Capítulo 32 – De nouvelles voies
- Onde você está me levando? - Draco perguntou, desconfiado, tentando não tropeçar nos galhos jogados no chão da mata enquanto Remus o guiava.
O homem parou, voltando-se para ele, e o abraçou, beijando seu pescoço.
- Ouvir você falando assim, me faz pensar que você não confia em mim.
Draco o olhou, tenso, mas a seriedade de suas palavras não se estendiam ao olhar que brilhava em castanho de pura expectativa. O loiro o empurrou, se fingindo ofendido, e Remus voltou a tomar sua mão.
- Estamos perto.
Eles passaram por mais uma árvore e então Draco pode ver. Era o único detalhe diferente no acampamento e era mais do que óbvio o que aquilo significava: encostada sobre a rocha das colinas que contornavam o acampamento, havia uma casinha. Feita de pedra, com o telhado de madeira trabalhada, assim como a porta. Parecia extremamente pequena, mas era obviamente mágica.
- Gostou? - Remus perguntou, um tanto apreensivo – Foi o melhor que eu consegui com os recursos que eu tinha, e está dentro do que poderia trazer para o covil. E não se preocupe com as pedras e o inverno, o sistema de aquecimento é talvez a coisa mais cara aí...
Draco o impediu de continuar falando, puxando-o para um beijo.
- Cala a boca! Eu quero ver dentro! - e havia tanta ansiedade em sua voz que era inegável que ele havia gostado.
A casa era maior por dentro, mas ainda pequena. O primeiro ambiente era uma sala espaçosa e acolhedora, o piso de madeira e as paredes de pedra, o teto era alto e tinha grossas vigas de madeira aparente. Sobre um pequeno degrau, havia um jogo de sofá, poltronas e almofadas sobre um carpete, no nível da porta, na mesma direção, havia uma mesa redonda, também de madeira, e cinco cadeiras. Ao lado dela, um balcão que isolava uma pequena cozinha. Ao fundo, três portas.
- Três quartos. Um para nós, um que pode ser o que quiser, um escritório ou uma sala de música, o que quiser. E outro para sua mãe.
- Ela não vai ficar com a gente. - Draco disse, sério – Eu não sei se gostaria que ela ficasse, não seria uma convivência fácil, vocês dois.
- Mas você também não quer que ela vá, então, eu supus que ao menos aparecer de vez em quando, ela vai aparecer. - ele beijou os cabelos loiros e depois desceu os lábios para seu pescoço, o abraçando por trás – E assim ela não nos priva de... nada. Temos nosso próprio quarto.
- Ah, mas eu não vou me contentar só com um quarto. - Remus riu, o puxando para mais perto do seu corpo – Posso mexer na decoração?
- No que você quiser. Ah, e coloque algo do lado de fora, sim? Uma planta, uma placa, sei lá. O Lestrange ergueu uma igual à nossa não muito distante, para viver com Louis.
- Então eles estão juntos?
- Tudo indica que sim.
- Remus, eu andei pensando enquanto você estava fora, conversei com o Severus e acho que vou falar com Louis e Rabastan também, então.
- Isso parece sério. - Remus o conduziu para o sofá, sentando-se de forma que pudesse olhá-lo sem deixar de tocá-lo.
- Não tanto, mas é importante. Eu estava pensando que, bem, eu vou ficar aqui. Eu quero ficar com você e, como você disse, Greyback e o covil é nossa melhor opção. Eu gostaria muito de poder ficar com minha mãe, mas eu não suporto mais a pressão que significou estar com meu pai, bem, antes. - Draco falava rápido e Remus aguardou em silêncio, acariciando suas mãos enquanto ele terminava o raciocínio – Eu estive observando esse lugar. Pessoas vivem aqui. Elas acordam, dormem, trabalham, caçam, crescem, se amam, se protegem.
- Aqui é uma comunidade como qualquer outra, Draco.
- Sim. E agora nós somos parte disso, e eu quero... eu preciso me sentir mais parte. - Remus o observou de forma mais séria – Olha, eu não estou me sentindo mal com isso nem nada, mas eu ouvi Fenrir conversando com Rabastan sobre ele ter um papel aqui, e eu acho que eu preciso de um papel se for viver aqui também. E tem algo aqui que me incomoda, e eu demorei para descobrir o que é e quero conversar com você sobre isso.
Remus fez um sinal indicando que estava ouvindo e Draco respirou fundo antes de voltar a falar.
- Eu sou bruxo, ok? Eu sei que isso pode soar hostil aqui, porque todos foram de alguma forma rejeitados e condenados pela sociedade bruxa, e isso inclui a mim e a você. Não é desse orgulho bruxo que eu estou falando. Mas eu sou bruxo, isso é uma das coisas que me define, e não vai mudar porque eu me tornei um lobisomem. As duas coisas não se anulam, e eu demorei para entender isso. - ele respirou fundo e Remus fez um sinal afirmativo, ele queria saber onde Draco queria chegar com isso – Tem crianças bruxas aqui no covil. Tem adultos bruxos que não usam magia porque não sabem usar. E a magia é útil e faz falta quando eles vivem de uma forma tão precária quanto aqui.
- Draco, você tem uma cultura e um orgulho que eles não têm, e você não tem como assumir a responsabilidade por todos.
- Não, eu não estou querendo me tornar o bruxo do covil ou algo assim. Eu quero ensinar, Remus. Eu quero que eles vejam o quanto isso é importante, que não é porque idiotas em uma sociedade fechada como a que o Lord queria disseram que nós não podemos fazer magia ou viver em sociedade que temos que obedecer. A magia vive aqui, mas as pessoas não sabem usar. Eu, você, Severus, Potter, Rabastan sabemos. Nós podíamos ensiná-los. Você sabe ensinar. E, mesmo que não magia, não tem nenhuma escola nesse lugar, as crianças não sabem ler ou escrever, algumas no máximo fazem contas simples. Ninguém tem o direito de privar elas disso, Remus.
