Capítulo 22 – Besoins

- Você não está fazendo isso pelos motivos certos.

Draco se assustou com a voz grave às suas costas e percebeu que estivera perdido em pensamentos encarando a parede do quarto há tanto tempo que não sabia dizer se o homem já o estava observando antes ou se havia acabado de entrar no aposento. As mãos pousadas no cós da calça simplesmente retomaram a tarefa de fechar os vários fechos em silêncio.

- Você não sabe nada sobre meus motivos. - comentou em voz baixa.

- É verdade. Mas sei que não são os certos. Você está se obrigando a fazer isso.

As mãos do garoto tremeram e ele xingou baixinho. Para que tantos fechos? Um não bastava naquela estúpida calça idiota? Mãos pousaram sobre as suas e ele se sentiu abraçado.

- Calma. - o sussurro tocou a pele próxima a sua têmpora e ele virou o rosto para longe dela – Eu não quero te deixar desconfortável.

- Não é você. - Draco respirou fundo, percebendo o quanto isso era verdade. Ele estaria chorando de raiva ou o que quer que fosse o que estava sentindo se aquela paz não o envolvesse com o toque do homem – Eu só... - ele suspirou novamente e não soube como terminar.

- Você precisa descansar e precisa pensar. - Remus o virou delicadamente em seus braços e afastou os fios loiros da sua testa, pousando um beijo leve sobre a pele branca – Quando você quiser, eu quero conversar com você. Sobre tudo o que está acontecendo. Eu não quero te machucar e não quero te ver sofrer. Eu posso te ajudar.

Draco concordou com a cabeça sem sentir real vontade de romper o contato entre os dois. Ele quase podia sentir o escudo que os braços de Lupin formavam em volta dele. Sem ele ali, a consciência de quem era aquele homem que o abraçava voltaria, junto com a consciência do que eram, de onde estava e porque estava ali. Voltariam as palavras de seu pai e o fato de que não tinha mais para onde ir. Porque ele era um lobisomem.

O aperto em torno de seu corpo aumentou e ele afundou o rosto contra o ombro de Remus, sentindo seu peito oscilar. Ele não iria chorar, não queria chorar. Mas o desespero se avolumava em seu peito e seu corpo tremia levemente. Os dedos de Remus ergueram com cuidado seu rosto e o homem o olhou preocupado.

- Desculpe. - Draco se afastou, respirando fundo. Não importava que ele fosse sua moitié, ele não conhecia aquele homem e, pelo que sabia, ele não tinha obrigação nenhuma de estar ali – Você pode sentir, não é? - tentou sorrir, perguntando para confirmar o que sabia sobre aquilo – Vou tentar não te perturbar com isso.

- Não é assim que funciona, Draco. - Remus se aproximou novamente, ainda o olhando atento – Não é algo que você possa evitar e eu não quero que evite. Não tem nada mais importante para mim nesse momento do que saber como você está e o que eu posso fazer quanto a isso. Eu estou aqui para você, entende?

Draco começou a concordar com um gesto de cabeça, afirmando que entendia, mas então o gesto se tornou negação e as primeiras lágrimas rolaram pelo seu rosto enquanto ele se afastava de Remus. Ele estava perdendo o controle e o homem conseguia sentir isso pulsando em sua pele. Draco estava prestes a fugir dele, a sair dali correndo, e essa tentativa de distanciamento quase o machucava.

- Não. - Remus disse, calmo, pensando na melhor forma de transmitir essa calma para o garoto também. Voltou a abraçá-lo, mesmo que o sentisse tenso entre seus braços, e o acariciou tentando aumentar a proximidade de ambos, sussurrando em seu ouvido – Eu posso sentir que você está com medo, que está desamparado e desesperado. Eu sinto quase dor de ficar longe de você, estaria indo contra todos os meus instintos se eu saísse daqui.

Mas essa proximidade foi demais para Draco. Ele se desvencilhou do abraço e o encarou com a hostilidade que Remus havia se acostumado a ver no rosto do garoto quando ainda se encontravam nos corredores do colégio.

