Capítulo 39 – Regarder

Harry acordou com a luz do sol batendo no seu rosto. Era um calor bom e confortável, especialmente quando ele sentiu o cheiro da mata vindo com a brisa fresca.

Ele se sentiu em casa.

- Eu posso dizer que eu estou feliz por ele não ter te matado.

- Eu posso dizer o mesmo quanto a você, Severus. – Harry respondeu sem nem mesmo abrir os olhos. Uma parte dele ainda temia acordar em algum buraco de pedra e descobrir que isso era um delírio provocado pela poção que o evitaria de enlouquecer como sua moitié.

Havia uma época em que ele temia seus pesadelos. Agora ele tinha sonhos bons e temia a realidade.

- Abra os olhos, Potter. Eu preciso te examinar. – a voz de Severus soou mais próxima, ríspida como sempre, e Harry se virou na cama em sua direção, para então abrir os olhos.

Ele estava na cama que costumava dividir com Fenrir, havia uma ferida quase cicatrizada no seu ombro, mas ele estava sozinho com Severus.

- Onde ele está?

- Batendo com a cabeça em alguma pedra, provavelmente.

- Severus.

- Eu não sei. Eu precisava te ver, saber o que aconteceu. Cheguei aqui no meio da manhã, ele estava me esperando, disse para eu cuidar de você e sumiu na mata.

- Ele parecia bem?

- Como você espera que eu avalie isso? Ele não parecia estar sangrando. Você, por outro lado...

- Já tive dias piores?

- Certamente. O metabolismo lobisomem te ajudou, minhas poções também. – ele fez uma pausa e o encarou sério – Eu não faço ideia de como você sobreviveu à destruição da horcrux. A carga de magia maligna que seu corpo recebeu é assustadora. Eu não sei como você está vivo, Potter. Não sei.

- Não é minha primeira vez, não é mesmo?

- Eu tenho uma teoria, pensando nisso, mas eu precisaria examinar Greyback e eu sei que isso nunca vai acontecer.

- Você acha que ele foi atingido?

- Eu acho que ele te protegeu. Acho que, de alguma forma, ele absorveu parte da magia, pelo vínculo ou fisicamente. Isso provavelmente ainda teria matado os dois, mas você é você e ele é um lobisomem centenário, então, ainda assim, não sei. Talvez o amor que você tanto duvida que é capaz de sentir tenha te salvado mais uma vez. Acho que essa é uma teoria que Dumbledore adotaria.

Harry permaneceu em silêncio quanto a isso.

- Tudo o que eu posso te dizer é para beber muita água e se alimentar bem nos próximos dias. Não tem mais nada que eu possa fazer. Eu diria para você tentar não se esforçar muito, mas, ao que parece, você vai se transformar em um lobisomem essa noite, então dou como caso perdido.

- Eu sou sua maior decepção, não sou?

- Claro que não, pelo contrário. Eu nunca acreditei que você sobreviveria ao primeiro ano em Hogwarts, e veja bem aonde você veio parar: lobisomem, consorte do alfa psicopata. Você é um sucesso.

- Eu não sei se prefiro você me xingando ou com esse senso de humor irônico.

- Acho que essa é minha versão de tempos mais felizes.

- Você está feliz?

- Eu estou feliz de você não estar morto. Nem louco. Agora converse com seu moitié que eu preciso sair do covil antes do por do sol e quero saber se você está seguro aqui.

- O que você vai fazer depois da lua? – Harry perguntou, incerto.

- Eu preciso confirmar com Fenrir, mas se você for manter o projeto da escola, eu e Narcisa decidimos voltar. Ela está falando com Draco e Lupin enquanto eu estava aqui, ela queria checar se ele está bem também. – Harry sorriu, confirmando com um gesto de cabeça - Eu vou pedir para o Louis encontrar Fenrir.

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Fenrir entrou no quarto em silêncio, Harry estava descansando de olhos fechados. Se sentia exausto, mas agitado demais para dormir. Ele inspirou fundo e, por alguns segundos, só se focou nos sentimentos que fluíam pelo vínculo. Havia vergonha, culpa, preocupação, felicidade, orgulho, desejo, medo. Havia outros, Fenrir estava exausto e agitado também, mas o mais preponderante era um grande alívio.

Harry abriu os olhos devagar e esticou a mão por sobre a cama, indicando para ele se aproximar. Fenrir se deitou ao seu lado e Harry acariciou seu rosto. Ainda havia algo de animalesco nele, como se a transformação não tivesse se desfeito por completo. Talvez ele só voltasse a ser completamente humano depois que a lua mudasse. Talvez ele não voltasse nunca.

- Eu sinto muito, ma moitié. – Fenrir começou e uma onda de culpa genuína fluiu pelo vínculo.

- Pelo que?

- Eu não pude te proteger. Eu permiti que Lincan te atacasse e ontem... – ele não terminou a frase. Harry não sabia se Fenrir havia entendido o que aconteceu na noite passada.

- Você ordenou que Lincan me atacasse?

- Não. – ele respondeu, assustado que Harry pudesse pensar que ele faria isso.