Remus o observou longamente, mexendo nos fios loiros enquanto Draco esperava por uma resposta de forma ansiosa demais.
- O que você acha? - Draco perguntou, exigindo que falasse algo.
- Eu acho que era mais ou menos nisso que Dumbledore estava pensando quando permitiu que eu estudasse em Hogwarts. Que o fato de eu ser lobisomem não anula o fato de eu ser bruxo. Mas isso é uma forma bruxa de se pensar. Aqui, onde você está, o que você tem que mostrar é que o fato de ser bruxo não anula o fato de ser lobisomem, entende? O orgulho deles, deles que sobreviveram, é diferente do seu que está tentando resgatar algo. E isso me preocupa. - ele depositou um pequeno beijo na testa do garoto – Você está entusiasmado demais com essa ideia. Está envolvido demais com isso. E você não é assim. Você não é o tipo que se doa e se presta a fazer algo para os outros sem ganhar muito mais com isso. E eu não acho isso necessariamente ruim, mas começo a me preocupar com o quão vital para você é o que você espera ganhar e o que vai acontecer se esse projeto for simplesmente negado pelo covil.
- Você acha que Fenrir vai barrar porque ele é... lobisomem demais? - Draco perguntou com um traço de rancor na voz.
- Não. Acho que ele pode barrar por você ser bruxo demais. Mas nós podemos fazer isso da forma certa e ele pode não ver nada de errado e permitir que montemos a escola e comecemos a ensinar. Mas o que você, ou eu ou quem for trabalhar nisso vai ensinar não é o que você e eu aprendemos em Hogwarts. Aquele conceito de bruxo, o conceito de bruxo que você perdeu e que está tentando buscar com tanta força, não serve para um lugar como esse, para pessoas como essas. Não digo que não sirva para lobisomens, mas não serve para lobisomens que sofreram tanto quanto você sofreu, Draco.
- Não é disso que eu estou falando, Remus. - Draco disse sério – Não é só sobre mim.
- É sim, Draco. E, se você acha que não é, eu acho que você precisa pensar mais sobre essa sua ideia. Ela é muito boa, o covil realmente precisa disso, mas eu não vou deixar você se machucar com isso. Pense mais sobre o que você está propondo e o que tudo isso significa para você, e então podemos voltar a conversar.
E Draco se viu obrigado a concordar.
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- Severus? - a voz suave soou no laboratório e Severus guardou seus últimos instrumentos, sabendo exatamente quem o procurava.
- Narcissa. - ele se virou, fazendo um gesto de cumprimento com a cabeça, estranhando quando a mulher fechou a porta do aposento e se aproximou.
- Preciso falar com você. - ela disse e seu tom tentava esconder uma certa urgência de forma inútil agora que a cada dia o elo entre os dois se tornava mais forte pela convivência.
- Achei que estivesse com Draco. - Severus constatou – Soube que Remus voltou com uma casa para viverem aqui.
- Sim, eu estou esperando pelo convite para conhecer o lugar, mas tenho certeza que ele virá em breve. E era sobre isso que eu quero falar com você. Eu decidi que não vou ficar com os dois.
- Então você tomou a decisão de partir. - Severus constatou, cruzando os braços contra o peito em uma postura defensiva.
Narcissa sorriu de forma quase doce.
- Ainda não. Tenho mais dois dias do prazo que Fenrir me deu. Eu só quero saber se... você se incomodaria se eu ficar no antigo quarto deles, aqui na casa, durante esses dois dias. É ao lado do seu, não pretendo te deixar desconfortável com a proximidade.
- Isso certamente justifica você ter fechado a porta quando entrou. - ele constatou, vendo um pequeno sorriso surgir nos lábios dela.
- E você, já tomou sua decisão?
- Estou esperando pela palavra de Harry, se ele fica ou se vai partir.
- Sim, eu imagino que sim, a posição dele é importante para você. Mas eu te conheço, Severus, e posso dizer que, a essa altura, você já analisou todas as possibilidades e já sabe exatamente o que vai fazer. - ela se aproximou mais, ficando somente a um passo do homem, e o encarou – Se ele decidir partir...
- Eu vou com ele. Ele não estará seguro, vai precisar de mim. - ela concordou com um leve aceno de cabeça, mas ele pousou a mão em seu rosto, forçando-a a voltar a olhar para ele – E não será por um tempo, Narcissa. Não será seguro para mim e eu não pretendo levar ninguém comigo.
- Eu já entendi. - ela tentou sorrir, mas sem olhá-lo – E se ele decidir ficar?
- Eu não sei.
- Você sabe.
- Eu não tenho nada lá fora, Narcissa.
- Você tem a mim.
- Você não tem nada lá fora. - o homem respondeu em tom de quem finaliza a questão.
- Então eu acho que sua escolha depende da minha, não é mesmo, Severus? - ela sorriu e se afastou – E acho bom que você pense muito bem, porque eu já tomei minha decisão.
Ela deu as costas para ele e destrancou a porta da sala, parando antes de sair como se esperasse que ele perguntasse qual era a sua decisão. Mas ela sabia que ele nunca perguntaria, porque no fundo ele já sabia e não queria ouvir a resposta.
- Não importa o que você decidir, eu vou ficar com você, Severus.
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De nouvelles voies – do francês, novos caminhos.
