Capítulo 35 – Doleur

Fenrir olhou para Harry e sorriu. Ele estava lindo, estava feliz, estava bem e estava ali, ao seu lado.

Para sempre.

Ele sorria cada vez que essas duas palavras ecoavam em sua mente na voz doce de Harry, da mesma forma como ele dissera a primeira vez. Fenrir sabia que "para sempre" não existia em seu mundo, mas Harry queria ficar com ele para sempre, então não seria ele a negar depois de ter passado uma eternidade sem ninguém.

Sentiu uma certa sonolência contrastante com seu entusiasmo e percebeu que era Harry quem se sentia assim, o observou se levantar e dar os primeiros passos em direção à casa. Era melhor ele ir descansar, eles tinham um "para sempre" pela frente e a lua cheia estava chegando. Logo estaria ao seu lado de novo.

Voltou sua atenção para as pessoas com quem falava. Estavam com problemas com as crianças e o desemprego de alguns membros do grupo com a caçada que os bruxos vinham fazendo incomodava aqueles que não trabalhavam para o próprio covil. Fenrir precisava redefinir funções nos próximos dias e conversar mais com Harry sobre aquela escola de que ele havia falado. A principal cobrança naquele momento era se o alfa se unir a um bruxo como Harry Potter não significaria uma tentativa de paz ou guerra com o mundo bruxo.

Fenrir sabia que não significava nada. Harry estava morto no mundo bruxo e eles concordavam em deixar as coisas assim. Mas ele só explicaria isso para o covil depois de ter Harry como lobisomem, como membro de seu grupo, e com forças para se impor e se proteger das reações ao dizer que a luta cotidiana deles era dele também, e essa era a única mudança que teriam.

Não sabia dizer quantas pessoas ouvira desde que vira Harry indo para casa, mas o primeiro golpe veio de forma tão súbita que Fenrir Greyback gritou, assustando a todos a sua volta.

Ele não esperava por aquilo. Nem ele, nem Harry. Demorou apenas alguns segundos para que Fenrir percebesse que não era ele quem estava sendo atacado, mas seu moitié. À sua volta havia somente pessoas assustadas com sua reação súbita e pelo vínculo tudo o que ele tinha era desespero e dor. Não foi um único golpe, mas uma sequência deles, e seu corpo estava em chamas. Ele podia suportar aquele reflexo de dor que Harry estava sentindo, mas Harry gritava por ele pelo vínculo e só a consciência de que Harry estava sendo agredido daquela forma fazia com que o pânico que se alastrava pelo vínculo inundasse toda sua mente.

Ele não percebeu como entrou na casa. Seus pés o conduziam e a porta de seu quarto estava no chão quando percebeu que Harry não estava ali. Não estava ali, não estava em nenhum outro cômodo, não estava na clareira ou qualquer outro lugar. Ele não estava ali. Não estava. Ele estava sentindo dor. Estava em chamas. E não estava ali.

Um golpe real o atingiu e Fenrir atirou um homem longe, somente então percebendo que era observado por basicamente todo o covil. O homem era Severus Snape, que cuspiu sangue no chão e não se deu ao trabalho de se levantar antes de gritar com ele.

- O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

- Harry. – Fenrir conseguiu articular a palavra em meio a um rosnado. Em sua mente era seu próprio nome que era gritado em meio à dor, mas era Harry quem ele precisava alcançar – Algo está acontecendo com ele. Dor. Eu preciso encontrá-lo.

- Ok. – Louis subiu em um dos trocos jogados à volta – Caçadores, organizem grupos de busca, daqui até o mar, encontrem Harry Potter!

Ele, Remus e Draco começaram a conversar com as pessoas mais próximas, tentando descobrir qual a última vez que Harry fora visto e se havia alguém com ele.

- Isso não vai adiantar. – Rabastan sussurrou para Snape – Se alguém foi estúpido o suficiente para levar la moitié de Fenrir Greyback daqui, não vai ser dessa forma que vamos encontrá-lo.

- Se alguém pode achar ele é você, Fenrir. – Snape se voltou para o homem que focava todas as suas forças em não mergulhar naquele mar de sangue e gritos que era sua mente neste momento.

