Capítulo 29 – Maison
O sol sumia no horizonte entre as árvores em torno do acampamento. As pessoas começavam a acordar.
Duas mulheres entraram na casa, deixando grandes bandejas com comida e bebida sobre a mesa da sala e Fenrir conversou em voz baixa com elas por alguns instantes. O covil estava tranquilo, ele tinha coisas para resolver naquele dia dentro de sua própria casa.
Harry se levantou, saindo do quarto esfregando o rosto desorientado. Os olhos azuis seguiram de longe seu movimento de espreguiçar e calçar as botas. Ele havia acordado mais cedo que o menino e o deixado na cama, e considerava uma vitória particular Harry ter se enrolado todo e resmungado quando perdeu o calor de seu corpo.
O garoto finalmente o percebeu e deu um sorriso pequeno, falando baixo que ia se lavar. Fenrir acenou com a cabeça que havia entendido e o viu sair sozinho da casa em direção ao rio. Nos últimos dias, Harry havia circulado pelo acampamento com Lincan ou sozinho, e Fenrir não gostava disso. Estranhava a ausência de Louis quando havia dado ordens claras para que ele não deixasse seu moitié sozinho em hipótese alguma.
E a presença de Lincan junto a Harry era perturbadora. O lobo era provavelmente seu maior problema no covil naquele momento e ele estava evitando veementemente não entrar em conflito com ele. Não pelo conflito, mas porque ele era um bom caçador e não queria perdê-lo nesse momento de perseguição política. Precisava de gente forte para ajudá-lo a defender seu povo. Mas vê-lo com Harry o inquietava.
Como que em resposta aos seus pensamentos, Louis surgiu do corredor que levava aos outros cômodos da casa. E, atrás dele, vinha Rabastan. O garoto sorria, leve, em contraste com a seriedade do ex-comensal, e Fenrir estreitou os olhos ao perceber a mão apoiada em sua cintura, que foi recolhida discretamente.
- Harry está no rio. - Fenrir informou, sério, antes mesmo que Louis se sentasse para comer – E mais tarde quero conversar com você.
O garoto concordou com um gesto de cabeça e saiu, sem mais. Rabastan sentou à mesa junto a Fenrir, cumprimentando-o com um gesto de cabeça antes de se servir.
- Depois da lua, - Fenrir o encarou, sério, seu tom definitivo – eu espero que você já tenha outro lugar para viver, Lestrange.
- Devo deixar o covil? - Rabastan perguntou, aparentemente sem resistência à intimação.
- Não. - Fenrir ponderou por um momento – Somente assumir suas responsabilidades aqui.
O homem concordou com um gesto de cabeça e voltou a comer. Fenrir ainda o encarou em silêncio por um tempo, como se o peso de seus olhos sobre o homem pudesse arrancar dele seus pensamentos e intenções.
Seus olhos só o deixaram em paz quando Remus e Draco entraram na sala. Remus envolvia o loiro pela cintura possessivamente e, ao contrário de Louis e Rabastan, o contato somente se intensificou ao perceberem que não estavam sozinhos. Remus puxou Draco para mais perto dele, beijando sua nuca, ao que o loiro fechou os olhos e se virou em seus braços para beijá-lo devidamente. Os dois trocaram algumas palavras em sussurros e, quando Narcissa surgiu no corredor, se deparando com a cena íntima entre os dois, eles finalmente se soltaram.
- Greyback. - Remus se aproximou do alfa, fazendo um gesto de cabeça como para pedir permissão para algo, ao que Fenrir assentiu – Eu preciso deixar o covil por um ou dois dias. Preciso encerrar algumas questões na Inglaterra antes de me estabelecer aqui de vez.
- Lucian vai com você. - Fenrir determinou – Não é seguro. E, Lupin, - ele segurou a mão do homem que já se afastava, impedindo o movimento – eu espero que você realmente volte dessa vez.
- Ma moitié está aqui. - Remus acrescentou e Fenrir o livrou do aperto, se dando por satisfeito e sorrindo quando o homem olhou uma última vez para Draco, fazendo-o corar, antes de sair.
Narcissa sentou-se em silêncio ao lado do filho e começou a se servir. Havia algo tenso entre os dois, mas isso não preocupava Fenrir, eles se resolveriam. O último habitante da casa surgiu no corredor. Ele parou por um momento, analisando a cena, e Fenrir quase sorriu com aquele tipo de cuidado tão característico de Severus Snape. Com um pequeno sinal para o homem, se levantou e deixou a sala, sabendo que seria seguido.
- Algum problema, Greyback? - Severus perguntou, tenso, andando um pouco atrás do lobo.
