Capítulo 24 – Sentent

Fenrir entrou no quarto quando o dia já tinha amanhecido. Ele sabia que Harry estava lá. Depois do ocorrido, vigiou o garoto de longe o tempo todo, não querendo intimidá-lo com sua presença, mas temendo o que ele poderia fazer se completamente sozinho.

Agora, esperava encontrá-lo dormindo, mas a luz fraca da manhã se derramava sobre a cama dos dois fazendo brilhar as lágrimas no rosto do garoto encolhido em meio aos lençóis. Ele não demonstrou reação quando Fenrir entrou, mas o lobo sabia que o garoto havia percebido sua presença. Sem se despir – como Harry não havia se despido – deitou-se ao seu lado.

- Não me toque. – a voz rouca e chorosa soou baixa, sem nenhuma ameaça, e Fenrir correu a mão por sua cintura, forçando o corpo pequeno a se virar de frente para ele.

Harry normalmente se afastaria com medo ou raiva ao não ter seu desejo respeitado. Talvez gritasse, talvez explodisse a casa – como agora Fenrir sabia que ele era capaz. Mas ele não fez nada.

Os olhos azuis o observaram atentamente, as lágrimas corriam leves sobre a pele branca e ele podia sentir a tristeza de sua moitié. Tristeza pura e simples. Não medo, não desespero, somente tristeza. Aquilo era aterrador.

Passou os dedos de leve por sua face, espalhando as lágrimas na tentativa de secá-las.

- Eu não gosto quando você chora. – disse quando o menino somente se encolheu, escondendo o rosto contra o lençol.

Os olhos verdes se voltaram para ele com uma expressão estranha. Harry o olhou por alguns segundos de silêncio também.

- Por quê? – a pergunta clara e simples. Sem hostilidade, sem acusação, sem medo. Não havia sequer real curiosidade em seus motivos em si. Fenrir estranhou aquilo. Harry queria saber por que, mas sua curiosidade era voltada para ele, não para seus atos.

E ele teria que falar.

- Quando eu te trouxe para cá, você lutou. Eu sei que estava com medo e que eu não devia ter agido daquela forma, mas... eu não estava pensando. Você lutou, eu lutei com você, te machuquei, te forcei a fazer algo que você não queria. E quando eu terminei, você estava jogado nessa cama, em uma poça de sangue. Você não lutava mais e no momento em que eu te olhei, eu tive certeza de que você ia morrer. Eu sentia que estava morrendo com você. E você chorava. – o homem passou os dedos pela sua face novamente, onde as lágrimas não paravam de correr – Não havia som, não havia nenhuma outra reação, você estava morrendo e chorava. E tudo o que eu podia fazer era olhar para você.

- Então Severus chegou? – Harry perguntou – Eu não me lembro.

- Sim. Eu quase o matei, mas ele salvou você. – Fenrir o estudou por mais algum tempo – Ele te machucou hoje, não foi? Você quer que eu...

- Não quero que faça nada com ele. – Harry disse antes que qualquer ideia terrível que Fenrir pudesse ter tido com relação a Severus se concretizasse – Ele quer ir embora, mais do que tudo. Manter ele aqui já vai ser punição o suficiente. E se eu ficar doente, preciso dele. Sou péssimo com poções.

- Nós temos alguns mestres de poções no covil e sabemos nos cuidar. – Fenrir disse com orgulho e Harry percebeu que aquele "nós" representava todos os lobisomens que viviam ali. Era o alfa falando – E depois que você se transformar, vai ser muito difícil ficar doente.

Harry se afastou dele, assustado.

- Você quer me transformar?

- Eu vou te transformar. – Fenrir afirmou.

- Suponho que isso seja algo independente da minha vontade. – Harry disse e o lobo podia sentir a raiva ressurgindo nas suas palavras.

- Já era para ter acontecido, mas eu passei a lua cheia te salvando.

- E como você vai fazer? Vai me atacar e me deixar morrendo como fez com Draco e Rabastan ou vai me trancar nesse quarto de novo e me fazer lutar com você até estar sangrando e chorando e pronto para morrer? – Harry perguntou, quase gritando.

Ele desejava isso. Pela primeira vez em sua vida desejava realmente a morte. Lutaria contra ela, como lutou sua vida inteira, mas se essa era sua opção, ficaria feliz de sentir seu coração parando e saber que não haveria nada mais. Não haveria mais guerra, não haveria mais aquela sensação de traição e de estar completamente sozinho que estava sentindo, não haveria mais medo nem dúvidas. Ele teria terminado.

