Capítulo 25 – Solitudepartagée

- Beba. - a voz autoritária soou próxima demais e ganhou a atenção dos olhos castanhos antes que eles voltassem a encarar o fogo.

- Eu não preciso da sua piedade, Snape. - a voz rude, forte, fria. Típica de um Lestrange.

- Eu não estou te oferecendo piedade liquida. É uma poção. Vai te fazer se sentir melhor.

- Não, não vai. - o homem disse em tom de resolução e Severus o conhecia o suficiente para saber que sua presença ali não ajudaria em nada.

Levantou-se da beira da fogueira e caminhou de volta para casa, deixando a taça com a poção sobre a mesa. Estava cansado de tudo aquilo.

O garoto o observou seguir para o seu quarto, batendo a porta com força demais, e a casa voltou a ficar em silêncio. Draco e Remus dormiam. Fenrir e Harry dormiam. Severus remoia qualquer coisa trancado em seu quarto e ele não tinha sono. Gostava do frio da manhã, gostava da luz difusa do sol tão pouco apreciada naquele lugar.

Mas o acampamento ainda estava escuro demais e havia algum movimento dos lobos se retirando um por um, se acomodando com suas famílias, e o homem sentado sozinho à beira da fogueira quase extinta começava a se destacar naquele cenário.

Pegou a poção e decidiu que não se importava se Harry não gostava dele, se Fenrir o ignorava ou se Severus o tratava com diligência hostil. Ele estava sozinho.

- Diga a Severus que eu não quero a droga da poção. - a voz áspera soou irritada quando o garoto sentou-se ao seu lado, deixando a taça ao alcance de sua mão, sem oferecê-la.

- Posso dizer quando ele acordar, talvez. - Louis disse, jogando uns gravetos na fogueira, indiferente.

O silêncio os envolveu com o frio, a bruma se avolumando gradualmente sobre o solo, o fogo pequeno lutando para se manter aceso, as duas figuras paradas lado a lado.

Os olhos castanhos se desviaram do fogo, encarando o perfil calmo do garoto por um prolongado período de tempo, como se tentasse desvendá-lo, até que os olhos claros se voltaram para ele, finalmente.

- Eu gostaria de ficar sozinho. - o homem declarou, solene, e Louis teve vontade de rir: ele não o conhecia o suficiente para ser rude com ele como fora com Severus.

Ele era bem educado, provavelmente rico, de maneiras delicadas e certeiras como um nobre. Os traços do rosto triste e perpetuamente sério eram nobres, de uma beleza rara e firme, que se estendia aos olhos, expressivos demais.

E que nesse momento estavam mortos.

- Era seu irmão, não era? O homem que morreu. Tive a impressão de que vocês têm o mesmo sobrenome.

- Teve a impressão? - Rabastan o encarou confuso.

- Bem, eles não falam muito com você ou sobre você. - Louis fez um gesto de cabeça indicando a casa em que todos dormiam – Então não ouvi seu nome muitas vezes e não fomos apresentados. Mas você estava ansioso pelos jornais que me pediu para arrumar e, por curiosidade, fui ver a matéria que você estava lendo quando Harry o interrompeu. Harry prefere manter distância de você, então imagino que isso seja recíproco, logo, não era sobre ele que você estava lendo. - Louis fez uma pausa, o observando com mais atenção – Rodolphus Lestrange. Era seu irmão.

Agora aquilo era uma afirmação, Rabastan não precisava responder, estava traçado em seu rosto que aquele nome significava muito para ele e que lhe trazia um tipo indefinido de dor.

- Eu sinto muito. - Louis acrescentou.

- Não, você não sente. - Rabastan disse com raiva, os olhos ainda fixos no fogo – Ninguém sente. Ninguém nesse maldito lugar, ninguém naquele maldito cemitério, talvez ninguém no mundo sinta realmente a morte de Rodolphus.

- Só você. - Louis disse em voz suave, ganhando um olhar surpreso de seu interlocutor, como se aquela constatação só lhe ocorresse no momento em que deixara os lábios do garoto.

- Não me importa quem você perdeu, moleque. - Rabastan respondeu com raiva – Volte para os braços da sua mãe e me deixe em paz.

