Capítulo 37 – Son

Harry abriu os olhos e a luz do crepúsculo entrava no quarto, refletindo alaranjado nos tons claros de madeira das paredes, no branco dos lençóis e no azul dos olhos dele. Fenrir não sorria, mas havia suavidade no seu olhar. Ele não estava sonolento, também, o que fazia Harry acreditar que estava sendo observado antes que acordasse, então não havia nenhum motivo para parar.

Ele pousou um beijo leve sobre os lábios finos do homem e eles se curvaram levemente, conforto e bem estar fluindo livremente pelo vínculo entre os dois. Ele era tão bonito assim, simples e suave, naquela luz. Seu rosto tinha rugas e Harry não sabia quantas delas eram cicatrizes do tempo, de lutas ou das transformações, mas isso não diminuía a beleza de Fenrir. Seria estranho se ele fosse jovem com esses olhos, eles pesavam no seu rosto como se fossem capazes de invadir sua alma só com o olhar, mas de forma mais agressiva e menos astuta do que os olhos de Snape. Seus olhos eram promessas, eles tinham força.

Harry suspirou com esse pensamento, sentindo as mãos do homem correndo seu corpo e com isso aumentar sua excitação. Ele se perguntou por um momento se ele era capaz de transmitir pelo vínculo o quanto ele achava Fenrir bonito. Era um sentimento diferente do desejo ou da admiração que ele sabia que conseguia transmitir porque muitas vezes sentia isso vindo de seu moitié com relação a ele. Ele não sabia se Fenrir o achava bonito, parecia um pensamento suave demais para ele. Ele não sabia se Fenrir era capaz de admirar beleza.

Ele correu o polegar sobre os lábios finos, tão marcado pelos dentes ferozes, mas ainda macios. Sua mão correu a barba rústica que o homem mantinha rente ao rosto e o lobo fazia crescer toda lua cheia. Seu rosto era fino e alongado, a face longa, o nariz longo, as orelhas longas, a testa longa. Estranhamente harmônico. Era um rosto muito tipicamente francês, mas rústico, como se ele tivesse sido talhado, contornado pela linha dos cabelos, um dourado sujo que caia até os ombros.

Harry passou o polegar pelo nariz e as sobrancelhas grossas e escuras sobre os olhos, e acariciou de leve sua face, depositando pequenos beijos entre a linha da barba e seus olhos.

- Você é lindo, ma moitié.

Fenrir grunhiu um riso e satisfação inundou Harry pelo vínculo. Mas então ele voltou a ficar sério e olhou profundamente os olhos verdes.

- É hoje.

o0o

Harry acordou assustado. Era como se pudesse ouvir a voz de Fenrir dizendo aquela última frase e isso era perturbador. Mas a poção que Severus estava lhe dando deixava todos os seus sentidos confusos e sua mente enevoada, de forma que ele não se surpreenderia se começasse a alucinar.

Seria extremamente irônico, porém, se ele passasse o resto de sua vida alucinando com Fenrir. A vingança perfeita, na verdade, por ele o estar abandonando. Porque ele ordenou, aparentemente, o que faz com que não tenha do que se vingar, mas pensamentos coerentes não fazem mais parte do cotidiano de Harry Potter, então, é.

Harry grunhiu com o esforço e se sentou, esperando alguns segundos antes de abrir os olhos para diminuir a vertigem. Ele não fazia ideia de onde estavam, em parte porque Severus se recusava a dizer, com medo de que Fenrir pudesse invadir sua mente de alguma forma e descobrir, em parte porque ele estava completamente incapacitado de juntar duas pistas quaisquer e chegar a uma conclusão. Poderia ter uma placa com o nome do lugar em que eles estavam bem em frente a ele e provavelmente não teria percebido. Não percebeu.

