Capítulo 27 – Fragments
A sala era espaçosa, limpa, fina, elegante. Lembrava os tempos áureos da família. Na época em que ela costumava sair com Draco à tarde, quando o sol já não estava tão forte para sua pele de criança, somente para passear pelo Beco Diagonal procurando objetos de decoração para a mansão.
Ela decorara a sala exatamente da mesma forma que a sala que ocupavam quando eram somente os três.
Agora eram dois.
Lucius parecia não notar. Parecia não se importar com o fato de que seu filho – seu único e querido filho – saíra de casa. De que o garoto por quem estava disposto a dar a própria vida até meses atrás poderia estar vivendo na rua. Poderia estar sozinho. Poderia estar preso. Poderia estar precisando deles, a sua família.
Lucius não falava em Draco. Não respondia quando ela falava em Draco. E ela já não conseguia pensar em mais nada além de seu filho.
- Eu enviei uma coruja hoje e não obtive resposta. – ela comentou de forma séria, mas amena, enquanto comiam em silêncio.
Ele comia. Ela remexia a comida no prato educadamente.
- Hum. – ele ergueu o olhar para ela – Era algo importante?
- Era para Draco.
Ele parou de comer. Seus olhos a encaravam sérios. Resolutos. Frios.
- Querida. – ele disse em tom cortante, tentando soar ameno – Draco está morto.
Ela levou o guardanapo do colo aos lábios, fingindo limpar qualquer resíduo inexistente quando disfarçava o descompasso em sua respiração. Seu filho não estava morto. Esse era o pensamento que ela lutava para manter concreto e íntegro em seu ser dia após dia, talvez a única coisa que a mantivesse de pé e continuando sua própria existência. Porque, se seu filho estava morto, ela era culpada porque permitiu que ele se fosse. Ela simplesmente não tinha o que fazer.
Ele não podia estar morto.
- Perdeu o apetite, querida? – Lucius perguntou, levemente preocupado.
- Não estou com muita fome. – ela respondeu, tentando sorrir, mas não conseguiu – Mas te faço companhia.
Ele sorriu. Ele continuou a comer. Ele deitaria e dormiria esta noite. Ele acordaria no dia seguinte e governaria um país.
Ela estava definhando. E ele não fazia nada.
O que era, afinal, que os dois tinham sem Draco? Qual era o sentido daquela família que ignorava um de seus entes? Ela passara os últimos dias revirando fotos e perdida em lembranças da sua gravidez, de como Lucius estava feliz, de toda a preocupação quando Draco era pequeno e houve a queda do Lord, da infância em paz, dos anos no colégio. Quantas vezes nos últimos dias ela releu todas as cartas que ele mandou, cheirou seu último uniforme guardado no fundo do guarda roupa, desejando ter todas as lembranças daquele ano que foram queimadas junto com a mansão para destruir o Lord.
Ela seria capaz de desafiar o próprio Lord das Trevas para salvar seu filho. E agora estava ali, impotente, perdida no medo de tê-lo perdido para sempre, por causa daquele homem.
Ela amava seu marido. O amou desde o momento em que fora prometida para ele. E isso não foi fácil, ela teve que abrir mão de muita coisa para ficarem juntos, ela enfrentou duas guerras ao lado dele, sendo o alicerce daquela família. Mas eles simplesmente não existiam sem Draco.
- Lucius, você pretende, em algum momento, rever a lei dos lobisomens? – ela perguntou, súbita e objetivamente, sem tentar domá-lo, sem tentar convencê-lo. Ela precisava encarar a verdadeira face de Lucius.
- E por que eu faria isso? – ele perguntou, confuso.
- Eu entendo que é uma manobra necessária no pós-guerra para a limpeza da sociedade e a segurança da população, mas, a longo prazo, eles podem se reintegrar...
- Narcissa, eles são animais! Não há como nem porquê fazer isso!
