Capítulo 38 – Transformation
Não havia um plano, exatamente.
Severus e Narcisa – e havia uma sinceridade que Harry não esperava dela – queriam vir junto, mas não era porque ele estava disposto a morrer que eles deveriam também. Snape ainda tentou argumentar contra isso, mas Harry tinha a impressão de que, pela primeira vez na vida, ele tinha um motivo para não querer se arriscar tanto.
Ele fez Harry beber algumas poções e jogou alguns feitiços nele, porém. Harry sabia que havia um rastreador e um que iria dizer para Severus caso Harry morresse ou deixasse de ser humano. Ele achou que esse era fruto de puro desespero porque uma das duas coisas com certeza aconteceria essa noite – talvez ambas -, portanto, sob seu ponto de vista, era a coisa mais inútil que Severus havia feito até agora, mas ok. Ele preferiu não falar nada.
Entre as poções, havia várias de cura que poderiam ser a diferença entre a vida e a morte contra um lobisomem. Havia uma particularmente incômoda e sobre a qual Harry preferiu não comentar, mas ele tinha certeza de que estava criando algum tipo de lubrificação em partes do seu corpo que não deveria, e ele sabia que havia um risco muito grande de Fenrir tentar fazer sexo com ele sem se importar com mais nada e ele não queria morrer de hemorragia por causa disso, mas naquele momento em que ele estava simplesmente caminhando parecia informação demais.
Na verdade, uma parte de Harry não acreditava realmente que Fenrir tentaria fazer sexo com ele sem algum tipo de confirmação de que isso era o que ele queria também. Nunca mais, eles haviam superado isso – ou ao menos ele confiava o suficiente em Fenrir para acreditar nisso. Mas outra parte de Harry lhe dizia que, se Fenrir perguntasse ou desse qualquer indicação, ele aceitaria. Essa parte, que estava além de toda a preocupação e tensão do momento – e ignorando uma quase certeza de sério dano ou pior –, estava feliz de estar voltando. Essa parte sentia falta do dia a dia do covil, da tranquilidade dos últimos dias vivendo lá, de acordar abraçado por Fenrir, de sentir seu cheiro e ouvir seu riso rouco. Essa parte estava vagamente ansiosa por se reencontrar com ele e a ideia de sexo era bem vinda, ainda que Harry soubesse que ele mesmo, muito provavelmente, não teria se preocupado com detalhes como lubrificação. Então, sim, o resultado da poção era estranho e incômodo, mas também bem vindo.
Harry se sentia quase feliz enquanto caminhava. Era estranho, porque de certa forma ele estava caminhando para uma morte quase certa, mas, por outro lado, parecia a coisa mais natural que ele já fez em toda a sua vida. Ele pegou uma chave de portal para algum ponto genérico no norte da França, que Severus garantiu que estava perto o suficiente do covil do Fenrir para ele poder ir andando, mas longe o suficiente para ele estar seguro de um ataque imediato. Uma parte de Harry se perguntava quando ele não estaria mais seguro a cada passo que ele dava.
Ele esperava um ataque. Ele sabia que, se Fenrir não estivesse completamente louco a essa altura, ele não estava completamente são também. Ainda que ele desconsiderasse todo o efeito de terem estado separados por dias, havia a lua. E, por mais que Fenrir não fizesse nada demais com ele, ele no mínimo o transformaria – porque era isso o que o lobisomem mais ansiava, e Harry sabia e já havia dado seu consenso para isso. Portanto, o fato de que em algum momento naquela noite Fenrir o iria morder era a única certeza que ele tinha. E esperava por isso.
Mas a única coisa que o guiava era o vínculo que ele tinha com Fenrir, e isso lhe dava uma segurança inigualável, como se, pela primeira vez na vida, ele realmente soubesse aonde estava indo e o que estava fazendo. O que ele sentia pelo vínculo ainda era um fluxo de dor, caos e desesperança, mas agora havia algo como uma confusão ou um sinal de curiosidade que quase o fazia querer sorrir, porque isso significava que Fenrir sabia que ele estava voltando.