O tempo era outro problema. Ou não, já que ele aparentemente não tinha mais percepção de tempo também. As coisas simplesmente aconteciam muito rápido ou muito devagar a sua volta e havia grandes períodos de nada entre elas e muito sono perturbado. Ele nunca se lembrava de ter dormido e sempre acordava assustado. Mas havia sol nesse momento. A luz vinha do lugar que parecia uma porta e era brilhante e levemente amarela, portanto sol. Muito sol. Tipo meio do dia.

É hoje.

Harry podia não saber que dia era ou que horas eram ou o que estava acontecendo, mas se tinha algo em que ele ainda podia confiar era em seus instintos, e havia uma parte dele que estava muito consciente do que estava acontecendo e essa parte estava lhe dando um aviso com a voz de Fenrir.

É hoje.

- Severus.

Ele não tinha certeza se havia realmente falado, mas Severus veio. Ele sempre vinha. Uma parte de Harry achava que ele estava lendo sua mente, já que falar era muito difícil, mas fazer qualquer coisa era muito difícil, pensar era muito difícil, e Severus estava cuidando de todas as suas necessidades desde que ele mergulhara naquele estado drogado pela poção que inibe o vínculo. Narcisa e Severus tinham esperanças de que em breve eles poderiam diminuir a dose e Harry voltaria a ser um humano funcional, mas às vezes eles tinham medo que, depois da lua, Fenrir enlouquecesse completamente e eles precisassem aumentar a dose. E Harry não gostava de tentar imaginar o que ele se tornaria nesse caso.

Severus estava fazendo alguma coisa. Talvez alimentando ele, talvez limpando ele, talvez drogando ele. Harry se concentrou em suas mãos e conseguiu fazer com que uma delas parasse. Severus o olhou, confuso, e esperou. Ele nunca fora tão paciente com Harry antes e isso só mostrava o quanto o estado dele era preocupante.

- Voltar. – a palavra saiu baixa demais e mal articulada, mas foi o suficiente para fazer os olhos de Severus brilharem.

o0o

Havia um milhão de vozes dentro de sua mente e ele queria gritar. Cada uma delas gritava junto com ele dando uma ordem, um desejo que não era dele, e cada grito era como um chicote que abria seu peito de dentro para fora e ele sentia que estava morrendo um pouco a cada segundo.

Mas agora ele conseguia pensar. Ele conseguia discernir coisas. Ele conseguia falar.

- A qualquer momento que for demais, Harry, é só falar, e eu ministro a poção novamente.

- Eu estou sob controle. Não é tão ruim quanto da primeira vez.

Harry se lembrou da primeira vez que conseguiu sentir o que Fenrir sentia. O medo e a tristeza porque ele desejava morrer. Sua vida havia se esvaziado de propósito e sentido e tudo era dor. Isso era o que ele sentia vindo de Fenrir agora, mas muito, muito pior. Era uma dor centenária. Um abandono tão grande, repetido ao longo do infinito, e de novo, e de novo. Ele sentia como se toda a esperança estivesse escorrendo em sangue pelas suas mãos. E a solidão era como algo escuro e palpável que quase o impedia de respirar.

Mas ele sabia que estava bem. Ele respirava devagar e profundamente, sentindo todo o seu corpo nesse movimento, ouvindo seu coração, tentando empurrar essa calma construída de volta pelo vínculo, como se ele pudesse ajudar, de alguma forma, a aplacar tanto caos e dor. Ele podia tentar, e podia se distinguir disso tudo para entender o que estava acontecendo.

O que era extremamente irônico porque, ao tentar se centrar no que ele é em meio a todo o caos que Fenrir está lhe transmitindo pelo vínculo, Harry encontra o próprio caos. Ele quase pode sentir, em meio a toda a solidão de Fenrir, o que ele sentia dormindo no armário embaixo da escada dos Durleys, a certeza de uma criança que sabe que não é amado, que sabe que não tem para onde ir, que – no fundo – sabe que ninguém vai vir por ela. Em meio à dor confusa de Fenrir por ter sido abandonado, Harry sente a dor de sua alma sendo sugada pelos dementadores enquanto escuta a morte de sua mãe mais uma vez, o momento em que essa dor começou e que ele sabe que nunca vai terminar. Em meio à desesperança de Fenrir, à certeza de que qualquer chance que ele tinha de sobreviver e ser feliz está acabada, perdida em uma promessa distante e quebrada, Harry revê Sirius sumindo no véu e assiste lentamente o corpo quebrado de Dumbledore caindo daquela torre e escuta o sussurro baixo de Severus lhe dizendo que uma parte da alma de Voldemort vive dentro dele, e que ela só pode ser destruída se ele morrer.

