Capítulo 33 – Passé
Narcissa sorria passando os dedos pelo console de madeira sobre a lareira de pedra da sala de estar. Havia fotos ali. Porta retratos que ela não sabia ao certo como Draco arrumara, mas lá estava ela e Lucius e seu bebê e a primeira vez que ele se vestiu com o uniforme de Hogwarts e um garoto loiro sentado em um balanço sozinho no jardim de uma mansão que não existe mais. Nada daquilo tudo existe mais, e doía de certa forma ver aquelas fotos ali, depois de tudo, mas ao mesmo tempo ela se sentia feliz de ver que Draco conseguia lidar com tudo isso e simplesmente não empurrar toda uma vida para debaixo do carpete. E ela sorriu ao ver o contraste da família loira e aristocrática ao lado do porta retratos com quatro garotos desleixados, jogados sob uma árvore à beira do lago, junto com uma moça ruiva.
Seus dedos tocaram a figura que os observava no fundo, quase saindo pela borda da foto, mas se recusando a deixá-los sozinhos, relutante. Era quase uma sombra negra nas vestes de Hogwarts com seus cabelos caindo pelo rosto pálido demais. Narcissa sorriu, pensando em como negara facilmente aquele menino, mesmo quando todos seus instintos a diziam para não fazê-lo.
Tudo podia ter sido diferente.
- Gostou da casa, mãe? – a voz que tentava esconder a ansiedade por aprovação sem muito sucesso. Draco já havia ficado tenso quando negara o quarto de hóspedes montado para ela dizendo que preferia deixá-lo sozinho com seu marido. Ela não sabia o que havia assustado mais o filho, se a negativa ou o fato de tê-los tratado como um casal. Ela só estava tentando deixar claro o quanto respeitava suas escolhas.
E estava na hora de deixar mais evidente suas próprias escolhas para ele também.
- Está linda. – ela se voltou para Draco, que a observava recostado displicente no sofá sob a janela – Um tanto rústica, mas aconchegante. Combina com esse lugar. – ela sorriu e foi até ele, sentando-se ao seu lado e pousando um beijo em sua testa – Você vai ser muito feliz aqui.
- Obrigado, mãe. – ele sorriu, aliviado – Ouvir isso é muito importante para mim. E você será sempre bem vinda. – ele mordeu os lábios, hesitante – Você já sabe para onde vai?
- De certa forma sim, de certa forma não. – ela respirou fundo, pensando como falar aquilo sem chocar Draco, mas não havia muito o que fazer – Eu vou com Severus, seja qual for a escolha dele.
- Snape? – Draco franziu a testa, digerindo a informação – Eu... mas o que... – a compreensão se fez em seu rosto mais rapidamente do que ela previu e ele engoliu em seco e ficou alguns segundos em silêncio antes de continuar – Você já estava com ele antes de... O pap... Lucius sabia?
- Eu nunca estive envolvida com Severus antes e não posso dizer que estou agora. – ela afirmou, séria, buscando o olhar do filho – Ele é ma moitié, Draco. E esse é o primeiro momento em nossas vidas em que ambos estamos livres e dispostos a tentar ficarmos juntos.
- Eu não entendo. Vocês estudaram juntos, você o conhecia antes de se casar.
- Sim, mas eu já estava noiva de Lucius. Seu pai nunca acreditou na importância de se ter um moitié. Ele acreditava na magia, no sangue e na família, como eu fui criada para acreditar. Amor e bem estar não precisavam entrar necessariamente nessa equação. E Severus não era exatamente digno de competir com Lucius naquela época. Eu me senti atraída por ele, obviamente, mas éramos adolescentes, ele era mestiço, pobre e, apesar de excepcionalmente inteligente, não tinha a metade das habilidades políticas de Lucius, inclusive para me conquistar. E, além de tudo, ele também estava envolvido com outra pessoa. Uma sangue ruim, a mãe de Potter. Ela o via e o valorizava de uma forma que eu só fui entender o quanto era importante para ele quando nos tornamos adultos.
- É por isso que ele sempre esteve por perto? Em algum momento ele realmente foi amigo da família, além de precisar te ver e saber sobre você?
