Capítulo 26 – Loups
Harry despertou e a cama estava vazia. Ele piscou por um momento, discernindo os contornos do quarto já familiar em meio a pouca luz noturna. Não havia ninguém ali, ele estava sozinho.
E, no lugar do alívio e paz que esperava sentir, tudo o que o invadiu foi... frio.
Ele passou as mãos no rosto, tentando despertar de vez, e levantou-se, se vestindo e saindo para a sala com as botas nas mãos, precisava tomar um banho e comer alguma coisa.
Havia pão, chá e carne assada sobre a mesa. Era basicamente disso que se compunham as refeições no covil. O pão era feito por eles mesmos, assim como chá e outras bebidas mais simples, havia sempre muitas frutas e raízes estranhas para comer, além de carne. Sempre havia carne, e mais de uma vez ele presenciou a chegada da caça ao acampamento. Não era o tipo de alimentação a que estava acostumado, e podia apostar que Draco também estranhava isso, mas a comida era boa e farta, não havia do que reclamar.
O loiro, aliás, estava sentado à mesa, comendo. Remus estava ao seu lado, fitando seu rosto sério, somente o observando, alheio inclusive à presença de Harry ali. Eles estavam tão próximos que, se Harry pudesse ver debaixo da mesa, podia jurar que Draco estava no colo do ex-professor, ou ao menos com as pernas entrelaçadas às dele. Os dois trocavam algumas palavras em tom baixo demais para que qualquer um à volta ouvisse, e, em determinado ponto, Draco concordou com algo e Remus o beijou.
Aquilo foi o suficiente para Harry decidir que não queria comer.
Não é que desaprovasse o comportamento deles ou algo assim, ao contrário. Remus parecia mais feliz do que nunca e Harry estava feliz por isso, só não se sentia com espírito para suportar demonstrações públicas de afeto na mesa do café da manhã – ainda que fosse de noite.
Ele suspirou, saindo da casa, feliz por não ter que dar satisfações já que o casal não o havia notado, aparentemente. Reparara que Rabastan estava sentado em um canto da sala também, mas não gostava da forma como o homem o olhava, então evitava até mesmo olhar para ele. Estranhara a ausência de Louis, que todos os dias costumava esperar por ele do lado de fora do quarto de Fenrir, mas entendeu essa ausência como, talvez, a anulação da ordem que Fenrir dera a Louis de acompanhar, e vigiar, Harry em todos os momentos.
E Fenrir estava ausente também.
Quando a brisa fria da noite moveu os cabelos negros e bagunçados e os pés pequenos e brancos demais tocaram a terra úmida do lado de fora da casa, Harry se sentiu mais leve. Caminhou até o rio, no ponto em que costumava se banhar, sentindo como se, a cada passo que dava, um pouco de sua irritação ficasse pelo caminho.
Ele havia acordado irritado, só agora se dava conta disso, e sua reação a tudo – a solidão, o frio, Remus e Draco, Rabastan, Louis – tinha muito dessa irritação. E ele não sabia, exatamente, qual era o motivo de tanta tensão. Estar sozinho, ali, se despindo para entrar nas águas calmas do rio, significava mais liberdade do que tivera desde que Fenrir o capturara.
Mais liberdade do que tivera em toda a sua vida.
Ao mergulhar na água, percebeu que nunca pudera fazer isso: o que quisesse, o que sentia necessidade, sem antes ter que pesar as ordens de sua tia ou as consequências de desafiar seu tio, ou, mais tarde, quem poderia morrer com esse simples gesto porque ele estava se arriscando ou simplesmente pensar que aquilo era um risco.
Ele estava livre e seguro. Pela primeira vez na sua vida. Talvez não pudesse fazer algo como sair do acampamento ou aparatar de volta para Hogwarts, mas no fundo não queria ou sentia necessidade realmente de fazer isso. Ele não sabia o que o mundo lá fora esperava dele agora. Ele estava morto para eles, e isso aparentemente fora muito bem aceito, mesmo por seus amigos. Eles tinham um ao outro agora, e ele não fazia mais parte disso, independente do que acontecesse, essa era a verdade.
E Harry, o que tinha?
Liberdade, segurança e... Fenrir. Sua moitié. Na última vez em que estiveram juntos, Harry sentia que não tinha mais nada, e seu desespero desesperou Fenrir. E ele agora achava que tinha entendido, finalmente, o que era ser la moitié de alguém. O que era ter alguém, de forma completa, íntima, interna.
