Capítulo 31 – Choix
Harry despertou com um toque leve sobre o seu ombro, que ele identificou como um beijo quando ele se repetiu. Havia uma mão áspera acariciando seu ventre e o toque leve dos fios longos sobre seu peito lhe faziam se sentir envolvido. Abriu os olhos, sorrindo, vendo que uma luz fria e amena iluminava os lençóis, e se encostou mais contra o peito do homem que sabia estar deitado atrás dele, ouvindo-o suspirar com o contato.
- Durma, ma moitié. Ainda é cedo.
Harry fechou os olhos, mas os toques não deixaram seu corpo e eles estavam começando a deixá-lo agitado. Era bom, suave e quente, e o quarto ainda cheirava a sexo, lhe trazendo imagens do que haviam feito há poucas horas.
- Você ao menos dormiu um pouco? - Harry perguntou, baixo, envolvendo a mão de Fenrir com sua própria, entrelaçando seus dedos.
- Eu não preciso de tanto sono. Havia algo mais importante para eu fazer.
Harry se virou de frente para ele sem sair de seu abraço e sorriu.
- Como o que? - perguntou, provocante, e Fenrir somente sorriu antes de beijá-lo.
As mãos corriam agora por suas costas e Harry se abraçou a ele, sumindo com qualquer espaço que ainda havia entre os dois, aprofundando o beijo. E não conseguiu conter um gemido quando Fenrir alcançou seu quadril, tocando-o de forma mais íntima.
- Você está bem? - Fenrir perguntou, preocupado, parando com o contato.
Harry concordou com um gesto de cabeça, mas o homem não parecia convencido.
- Eu não quero te machucar. - ele reafirmou.
- Você não me machucou. Eu estou bem. - Harry sorriu, acariciando seu rosto, que ainda o observava tenso, e sussurrou – Eu faria tudo de novo.
Fenrir o abraçou com mais força, voltando a beijá-lo. Era como se o desejo de Harry dosasse o seu, tanto aumentando-o a ponto de se sentir queimar, quanto impedindo-o de ir longe demais. Ele nunca havia considerado o que outra pessoa sentia daquela forma, mas era simplesmente irresistível, o prazer de Harry era o que o completava naquele momento. Demoraria um pouco para ele reconhecer isso e se sentir seguro a ponto de não temer feri-lo, mas não se importava de praticar o quanto fosse necessário até dominar aquela habilidade de ser com Harry.
- Você é meu. - ele sussurrou contra o ouvido do garoto, o tocando com mais ênfase, preparando-o para tê-lo mais uma vez.
Mas Harry estremeceu em seus braços e as mãos empurraram seu peito, indicando que queria que se afastasse. Fenrir o olhou com atenção e Harry parecia... confuso. Não temerário, não magoado, só... hesitante.
- O que foi? - perguntou, tenso, vendo os olhos verdes o examinarem com calma antes de responder.
- Você ainda vai me transformar? - Harry perguntou, sua voz tremendo levemente – Nós só... não podemos continuar assim?
Fenrir beijou sua testa e se afastou, deitando-se de frente para ele. Seus dedos correram entre os fios negros e ele somente o olhou por alguns minutos. Harry ainda não entendia completamente.
- Eu não vou te forçar. - Fenrir declarou, e sua voz pesava, indicando para Harry que aquela decisão era muito difícil – E isso quer dizer que eu estou deixando a escolha nas suas mãos, e é muito importante que você entenda o que isso significa, o que vai acontecer dependendo do que você escolher.
- Eu estou ouvindo. - Harry declarou, beijando a palma da mão que ainda acariciava seu rosto.
- Faltam sete dias para a lua cheia. Se você escolher se transformar, tudo o que você precisa fazer é ficar aqui, comigo. Quando eu me transformar, na primeira noite, o lobo vai te procurar, vai te achar e vai te morder, mesmo se você tentar fugir. Quando você se transformar, nosso elo vai ser mais intenso, e você vai entender o que ele fez, vai entender porquê fez e vai querer ficar com ele, porque, eu te prometo, você vai estar finalmente completo. Como eu nunca estive.
Harry se aproximou e o beijou, sentindo que havia dor em sua voz, sentindo o quanto Fenrir desejava que isso acontecesse.
- Se eu não quiser, o que vai acontecer? - ele perguntou, baixinho, voltando a se deitar.
- Você vai ter que sair daqui uns dois dias antes da lua. Vou te indicar um guardião, provavelmente Snape, ele já se provou digno dessa confianç único que não é lobo que pode realmente te proteger de mim. Ou tentar te proteger. – Fenrir hesitou por um momento, como se fosse difícil continuar falando - Eu vou te procurar. O lobo, primeiro, vai te buscar com todas as forças, então é melhor que você vá para muito longe, de uma forma que não deixe rastros. Eu provavelmente vou enlouquecer. Qualquer lobo teria enlouquecido só de viver tanto tempo sem seu moitié, agora que eu te conheci, agora que eu te tive, eu não sei quanto tempo vou conseguir ficar sem você, sem saber como você está, onde você está. Eu não vou ter controle algum sobre te buscar ou não, e, se eu te encontrar, eu não respondo pelos meus atos.
- Vai ser como da primeira vez que você me viu? - Harry perguntou, sua voz tremendo.
