Capítulo 23 – La Fin

Os olhos verdes estavam perdidos no meio da mata. Um ponto vermelho se destacou, voando veloz em sua direção, e o garoto ergueu a mão para amparar o fruto no ar sem dificuldade. Então, aplicando toda a sua força, o atirou novamente para entre as árvores, mentalizando o feitiço que o levaria o mais longe possível, e então, quando o baque surdo soava em algum ponto entre as folhas mortas da floresta, ele mentalizava o feitiço para convocar o fruto, e tudo se repetia.

- Sabe, um cachorro faria melhor.

O garoto se assustou com a voz e se voltou rapidamente para encontrar Severus parado mais atrás, o observando encostado a uma árvore. Deu de ombros e atirou novamente o fruto.

- Estou treinando feitiços silenciosos. Sou ruim nisso, você sabe.

- É, eu sei. – o homem disse, sério, e manteve silêncio o olhando jogar mais algumas vezes. Harry começou a se sentir incomodado com aquela observação.

- Fenrir que te mandou aqui?

- Não. Eu nem sei onde ele está. Tem andado quieto demais nos últimos dias. – o homem ouviu o garoto resmungar e atirar com mais força – Vocês não estão bem, não é?

- Nós já estivemos bem alguma vez? – Harry rebateu, visivelmente irritado com aquela conversa.

O fruto foi e quando voltou, Severus o amparou, impedindo que o garoto continuasse com aquilo, forçando-o a encará-lo.

- O que aconteceu? Vocês não estavam bem, mas estavam se entendendo. Agora está cada um amuado no seu canto.

- Por que isso te interessa?

- Porque enquanto você não estiver bem, eu não posso ir embora desse lugar. – o homem respondeu com indiferença.

Harry o olhou firme por algum tempo antes de se dirigir para o limite da clareira.

- Harry! – Snape tentou alcançá-lo, mas o garoto impediu que ele o pegasse pelo braço.

- Você está livre da promessa que fez. Eu te liberto, vou falar com Fenrir para ele te libertar também, dizer que não preciso mais de você, você pode ir. – o garoto falava sério e alto, sem olhar para o homem.

- Potter, eu não vou a lugar nenhum enquanto não tiver a certeza de que você está bem!

- EU NUNCA VOU ESTAR BEM! – Harry se voltou para ele gritando com raiva – E não vai ser você quem vai mudar isso!

O garoto correu em direção a casa, tropeçando nos degraus da varanda, e esbarrou com Louis na porta. Rabastan estava sentado à mesa e havia uma coleção de jornais espalhados a sua frente. Um deles estava aberto e ele encarava um ponto da página, resoluto, mas o que chamou a atenção de Harry foi um outro, de alguns dias atrás, que ainda estava fechado, dobrado revelando a manchete principal que brilhava em negro sobre uma foto sua: A morte de Harry Potter.

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Rabastan folheava o jornal distraidamente. Lucius tomava decisões, a moeda do país voltava a se valorizar, Lucius fazia atos públicos, Lucius recebia autoridades internacionais, Lucius visitava escolas de base bruxas incentivando a adoção de nascidos trouxas. LUCIUS, LUCIUS, LUCIUS.

Nenhuma linha sobre Rodolphus.

Ele começava a suspeitar que seu irmão havia se afastado do governo. Ficaria feliz se isso acontecesse. Era uma forma de isolamento, assim como ele estava isolado. Rodolphus se afastar do governo significava que ele não estava bem, que não estava feliz com aquela situação, e mesmo que ele não tivesse coragem o suficiente para mudar o sistema, não queria participar dele.

Em algum ponto de seu ser, Rabastan tentava não imaginar que, se ele tinha coragem para se afastar do governo, teria também para vir até ele.

Ele não queria pensar naquilo. Não era o tipo de homem que sabia viver de esperanças vagas. Ele não tinha o que esperar naquele lugar, naquela vida, e ao contrário de Malfoy e Potter, e de todos os outros naquela casa, não estava se lamentando pelos cantos. Ele só precisava se adaptar àquele novo sistema, e sobreviver.

Não precisava de Rodolphus.

Mas precisava saber o que seu irmão estava fazendo, qual era sua reação a tudo aquilo. Precisava saber que ele tinha uma reação. E por isso precisava da confirmação de suas suspeitas. Se ele havia realmente se afastado do governo, isso devia ter saído no jornal. E ele perdeu alguns dias do noticiário devido a tudo pelo que passou e a própria viagem. Era difícil conseguir jornais naquele lugar afastado do mundo.