Ela o encarou, pasma, e a primeira lágrima caiu por seu rosto.
- Nosso filho é um lobisomem, Lucius! – sua voz não demonstrava a raiva que sentia, mas sua alma se dobrava em dor pela escolha que estava sendo obrigada a fazer.
- Nosso filho foi morto por um lobisomem, Narcissa! Está na hora de você aceitar isso de uma vez por todas!
Uma segunda lágrima caiu e ela não conseguia mais olhar para seu marido. Para o homem que ela amou e por quem ela desafiou o mundo para construir uma vida. Por quem ela abriu mão de tudo para ficar junto.
Menos de seu filho.
Os olhos azuis ainda a encaravam no desespero de fazê-la entender que, sim, seu filho, seu bebê, estava morto, e, naquele segundo, Narcissa entendeu que não tinha mais o que ser dito, Lucius acreditava nisso. Entre suas crenças e seu filho, ele não conseguiu escolher, e algum tipo de loucura escolheu por ele, empurrando a lembrança de Draco àquele fim terrível.
Mas ela sabia que não era verdade.
E entre seu marido e seu filho, ela já havia feito sua escolha, independente da loucura dele.
- Eu também morri, querido. – ela disse, se permitindo finalmente chorar, e aparatou.
No andar de cima da casa, dentro do escritório, ela ouvia Lucius gritar por ela. Sua voz carregada de dor, como se realmente acreditasse em suas palavras, como se ela pudesse ser algum fantasma em sua vida que decidiu desaparecer.
Ela temia o que aquela dor poderia causar em um homem poderoso como ele se ele estivesse mesmo perdido em sua loucura. E temia o que ele poderia causar a ela se a descobrisse somente escondida no escritório naquele momento.
A decoração da sala de jantar se quebrava no chão em meio aos gritos de Lucius enquanto ela revirava o gabinete residencial do Ministro da Magia à procura de qualquer coisa cortante. A navalha de abrir cartas serviria. E era tudo o que ela levaria daquela casa, além de sua varinha. Em um último momento, decidiu se prevenir, e conjurou uma capa de seu quarto, vestindo-a antes de partir. Todo o resto poderia ficar para Lucius, para ele chorar em seus vestidos como ela chorou sobre as vestes de Draco.
Acendeu a lareira com um feitiço silencioso e fez um corte fundo no braço, deixando o sangue correr sobre as chamas. Ainda lembrava as palavras vindas de magia antiga, lidas em sua infância, na biblioteca da casa de sua mãe. Ela era mãe, e usaria de todos os seus recursos para encontrar seu filho. Fruto de seu próprio sangue.
Quando as chamas esverdearam, ela entrou na lareira sem medo, pois se Draco estivesse morto, ela o encontraria no inferno agora.
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- Que tipo de idiota você é, Lupin? – Remus reconheceu no uso do seu sobrenome o tom de irritação, apesar de nada parecido com irritação ser transmitido por Draco através do vínculo dos dois – Eu não quero nada de você!
- Quando você veio para mim, Draco – Remus sentiu uma onda de satisfação tomar conta de seu corpo somente de ver Draco corar com a referência à primeira vez deles –, eu prometi que cuidaria de você, que daria as condições mínimas para você viver. Eu só estou cumprindo a minha promessa. Agora, essa sua negação constante só está me convencendo de que você não acredita que eu seja capaz de montar uma casa para você.
- Não é isso, é que eu... – o garoto mordeu o lábio, se voltando para o que restara de seu desjejum no prato, sem completar o raciocínio.
Draco estava triste. Depois que os dois se acertaram, sumiu toda a sua insegurança e seu desespero, mas ele continuava triste. E isso incomodava Remus. A ideia de montarem uma casa, um lugar dentro do covil de Fenrir mesmo, para viverem juntos, com mais privacidade e estabilidade, soou para ele como uma forma de talvez agradar o menino, e aquela negativa o surpreendia.