- Lucius sabia que ele era minha moitié e sempre esteve atento a todos os movimentos de Severus quando estávamos juntos. Eles tinham o que se pode chamar de amizade, sim, nós compartilhávamos valores e ideais, além de uma luta em comum, e havia uma confiança muito forte entre nós três. Eu nunca sequer cogitei trair seu pai, Draco. Era aconchegante, sim, ter Severus por perto, mas eu nem pensava na hipótese de ter mais do que isso.
Draco fez um som descrente, ganhando um olhar reprovador de Narcissa.
- Eu devo lembrá-lo, Draco, de que você e seu moitié são lobisomens, e isso torna o vínculo entre vocês muito mais intenso do que entre bruxos. E mesmo assim Lupin lecionou com você sob o mesmo teto que ele durante um ano sem nunca nem tentar te tocar. Eu espero que você me respeite e acredite na minha palavra como seu pai acreditava.
- Em você eu acredito. Mas Severus nunca teve ninguém. A mãe de Potter morreu quando eu era um bebê, você quer me dizer que ele nunca tentou te fazer ficar com ele?
- Severus é mais íntegro do que você imagina. Ele sofreu imensamente a morte de Lily Evans e durante muitos anos temeu amar outra pessoa com a mesma intensidade. A única vez em que ele me propôs algo foi quando Lucius estava preso e eu fui implorar para ele que te protegesse durante seu sexto ano em Hogwarts. Ele me disse que poderia me proteger também, era só eu querer. Eu entendi todas as implicações disso, mas todo o meu mundo estava desmoronando, minha família e meu sangue estavam ruindo e eu sentia que dependia somente de mim evitar isso. Eu o neguei e fiz com que empenhasse a sua vida em troca da sua, Draco. E não sei como ele pode me perdoar por isso e continuar me amando.
- Ele te ama? – Draco perguntou, sério – Eu percebi rapidamente que tem uma grande diferença entre ser La moitié de alguém e amar essa pessoa. E você está em perigo aqui, se ele te ama, ele deveria...
- Ele está tentando me proteger desesperadamente. De uma forma muito própria dele, ele está tentando me afastar e me tirar daqui, ao mesmo tempo em que ele sabe que eu não tenho mais nada além dele e de você. – ela respirou fundo, olhando para as próprias mãos por um momento, e Draco reparou pela primeira vez que ela não levava mais a aliança de casamento – Eu não estou disposta a deixá-lo, Draco. E eu sinto que ele quer isso. Nós tivemos anos de convivência, nosso vínculo é forte e familiar, e ele está confuso e tenso, se sentindo responsável por você e Harry Potter no meio dessa bagunça toda que Fenrir fez, e eu estou fazendo o possível para deixar claro para ele que ele não é responsável por mim também. Que ele não pode usar a decisão de ficar comigo ou não como um escudo para me manter viva. Ele fez isso com sua preciosa Lily e veja o que aconteceu. – ela ergueu os olhos para encarar o filho – Eu quero ajudá-lo. Quero ficar ao lado dele como eu nunca quis na minha vida. Quero ser sua companheira e seu porto seguro, seu braço direito e sua amante, como eu fui a vida inteira para o seu pai e nunca consegui sentir por ele o que eu sinto por Severus, e a gratidão e o reconhecimento que ele sente por mim como me mostra o vínculo.
- Você quer ser completa. – Draco reconheceu aquela descrição e sorriu. Não seria ele quem iria negar aquela felicidade plena para sua mãe – Lute por ele, mãe. Acho que isso pode dar certo. – ele riu e completou em tom de brincadeira – E vocês dois são adultos, acredito que sabem o que fazer.
- Você está realmente bem com isso? – ela o olhou, tensa, afastando os fios loiros de seus olhos, mas ele concordou com um gesto e sorriu.
Todos eles teriam alguma chance de ser felizes, afinal.
o0o
Harry estava sentado ao lado da fogueira, o livro caído sobre o colo e a pena solta entre os dedos. Talvez em algum momento estivera estudando, mas ler sobre como lobisomens foram caçados ao longo da história, como eles poderiam ser mortos e como utilizar partes de seu corpo e de sua magia em poções não conseguia mais prender sua atenção.
Seus pensamentos estavam totalmente na direção contrária. Ver toda aquela destruição o angustiava, o oprimia, o fazia se sentir mal pela injustiça, pela brutalidade, pelo simples fato de que pessoas que se sentavam com ele em volta daquela fogueira, que sorriam para ele e lhe alimentavam, eram vistos daquela forma.