- Eu perdi ma moitié. - Louis disse, sorrindo para o fogo por um instante, triste - E estou perdendo Fenrir, de alguma forma, mas não me importo, ele precisa de Harry.

Rabastan o examinou por um longo momento.

- Foi ele quem te transformou?

- Não. Eu estava enlouquecendo entre humano e lobo quando ele me encontrou. Ele me acolheu. Ma moitié não sobreviveu à transformação. - Louis ficou em silêncio por alguns segundos, examinando o rosto sério do homem sob a luz fraca do fogo – Eu nunca pensei que poderia mudar nada do que aconteceu.

- Eu não quero mudar o que aconteceu. - Rabastan respondeu como se o outro o estivesse acusando de algo – Eu estive ali, para ele, minha vida toda, e ele foi incapaz de estender a mão para me tocar. Quando eu dei o primeiro passo para longe, no lugar de me seguir, ele preferiu se matar. Eu não me arrependo do que fiz. Eu não conseguiria continuar daquela forma. - ele correu os dedos pelos cabelos castanhos em um gesto nervoso – E não sei por que estou te dizendo todas essas coisas.

Louis sorriu para ele como para acalmá-lo, e então perguntou com a voz suave, como se aquilo fosse totalmente compreensível.

- Ele era mais do que seu irmão, não é mesmo?

- Ele era ma moitié. - Rabastan respondeu com voz derrotada, e se entregou – Ninguém sabe. Nossos pais não sabiam. A esposa dele não sabia. As pessoas naquele cemitério não sabiam. Era nosso segredo. A forma como ele sabia o que eu estava sentindo desde que éramos crianças. O porquê de dormirmos abraçados apesar de termos quartos separados. O real significado de cada toque, de cada olhar. A minha disposição de ficar com ele pelo resto da minha vida, mesmo ele precisando se casar para dar continuidade à família. As tentativas inúteis dele de se afastar.

- Vocês nunca foram... íntimos? - Louis perguntou, sua voz baixa mostrando certo receio com a ousadia daquela pergunta.

- Não da forma como está pensando. Nos beijamos algumas vezes. Havia o desejo, mas havia tantas outras coisas envolvidas que nunca aconteceu. - Rabastan o encarou e disse sério – A intimidade estava na alma.

- Você vai sentir falta disso o resto da sua vida. - Louis disse, sem deixar de olhar os olhos castanhos, fixos nos seus, brilhando difusos pelo fogo que morria ao lado deles – Você vai querer morrer somente para tê-lo de volta. Mas você é forte demais para isso. Você já passou por coisas demais.

- Você não pode imaginar. - Rabastan disse, e Louis quase conseguiu ver a sombra de um sorriso em seus lábios nesse momento – Mas ele sempre esteve comigo.

- Não. Você sempre esteve com ele. E agora não pode mais segui-lo. No fundo, você sabe como viver sozinho, ele é que não sabia, e por isso fez o que fez. Não estou menosprezando o que sentia por ele, mas se você não soubesse viver sem ele, você não estaria aqui pensando como, exatamente, vai fazer para seguir em frente.

Louis pegou o frasco de poção do chão e enfim o ofereceu. Rabastan aceitou, o entornou e se levantou, caminhando em silêncio para a casa, sabendo que a poção o faria dormir quase imediatamente.

E ele precisava descansar para descobrir como continuar. Louis estava certo. Ele era um sobrevivente.

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Harry estava silencioso naquela noite. Ele caminhou ao lado de Louis até o rio, cabisbaixo e ausente, mas não parecia exatamente triste. Louis não tentou tirá-lo de seu recluso ou tentou conversar, como sempre fazia. Se sentia cansado, os últimos dias vinham acumulando acontecimentos demais, tensões demais, e ele começava a se esgotar com tudo isso.

Um incômodo maior o tirou das próprias reflexões quando se sentiu ser observado. Ergueu os olhos, olhando disfarçadamente à volta, e se deparou com o homem sombrio de pé perto da orla da floresta.

"Obrigado", conseguiu ler nos movimentos dos lábios finos e sorriu de volta, retomando seu caminho.

- Então, como você está hoje, Harry? - de repente, ele se sentia um pouco melhor.

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Solitudepartagée – solidão compartilhada, do francês.

NA: Lambuja para vocês. E para avisar que eu repostei todos os capítulos da fic revisados.

Beijos