos de Remus se abriram mais uma vez, cansados, e ele piscou confuso ao ver Draco ainda sentado ao lado da sua cama. O loiro se debruçou, afastando os fios de cabelos castanhos da face do homem, falando baixinho.

- Oi.

- Oi. - Remus respondeu, sorrindo.

o0o

Fenrir Greyback abriu a porta do quarto e entrou em silêncio. Os olhos verdes o acompanharam por um segundo, tendo a certeza de que o homem pretendia ficar no aposento, então Harry se levantou e saiu, passando pelo lobo sem dizer nada. Estava sendo assim desde o episódio com Remus e Draco: eles só ficavam no mesmo aposento para dormir, e mesmo assim Harry deitava vestido e na primeira vez que Fenrir tentou protestar, a voz séria do garoto deu sua sentença "Se tocar em mim, eu te mato".

Fenrir não achava que isso realmente aconteceria, mas o garoto estava falando sério e testar aquela teoria não melhoraria as coisas entre eles.

Os olhos azuis examinaram o homem sentado na cama. Remus tinha o abdômen ainda enfaixado e bebericava uma poção que Severus havia acabado de lhe dar, mas parecia bem. O garoto Malfoy não saia de sua cabeceira e Harry e Severus se revezavam com eles. Ferir teria considerado deixar os dois a sós mais oportuno, mas Remus não estava em condições de fazer nada com sua moitié, então não fazia diferença. E era exatamente por isso que ele estava ali.

Com um gesto de cabeça, indicou que os outros dois ocupantes do quarto deviam sair, e foi obedecido. Ao passar por ele, Severus o encarou fixamente. Ele andava mais hostil nos últimos dias, Fenrir sabia que a relação dele com Harry não estava pior nem melhor, e tentava entender aquela mudança. Mas Severus não era sua prioridade no momento. Sentou-se à cabeceira de Remus, o olhando.

- Você envelheceu. - constatou – Quando eu te mordi, você era somente uma criança.

- Você só percebeu que eu envelheci agora? - Remus perguntou, surpreso.

- Obvio que não. Mas eu não havia reparado em como você envelheceu. Eu gosto de jovens, crianças. A carne macia, o timbre da voz, o cheiro, o pulsar. Todos sabem disso. Alguns acham agora que eu gosto de crianças porque gosto de Harry, eu não sei. Mas Harry nunca vai envelhecer. Ele pode ganhar rugas e ficar mais sério com o tempo, mas ele vai continuar pequeno e com aquele mesmo ar perdido, inocente, a mesma voz e o mesmo cheiro, não importa o quanto ele viva. Isso não aconteceu com você. Você envelheceu.

- Isso explica porque Harry é sua moitié e não eu. - Remus respondeu, cansado. Não via onde aquela conversa estava indo.

- Você foi meu fracasso, Remus. - Fenrir disse sério e Remus o olhou espantado – Como toda criança, quando eu te fiz, era para você vir até mim. Era para ser mais uma das minhas crias, mais um lobo que cresceria sob meus desígnios. Mas você nasceu bruxo e os bruxos acharam que podiam te proteger. Eles nunca conseguiram, não é, Remus? - Fenrir perguntou, sorrindo – Você volta para mim de tempos em tempos, nunca lobo o suficiente, mas nunca totalmente bruxo. Você pode ter a ajuda que for, mas você nunca se encaixa porque seu lugar é aqui.

- Onde você quer chegar? - Remus perguntou, surpreso com aquela confissão.

- Quero que admita isso. Você é inteligente e seria um ótimo lobisomem se parasse de agir como bruxo. Você pensa como lobo, tem impulsos de lobo, sente como lobo, e reprime tudo isso por uma sociedade que te humilha e rejeita seu potencial. Eu estou te aceitando na minha casa mais uma vez, Lupin, e dessa vez eu peço que você fique. Eu sempre quis que você ficasse, mas agora eu vou fazer de tudo para você ficar, entende? - Fenrir o olhava sério e não havia o mesmo calor de suas palavras em sua face.

- Eu imagino que aceitar ma moitié no bando e toda aquela cena para nos unirmos faz parte disso. Por que isso é tão importante para você agora? - ele perguntou, desconfiado.

- Porque você é importante para Harry. Ele ainda deseja ir embora e você ficar é um motivo a mais para ele ficar também. Eu só quero proteger ma moitié.

- Você quase me forçou a estuprar Draco para me convencer a ficar aqui? - Remus perguntou, indignado.

- Eu não te forcei a nada além de ficar em um quarto com ele. Qualquer coisa que você faria lá pertence a você. E eu quero que você entenda isso. Essa é a sua natureza que você rejeitou por uma vida toda, mas agora seu moitié precisa de você e você vai ter que se assumir como lobo para poder ficar com ele. Os bruxos não te querem mais, Lupin. Você pode até sobreviver à margem da sociedade, mas ele não. Aqui, tanto você quanto ele podem ser o que nasceram para ser. - Fenrir o encarou até Remus desviar o olhar. Ele sabia que o lobo estava dizendo a verdade – E você não o estupraria. Ele cederia a você antes disso. Ele também é um lobisomem, Lupin. Fale com ele, porque você já sabe o que isso significa, ele pode aprender sem precisar sofrer por isso.

O lobo se levantou e saiu do quarto, deixando para trás um Remus pensativo. Fenrir estava certo, suas prioridades estavam mudando, agora ele precisava sobreviver por dois.

o0o

Harry entrou no quarto trazendo uma bandeja para Remus. Severus disse que ele poderia se levantar mais tarde e, se ele precisaria enfrentar Fenrir, era melhor estar forte o suficiente para isso. Porém, a surpresa o fez parar na entrada.

Remus estava de pé e parecia totalmente recuperado. A boa aparência era reforçada pelo fato de que havia dispensado as vestes escuras de segunda mão que usava cotidianamente. Ele vestia agora o mesmo tipo de calça que ele e Fenrir, trazendo o torço nu coberto de cicatrizes. A sua frente, Draco tinha uma muda do mesmo tipo de vestes nas mãos e Remus conversava com ele em voz baixa, acariciando seu rosto muito próximo, e o garoto estava sério, mas concordou com algo e se voltou para sair do quarto, se dando conta da presença de Harry.

- Harry, eu preciso conversar com você. - Remus anunciou, sério demais.

O garoto analisou sua postura, sua forma de falar, sua seriedade, suas roupas, sua situação. E se lembrou de Louis, e como ele conseguia ser parecido e diferente de Remus ao mesmo tempo.

Agora eles estavam iguais.

- Eu acho que já entendi. - sorriu, triste, e saiu do quarto.

Ele não sabia o que Fenrir fizera, mas Remus havia parado de lutar contra o que ele significava.

-:=:-

Safidélité – sua fidelidade, do francês.

NA: Cara, eu gosto TANTO da relação entre o Remus e o Fenrir que sou capaz de escrever mais com eles depois que essa fic acabar só para desenvolver melhor o sentimento que eu tentei colocar nesse capítulo.

Espero que vocês tenham gostado!

Beijos e até o próximo o/