Pelo fato de que ele estava a cada segundo mais próximo de se tornar um deles.
Em um impulso, atirou o livro no centro da fogueira, fazendo com que uma nuvem de fumaça e fagulhas se elevasse bruscamente, assustando a todos.
- Desculpem. – ele disse, tímido. Alguns riram, outros simplesmente o ignoraram. Ele ouviu do outro lado da fogueira um rosnado familiar, o som do riso de Lincan. O homem se levantou com elegância, revelando todo seu tamanho, e caminhou devagar em sua direção.
Harry sabia que ele viria conversar com ele, como fizera tantas vezes, mas não sabia se queria isso. Lincan era uma boa companhia e o havia ensinado sobre ser lobo mais do que qualquer outra pessoa ali. Talvez somente menos do que ele próprio conseguira observar do cotidiano do covil, mas ainda assim infinitamente mais do que os livros de magia. E Harry se sentia grato por isso e era um bom motivo para conversar com o lobisomem. Mas ele sabia que Fenrir não gostava disso, podia sentir pelo vínculo como seu moitié ficava tenso sempre que via os dois juntos ou Harry citava Lincan. Por outro lado, Lincan sempre demonstrava um certo desprezo respeitoso pelo alfa do bando. Era como se ele odiasse Fenrir, mas não pudesse ou não quisesse perceber isso, e essa hostilidade entre os dois incomodava imensamente a Harry.
Certa vez, perguntara a Louis o que acontecia para que os dois se comportassem assim, e o motivo ficou muito óbvio na explicação: Lincan era o segundo lobisomem mais forte do grupo, se Fenrir não fosse o alfa, ele seria. Era uma questão política, de certa forma. Os dois nunca chegaram a se enfrentar porque Fenrir era obviamente mais velho e mais poderoso que Lincan, e já era o alfa quando o outro lobisomem chegou ao bando. Mas a proximidade que Lincan criou com Harry não deixava de ser uma ameaça para Fenrir. Lincan era seu subordinado e um de seus principais homens, Fenrir não queria desafiá-lo por isso, ou demonstrar o quanto estava incomodado ordenando que ele não se aproximasse de Harry, mas não deixava de ser um movimento hostil.
Em outro momento, Harry poderia usar daquela informação para fragilizar Fenrir, como usara Remus quando ele chegou ao covil, mas eles estavam bem, Fenrir o respeitava e o tratava tão bem que Harry quase se sentia mal, por não estar acostumado a ser protegido e mimado como vinha sendo. E Lincan sempre lhe dera arrepios, de certa forma. Ele tinha a ferocidade de Fenrir, seu porte e sua animosidade, sem ter nenhuma demonstração de afeto ou proteção para com Harry. Ele era algo próximo a um amigo, mas um amigo de quem Harry, cada vez mais, preferia manter distância.
Por isso, ele ficou imensamente aliviado quando Draco sentou-se ao seu lado antes que Lincan pudesse alcançá-lo, de forma que o lobisomem simplesmente fitou os dois por alguns segundos e se afastou, parecendo contrariado.
- Hey, Potter, podemos conversar um minuto? – Harry analisou a figura de Draco, atento. Ele parecia bem. Leve e bem. Apesar de um pouco ansioso naquele momento.
- Claro. – sorriu, se endireitando – Remus me disse que você gostou da casa. Vou sentir falta dele por perto. – ele ponderou por alguns segundos antes de emendar, quase constrangido - E de você também, parece ser a única pessoa da minha idade por aqui.
- Nós ainda fazemos as refeições na casa de Greyback e eu acho que não tem como não estar por perto nesse lugar. – Draco hesitou por um momento, olhando Harry incerto, antes de continuar – Potter, eu não sei como... Muita coisa aconteceu desde que saímos de Hogwarts. Nós pouco conversamos no meio de tudo isso... – ele fez uma pausa, respirando fundo – Acho que nós nunca realmente conversamos na vida. Eu estava pensando muitas coisas esses dias, e eu acho que eu vim aqui com um pedido de desculpas na cabeça, ou algo assim, para dar e receber, mas agora eu simplesmente não sei o que dizer.
- Eu acho que tem uma série de coisas que não importam mais, Malfoy. – Harry disse, oferecendo a mão para o loiro – Nós podemos simplesmente recomeçar?