- Alguns. Um em que você pode ser útil. Nas últimas caçadas tivemos alguns feridos, entre eles meu melhor bruxo curandeiro. Gostaria de saber se pode ajudar no tratamento dele e no caso de alguém precisar de cuidados no covil enquanto ele se recupera.
- Certamente. - Severus confirmou, não ousando negar nada para o homem, apesar de seu foco naquele lugar ser completamente outro – Eu não vi Harry esta manhã.
- Ele está no rio com Louis. Vou lá agora. - ele parou e esperou o bruxo alcançá-lo – Meu homem está naquela tenda. - ele apontou uma pequena cabana não muito distante, adicionando em sua voz um tom de ameaça já quase habitual para Severus – Faça um bom trabalho, Snape.
A contra gosto, o homem desviou de seu caminho e foi na direção apontada. Fenrir continuou em direção ao rio, já vendo Harry se vestir em meio à escuridão amena que envolvia o lugar. A luz da fogueira ao longe chegava difusa ali e Louis, provavelmente na pressa de seguir as ordens de Fenrir, não trouxera nada para sanar isso.
Os olhos verdes se ergueram quando o garoto percebeu que se aproximava e Fenrir respirou fundo, sentindo pelo vínculo entre os dois um sentimento receptivo, como uma surpresa agradável de vê-lo ali. Harry estava bem, ele podia sentir isso. Estava confortável, saudável e... leve. Ele não se arriscaria a dizer que estava feliz, mas não havia a tristeza, a angústia dos últimos dias, e isso o alegrava. E ele sorria quando Fenrir se aproximou e segurou seu rosto para beijá-lo, ao que ele retribuiu.
O lobo o puxou para mais perto, o abraçando com força, e aquele contato se converteu rapidamente em desejo. Os lábios de Harry se partiram em um som que poderia soar como surpresa, mas era pura luxúria aos ouvidos de Fenrir. Não havia medo ou repulsa e o lobo sabia perfeitamente que Harry estava ciente do que sentia, mas sabia também que ele não estava pronto. E a última coisa que ele queria era deixar o garoto desconfortável depois de tudo o que havia conquistado.
- Vá comer. - Fenrir disse, se afastando com certo esforço – Eu preciso falar com Louis.
Harry concordou e se afastou, indo quase correndo em direção à casa. Fenrir franziu o cenho, sentindo uma certa perturbação com o garoto, mas não sabia ao certo se devia se preocupar. Sua atenção se voltou para Louis, que continuava sentado à beira do rio, parecendo tenso.
- Me desculpe pelas ausências, Fenrir, isso... não vai se repetir.
- Por que não? Ele já te dispensou? - o alfa sentou ao seu lado e Louis o olhou assustado, para em seguida desviar o olhar para as águas escuras. A voz de Fenrir se tornou menos severa – O que você está fazendo, Louis?
- Eu só... - ele suspirou.
- Eu conheço Rabastan Lestrange melhor do que você. Eu lutei duas guerras ao lado dele e sei do que ele é capaz. Eu não confio nele.
- Você é tão letal quanto ele e eu confio em você. - Louis declarou, voltando a olhá-lo – Eu não tenho nenhum vínculo com ele. Minha lealdade é toda sua, Fenrir, mas ele está me dando algo que eu não tinha desde... - ele hesitou – Ele perdeu seu moitié, sabia?
- Vocês estão construindo algo sobre perdas, então. - Fenrir disse, rígido – E você acha mesmo que isso pode funcionar?
- Não se trata disso. - Louis respondeu, visivelmente irritado – Eu gosto dele, Fenrir. De verdade. Como eu ainda não tinha me permitido gostar de alguém. E a forma como ele me olha, a forma como ele me toca... É como se ele realmente me visse! E isso é importante para mim.
Fenrir se aproximou, pousando um beijo entre seus cabelos.
- Eu só quero que você fique bem, Louis. Eu tenho cuidado de você há tempo demais para simplesmente deixar de me preocupar agora. Eu não sou só seu alfa.
O garoto concordou com a cabeça e sorriu em agradecimento. Nunca Fenrir tinha demonstrado tanto cuidado com ele, apesar de ele saber ou supor que aquela preocupação existisse. De certa forma, aquilo podia ser também uma influência de Harry.
- Obrigado. - ele disse com sinceridade, e reafirmou – Eu estou bem. E acredito que ele também.
Fenrir assentiu com um gesto e se deitou na grama, vendo as primeiras estrelas surgirem no céu junto à lua nova já fraca. Em pouco mais de uma semana ela estaria cheia, e tudo iria mudar.