Um solavanco em seu corpo quebrou seu raciocínio e ele se sentiu sufocar quando Fenrir o apertou contra o peito forte demais. Mais do que proteção ou domínio ou o que fosse que Fenrir sempre tinha quando o abraçava, havia um desespero claro na forma como ele o segurava contra seu corpo. Ele precisava senti-lo naquele momento, saber que ele estava ali.

E, naquele momento, Harry conseguia discernir aquilo claramente. Conseguia efetivamente sentir o desespero e a necessidade e saber que não eram sentimentos seus, eram de Fenrir, mas estavam ali, o sufocando, tornando-o imóvel em meio ao abraço porque ele podia estar com raiva, mas efetivamente sentir o quanto o outro precisava que ele ficasse ali quase o obrigava a ficar.

Aquilo era assustador. Aquela ligação, aquela intimidade.

Fenrir estava com medo, e Harry nunca poderia conceber que isso fosse possível se aquele sentimento estranho não passasse do homem para ele. As mãos fortes correram das suas costas para seus cabelos em um carinho desesperado, buscar senti-lo completamente, e Harry o ouviu respirar fundo.

- Não fale em morrer. – a voz rouca do lobo pediu daquela forma quase ordem, e não havia nela nem desespero nem medo nem nada, mas Harry ainda sentia.

Ele se afastou minimamente do homem, sem romper o contato entre eles, mas podendo olhá-lo, e examinou seu rosto. Ele estava tenso. Seus dedos passearam pelas linhas que marcavam aquela feição atemporal, rude, mas de alguma forma bela, e Fenrir fechou os olhos, deixando a testa encostar à sua.

- Eu estou aqui. – ele disse, baixo, e Harry se surpreendeu.

Não era o que ele esperava ouvir. Era uma frase solta no meio daquele diálogo estranho que vinham mantendo, não fazia parte nem mesmo da pequena briga sobre transformação e morte. Eu estou aqui. Harry fechou os olhos e passou os braços pelo pescoço do homem. Não era o que ele esperava ouvir, mas era o que ele queria ouvir.

Se Fenrir estava desesperado e com medo com as inúmeras ameaças de Harry deixá-lo, fosse fugindo, fosse morrendo, Harry estava mergulhado em solidão. Ele não tinha mais Remus, não tinha mais Severus, e agora não podia contar com mais ninguém de seu passado. Fenrir estava certo, ele não podia arriscar nem seus amigos nem todo o covil contando a verdade, pedindo socorro. Ele não precisava de socorro. Ao menos não enquanto estava ali, entre os braços de Fenrir, sentindo seu calor e seu peito se acalmando somente porque ele estava confortável.

Harry se sentia tão cansado agora que era capaz de fechar os olhos e adormecer instantaneamente, não importando se estava vestido ou que talvez Fenrir estivesse desconfortável por ele estar praticamente deitado sobre ele, as pernas trançadas, o braço e peito musculosos o sustentando ainda de encontro a ele. Não importava que aquele homem queria transformá-lo ou se ele queria morrer.

Ele estava bem.

E finalmente Harry entendeu aquela magia. Ma moitié. O equilíbrio de duas pessoas. Por mais diferentes, por mais conflituosas. Ele se sentia bem e completo e em paz porque Fenrir estava ali, e ele não precisava de mais nada.

- Durma, ma moitié. – Fenrir acariciou seus lábios e pousou um beijo em sua testa antes que Harry acomodasse a cabeça contra seu ombro e se deixasse levar pelo sono.

Ele precisava daquela paz.

-:=:-

Sentent – sentir, em francês

NA: Oi, meus queridos.

Eu preciso pedir perdão para vocês! Quando eu parei de escrever foi principalmente por conta de reviews e comentários que estavam me deixando incomodada, então eu parei de postar também.

Bem, no último fim de semana, vocês devem ter reparado que eu voltei a postar. Nessa semana eu voltei a escrever. E eu estava agora relendo Moonlit para começar a pensar que rumo eu vou dar para ela quando eu percebi que eu não postei todos os capítulos que eu tenho escrito dela. Eu tenho até o capítulo 32 já pronto.

Eu vou voltar a postar nas próximas semanas, um a cada fim de semana, se tudo der certo. E se tudo der mais certo ainda, eu volto a escrever devagarinho.

Desculpem por isso.

Beijos e até o próximo.