Draco envolveu a mão de Harry na sua, em um aperto há muito esperado, e sorriu, para em seguida respirar fundo e ambos começarem a rir antes de se soltarem e simplesmente ficarem lado a lado olhando o fogo, em silêncio.
Aquilo era bom, para os dois.
- Remus comentou comigo algo sobre uma ideia que você teve... – Harry comentou, lembrando de uma conversa vaga no dia anterior – Uma escola, é isso?
- Remus acha perigoso eu propor isso para Fenrir. A ideia é uma escola para alfabetizar crianças, bruxas e trouxas, e ensinar magia para bruxos daqui do covil, incluindo os adultos. Eu acho que pode ser algo muito útil, Remus acha que eu estou deixando meu orgulho bruxo se sobrepor ao orgulho de ser lobisomem. Ele acha que Fenrir não vai aceitar.
- Podemos melhorar esse projeto. É uma ótima ideia, e realmente existe necessidade disso aqui no covil, e acho que nunca houveram tantos bruxos capacitados aqui antes, isso pode ser útil para colocar em prática.
- Bem, se você quiser me ajudar a colocar isso em outras palavras de forma que Fenrir não ache que eu sou meu pai, eu agradeço. – Draco disse com certa amargura na voz, o que fez Harry o observar em silêncio por alguns momentos.
- Eu não acho que seja uma questão de orgulho, seja de ser bruxo, seja de ser lobisomem. Eles são seres humanos. Todos nós somos, bruxos, lobos ou não. E a chave para entender isso é justamente conhecimento. Você pode ser lobo e bruxo ou trouxa e lobo e conviver bem com outras pessoas, sem se matarem.
- Potter... – Draco começou, sua voz soando cansada, mas não continuou.
- O que foi? – Harry perguntou, incomodado.
- Eu ia comentar que você, que está saindo de uma guerra, mais do que ninguém deveria saber o quanto isso é utópico. Mas eu parei para pensar e essas pessoas estão aqui há séculos. Elas passaram por mais de uma guerra em que bruxos e trouxas se odiavam e, no entanto, aqui dentro, eles nunca foram separados, eles continuaram vivendo, sentando para comer juntos e se casando, unidos pelo fato de serem lobos, pelo simples fato de que trouxas e bruxos odeiam lobos igualmente.
- Eles tinham uma base em comum maior do que isso. – Harry disse, tentando simplificar o pensamento – E saber disso foi a garantia de sobrevivência. Eu acho que isso pode dar certo.
- Eu também. – Draco sorriu, mas em seguida ficou sério e jogou alguns gravetos na fogueira, como se perdido em seus próprios pensamentos. Dessa vez Harry somente aguardou – Eu nunca imaginaria, sabe? Que eu estaria aqui hoje, dessa forma, fazendo esse tipo de planos, com você. Que um dia eu seria professor em uma escola em um covil de lobisomens. Que um dia eu seria um lobisomem. Que um dia eu seria feliz por estar vivendo com Remus Lupin, ma moitié. – ele riu alto, mas seu semblante ainda estava pesado.
- Se te consola, eu sempre imaginei que estaria morto a essa altura. E, bem, eu estou aqui fazendo planos com você. Mesmo que esses planos incluam me tornar lobisomem em três dias. – Harry refletiu por alguns segundos suas próprias palavras. Ele ainda não tinha dito aquilo em voz alta e agora parecia muito mais concreto. E, ainda assim, ele não queria pensar nisso – Aliás, Draco, sua mãe já não deveria ter ido embora?
- Ela disse que vai ficar, ela sabe se cuidar, Potter. – Draco sorriu, mas em seguida olhou para ele em dúvida – Ela me disse que estava esperando você tomar uma decisão. Parece que o destino de Snape dependia disso.
- Eu já tomei. – Harry sorriu, leve. Não havia mais para onde ou porquê fugir. Ele não queria fugir. E não iria fugir daquela decisão – Eu vou ficar. Eu sou la moitié de Fenrir, e eu não vou sair do lado dele. Vou ficar, vou montar essa escola com você e Remus e Rabastan e espero que sua mãe e Severus façam a melhor escolha para eles. – ele suspirou e disse sorrindo – Eu fiz a minha. Eu vou ser um lobisomem.
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Passé – passado, do francês.