- Aqui. – uma pilha de jornais velhos foi abandonada a sua frente.

- Obrigado. – ele disse em uma voz baixa demais. Não sabia se o garoto tinha ouvido e, sinceramente, não se importava.

Mas ele ficou ali. Louis, talvez fosse esse o nome. Os olhos castanhos se ergueram da pilha de páginas amareladas para o rosto do garoto por alguns poucos segundos. Jovem demais, tranquilo demais, quase satisfeito demais com tudo aquilo. Suave. Rabastan voltou sua atenção para as notícias.

Vasculhou a pilha a organizando por datas, conseguindo uma sequência do dia em que deixou a casa de Lucius até a data em que estavam. Não eram muitos. Olhou as capas, indiferente. Notícias de Potter, sua suposta morte. Isso não o surpreendia, talvez Rodolphus o matasse para a imprensa também algum dia para limpar o nome de seus antepassados.

Suas mãos estremeceram com esse pensamento ao abrir o primeiro caderno – do dia seguinte ao deixarem a Inglaterra – e seus olhos correram a página de editoriais, as cartas de leitores e a coluna social. Não esperava encontrar Rodolphus ali. Mas na página do meio, seus olhos pararam. A manchete não exibia somente o óbito de Potter, mas do braço direito do Primeiro Ministro também.

Rodolphus estava morto.

Com uma calma treinada, leu a notícia com toda atenção que poderia manter procurando indícios de que a morte de seu irmão era tão falsa quanto a morte de Potter. Mas lá estavam a descrição do veneno que ele sabia estar na casa, como Lucius encontrou o corpo em sua cama na mesma noite em que se despediram. Havia um corpo. Havia uma foto da sepultura de sua família e havia um caixão.

No fim, Rodolphus não teve coragem nem para assumi-lo, nem para continuar sem ele. Rabastan sabia que isso aconteceria, mas não esperava que terminasse dessa forma. Estava preparado para ver o irmão vir até ele em desespero ou assisti-lo definhar durante anos em solidão, mas não estava preparado para ver seu irmão em um caixão.

Por não suportar ter sido abandonado.

Por ele.

Seus dedos sentiram a textura da folha de jornal quando tocaram de leve a foto com o caixão ao fundo, sobre a sepultura. Quase podia ver o rosto tranquilo de Rodolphus, os olhos fechados, a pele branca tão fria quanto a sua sempre fora. Ele queria tocá-lo. Ele precisava tocá-lo. Ele precisava senti-lo e saber que estava vivo.

Mas ele não estava.

- Você está bem? – a voz suave o questionou, preocupado.

- Não. – respondeu, sério. Qualquer coisa para ser deixado em paz.

- Eu vou chamar Snape. – o garoto se ergueu para sair da casa, mas mal alcançara a porta, a figura de Potter se chocou com ele, entrando intempestiva.

O garoto parecia perdido, olhando à volta como se não visse nada realmente, como se não soubesse o que estava fazendo ali ou para onde estava indo. Seus olhos pousaram sobre os jornais na mesa e algo pareceu prender sua atenção. Em dois passos, ele os alcançou, lendo as manchetes com ferocidade. Três ou quatro capas das muitas que estavam ali tratavam de sua morte.

Indiferente a Rabastan pela primeira vez desde que se encontraram ali, Harry tomou o jornal de suas mãos – o primeiro sobre sua morte, sobre a morte de seu irmão – e os olhos verdes corriam a matéria frenéticos.

... desaparecido no ataque de comensais da morte ao castelo que culminou com a morte de Dumbledore...

... semanas de busca de amigos e professores...

... dado como morto após confirmação...

... visita oculta de um representante dos lobisomens avisou para pararem as buscas e não incomodarem o grupo...

- FENRIR! – o garoto gritou, largando o jornal e se dirigindo para o quarto que dividia com o alfa, encontrando-o vazio, e partindo daí para cada um dos cômodos da casa, gritando seu nome – FENRIR!

Ao voltar para a sala, se deparou com Severus, Louis, Remus e Draco o olhando assustados, a explicação de sua fúria clara nos jornais que Rabastan voltara calmamente a ler.

- Você quer sair daqui? – Harry se voltou sério para Severus – Eu vou com você. Partimos ainda hoje.

E o garoto saiu para a clareira onde os outros lobos se agitavam com seus gritos.

- FENRIR!

Finalmente o homem apareceu vindo da mata, arrastando um cervo morto. Ele depositou a carcaça perto da fogueira no centro da clareira e se aproximou devagar, os olhos azuis examinando atento o grupo e se fixando em Harry, preocupado.