E quanto mais Harry se deixava envolver por esses sentimentos, que eram seus e de Fenrir, juntos, ainda que estivessem separados, é que ele conseguia ver mais claramente o que os definia enquanto indivíduos e o quanto somente eles poderiam compreender da alma um do outro: Harry seria para sempre uma criança que sobreviveu a coisas demais; Fenrir é uma criatura ancestral, sobrevivente através dos tempos.

Eles precisam ficar juntos.

- Potter, você entende o que vai acontecer se você voltar? Ele está louco, ele vai te matar.

- Quais são as opções que eu tenho, senhora Malfoy? – Inspira. Expira.

- Todas! Você tem 16 anos, você é um dos bruxos mais poderosos do nosso tempo. Você pode, quase literalmente, fazer o que bem quiser.

- O que você pensa em fazer, Harry? Considerando que voltar não seja uma opção.

Ele sabia que aquela conversa era necessária, mas ele também sabia que já havia tomado a sua decisão.

- Eu vejo duas opções. - Inspira. Expira. – Considerando o melhor dos cenários, em que eu não precise mais da droga e termine esse processo o mais rápido possível e bem. - Inspira. Expira. - Ou eu sigo minha vida como anônimo, provavelmente fora da Inglaterra e da França, com outro nome, uma outra história, talvez como o filho de vocês, um casal migrando fugindo da guerra. Essa é uma boa história, um final de conto de fadas para todos, sem o lobo mal. - Inspira. Expira. – Talvez eu vire professor em uma escola pequena, talvez eu me case e tenha filhos, talvez eu dê o nome de Fenrir para o meu mais velho. Porque eu nunca vá conseguir parar de pensar no pesadelo que eu tenho explodindo na minha mente nesse momento e em como eu virei as costas para o meu moitié e abri mão dele por uma vida medíocre até que algum outro louco me encontre e me mate. Talvez meu cônjuge. Parece que eu atraio esse tipo de gente, afinal.

- Potter...

- Qual a outra opção, Harry? – Severus interrompeu Narcisa com voz quase professoral.

- Eu volto para a Inglaterra e luto. - Inspira. Expira. – Talvez eu busque apoio dos meus amigos, eu tenho certeza de que, mesmo se Ron e Hermione não me acompanharem por toda a dor que eu sei que minha suposta morte fez eles passarem, McGonnagal vai me dar qualquer coisa de que eu precise. E eu vou matar Lucius Malfoy e vou tomar o governo, vou mudar a maldita lei, e passar o resto da vida lambendo minhas feridas e me remoendo pela vida que eu não tive.

- Ou você pode tentar ser feliz. – Narcisa o interrompeu – Eu sei que parece muito difícil essa possibilidade agora, Potter, mas o que Fenrir te oferece não é a única dose de felicidade a que você tem direito. La moitié é, sim, uma forma de se equilibrar, mas não é a única, pelo contrário. Viver com outra pessoa não é fácil, você e Fenrir tiveram mais dias de conflito do que de paz juntos, e agora olhe para você: ele está te matando e você nem está com ele.

Ela não faz ideia. Ela não sabe que ele nunca teve e nunca terá equilíbrio, sozinho ou com qualquer outra pessoa. Fenrir é só um ponto de referência no escuro que surgiu como um alívio para quando ele tenta lutar contra os próprios fantasmas, e ele está perdendo isso a cada segundo que fica longe dele.

Inspira. Expira.

