Capítulo 36 – Non enregistrées

Eles haviam deitado para descansar pela primeira vez quando os uivos começaram.

Narcisa o olhou, aflita. Era cedo demais. Fenrir dissera que ele tinha três dias antes de ser rastreado, não fazia 24 horas que haviam deixado o covil, estavam perto demais ainda. E Severus havia gastado algum tempo aparatando em diversos lugares antes de seguir um caminho um pouco mais lógico que os levara até os Alpes suíços, para não deixar rastros claros de magia. O destino imediato deles era a Rússia, e lá ele faria contatos e pensaria em um lugar mais definitivo para irem, mas simplesmente aparatarem em Moscou era pedir para Fenrir os seguir, eles precisavam ir com calma.

Ele a abraçou, sussurrando que eram só lobos, mantendo seus corpos mais próximos, e ela relaxou em seus braços, fechando os olhos. Era estranho a forma como a intimidade vinha de maneira natural entre os dois. Nenhum deles estava habituado a toques ou àquela necessidade da presença do outro, mas descobrir isso daquela forma, juntos e compartilhando uma situação em que querem e precisam ficar juntos, fazia tudo mais fácil.

Mas naquele momento ela sabia que, apesar dele estar preocupado com a segurança de todos, era para o garoto que ele estaria olhando.

Potter ainda estava inconsciente, deitado ao lado dos dois, envolto em peles que, ao mesmo tempo em que o aqueciam, podiam disfarçar seu cheiro no local. Agora ela podia dizer que ele estava só dormindo, já não deveria haver mais ferimentos ou dor, eles estavam parando periodicamente para verificar seu estado e o medicar, mas Severus não ministrara mais sedativos desde que deixaram a França. Em algum momento ele iria acordar e Narcisa simplesmente não sabia qual seria sua reação ao saber que Fenrir o mandara embora.

Era estranho não saber, porque até pouco tempo atrás essa reação seria óbvia: alívio. Mas então Potter havia aceitado Fenrir. Ela não sabia definir isso para além de aceitação. Por mais que ela conseguisse um dia, talvez, respeitar ou admirar Fenrir Greyback por algo, esse seria o máximo de sentimentos positivos que ela poderia tecer pela criatura. Ela certamente o temia, e o odiava por tudo o que ele significou em sua vida. Ela não era inocente o suficiente para acreditar que ele havia destruído tudo o que tinha, seu status e sua família. Ele foi o estopim disso em muitas instâncias, mas eles fizeram isso consigo mesmos, ela tinha essa consciência. E ela sabia que Fenrir era o que era também por ações de bruxos como ela e sua família, e o fato de que eles compartilhavam um ciclo de ódio e destruição estava registrado na história.

Política podia definir a sua relação com Fenrir, da mesma forma que era definida a relação de bruxos e lobisomens em geral por muito tempo. Mas não mais. Agora era uma questão pessoal e uma parte dela se perguntava o que Harry Potter faria com a política quando entendesse que sua relação pessoal com Fenrir fora destruída.

Potter que aceitara Fenrir Greyback. Em um mês. Era um período curto demais para qualquer outro sentimento positivo mais forte ter surgido entre eles. Potter havia ido de prisioneiro a cônjuge do alfa em um mês. Se isso não é uma manobra política, ela não sabe o que era. O vínculo entre moitiés ajuda muito em convivência e negociações, mas não faz milagres. Havia mais em Potter do que ela podia compreender, e mais nessa relação entre eles do que ela poderia alcançar.

Ela olhou para o menino, atenta. Ele ainda parecia pálido, fosse pelo frio, pelos ferimentos ou pelo desgaste da viagem. Na verdade, ele sempre fora pálido, como se nunca tivesse tomado sol o suficiente. Ela era uma admiradora dessa palidez polida e precisava admitir que caía muito bem no contraste com os cabelos negros e os olhos verdes. Potter era uma criança bonita. Mas era uma criança. Ele era tão parecido com Draco que isso às vezes a assustava, das cicatrizes à inocência. Eram duas crianças perdidas no meio de uma guerra que nunca acabaria e pensar isso a fazia suspirar em angústia.

- Pare de pensar. – Snape sussurrou, depositando um pequeno beijo em sua têmpora, e ela fez um som de desprezo.

Ela nunca admitiria isso em voz alta para alguém, especialmente para Severus, mas ela admirava Lily Evans nesse ponto. Na sua estupidez de morrer pelas mãos do Lord para salvar o filho. Porque ela morreria dez vezes para salvar Draco e, se uma parte de sua mente lhe dizia que ela teria achado outra solução antes que isso fosse necessário, outra lhe falava que, se essa fosse a única solução, ela não pensaria duas vezes.

E Potter merecia isso. Ele merecia viver. Ela sabia que era isso que mantinha Severus ali. Talvez ele tenha chegado até ali por uma lembrança ou uma promessa a sua amada Lily, ou pela política e o vínculo estranho que ele manteve com Dumbledore durante todos esses anos – ela não era tão arrogante quanto o Lord para não perceber as nuances de sua moitié. Mas se ele chegou até aquela caverna nos Alpes sendo perseguido por lobisomens para manter Potter vivo isso não era por amor a ninguém mais, isso era porque Potter havia conquistado isso, o amor e a lealdade de Severus Snape.