- E o que seus instintos querem? Me fuder e colocar a sua maldita marca em mim de uma vez por todas? - Draco perguntou quase gritando, mas sua voz falhou entre soluços – Eu já tenho uma!

Ele puxou a blusa, tirando-a do corpo, exibindo para o homem a cicatriz que tomava todo o seu ombro esquerdo e descia para o peito, sumindo a poucos centímetros de se encontrar com o fino risco que cruzava seu tórax do ombro direito ao lado esquerdo do quadril, provocado por Potter meses antes. Os olhos castanhos examinavam sua pele, as marcas em contraste com a delicadeza da tez branca, o corpo estreito, as lágrimas que corriam dos olhos pingando sobre o peito nu.

- Você é lindo. - as palavras escaparam dos seus lábios inconscientemente e ele se arrependeu disso no mesmo instante ao ver o garoto abraçar o próprio corpo de forma protetora, sua face corada só mostrando que aquilo não lhe causava repulsa, ao contrário, mas ele não estava à vontade.

Aquilo não estava funcionando

- Draco, nós precisamos conversar.

O garoto fechou os olhos com força e se encolheu mais contra a parede. Remus sentiu a raiva e o medo diminuírem. Draco queria proximidade, ele estava indo pelo caminho certo. Se aproximou, devagar, se conseguisse acalmá-lo o suficiente para conversarem, o garoto poderia pensar mais racionalmente sobre a situação e entender que...

Que não tinha saída. Que, assim como ele, o melhor que poderia fazer era honrar o juramento que fizera a Fenrir e continuar naquele lugar precário, caçando para viver, tentando ser feliz ao seu lado, pois ele seria a única razão para ele continuar vivendo. Como Draco era para ele.

Os olhos cinzentos do garoto o observavam com atenção e Remus se aproximou mais, dessa vez não somente para consolar Draco, mas porque ele precisava disso. Precisava sentir que ele ainda estava ali e que tinha alguma coisa que fazia tudo aquilo valer à pena. Algo pelo qual ele mesmo precisava continuar.

- Você está... - Draco começou a dizer baixo. Ele podia sentir que Remus estava sufocando a sua frente, e isso o assustava e o deixava tão agoniado quanto quando o viu sangrando naquele quarto. Mas seus olhos lhe diziam que ele estava bem, estava respirando, ali na sua frente. Mas ele estava sufocando, o sofrimento era óbvio de uma forma... interna. Havia uma necessidade e um desespero quase tão grandes quanto ele próprio sentia.

E então Remus estendeu a mão, tocando seu rosto, e ela tremia de leve. Draco virou o rosto e a beijou, porque sabia que isso faria bem ao homem de alguma forma, e algo nele queria que ele ficasse bem. Remus se aproximou mais, beijando seu ombro. Seus lábios percorreram toda a cicatriz que Fenrir deixara nele e depois subiram pelo pescoço, beijando sua face, até tocar seus lábios. E então eles estavam se beijando, e não havia nenhuma resistência nisso. Os lábios se tocavam leves, mas estavam entreabertos, permitindo uma intimidade muito maior do que esperavam. Era doce e tranquilo e quente e próximo e tudo de que os dois precisavam. Porque, de alguma forma, os dois precisavam do mesmo consolo e do mesmo calor e da mesma presença.

Draco rompeu o beijo, respirando, e percebeu que seus corpos estavam colados e havia excitação naquele contato além de tudo o mais que sentia. Remus continuava com os olhos fechados, como se sorvendo aquele momento, e durante longos segundos Draco somente o observou. O rosto nem velho nem jovem, marcado por finas cicatrizes e pequenas rugas que pesavam em sua feição, os lábios finos entreabertos ainda, os traços bonitos, os cabelos claros. E a sensação de que tudo ficaria bem desde que ele não saísse dali.

- O que você pode me oferecer? - Draco falou, baixo, seus lábios ainda tocando os de Remus enquanto falava. Os olhos castanhos se abriram e o encararam por um momento.

- O que você quer dizer? - Remus perguntou, confuso, examinando o garoto.