Isso significava também que Fenrir estava bem, bem o suficiente para se acalmar um pouco com sua proximidade. Uma parte de Harry, que ele não ousou dividir com ninguém, temia voltar e encontrar Fenrir perdido, morto ou gravemente ferido ou mantido prisioneiro para o bem e a segurança das pessoas à volta dele. Harry sabia que Fenrir não havia morrido porque ainda podia sentí-lo pelo vínculo. E sabia que ele não estava sendo ameaçado porque, por mais animalesco e confuso o seu fluxo de pensamentos fosse, Harry ainda era a sua prioridade, e isso significava que ele mesmo estava seguro. Ou assim ele esperava.
Ele tentava controlar sua ansiedade e seu medo e não imaginar o que Fenrir faria com ele quando se encontrassem. Fenrir era movido por instinto e sempre fora duro, mas não deliberadamente cruel. Harry não conseguia imaginar ele o punindo, de qualquer forma, por ter partido – o que seria completamente injusto e ele sabia que não tinha nenhuma lógica, mas uma parte de Harry se sentia culpado por ter abandonado sua moitié – ou por estar voltando.
Ele estava com medo de Fenrir, sim, mas não por qualquer coisa que ele faria racionalmente, Harry já confiava o suficiente que tudo o que haviam passado, tudo o que haviam mostrado um para o outro, tudo o que haviam conversado durante aquele mês, era o suficiente para ele conseguir confiar sua sanidade e sua segurança a Fenrir mais uma vez. Mas ele temia pelo seu instinto. Ele temia o lobo que vivia nos olhos de Fenrir e que ele ainda não havia tocado, como o qual ainda não havia tido nenhum tipo de contato. Tudo o que chegava a ele pelo vínculo era caótico e ruim, pautado por uma ansiedade e algo autodestrutivo. Harry não sentia muito orgulho de seu senso de auto preservação nesse momento, mas ele também não conseguia parar de pensar sobre o que Fenrir fizera com ele no seu primeiro encontro, quando tudo era instinto e querer e posse para o lobisomem. Harry não teria sobrevivido sem Severus, e ele não estava aqui. E Fenrir havia dito que agora seria pior.
Harry não sabia qual face de Fenrir iria encontrar, mas ele tinha certeza de que, naquela noite, ele voltaria a tocar o lobisomem que era sua moitié, o mesmo que o havia sequestrado tantas noites atrás, e que seria ele quem o morderia, para fazê-lo seu igual, de uma vez por todas.
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Harry havia caminhado por quase uma hora em direção contrária ao mar e agora ele atravessava uma região com colinas. A lua cheia já iluminava o caminho que ele seguia, à beira de uma estrada pavimentada que cruzava pelo vale, na qual quase não tinha movimento. Ele decidiu subir em uma das colinas para ver melhor a região e tentar se localizar. Estava cansado, com fome e com sede, sem falar de toda a apreensão. Talvez Fenrir estivesse distante do covil, procurando por ele. Talvez ele estivesse em outro país, o que ele sentia pelo vínculo aqui era tão intenso quanto quando estavam escondidos. Talvez Harry precisasse se preocupar em procurar um local seguro para descansar em breve.
De cima da colina, ele conseguiu ver luzes de cidades não muito grandes, não muito distantes, a estrada com certeza passaria por algumas delas em breve se ele continuasse andando naquele ritmo. Mas, mais ao sul, ele podia ver a mancha negra da floresta, onde ele sabia que ficava o covil. Ele não sabia, na verdade, ele supunha. E ele não fazia ideia do quão dentro da floresta seria. Ele ficou um tempo refletindo se valia a pena entrar na floresta ou se deveria seguir a estrada até uma cidade e descansar. Fenrir o encontraria em qualquer lugar, e, se eles não se encontrassem naquela noite, ele precisava decidir a melhor forma de sobreviver até a noite seguinte.