E isso a fazia temer por não saber o que Potter faria quando acordasse, porque ele merecia viver e merecia ser feliz, mas, naquele momento, ele podia arrastar Severus, sua moitié, para uma morte tão terrível quanto a de Lily Evans. E era por isso que ela não parava de pensar, ela precisava saber e precisava analisar todas as possibilidades, porque todos eles mereciam viver.

Inclusive Fenrir Greyback, por mais que ainda fosse difícil admitir.

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Os olhos verdes piscaram, pesados. Ele se sentia levemente zonzo, sua mente enevoada como se tivesse dormido por tempo demais, ou tempo de menos. Piscou novamente, o mundo se tornando embaçado no limite da ausência dos óculos, mas o suficiente para ele saber que não fazia ideia de onde estava. Flexionou de leve os dedos das mãos e dos pés, fazendo um rápido check-up de sua situação física. Não sentia dor, conseguia se mover, não sentia fome ou sede, mas tinha um gosto estranho em sua boca e a garganta seca. Sua varinha não estava por perto, bem como seus óculos. Estava vestido e coberto por algo pesado, mas macio. Havia pessoas no local com ele.

- Bem vindo de volta, Potter. – a voz de Snape o alertou que não havia sido tão discreto quanto pensava em seu pequeno ritual.

- Eu não deveria estar morto ou algo assim? – ele se sentou, devagar, e encontrou os óculos no chão não muito distante – Onde está Fenrir?

- Você deveria estar morto há 15 anos, Potter. Agora olhe para mim. – Severus estava ao seu lado e Harry não hesitou em encará-lo, mas aparentemente o ex-professor não estava interessado em seus pensamentos, somente se seus olhos respondiam corretamente a estímulos. Ele examinou suas orelhas e debaixo de sua língua também, e tocou a região do seu pescoço antes de se dar por satisfeito e voltar para perto de Narcisa, que parecia ter conjurado três vasilhas de sopa.

Harry olhou o ambiente com mais atenção. Era um local rústico, como um buraco feito entre pedras. Havia um certo nível de conforto no mobiliário e nas peles que cobriam o chão, mas eles estavam compartilhando um único cômodo pequeno cuja saída parecia bloqueada por uma grande rocha, e era isso. Harry sabia que aqueles dois bruxos poderiam ter transformado esse lugar em uma pequena mansão, mas parecia que eles estavam evitando fazer magia. E uma coisa o alertou: estavam sozinhos. E eram humanos.

- Vocês me sequestraram do covil? Estamos fugindo? O que aconteceu?

- Fenrir me pediu para te levar e te manter em segurança. – Severus explicou, entregando uma vasilha de sopa para o menino – Coma.

- Por que? Lincan sobreviveu? É ele que está nos perseguindo?

- Não. Você fez um bom trabalho e Fenrir finalizou quando te encontramos. Não se preocupe com Lincan. Coma.

- Severus. – havia urgência em sua voz e ele sabia disso.

- Coma, beba um pouco de água, tente ficar de pé e andar um pouco. Então podemos conversar, estamos seguros por enquanto.

Harry aceitou, ainda que preocupado. Parecia que sua mente ainda não havia acordado por completo, como se algo pesasse dentro dele e o impedisse de pensar direito. Por um momento, ele decidiu confiar em Severus, respirar fundo e tentar se alimentar e tornar seu corpo funcional antes de saber do que, exatamente, estavam fugindo e por quê.

A sopa o fez se tornar mais consciente, o calor descendo pelo seu peito como se abrindo um caminho em seu corpo. Ele sentia frio, mas não o suficiente para ser um incômodo. Respirou fundo novamente e olhou à volta, o movimento mais amplo com os olhos o fez sentir um pouco de vertigem, ainda que não tivesse efetivamente se movido. Deixou a cabeça pousar contra a parede e tentar identificar o que estava errado com seu corpo. Ele parecia bem, ele se sentia bem. Lembrou-se do que sentia das vezes que caiu da vassoura. Lembrou-se dos dementadores. Lembrou-se dos feitiços que já levou, das poções que já tomou, mas nada parecia familiar com isso.

Lembrou-se de Lincan, das garras e dos dentes rasgando seu corpo. Lembrou-se de Fenrir.

- Harry... – os dedos de Severus correram devagar sua face, colhendo as lágrimas que corriam silenciosas – O que você está sentindo?

- Eu... eu não sei. – ele estava tremendo e Snape retirou o pote de sopa das suas mãos, voltando a examiná-lo, mas não havia nada errado com ele. Ele estava bem. O que significava que o problema não era com ele, era... – Fenrir.

O nome deixou seus lábios e todo o pensamento e preocupação de Harry se voltou para o vínculo que tinha com seu moitié, tentando descobrir o que estava de errado. Mas a dor que o envolveu foi tão grande que ele tentou gritar e não conseguiu, seu corpo se dobrou, tremendo, e ele perdeu a consciência.