Draco respirou fundo e tentou assumir uma postura mais autoritária se afastando somente o mínimo do homem. Aquilo era uma troca, de sentimentos ou de necessidades, não havia diferença agora, e ele podia ter sido renegado, mas era um Malfoy, e precisava negociar sua sobrevivência. Sabia o que era La Moitié e sabia o que podia exigir da única pessoa naquele lugar que lhe inspirava o mínimo de segurança. Então era melhor deixar claro o que os unia antes que tudo se perdesse naquela dinâmica intima demais.

- Eu não tenho para onde ir, não tenho como me sustentar, não tenho ninguém que vá realmente se importar se eu morrer no meio dessa floresta. Não gosto da ideia de ficar aqui, não confio em Fenrir, não gosto dele e não gosto do que ele fez comigo. A ideia de ser um lobisomem me apavora, eu estou com medo, estou confuso e estou sozinho. Me sinto bem com você, mas eu não confio racionalmente em você e não vou me jogar nos seus braços só porque você é ma moitié. Eu preciso de alguém... como você, mas preciso de mais do que uma promessa de felicidade. - Draco disse de um fôlego só, sem deixar de encará-lo.

- Eu não posso te prometer felicidade. Eu não posso te prometer a vida que você tinha antes ou que você sonhou um dia em ter. Não fui eu quem te roubei isso, ao contrário, eu me mantive longe de você por três anos depois de descobrir que você era ma moitié justamente para não te impor isso.

Remus se sentia angustiado com aquele tipo de... negociação. Não era o que ele esperava e não sabia como agir. Olhou angustiado para o garoto. Ele nunca teve muita coisa realmente sua, não tinha muito dinheiro e nunca viveu sequer perto do luxo a que Draco devia estar acostumado. Ele não tinha o que oferecer e sabia disso.

- Prometa que não vai me usar. – a voz do garoto soou baixa. Ele precisava dessa garantia. Precisava do mínimo de confiança antes se deixar levar por sua única esperança. Remus o encarou surpreso e viu novas lágrimas correndo pelo seu rosto vindas de um passado recente demais. – Prometa que não vai me forçar a fazer nada.

- Nunca! - Remus pousou um beijo leve sobre seus lábios e disse em um tom mais baixo – Eu realmente sinto muito por tudo o que te aconteceu. Mas só posso te oferecer ajuda com isso e a certeza de que eu nunca vou fazer nada como o que fizeram com você. – ele acariciou o rosto de Draco, o encarando - Sinto muito por não estar com você, por não ter te protegido. Posso te prometer isso agora. Posso te prometer que você vai ter uma casa aqui, alimento e proteção, e do que mais precisar. E posso prometer que nunca vou te abandonar. - ele baixou um pouco mais a voz, sussurrando contra o ouvido do garoto – E que você vai me amar depois que descobrir quem eu sou.

Draco o afastou de leve, pousando as mãos contra o peito do homem, e lhe deu as costas.

- Eu não preciso saber quem você é. Não me interessa quem você é. Nunca interessou, não é mesmo?

- Isso não é verdade, Draco. - Remus protestou, não queria começar daquela forma.

- Diz o homem que tinha sonhos eróticos com um garoto de 13 anos. - o loiro riu e sua calça caiu no chão, revelando o corpo nu – Eu aceito.

Remus somente o observou boquiaberto por algum tempo. A ideia de que seu moitié o aceitava, não importando mais nada, penetrava em seu cérebro lentamente com a imagem do corpo nu ajoelhado sobre a cama, de costas para ele. Ele o estava esperando. Ele piscou, quase confuso, não era para as coisas serem assim. Mas, no fundo, não era para nada ser assim. Não era para ele estar ali. Não era para Draco estar ali. Não era para estarem juntos.

Mas estavam, e isso era o que importava. E era tudo o que tinham.

Em poucos passos, seus dedos tocavam a pele branca e imaculada das costas do rapaz, correndo por seu pescoço e enredando-se pelos cabelos loiros. Draco deixou a cabeça pender para trás, acompanhando o movimento em meio a um gemido, e Remus se debruçou, beijando seu peito, seu pescoço, seu queixo e finalmente seus lábios. Sua mão correu pela frente do corpo do loiro até seu púbis e Draco gemeu em meio ao beijo, se agarrando aos cabelos do ex-professor.