Mas Fenrir não estava lá quando acordou.
Saiu da água, se secando rapidamente, e voltou a se vestir. Agora estava com fome, mas não queria voltar para a casa. Andou em direção ao acampamento, vendo a luz da fogueira que parecia estar sempre acesa, sentia cheiro de carne vindo de lá também, e não se enganou. Em espetos cravados entre pedras na base da fogueira, grandes pedaços de carne eram assados. Algumas mulheres cuidavam da comida, mas deram atenção ao garoto. Ele se aproximou, puxando um dos espetos, e, com cuidado, arrancou com a mão um pedaço para comer. Aquilo era muito mais rústico que os pratos servidos dentro da casa, mas ele não se importava.
- Perdeu seu pajem? - uma voz grave chamou sua atenção e ele se voltou, procurando sua fonte, e encontrou o homem que o havia abordado alguns dias atrás na beira do rio.
- Hum. Oi. Lincan, não é? - ele sorriu quando o homem concordou e o observou com mais atenção. O homem tinha uma vasilha perto do fogo, com água, onde molhava um trapo e passava em um ferimento em seu braço – O que aconteceu?
Harry olhou a ferida preocupado, se aproximando quase inconscientemente para ver melhor. Parecia funda.
- A caça não vem de bom grado para seu prato, garoto. - o homem respondeu, rude, mas sorriu em seguida em meio a um gemido de dor quando pousou o pano novamente sobre a ferida.
- Você é um caçador? - Harry perguntou, sentando-se ao lado do homem e puxando o braço ferido para o seu colo. Severus certamente poderia fechar o corte com um feitiço simples, ele não era tão bom nisso, sempre fora melhor em se machucar.
- Como seu moitié. - o homem respondeu, e agora parecia incomodado com a situação – E ele não vai gostar de te ver aqui.
Os olhos verdes o encararam sérios e frios, indicando desacordo com aquela última fala. Sacou a varinha das vestes em silêncio e se concentrou. Aquilo agora era um desafio. Passou mentalmente vários dos feitiços que se lembrava de ver Hermione, Pomfrey e até mesmo Snape usando nele quando se feria, escolhendo um que lhe parecia mais simples, sussurrando-o, incerto, mas sorriu ao ver o corte se fechar, deixando uma cicatriz fina na pele morena.
O homem examinou o local por um momento antes de voltar a encarar o garoto.
- Um bruxo. Muito bem, eu não esperaria menos do moitié do Alfa. Mas você não pareceu muito bom nisso.
- Eu estava estudando ainda quando... - Harry se calou. Se deu conta de que tudo havia acontecido somente há alguns dias. Sua vida mudara totalmente em dias e ele mal se dera conta disso.
- Você também não serve para caçar, aparentemente. - o homem o examinava em tom de deboche.
Harry riu, sentando-se mais confortavelmente do seu lado.
- Eu queria ser auror quando terminasse o colégio, o que não deixa de ser um tipo de guerreiro.
- Não do tipo que sobreviveria em um lugar como esse, posso garantir. - Harry o encarou, sério. Os olhos escuros do homem brilhavam avermelhados pela luz do fogo e havia distintamente um tom de ameaça naquela frase. Ele parecia ponderar sobre algo e Harry segurou mais firmemente a varinha, tenso pelo próximo movimento do lobisomem muito maior do que ele. Até que o homem sorriu – Mas você certamente sabe mais do que qualquer bruxo daqui. Seria um ótimo professor. Magia pode ser perigosa quando não doutrinada.
- Você parece confortável vivendo com bruxos. - Harry ponderou, ainda na defensiva.
- Quando se é mordido, você é um lobisomem, nada mais. - o homem respondeu, sério. Harry sustentou seu olhar por alguns segundos, até que o outro estendeu a mão para o fogo, pegando um espeto, e cortou um pedaço de carne o oferecendo a Harry antes de pegar um para si – Coma tranquilo, eu não vou te fazer mal. Ninguém aqui seria louco o suficiente de tocar em la moitié de Fenrir Greyback.
Harry aceitou, comendo em silêncio, a varinha ainda ao alcance. Mas logo o conforto do fogo, do banho recente e da comida o fizeram se esquecer da tensão. Ele nunca estivera tão atento às atividades do covil em si. Havia famílias inteiras vivendo ali, crianças se aproximando eventualmente das mulheres para pegar comida, outras sentadas em círculo em torno de homens que pareciam contar sobre algo. Outros homens limpavam as peles de algum animal não muito distante da fogueira e outros, mais atrás, levantavam uma pequena tenda, do tipo que servia de abrigo para a maior parte dos habitantes dali.