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- Harry... Potter... – alguém o balançava de leve e um cheiro forte o fez acordar. A figura de Severus demorou um pouco para entrar em foco e então ele percebeu que o homem o encarava, assustado – Fale comigo.

- Oi. – sua respiração era rasa e sua cabeça doía. Fora isso, ele não sentia nada. Ainda estava sentado na caverna estranha e Narcisa estava agora ao seu lado, segurando seu pulso como se tentasse verificar algo. E ele não sentia o toque dela. A luz da varinha de Snape bateu no seu rosto e o cegou por um segundo.

- Ele está respondendo normal. – ele constatou – O que você está sentindo, Harry?

O garoto umedeceu os lábios secos e seus olhos pontuaram algumas coisas à volta, como se tentando se focar em algo sem conseguir, seus dedos se abriam e fechavam, ele havia parado de tremer.

- Nada. Eu não sinto nada. – e não havia preocupação ou ressalva em sua voz, como se ela transmitisse exatamente isso: nada.

- Será que você errou a dose da poção, Severus? – Narcisa olhava para Harry com certa reprovação.

- Provavelmente, eu vou ter que regular isso testando diretamente, a dose usual foi minha primeira tentativa e você viu o que aconteceu. – ele conjurou um frasco de poção e derramou metade do conteúdo entre os lábios do menino – Fale comigo, Potter.

- Isso tem gosto de gengibre. – Harry declarou, sua voz sem flexão.

- Ok, você tem paladar. O que mais você pode sentir?

- Minha mão está formigando.

- Paladar, tato, visão, audição. É o suficiente. Você pode me dizer no que está pensando, Harry?

O menino pareceu confuso por um momento, como se fosse realmente difícil se focar em qualquer pensamento. Snape deu mais um gole da poção para ele, com extremo cuidado para que ele não bebesse mais do que isso.

- Que poção é essa? – Harry finalmente conseguiu formular.

- Um dosador da poção que eu te dei antes, que foi forte demais, desculpe. Mas acredito que posso acertar a próxima dose. Você provavelmente vai precisar tomar todos os dias pelos próximos anos, eu posso providenciar isso para você.

- Eu não acho que Fenrir vai durar tanto tempo. – Narcisa falou, ainda que soasse preocupada.

- O que a poção tem a ver com Fenrir? – Harry ainda soava confuso.

- A poção inibe o vínculo entre vocês. Ela te impede de sentir o que Fenrir sente, e vice e versa. Isso vai impedir ele de te encontrar pelo vínculo, como ele te encontrou quando você foi atacado, e vai te impedir de enlouquecer conforme ele entrar nesse processo. O vínculo entre moitiés é cultivado, ele precisa ser construído e estruturado com uso e convivência. Com o tempo você não vai sentir mais, ou, conforme Narcisa sugeriu, uma das partes envolvidas pode vir a falecer.

- Fenrir é forte. – Harry declarou, sua voz ainda sem emoção.

- Sim, mas ele também é louco, e está cada vez mais perdendo controle sobre a própria mente sem você.

- Eu também. – Harry encarou Severus e os dois sabiam que era verdade.

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Non enregistrées – do francês, não salvo.

NA: Então... oi.

Nesse mês (fevereiro/2017) fez 6 anos que eu comecei a postar Moonlit e, incrivelmente, ela é uma das minhas fics mais lidas até hoje, então eu decidi tomar vergonha na cara e terminar ela.

Esse não é um processo fácil porque eu tenho sérios problemas com Moonlit. Durante esses 6 anos, eu mudei muito, minhas ideias e opiniões mudaram, o que eu gosto ou não gosto mudou. Eu parei de escrever por causa desse conflito: a fic estava caminhando para algo que eu não concordava mais e eu não sabia mais o que fazer. Mas, por outro lado, eu gostava dela ainda o suficiente para não desistir.

Esse não é um problema completamente resolvido para mim, mas eu acho que tenho um final plausível agora e ele já está parcialmente escrito (eu quero revisar com cuidado e falta a última cena), então eu decidi voltar a postar – e eu queria muito voltar a postar nesse mês, pelo marco (na verdade, eu queria postar no dia, mas não consegui terminar a tempo). A previsão nesse momento – que só pode mudar se uma luz descer dos céus e me dizer para fazer algo completamente diferente – é fechar 40 capítulos. Então, é, estamos perto do fim.

Quando ela estiver toda online, eu vou explicar exatamente o que estava me incomodando e como eu pensei em resolver isso, mas, por hora, sem spoilers. Eu revisei e repostei todos os capítulos anteriores, a história em si não mudou muito, mas tem coisas que eu mudei que eu considero realmente importante, então, se eu fosse vocês, daria uma relida.

Vocês me inspiraram a voltar a escrever, então eu espero que vocês realmente aproveitem o que vem pela frente.

Sobre esse capítulo, eu preciso contar pra vocês que, em 6 fucking years, eu nunca planejei o que aconteceu aqui, eu sentei pra escrever uma coisa e ele simplesmente aconteceu. Não consigo julgar se para mal ou para bem, mas eu gosto de para onde as coisas estão indo.

Por favor, não me odeiem (tanto).