- Você colocou uma horcrux dentro de mim? – ele não respondeu, mas quando Harry permaneceu em silêncio aguardando, ele negou com um gesto de cabeça – Então o que aconteceu não é sua culpa e você não tem que lamentar ter ou não me protegido. Você não pode me proteger, Fenrir. Ninguém pode.

- Eu deveria.

- Não, ninguém pode. Você destruiu Voldemort e talvez até tenha feito mais por mim do que eu possa imaginar, e eu vou ser grato por isso, ainda que isso não signifique que eu te deva algo, porque eu não pedi por isso.

Harry parou e respirou, sentindo que ele estava perdendo o ponto. Seu moitié permanecia tenso, deitado ao seu lado na cama, mas sequer o tocava além dos dedos entrelaçados.

– Fenrir, coisas ruins acontecem comigo. Quando isso acontece, eu tento sobreviver. Até agora, tem funcionado, mas o tempo todo eu tive ajuda. O tempo todo. Se você quiser me ajudar, eu aceito, mas não pense que você vai conseguir evitar as coisas ruins de acontecerem, você não vai, e não é pela sua capacidade de me salvar ou não que eu quero estar com você.

- Eu sou seu moitié, eu deveria te manter seguro.

- Eu me sinto seguro. – Harry sorriu com o quanto aquilo era verdade – Eu acho que eu nunca me senti tão seguro como quando eu estou com você e isso é ridículo e às vezes eu acho que até um pouco perigoso. Porque é uma sensação de segurança, isso não quer dizer que eu esteja realmente a salvo. Mas isso é bom, Fenrir. Eu gosto de sentir isso e isso é parte do que me fez voltar.

As mãos grandes com unhas longas e fortes correram pelo seu rosto de forma quase delicada e Fenrir suspirou, aquele misto de angústia e alívio o inundando pelo vínculo.

- Você é meu moitié e eu te aceitei como meu companheiro, Fenrir. Eu não espero que você me mantenha a salvo. Sabe o que eu espero? Que você respeite meus desejos e minhas escolhas. E você é péssimo nisso.

Fenrir o encarou, sério, e um som como um rosnado contido fez seu peito vibrar contra a mão do menino. Harry não desviou o olhar. Conforme os segundos de silêncio passavam, a raiva que Harry emanava pelo vínculo se tornou mágoa e tristeza, e a vergonha de Fenrir se diluiu em insegurança.

- Eu sinto muito. – ele falou, baixo, e Harry sabia que isso era uma vitória, então aceitou – Eu me sinto grato que você tenha voltado, ma moitié.

- Eu não estou aqui para fazer suas vontades ou te obedecer cegamente, Fenrir. Eu não sou um dos seus seguidores ou algo que te pertence. Eu voltei porque eu quero viver com você. Você entende isso? – Fenrir somente o observou e Harry sentia que precisava continuar falando, se tudo o que sentia não ficasse claro naquele momento, ele ia continuar vivendo com incertezas – Eu te admiro, Fenrir. Pelo líder que você é, pela sua força, pelo seu poder. E eu não quero ter medo de você.

- Você não tem que me temer, ma moitié.

- Então me deixa confiar em você. É isso. Eu quero confiar em você. É disso que eu preciso, é isso que eu quero. Eu quero poder confiar em você sobre tudo, Fenrir, todos os dias. E quero poder confiar que você confia em mim também. Para sobreviver. Para estar ao seu lado, te apoiando, para ser uma pessoa completa com você, te equilibrar e te ajudar a ser mais feliz, enquanto eu busco um pouco de felicidade também. Ser mais do que uma moitié, afinal.

Os braços de Fenrir o envolveram, puxando seu corpo para perto, e ele apoiou a testa contra a sua, os olhos fechados, somente respirando por um momento, antes de beijá-lo de forma suave e breve.

- Você é tão mais do que eu jamais ousei sonhar. Você é tão precioso para mim. Quando você chegou, tudo o que eu queria era a sua fidelidade, ser meu. – ele abriu os olhos, o azul tocando o verde - Eu nunca pensei que você um dia iria realmente querer isso. Ser um comigo.

Ele respirou fundo e se afastou um pouco para beijar as mãos do menino.

– Harry – seu nome parecia estranho nos lábios do lobo, como se fosse a primeira vez que ele realmente o ouvia, e o menino podia sentir fluindo pelo vínculo respeito e a confiança que ele pedira – Eu sou seu, por inteiro, e é uma honra seguir ao seu lado.

- Eu posso tentar salvar você também. – e os dois sorriram tristes, compartilhando o sentimento de estarem juntos, finalmente.

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Regarder – do francês, olhar.

NA: O próximo capítulo vai ser muito curto e eu tinha intensão de postar os dois juntos hoje. Mas algumas coisas ruins aconteceram e eu estou triste e eu realmente quero poder me sentir bem com o fim dessa fic quando ela acabar, e isso não vai acontecer hoje.

Então, um pouco mais de paciência, mas estamos terminando.

Espero que tenham gostado da resolução das coisas.

Beijos