Fenrir rosnou. Harry gritava em sua mente. Ele sentia. Sentia a dor, sentia o gosto do sangue em sua boca, sentia seu corpo tremer, sentia o asco do homem que o violentava, sentia o toque pegajoso das folhas imersas em sangue, sentia o cheiro da mata e do mar conforme a respiração falhava. Seu para sempre se afogava em seu próprio sangue e seu último pensamento era para ele.

Fenrir!

Ele estava correndo. Não tinha muita consciência disso, como não tinha quando estava na forma de lobo. Sabia que estava sendo seguido, mas sabia que isso era algo bom e não lutou contra. A pessoa com quem deveria lutar estava à frente. Era um lobo e cheirava como Harry porque estava coberto com seu sangue, deitado sobre seu corpo. Ele conhecia o cheiro de Harry e conhecia o cheiro do lobo e conseguia distingui-lo quando o vento soprava do mar por entre as árvores. O sol, o verde e o vento tornavam tudo um borrão em frente aos seus olhos, mas ele quase podia ver, ele quase conseguia, a cada passo que dava era mais nítido, a figura, as figuras, os dois corpos, o menino jogado no chão e ele.

ELE!

Fenrir deu um salto e o derrubou.

o0o

Severus e Rabastan corriam há muitos metros atrás de Fenrir. Se era desespero ou a força do lobisomem que o impulsionava, não saberiam dizer, mas quando conseguiram encontrar Harry, guiados pelo som de luta, encontraram o corpo de Lincan jogado um pouco além, e sua cabeça caída entre algumas árvores do outro lado. Fenrir estava tão coberto de sangue quanto Harry, suas mãos tremiam e ele tinha a varinha do garoto entre os dedos, executando um feitiço que não era o certo para curar, mas havia conseguido estancar o ferimento em seu pescoço, responsável por uma quantidade razoável de sangue que se espalhava pelo chão.

Havia marcas de magia em toda a clareira, pequenas explosões, e Snape sabia que aquilo que parecia vibrar no ar era algo natural. Potter fizera magia involuntária para se defender e provavelmente era isso também o que o estava mantendo vivo até aquele momento. Só dessa forma para um adolescente ter conseguido sozinho sobreviver a um ataque de um lobisomem adulto.

Os olhos azuis se ergueram quando Snape afastou sua mão, assumindo a tarefa de lidar com os ferimentos. Rabastan executava um feitiço para descobrir quais os mais graves e o que precisavam fazer primeiro, auxiliando no socorro. Além da ferida no pescoço, Harry tinha um machucado grave na cabeça por ter sido batida várias vezes contra o chão, aparentemente, todo o seu corpo estava marcado por arranhões fundos feitos pelas unhas do lobo, nada muito grave, mas o estava fazendo sangrar e talvez tivesse alguma perfuração mais séria, havia um braço, uma perna e algumas costelas quebradas.

Fenrir afastou os cabelos negros de seu rosto e os olhos verdes piscaram, molemente, como se o reconhecesse. Harry tentou falar, mas tudo o que conseguiu foi cuspir sangue, e seu corpo tremeu de forma tão violenta que fez com que Snape se erguesse, falando em voz alta rápida um feitiço complexo, e Harry perdeu a consciência.

- Preciso de poções. Precisamos tirar ele daqui. – ele constatou – Ele ainda não está fora de perigo, mas acredito que conseguimos levá-lo para a casa.

o0o

Harry estava limpo, deitado nu de bruços sobre os lençóis brancos colocados na cama dos dois. Ele estava pálido, o que era extremamente contrastante com os grandes hematomas que ainda marcavam sua pele onde fraturas e ferimentos internos haviam acontecido. O sol surgia novamente sobre o covil, um dia inteiro depois de Harry ser levado bem da sua frente, e da festa os lobos agora faziam um silêncio respeitoso por seu alfa.

