Capítulo 30 – Sentiments

O vento soprou por entre as árvores da floresta e agitou os cabelos negros da franja que cobria a cicatriz. O menino os afastou em um gesto distraído, sem parar de ler, e suspirou com a sensação de frescor que aquilo lhe provocou. Ergueu rapidamente os olhos quando um gritinho infantil chamou sua atenção, quebrando o silêncio em que o único som perceptível era o do rio que corria não muito distante e da madeira queimando no fogo próximo, que fornecia a luz para ler. Crianças brincavam na borda da mata, sorrindo, junto com duas mulheres, e ele sorriu também antes de virar a página do livro e se fixar na imagem de um grande lobo agonizando ao ser atingido por feitiços disparados por mais de 10 bruxos.

- Por que lobisomens são tão grandes? - perguntou, distraído, folheando o livro para ver quantas páginas faltavam para o fim daquela lição.

- Os antigos são grandes, como Fenrir. Eu não sou grande. Você também não vai crescer só porque vai ser transformado. - Louis sorriu para ele, vendo os olhos verdes brilharem de forma diferente em sua direção – Em geral um lobisomem grande é um homem grande, nós só costumamos ser mais fortes porque corremos e lutamos mais na forma de lobo. E precisamos caçar.

- Nem todos caçam aqui. - Harry constatou.

- Sim. Aqui no covil as atividades são divididas. Alguns são responsáveis pela caça, outros pelo fogo, outros pela preparação da comida, outros pela manutenção das casas, outros pela saúde de todos. Toda comunidade é assim. E quem coordena todo esse trabalho é o alfa.

Harry concordou com a cabeça e voltou a ler. O texto falava sobre como as últimas grandes comunidades de lobisomens haviam sido dizimadas pelos bruxos no final do século XII, pouco depois da separação entre trouxas e bruxos, pois os ataques de lobisomens ameaçavam o segredo da existência de bruxos. Havia uma lista de feitiços e técnicas de como se matar um lobisomem, nunca recomendado agir sozinho. As imagens eram todas assustadoras.

O garoto ergueu novamente os olhos do livro para o grupo de crianças. Um homem – grande, como a maioria ali – havia se reunido a elas, lhes dando o que pareciam ser brinquedos feitos de madeira, carrinhos, balanços e peças para montar. Ele não parecia assustador.

Harry se recostou contra a árvore ao pé da qual estavam sentados e suspirou. Aquele lugar, aquelas pessoas, o surpreendia. Desde que passara a deixar seu quarto e andar mais entre eles, a ler mais sobre lobisomens, mesmo que por um viés dos bruxos, passara a questionar mais o que pensava sobre tudo isso. Sobre ser lobisomem. E a sensação era como ter que rever todos os seus atos.

Havia uma aura familiar naquele lugar. Parecia que todos se cuidavam, de alguma forma, e sabia que essa impressão vinha com aquela forma de colaboração. Ele pensava na necessidade de Remus de se sentir acolhido desde criança, na sua passividade como pessoa e no dia em que o viu transformado, lutando com Sirius. Pensava no que Fenrir fez com ele, arrastando-o até ali, e em como ele o tratava agora, com um cuidado quase excessivo e aquela preocupação constante para se assegurar de que ele estava bem e que não iria sair dali.

Harry não sentia mais que queria sair dali. Por um lado, ele não sabia o que o esperaria fora dali. Não sabia se tinha algo ou alguém esperando por ele e se ele iria gostar do mundo que encontraria. Esse mundo que combateu e excluiu aquelas pessoas que só lutavam para sobreviver, dia após dia, durante séculos.

Aquele lugar não era somente confortável, mesmo com todas as suas limitações, ele tinha tudo de que precisava, além de uma liberdade e uma tranquilidade, uma segurança, que nunca tivera em sua vida. Ele também o fazia se sentir acolhido. Ele não era lobisomem, mas ainda como la moitié do alfa, ele era parte daquilo. Ele era tratado como parte de algo e se sentia parte de algo talvez pela primeira vez em sua vida.

E, por tudo isso, ele se permitia sorrir quando viu Fenrir chegando com outros caçadores, trazendo os animais mortos para serem tratados pelas mulheres. Uma das crianças se aproximou do alfa e lhe ofereceu seu brinquedo, ganhando um tapinha sobre sua cabeça e algumas palavras que Harry não podia ouvir daquela distância e não conseguiria imaginar no que consistiam, mas sabia que era o tipo de coisa que fazia com que Fenrir fosse querido e respeitado por aquelas pessoas, além de sua força e de sua capacidade de administrar aquele lugar.