- O que aconteceu? Você está bem?

- VOCÊ ME MATOU, SEU BASTARDO! – o garoto atirou o jornal contra o homem, que o pegou e passou o olho rapidamente na notícia.

- Eu não tenho nada a ver com isso. – declarou, sério, encarando o garoto.

- E a parte em que um representante dos lobisomens apareceu para dizer que você tinha me matado em Hogwarts, que eram para parar de me procurar e deixar os lobisomens em paz?

- Eu não tenho nada com isso. – ele repetiu com mais ênfase – Não mandei ninguém a lugar nenhum.

- Eu não acredito! – Harry declarou – Isso tudo é conveniente demais para você. – ele se aproximou, encarando o lobisomem – Estou voltando para Hogwarts, hoje. Severus vai comigo. Eu não quero mais ficar aqui. Não suporto mais viver nesse lugar. Não quero mais ficar com você. Você não pode me prender aqui para sempre.

Fenrir o segurou com força pelos ombros e o ergueu do chão, aproximando o garoto de seu rosto.

- Você devia confiar em mim. – ele disse, sua voz quase um sussurro de ameaça.

- Mas eu não confio. – Harry disse, sentindo um aperto no peito que não tinha nada a ver com a própria raiva. Os olhos azuis o olhavam furiosos e aquilo doía de uma forma... estranha. – Me solta. – ele pediu com um fio de voz – Você só sabe me machucar.

Havia um círculo de pessoas em torno dos dois, observando a cena, e a tensão era quase palpável. Os olhos negros examinaram os dois e viram as mãos de Fenrir tremerem, segurando Harry com mais força, e o menino gemeu com aquele aperto, mas não recuou em sua decisão. Ele quase podia ver nos olhos de Fenrir o desespero de estar perdendo sua moitié. Ele falhara, não conseguiria manter Harry ali, e não queria machucá-lo, mas não abriria mão dele. O forçaria, como forçou no início, mas Harry não o deixaria. E Harry nunca pararia de tentar. Ele estava infeliz ali, Fenrir sabia disso e não sabia mais o que fazer, mas era incapaz de permitir que sua moitié partisse, porque Harry não seria feliz longe dele também.

Aquilo não terminaria bem de nenhuma forma.

- Eu fiz. – o homem deu um passo à frente, ganhando a atenção dos dois – Quando Fenrir me mandou pegar sua varinha, Harry, eu conversei com McGonagall. Ele não sabia dessa conversa, mas eu precisei contar para ela o que aconteceu com você e pedi que evitasse que Weasley, Granger e quem mais fosse insano o suficiente viesse atrás de você. Seria inútil. Eu só não esperava que ela tomasse uma medida tão drástica.

Harry o encarava, descrente, e Fenrir o colocou de volta no chão, o soltando, mas mantendo-o próximo de seu corpo.

- O que? – o garoto perguntou, encarando o ex-professor, confuso. Snape somente confirmou com um gesto de cabeça e Harry disse em tom de acusação – Achei que você quisesse me ajudar!

- Eu quero. E não acredito mais que você vá ficar melhor em Hogwarts do que aqui.

Harry negou com um gesto de cabeça e se afastou de Snape, batendo inevitavelmente em Fenrir, que estava atrás dele. O lobo pousou as mãos sobre seus ombros e o garoto se desvencilhou.

- Se você quiser, eu te levo até Hogwarts. – ele ofereceu, sério, o encarando – Mas vou com você. Você pode esclarecer a questão e ver seus amigos. Se eles tiverem coragem suficiente, podem vir te visitar. Eu não vou impedir isso se eles não forem contra você ficar aqui. Mas, apesar de não ter mandado Snape fazer isso, acredito que os resultados sejam muito mais seguros.

- Para quem? Para você? – o garoto perguntou, a voz tremendo em raiva contida.

- Não. Para o covil. E para você.

Harry negou novamente com a cabeça e pareceu que ia dizer alguma coisa, mas tudo o que fez foi correr para dentro da mata.

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La fin, do francês, "o fim".

NA: Hello, guys.

Mais uma semana sem Diamond, mas a notícia boa é que o próximo capítulo está quase terminado. A notícia ruim é que meus pais vieram me visitar e eu não vou conseguir terminar.

Sobre Moonlit: se eu disser que as coisas melhoram a partir de agora, tem como acreditar? XD

Quero comentários, ok? Estou com saudades de responder pra vocês ._. Acho que a partir do fim de semana que vem, eu consigo colocar um pouco das reviews em ordem, ou assim espero.

Beijos e até! o/