- Já passou pela sua cabeça que não podemos ser hóspedes de Fenrir para sempre? Eu mesmo, se estivesse sozinho, teria que me virar. Eu só estou pensando em algo mais confortável já que estamos juntos. – ele beijou os cabelos loiros quando Draco não voltou a olhar para ele. O garoto era inteligente, uma parte dele concordava com a ideia, mas uma parte que não queria criar expectativas sobre nada ainda estava resistente – Eu não posso te dar luxo – Remus sussurrou no seu ouvido -, mas vou te dar um teto e um lugar confortável, só nosso, para viver. Hum? O que me diz?
- Quanto tempo você vai ficar fora para isso? – Draco perguntou, sério, ainda sem olhá-lo.
- Um dia, no máximo. – Remus o puxou para mais perto e beijou o canto de sua boca – Prometo sair depois que você dormir e voltar antes que você acorde no dia seguinte.
Draco sorriu. Remus já havia aprendido que ele gostava de mimos. Não precisava ser algo grande, desde que fosse algo exclusivamente dele, e a briga estava ganha. Draco se voltou para ele e estavam se beijando, e Remus não conseguia pensar em mais nada além de como estava feliz enquanto Draco envolvia seu pescoço com os braços e suspirava no meio do beijo.
Foram interrompidos pelo grito de Harry pedindo ajuda. Remus se levantou, rápido, acompanhado de Rabastan, que estava no outro canto da sala, e Severus surgiu do fundo da casa, mas nem chegaram à sair da varanda quando um lobo alto e forte entrou trazendo uma pessoa no colo. Harry apareceu logo atrás, pedindo por água, que Severus conjurou, e Fenrir entrou em seguida.
- Saia. – rosnou baixo para o homem que auxiliara Harry, mas ninguém estava prestando atenção em mais uma de suas demonstrações de possessividade.
A pessoa que Harry socorrera estava acordando, o capuz caindo de sua cabeça conforme ela tossia com a água que ele lhe oferecera, e Draco se lançou de joelhos ao seu lado.
- Mãe!
- Ela está ferida. – Harry informou, levantando a manga ensopada de sangue da capa de Narcissa.
Severus se aproximou e começou a tratá-la. Draco segurou sua mão com firmeza, alisando seus cabelos, beijando sua têmpora, preocupado ao ver os olhos claros como os seus piscarem lentos.
- Draco... Draco... – ela repetia.
- Ela está fraca demais. – Severus constatou – Alguma coisa, além do ferimento, drenou energia vital dela. Ela precisa descansar. Vou levá-la para o meu quarto. – informou, encarando Fenrir, e ele concordou com um aceno de cabeça sob pressão dos olhares aflitos de Harry e Draco.
- Mas me informe assim que ela acordar. Quero saber como ela chegou aqui e por que veio.
Severus concordou com a cabeça e a pegou nos braços, sendo seguido por Draco e Remus até o quarto nos fundos.
- Você tem algum motivo especial para dar asilo a ela? – ele perguntou para Harry, sério.
- Não. – Harry respondeu, aflito – Mas faria um bem imenso a Draco se ela pudesse ficar.
- Ela não vai poder ficar. Alguns dias, no máximo. E isso se ela não for uma isca para trazer caçadores para cá.
- Caçadores? – Harry perguntou, confuso.
- É como o marido dela chama quem ele responsabilizou pela prisão e execução de lobisomens. Não me culpe por não confiar nela. – o lobo deu as costas ao menino, voltando para o acampamento, mas sentiu a mão pequena segurar seu braço.
- Eu não culpo. – Harry disse, baixo, e Fenrir acenou com a cabeça.
Algo havia mudado no menino.
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Fragments – Fragmentos, em francês.
NA: Desculpem o atraso, queridos.
Enjoy XD
E espero reviews!
Beijos e até semana que vem! o/