Ele admirava Fenrir. E essa percepção o fazia parar e respirar fundo. Ele já havia sentido raiva, dor, medo, frustração, repulsa, mágoa por Fenrir Greyback. E a consciência de que havia passado por todos esses estágios de sentimento em menos de um mês de convivência o fazia se sentir quase incerto sobre o que realmente sentia. Mas, naquele momento, naquela cena, naquele lugar, ele poderia dizer que havia admiração e respeito.

Respeito do mesmo tipo que Fenrir vinha destinando a ele. Desde que percebera a ligação íntima que os dois mantinham devido ao fato de serem moitiés, Harry podia notar aquilo, aquele elo, aquela percepção quase palpável praticamente o tempo todo. Era como se Fenrir sempre estivesse com ele, e isso era... aconchegante. Era quente e não-solitário e, na verdade, ele havia sentindo isso há tanto tempo de forma inconsciente que agora quase tinha medo de perder esse vínculo.

E, pelo vínculo, ele conseguia agora distinguir todo o desejo que Fenrir tinha por ele, mas não concretizava, mantendo Harry em uma zona de conforto que lhe dava segurança. Toda a admiração que ele lhe dedicava, mesmo que não expressasse isso de nenhuma outra forma. Toda a preocupação, o cuidado e o carinho constantes em seus atos e olhares para com o garoto.

Harry não conseguia esquecer nada do que passara naquele lugar, com aquele homem, desde que chegara ali. Mas seus ferimentos haviam cicatrizado e ele se sentia bem. E com a enorme necessidade de entender melhor aquelas pessoas, aquele lugar e aquele homem.

Porque eles sentiam algo um pelo outro. E essa era uma certeza para Harry agora.

- Você está bem? - Louis chamou sua atenção, forçando-o a deixar de olhar Fenrir ao longe para se voltar para ele – Achei que tivesse dormido.

- Não. Estava só pensando. - Harry afirmou, vago, sorrindo ao ver Louis sorrir compreensivo para ele.

- Está tarde. Logo vai amanhecer. Acho melhor entrarmos.

Harry concordou com um gesto de cabeça e se ergueu em um movimento rápido, indo para o rio se lavar antes de seguir para a casa. O local estava vazio, a fogueira tremulava já fraca do lado de fora e Louis havia recolhido seus livros e provavelmente guardado na sala de poções de Snape.

Harry tirou suas botas do lado de fora do quarto, Fenrir devia estar cansado, mesmo que esperasse por ele acordado todas as noites, não queria incomodá-lo. Abriu a porta devagar e sorriu ao encarar os olhos azuis que o aguardavam, como o esperado.

- Bon soir, ma moitié. - a voz rouca e baixa o recebeu e o calor que Fenrir lhe transmitia o fez corar.

Fechando a porta às suas costas, Harry se recostou à madeira, examinando Fenrir. Os olhos verdes se prenderam aos azuis por um instante, antes de seguirem pelos traços atemporais de seu rosto, marcado por pequenas cicatrizes, unindo-se aos fios castanhos-quase-dourados dos cabelos longos que caiam sobre os ombros nus, largos, e o peito forte, a mesma pele branca queimada do sol francês, marcada por suas inúmeras lutas, e as linhas distintas do seu ventre e cintura que sumiam por baixo dos lençóis.

Harry perdeu o ritmo da própria respiração ao perceber o quanto o desejava. Queria tocá-lo. Queria senti-lo além de suas palavras, além do vínculo que havia entre os dois. Não havia mais medo que o impedisse de ver a beleza rústica de Fenrir, e agora que podia ver, encontrava mais um motivo para admirá-lo. Fechou os olhos com a intensidade disso, daquela imagem, do que estava sentindo, tentando discernir, entre tudo, se aquilo era algo dele, mais do que um reflexo do desejo que Fenrir tinha por ele.

- Harry... - havia hesitação e preocupação na voz do homem e Harry quis sorrir. Fenrir sentia sua insegurança e, ao invés de tentar impor-se para ele como fazia antes, se preocupava.

Muita coisa havia mudado em pouco tempo. Com os dois. E agora Harry via e podia aceitar isso. Porque tudo era parte do que ele também queria.

Devagar, sentindo suas mãos tremerem com o peso da decisão que havia tomado, retirou sua blusa, deixando-a cair ao chão, e depois desafivelou a calça, que seguiu o mesmo caminho, sorrindo ao ver os olhos azuis deixarem os seus para seguirem pelo seu corpo, como havia feito com ele somente há poucos segundos. Em passos tímidos, se aproximou da cama, puxando o lençol de forma a ter também Fenrir completamente nu, sem se envergonhar com isso pela primeira vez, sentindo como se já tivessem... direito a isso.