- Eu não sei o que você espera encontrar em Fenrir Greyback, Harry. – Snape falou, sua voz quase um sussurro – Eu não tenho como saber se você vai ou não encontrar isso, nele ou em qualquer outra pessoa ou qualquer outra situação. Eu não acho que você tenha idade para saber ou para ter clareza e tomar uma decisão tão importante. Mas eu também acho que você não tinha idade para passar por metade das coisas que você já passou e, mais do que isso, você não pediu para estar aqui, tomando essa decisão, nessa situação. – ele parecia terrivelmente cansado, e Harry queria bater nele porque ele ainda precisava de Severus ali, com ele. Mas ele soube que ele ainda não havia desistido quando os olhos negros voltaram a fitar os seus – Eu fiz tudo o que eu podia para tentar mudar isso, e eu sinto muito.

Inspira. Expira.

- Minha mãe me amava, eu tenho certeza disso. – os dois o olhavam com atenção agora, e ele sabia que precisava terminar essa conversa porque ele não tinha mais tempo ou energia para continuar – E eu acho que foi a última vez que isso aconteceu. Todas as outras pessoas que passaram pela minha vida, elas podiam até sentir algo por mim, cuidado ou admiração ou carinho, mas eu nunca realmente me senti amado. Eu não sei como é me sentir amado. Eu não sei se eu sou capaz de amar.

- Harry...

- Eu tenho uma parte da alma de Voldemort em mim, é completamente possível que eu seja incapaz de amar. Talvez eu não saiba amar, talvez eu não consiga sentir amor, seja pelos outros, seja o que outros têm por mim. Eu não espero que ninguém me ame. Eu já quis muito isso, desesperadamente, mas hoje eu acho que seria terrível saber que alguém sente isso por mim e não conseguir retribuir ou receber isso apropriadamente. E eu não espero que Fenrir me ame. - Inspira. Expira. – Eu não acho que ele saiba amar. Ele sabe cuidar de uma forma feroz, mas eu sei que isso não é amor. E eu sei que ele não espera mais amor. Ele nunca me pediu isso, e eu sei que ele nunca vai pedir. E ele nunca me prometeu isso também. E, ainda assim, ele vai cuidar de mim, e eu vou cuidar dele, e é por isso que nós temos que ficar juntos.

Inspira – e as lágrimas finalmente o fizeram sufocar.

-:=:-

Son – do francês, seu.

NA: Se você estiver se questionando quem é esse homem que eu descrevi como sendo o Fenrir, dê uma olhada na foto do Dave Legeno (o ator que fez o Fenrir nos filmes) na página dele na wikipedia. Aí acrescente rugas, cicatrizes, cores e cabelão. É isso.

Na minha imaginação, o Fenrir com mata cão é animalesco como nos filmes (ou como os lobos de Teen Wolf, se preferirem), mas quando ele se transforma vira realmente um lobo (talvez eu fale mais sobre isso nos próximos capítulos), e fora da influência da lua e com seu moitié do lado, ele é humano assim.

Eu queria agradecer pelas respostas de vocês à volta da postagem da fic. Muito obrigada 3

Esse capítulo é muito importante para mim porque foi perceber essa ideia que me fez acreditar que eu conseguiria terminar de escrever a fic: é possível o Harry e o Fenrir se completarem enquanto indivíduos porque eles realmente compartilham muita coisa. E o nível de compreensão que os dois podem ter é muito particular, eu tenho muita dificuldade de pensar em algum outro personagem desse universo que possa dizer para um ou para o outro que realmente entende o que eles passaram.

Se eles conseguem construir um relacionamento saudável a partir disso, aí são outros 500, esperem pelos próximos capítulos XD

Eu só preciso fazer o adendo de que há sempre uma opção de vida melhor do que um relacionamento abusivo, o Harry só não consegue ver isso porque ele está exausto, muito sem esperanças e sendo massacrado por um vínculo mágico. Mas sempre há uma opção.

Beijos