Foi então que ele percebeu a sombra saindo da floresta. Ele não conseguiu distinguir o que era, exatamente, parecia um animal grande, e estava, definidamente, vindo naquela direção, e em uma velocidade muito maior do que a que ele teria. Ele pegou a varinha e começou a descer a colina na direção contrária à estrada, era um vale com um riacho que ia em direção à floresta e, nesse momento, Harry só queria que suas dúvidas acabassem de uma vez.
Ele andou por mais alguns minutos até avistar a sombra de novo, dessa vez recortada pela lua no alto de uma colina não muito à frente. O animal agora estava de pé e parecia olhar diretamente para Harry. Os sentimentos que vinham pelo vínculo mudaram drasticamente, mas Harry não conseguia distinguir, ele começou a correr e o animal jogou a cabeça para trás e uivou para a lua antes de sumir, correndo na noite.
Harry parou de correr quando viu a sombra vindo em sua direção pelo vale à frente. Ele mal conseguia respirar e caiu de joelhos sobre a relva pouco antes de o animal alcança-lo. A força do impacto o atirou para trás e ele não conseguia ver nada além da pelugem dourada contra a luz da lua. Seu corpo doía do cansaço do dia, do impacto e do peso sobre ele, mas Harry ficou surpreso por ser só isso. A relva havia absorvido o impacto da queda e o animal não o estava machucando.
Aquilo não era uma luta.
Mãos com garras corriam pelo seu corpo, cortando e afastando suas roupas, mas não rompiam a pele. A respiração quente e agitada batia contra seu rosto e ele viu os dentes de relance, mas então o animal enterrou a face contra seu pescoço, como se buscando seu cheiro, descendo pelo seu corpo até sua virilha, mas não mais do que isso. Ele o estava reconhecendo. Lambendo, cheirando, sentindo, marcando, em quase desespero, mas não mais do que isso.
Harry conseguiu se acalmar um pouco, o fluxo de sentimentos que fluía pelo vínculo quase irracional, e, agora que ele sabia que Fenrir não iria mata-lo, ele precisava saber o quanto de humano ele ainda era. Devagar, ele moveu a mão tocando os pelos longos em torno de sua cabeça. Imediatamente dois olhos azuis se voltaram para ele, atentos, vivos e intensos. Ele acariciou os traços irreconhecíveis do rosto parcialmente transformado. Ele não era um lobo, não era um animal, mas não era humano também. Era mais do que o homem perturbado que atacara Hogwarts, quase não havia traço do homem com quem dividira a cama nos últimos dias, e ele se lembrou de quando vira Remus transformado pela primeira vez.
Seu corpo estava nu, meio arqueado, meio lobo, mas meio homem, e essa obviedade fez Harry sorrir. Ele era coberto de pelos, longos como o pelo animal, mas que lembravam na cor e na textura os cabelos de Fenrir. Seus olhos ainda estavam fixos nele enquanto o observava em silêncio, mas não havia nada de humano neles. Eles pareciam vidrados demais para alguém consciente e, ao mesmo tempo, atento a tudo, a qualquer movimento dele, a qualquer movimento à volta deles, às nuances da luz da lua.
- Fenrir. – Harry chamou baixinho, esperando algum reconhecimento, algum sinal de que ele sabia, realmente, que era ele ali, que ele estava de volta. Que ele iria ficar.
E então ele abaixou a cabeça e o mordeu.
A dor se alastrou do ombro direito em direção ao resto do corpo, como se irradiasse do ponto onde os dentes ainda estavam cravados no seu corpo. O menino gritou e o lobo jogou a cabeça para trás e uivou. O corpo de Harry arqueou contra o chão, seus ossos estalando como se estivessem se quebrando, todos, ao mesmo tempo, e a dor que irradiava da ferida agora era muito pior, como algo que queimava em suas veias, correndo por todo seu corpo, que se contorcia, se modificando.
E então, quando Fenrir se afastou e a luz da lua finalmente banhou o corpo quebrado do menino jogado no chão, um grito cortante subiu no meio da noite.
O grito de uma horcrux destruída.
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Transformation – do francês, transformação.
NA: Obrigada pelos comentários e está terminando *0*