As mãos do homem correram à sua cintura conforme Harry se ajoelhou sobre seu colo, sentando-se sobre seu quadril ciente do contato íntimo entre os dois, sentindo a respiração de Fenrir acelerar enquanto as mãos ásperas corriam por suas pernas e suas costas. Harry acariciou os traços de seu rosto, afastando seus cabelos, correndo os dedos entre os fios para então acariciar seus ombros, pousando pequenos beijos sobre a pele de seu peito e pescoço.

Ele ergueu seu rosto com um gesto quase brusco, mas parou, fitando os olhos verdes, surpreso, e Harry os fechou, unindo seus lábios, sem nenhuma dúvida sobre o que estava fazendo, suspirando e aprofundando o beijo quando as mãos fortes puxaram seu corpo mais contra o dele, o estreitando em seus braços como se quisesse senti-lo por inteiro.

E Harry permitiu que esse contato fosse mais intenso quando conduziu suas mãos para entre suas pernas. O garoto queria ser tocado daquela forma, e Fenrir o encarava, incapaz de deixar o verde enquanto o preparava devagar, como se a cada gesto, a cada pequeno som que deixava seus lábios, precisasse da confirmação de que não causava dor, de que não o estava machucando, de que ele não gritaria ou choraria ou passaria a odiá-lo por seus atos. E Harry somente permitia, sentindo aquilo sem relutância, como se esse primeiro toque fosse a confirmação de que ele estava pronto.

Sem deixar de beijá-lo, Harry empurrou seus ombros contra a cama, sendo obedecido de uma forma quase inesperada quando Fenrir voltou a se deitar, um gemido de protesto deixando os lábios do homem quando Harry se endireitou, se afastando. Os olhos azuis fixos nos seus conforme começou a atritar seus quadris, unindo seus corpos lentamente, as mãos trêmulas buscando apoio no ventre do homem enquanto as mãos rústicas pressionavam com força suas pernas, como se tentando se conter. E Harry jogou a cabeça para trás, se movendo devagar, gemendo com as sensações que invadiam seu corpo conforme a dor inicial era substituída pelo contato intenso e era... bom.

Era demais para Fenrir. O corpo do garoto ondulava sobre o seu, pontuando o ar com sons que faziam seu corpo todo se arrepiar. Harry era seu, total e completamente seu, e quando ele girou o corpo rápido, jogando o garoto contra a cama e investindo mais forte contra ele, podia sentir em sua pele a entrega e o desejo que Harry realmente sentia por ele.

O garoto gritou em seus braços com o movimento súbito e Fenrir parou, ofegando. O corpo pequeno estava tenso contra a cama como se tudo o que sentia fosse demais para ele também, e Fenrir se sentia inundar com o seu cheiro, com seu toque, com seu tremor e sua voz o fazendo arrepiar. Mas não era o suficiente. Ele sentia, mas precisava saber, precisava ver, precisava do fato de que Harry estava ali, sem medo, sem hesitação, porque queria. Porque queria ele.

O abraçou forte contra o peito e, quando se ajoelhou sobre a cama, o trouxe consigo, suas pernas o envolvendo automaticamente, sem romper o contato íntimo que os fazia trêmulos. E os olhos verdes o encaravam, quase sem se manter abertos, sua respiração agitada se confundindo com a sua, e os dedos pequenos acariciando seu rosto, seu corpo, como se o reconhecendo. Como se houvessem se perdido há milhões de anos, e só agora se reencontrassem.

Harry o beijou, e Fenrir fechou os olhos, sentindo-o voltar a mover os quadris, os gemidos perdidos entre as bocas em uma união completa, e ele podia tocar todo o seu corpo, podia tocar seus sentidos, podia tocar sua alma, e ele era lindo e era seu, e o prazer que inundava seu peito vinha dele, e ele podia sentir em sua pele que o garoto sentia exatamente a mesma coisa. E era tanto e tão bom e tamanho e intenso que toda a sua vida se resumia àquele momento em que Fenrir e Harry eram um só.

E tudo acabou. Harry estava abraçado a ele com tanta força que sua existência parecia depender daquele contato. Os dois ainda estavam trêmulos, como Fenrir não se lembrava de já ter estado, e se sentia tão quente como se o sangue do lobo corresse em suas veias, vindo de Harry e para ele ao mesmo tempo.

Tocou os lábios finos por um momento, não havia sangue neles. Os olhos verdes se abriram e Harry sorriu, tentando regularizar sua respiração. Fenrir não sabia o que dizer, não sentia que nada precisava ser dito, mas quando as palavras saíram em um sussurro leve dos lábios de Harry, ele entendeu completamente o que aquilo significava.

- Ma moitié.

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Sentiments – do francês, sentimentos