Fenrir não havia dormido ainda. Não havia saído do lado da cama, fosse enquanto o tratavam, fosse agora, em que tudo o que restava era esperar que ele ficasse bem. As ataduras que cobriam seu pescoço e envolviam sua cabeça eram quase um alerta para não tocá-lo. Ele não devia tocá-lo porque ele não estava bem, e Fenrir não tinha mais esse direito.

Ele falhara com Harry.

Ele sabia que isso ia acontecer, ele podia sentir, era algo que estava na periferia de seu olhar o tempo inteiro, desde que trouxera Harry para lá. Ele devia ter feito algo antes, devia já tê-lo transformado, devia tê-lo reivindicado desde o começo, devia ter lidado com Lincan logo que ele começou a demonstrar interesse em Harry.

Devia nunca ter trazido Harry para lá. Devia não tê-lo machucado. Devia não ter tocado nele nunca e deixado que ele seguisse sua vida em paz, sem sangue.

Para morrer nas mãos de Voldemort ou ser infeliz para sempre. Mas haveria algo para sempre para Harry. Agora não há mais.

Se debruçou, beijando devagar sua face, de uma forma tão delicada que nem ele sabia ser capaz. Deixou que a pele fria tocasse seu rosto por tempo o suficiente para que sentisse que não era tão fria assim. Ele não estava morto. Fenrir não o matara... ainda.

E ele não podia mais lidar com isso sendo uma possibilidade.

- Chame Snape. – ele disse em um sussurro baixo e Louis pareceu despertar no outro canto do quarto, se levantando rápido e saindo em silêncio para voltar em poucos minutos com Severus ao seu lado.

Os olhos negros esquadrinharam rapidamente o corpo sobre a cama, verificando se o menino estava bem, antes de se voltar para Fenrir.

- Você me chamou?

- Você tem condições de viajar com ele nesse estado? Acho que vai precisar mantê-lo inconsciente até chegarem a um local seguro. Faltam quatro dias para a lua, posso garantir três sem que eu tente te rastrear.

Os olhos negros se fixaram nos azuis sem ousar usar magia, mas tentando lê-los de forma a confirmar o que estava implícito nas palavras.

- Você usou magia. – Snape disse em tom de acusação, fazendo Fenrir franzir a testa em confusão – Na floresta, quando o encontramos, você estava com a varinha dele na mão, fazendo magia para tentar mantê-lo vivo. Há quantas décadas você não portava uma varinha, Fenrir? Há quanto tempo você não fazia mágica?

- Eu tentei de tudo. – os dentes cerrados faziam a afirmação mais pesada, Fenrir não assumiria aquilo para ninguém e Severus o estava forçando para ser convencido de que precisava fazer isso – Eu não posso protegê-lo. Ele vai ficar melhor longe de lobisomens.

- Ele escolheu ficar aqui. Você sabe que ele jamais vai te perdoar por isso.

- É o que eu espero que ele faça. Ele não me perdoar vai fazer ele não voltar, e isso vai manter ele em segurança.

Severus o encarou em silêncio por mais alguns momentos e Fenrir quase podia sentir a velocidade de seus pensamentos, calculando o que seria possível fazer e a loucura desse pedido.

- Por que você confia em mim para protegê-lo quando você não confia nem em você mesmo? Você sabe que eu não sou capaz também. Você já provou isso quando trouxe ele para cá.

- Você o ama. De uma forma mais essencial do que você ama sua moitié. Agora mesmo você está considerando tudo o que pode fazer para salvar Harry sem considerar o que Narcisa vai fazer quando vocês partirem. Você espera que ela vá com vocês e deseja isso, mas, se ela não aceitar, sua prioridade ainda é ele, e não é porque eu estou pedindo. Esse sentimento me ameaça e eu o admiro ao mesmo tempo. Talvez você não possa protegê-lo, mas você vai morrer tentando. E você é inteligente o suficiente para fazer dessa a sua última possibilidade.

Os dois homens ainda se encararam em reconhecimento até que Severus fez um pequeno aceno com a cabeça e deixou o quarto. Fenrir voltou a se sentar na cabeceira de Harry, seus dedos correndo de leve os fios pretos naquele toque suave que seria sua despedida.

-:=:-

Doleur – do francês, dor.