- Você tem certeza disso? – Remus perguntou, baixo – Eu não vou mais abrir mão de você se levar até o fim.

- Você estaria quebrando sua palavra se fizesse. – Draco respondeu, baixo, e o encarou.

Os olhares se encontraram e Remus sabia que aquilo ainda era superficial demais, mas era o suficiente para ele. Ele tinha sua moitié em seus braços e isso era o suficiente para que se sentisse mais satisfeito do que em toda a sua vida. Draco sabia que deveria sentir medo, que deveria talvez negar e se afastar, mas nada mais do que deveria fazer importava. Tudo o que havia feito até aquele ponto de sua vida o levara até ali e, se Remus poderia melhorar tudo isso, então ele o merecia.

Em um impulso, colou novamente seus lábios aos do homem, como um último gesto de certeza, que carregava muito mais segurança do que tinha na verdade. As mãos de Remus correram suaves seu corpo e ele sentiu um arrepio bom as acompanhar. Ele não o machucaria, disso tinha certeza.

O homem o conduziu a inclinar seu corpo para frente e Draco obedeceu, sentindo o toque constante do corpo quente colado ao seu. Sua respiração se alterava e ele se deixava envolver pelas novas sensações e o calor que vinha de Remus.

O desconforto do toque que o preparava com cuidado foi amenizado com beijos espalhados em suas costas e quando as mãos seguraram mais firmemente seu quadril, Draco não pensava mais, somente se deixava levar pelo impulso que conduzia seu corpo, e mesmo a dor inicial tinha um propósito, como uma lembrança de algo que ele nunca mais sentiria, pois Remus o abraçava em seguida, sussurrando palavras de carinho e gemendo baixo contra seu pescoço enquanto o tomava, o calor se espalhando pelo seu corpo no mesmo ritmo do corpo de Remus e ele podia sentir aquela unidade quando seus dedos se entrelaçaram, buscando algum tipo de apoio.

A mão do homem correu seu peito e pescoço, inclinando seu rosto para trás, buscando um beijo desencontrado entre palavras perdidas e ofegos enquanto seus corpos se moviam mais rápido, com mais ênfase naquele sentido único, e Draco mal conseguia respirar enquanto Remus tremia contra ele, o apertando com força naquele abraço, como se tivesse medo de que tudo se perdesse conforme o que sentiam se tornava... demais.

E Draco se deixou deitar na cama precária sem se importar com isso, o calor do peso do homem deitado sobre seu corpo o fazendo se esquecer de tudo por alguns segundos, os olhos fechados como se tentando reter todas as sensações que ainda percorriam cada poro de sua pele e saia pela sua respiração.

Remus se virou de forma que pudesse olhá-lo e Draco piscou molemente quando seus dedos correram de leve seu rosto.

- Eu te amo. – o homem disse, sem sorrir. Havia uma sinceridade que assustava naquela frase.

- Mentira. – Draco disse, sério, quase como uma defesa.

- Não, não é.

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Besoins, do francês, significa "Necessidades".

NA: Olá, pessoas bonitas!

Desculpem o atraso para postagem. E, para quem acompanha, desculpem não ter postado Diamond, ela vai demorar mais um pouco, vou tentar escrever o capítulo para o próximo fim de semana.

Mas você sabem que meus atrasos sempre têm bons motivos. E dessa vez é um realmente bom. Alguns dos meus leitores já conhecem o forum 6 vassouras (aos que não conhecem, tem o link no meu profile), um fórum sobre Harry Potter onde muita gente linda e produtiva se reune para ser feliz. Lá, no último dia 04, eu fui eleita moderadora da sessão Harry e Draco. Como estava viajando, só comecei a exercer a função nessa semana, e tinha um bocado de coisas para fazer, mas estou me divertindo muito! Novos projetos devem surgir em breve, e aposto como vocês vão gostar disso XD

Enfim, espero que tenham gostado do capítulo também. Prometo que terá mais desses dois em breve XD

Beijos o/