- Vai ser pior. - e a frieza da voz de Fenrir comprovava que era verdade – Se você escolher partir, você vai passar o resto da sua vida com medo de que eu te encontre, porque, se eu te encontrar, nenhum de nós vai sobreviver. Você não vai ser feliz, Harry. Você pode até encontrar outra pessoa de quem você goste o suficiente para ficar junto, mas não serei eu, e você vai sentir falta disso. Você vai se sentir perdido e doente e eu sei que você é forte, então a loucura não vai te alcançar, mesmo que você me sinta enlouquecer à distância, mas você vai ser, independentemente do que acontecer, para sempre sozinho.
O homem se interrompeu, secando com um gesto leve a lágrima que correu pelo rosto do garoto.
- Você vai sentir dor e vai chorar muito. Você pode se fechar, como Severus Snape, escondendo seus sentimentos do mundo, se protegendo da própria dor, mas você não é assim. Você pode se manter leve e lúcido, ciente demais da própria perda, como Louis, e tentar buscar em outros como você uma sombra ou um consolo do que não podem ter, como ele está tentando fazer com Rabastan. Você pode tentar negar, se esconder e fugir disso, resumindo sua vida a negação, como Remus escolheu fazer. Mas ele pode voltar em suas escolhas e aceitar seu moitié. Eu não vou conseguir esperar por você. Eu vou ter me perdido, Harry. E se você voltar para mim, vai ser somente para morrer nos meus braços.
- Eu não quero isso. - Harry se aproximou, o beijando. Ele ainda chorava e Fenrir o abraçou, rompendo o beijo para beijar seu rosto, seu pescoço, seus cabelos.
Harry era mais parecido com ele do que imaginara. Ele sentia demais, e se guiava por isso, como ele por seus instintos. Mas agora ele precisava pensar e refletir, porque Fenrir não queria ser o responsável por todos os seus arrependimentos. Qualquer que fosse o caminho que Harry optasse, não teria volta.
- Você tem cinco dias, Harry. - ele sussurrou contra seus lábios, sem soltar o garoto – Até lá, só fique comigo.
E Harry concordou, trançando as pernas às suas e aceitando quando Fenrir girou o corpo sobre o dele, beijando seu peito e ventre, tocando-o mais uma vez para tê-lo enquanto o tempo lhes permitisse.
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Os olhos negros acompanharam em silêncio o movimento da casa despertando e cada um seguindo seu caminho, cotidianamente. Com a única diferença de duas ausências, duas pessoas fundamentais naquele delicado equilíbrio.
Quando Fenrir e Harry saíram do quarto, a lua nova já alta no céu, Severus Snape já sabia o que havia acontecido para que eles se atrasassem, e temia pelo que havia realmente acontecido.
Louis, porém, precisou entrar na sala e ver Harry para saber, e Fenrir dispensou seus serviços dizendo que acompanharia Harry no banho, eles poderiam conversar depois, quando ele fosse para seus afazeres no covil. As mulheres que trouxeram comida para os dois comentaram entre si que era um avanço não haver nada destruído e Draco encarou Harry com olhos arregalados por um tempo longo demais até perceber o que estava fazendo.
- O que houve, Draco? - Severus perguntou, seu ex-aluno não era exatamente perceptivo ou malicioso para entender a situação tão rápido.
- Nada. É... que... o cheiro de Potter. Fenrir está impregnado nele.
Então era isso. Severus não precisava de mais nenhuma confirmação. Ele somente continuou observando a forma como se tocavam, como Harry sorria leve para o homem sentado ao seu lado enquanto comiam, como conversavam com olhares, como saíram juntos em direção ao rio, Fenrir com uma postura muito mais protetora do que o comum – se é que isso era possível -, mas ao mesmo tempo mais leve. Com a certeza de que Harry estava ali, para ele, com ele e sem desejar nada diferente.
Severus os observou voltarem depois de um tempo longo demais para um banho, observou o beijo longo e intenso de despedida e observou como Harry pareceu perdido por alguns instantes depois que Fenrir se afastou em direção à mata.
- Você está bem com isso? - Severus o sobressaltou, se aproximando dele sem se fazer notar.
- Hum. Com isso o que? - Harry perguntou com um pequeno sorriso, mas o olhar rígido do ex-professor se fez entender, e o garoto concordou com um gesto de cabeça, corando.
- Então você tomou sua decisão. - Severus falou, sério.
- Ainda não. Fenrir me deu cinco dias. Ele me deu dois dias de vantagem antes da lua cheia, caso eu queira fugir.
Severus o olhou atento, erguendo seu rosto para poder encarar o verde quando Potter o abaixou, parecendo triste ao dizer aquilo.
- Eu não sei mais o que fazer, Severus. - Harry disse baixinho.
- Você sabe. Você não estaria bem com tudo o que aconteceu se não soubesse. Na verdade, você tem cinco dias para aceitar a escolha que você já fez há muito tempo.
- E o que vai acontecer, então? Quero dizer, Fenrir e eu conversamos sobre eu e ele e o que vai acontecer com nós dois. Mas e você? E todo o resto?
- Eu e o resto teremos que fazer nossas próprias escolhas também, Harry. Por isso vim ver como você estava. A primeira coisa que Fenrir fez quando te trouxe para cá, foi te libertar de ter que tomar decisões pelo mundo. E, depois que você está bem após essa noite, as suas decisões só dizem respeito a vocês dois.
Harry concordou e voltou a baixar os olhos para o chão.
- Você está bem? - Severus repetiu a pergunta, e Harry entendeu que ele tinha muito a considerar antes de responder. Nada era tão simples.
- Eu não sei.
E isso ainda tranquilizava Severus Snape. Enquanto Harry não soubesse, ainda havia um motivo para ele estar ali, e sua própria decisão estava adiada.
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Choix – do francês, escolha.