- Lobisomens podem ter filhos? - Harry perguntou, confuso e curioso com aquela dinâmica que o cercava.
- Sim e não. - Lincan começou, sorrindo quando Harry voltou sua atenção para ele – As mulheres podem engravidar, como qualquer fêmea. Mas poucas sobrevivem à gestação, assim como a chance do bebê nascer é mínima. - Harry mantinha uma expressão confusa e o homem esclareceu - O corpo da mãe muda a cada lua, o do bebê não. Se o bebê foi concebido quando ela estava na forma humana, não costuma sobreviver mais do que dois ou três meses. Se foi concebido como lobo, dura mais, mas muitas vezes fere o corpo humano da mãe de dentro para fora, então a mãe não sobrevive.
Harry voltou a olhar as crianças e as diversas mulheres.
- Lobos precisam de companheiras. Eles formam matilhas, têm a necessidade de procriar e criar famílias. Eles mordem mulheres, em geral suas moitiés. Mas criou-se o costume de abortarem quando suspeitam de gravidez, por motivos óbvios. Mas o instinto materno permanece na loba. - ele olhou para Harry – Fenrir não é o único a morder crianças. É o único sem motivo aparente, talvez. Ou ao menos era até você aparecer.
Harry preferiu não responder. A postura do homem o incomodava, era quase tão hostil quanto a de Fenrir, mas, ao mesmo tempo, sentia uma certa simpatia porque ninguém – nem Remus, nem Louis, nem o próprio Fenrir – havia se prestado a explicar para ele a dinâmica daquele lugar. O movimento e a sincronia social que podia ver naquele momento o fascinaram por completo.
A uma primeira vista, aquele amontoado de casas precárias, pessoas dormindo sob árvores em plena luz do dia, a necessidade de caçar para viver, a atmosfera hostil o tempo todo, davam a impressão de serem pessoas desocupadas, jogadas em meio à mata. Gente que, como Remus, não queria estar ali, mas, diferente dele, que lutava para conseguir seu lugar na sociedade, não se dava a esse trabalho.
Agora via que não, isso estava errado. Ali era uma sociedade. A sociedade deles, o jeito deles de viver. Só era... diferente. Não era trouxa, não era bruxa, era... animal. Lupino. Ali era uma alcatéia, lobos organizados e vivendo em conjunto para atacar, como fizeram quando destruíram Voldemort, para se defender e para sobreviver.
- Fenrir é o alfa. - Harry constatou, falando em voz alta.
- Ele não te disse isso? - Lincan perguntou, descrente e irônico.
- Eu não lembro, não dei atenção. Só agora eu entendo... O que ele faz? Onde ele está?
O semblante do homem se fechou e ele indicou o outro lado da clareira. Harry agora via uma outra concentração de luzes ali, sob uma tenda, mas não via Fenrir, supondo que ele estivesse do lado de dentro.
- Tivemos uma briga entre os lobos durante a caça hoje. Ele está cuidando dos feridos. Ele é nosso principal caçador, o lobo mais forte do covil. Ele é o líder, oferece proteção em troca de lealdade, é isso o que ele faz. Ele cuida de tudo por aqui. Ou deveria cuidar.
- Tem algo de errado? - Harry perguntou, preocupado.
Lincan sorriu, se recostando no tronco de árvore atrás dos dois mais confortavelmente, se aproximando de Harry com o movimento. E disse em um tom mais baixo.
- Ele não está cuidando de você, está?
Harry engoliu em seco, procurando uma resposta para aquilo.
Aquela pergunta o incomodou. A postura do homem o incomodou. Ele queria somente se levantar e sair dali, mas se sentia acuado de tal forma que era como se, caso se movesse, isso significaria algum tipo de vitória para o outro.
Felizmente, fora poupado por uma comoção do grupo quando o fogo ficou verde e uma sombra saiu do meio das chamas, caindo tossindo aos seus pés.
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Loups – Lobos, do francês.
NA: Postando o capítulo hoje porque amanhã vou viajar e quero fazer o carnaval de vocês um pouquinho mais feliz – ou mais tenso, vai saber XD
Beijos.