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Remus arrumou documentos, dinheiro e uma troca de roupa para o caso de demorar mais do que o esperado, encolheu tudo em um pequeno pacote e guardou no bolso das vestes, arrumando a varinha escondida, mas fácil de ser sacada, em uma das mangas. Jogou a capa sobre os ombros e deixou o pequeno quarto. Draco não estava à vista, provavelmente saíra com Snape ou Narcissa, mas ele sabia que estava bem. Já haviam se despedido, mas ele quase sorriu com o pesar que se apossou de seu peito ao pensar que não iria vê-lo durante mais de um dia.
Saindo da casa, Remus cruzou rapidamente a clareira onde os lobos acampavam, as atividades do covil estavam só começando, mas ele viajaria a noite inteira e conseguiria chegar clandestinamente na Inglaterra somente com o amanhecer, se desse sorte. Seus pensamentos estavam perdidos no que tinha que fazer: vender a pequena casa que ainda tinha em seu nome, apesar de pouco ir lá desde que entrara na Ordem; comprar a estrutura mágica para uma nova casa, que pudesse ser montada no covil. Não devia ser difícil, ainda que tivesse que fazer tudo isso sem revelar que era um lobisomem. Iria precisar de ajuda. Talvez McGonagall.
- Acho que vamos pelo mesmo caminho. - a voz grave e baixa o sobressaltou e Remus tinha a varinha nas mãos quando se voltou, percebendo só então que estava sendo seguido desde que deixara o covil.
- Lestrange. - cumprimentou, desconfiado – Como assim?
- Suponho que Fenrir te deu um ultimato para deixar sua casa também. É por isso que está indo para a Inglaterra, não? Cuidar de negócios.
- Ele não me disse nada, mas está na hora de Draco e eu nos instalarmos melhor. Vamos ficar.
- Sim. Ainda mais que Narcissa apareceu. - o homem parou para acender um cigarro, e voltou a acompanhar o outro.
- E você, pretende ficar? - Remus perguntou, desconfortável com a presença do homem que havia se acostumado a ver como um inimigo. Rabastan só concordou com um gesto de cabeça, fumando, silencioso – Algum motivo além da segurança?
- Alguns. - ele respondeu, vago.
Os dois chegaram ao ponto de aparatação, ressurgindo juntos na cidade em que tomariam um barco trouxa para atravessar o canal clandestinamente para o outro país. Remus conhecia aquele procedimento desde sua adolescência, e ficara surpreso de Rabastan o acompanhar com tanta familiaridade.
- Você vinha muito ao covil quando era comensal? - perguntou, se esforçando para se manter ameno.
- Não. - o homem respondeu, seco – Mas não gosto de correr riscos, eu sei onde estou pisando, Lupin. Eu sou um sobrevivente. - ele olhou diretamente para o companheiro – E agora preciso conquistar a confiança de Greyback. Não sou mais comensal, Lupin, sou lobisomem, e há muito mais do que segurança naquele covil para mim. A Inglaterra morreu quando eu fui mordido, estou somente indo buscar o que preciso para recomeçar aqui.
Remus concordou com um gesto de cabeça, ainda sem se sentir seguro, mas ponderando sobre a simples disposição do homem de falar e deixar aquilo claro. Talvez fosse mesmo um novo Rabastan Lestrange que viajava ao seu lado.
Talvez ele mesmo também fosse um outro Remus Lupin.
Tudo havia mudado muito rápido e ele já não sabia exatamente como havia acontecido, se com o sequestro de Harry ou Draco ou a política ou Dumbledore... Pensar em motivos o deixava confuso e perturbado, ele só tinha a certeza de que, de alguma forma, estava melhor agora. Mais... certo.
E o homem sério que fumava observando as águas escuras do mar que cruzavam vagarosamente parecia ter a mesma opinião.
Estavam todos recomeçando suas vidas.
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Maison – do francês, casa.
NA: Não, isso não é uma promessa ou um compromisso ou uma esperança. Eu ainda não sei quando vou terminar essa fic, apesar de faltar MUITO POUCO para terminar. Eu só meio que voltei a escrever e fiquei feliz e resolvi dar esse presente para vocês.
Eu estava com saudades disso tudo 3
Desculpem pelas reviews ainda não respondidas, eu ainda pretendo responde-las um dia, mas ainda não consigo parar on tempo suficiente para isso, desculpem. E ainda assim tenho a cara de pau de contar com a presença de vocês, leitores lindos, para me dizerem o que estão achando e me ajudarem a continuar.
Eu volto... um dia. Beijos, xuxuzes!
