Após três longos anos ela havia voltado. Katara havia dito que voltaria quando seu estado emocional voltasse a se restabelecer. Disse-lhe que havia parado devido à sua depressão e a sua alimentação. Ou falta dela.

Visto isso, ela deveria se sentir feliz, mas aquela maldita dor e sensação de que o mundo estava girando em looping infinito à alpha centauri não permitia.

— Eu. Quero. Morrer. — sibilou Korra, talvez pela milésima vez essa manhã,se jogando contra os travesseiros.

— Não seja ingrata. — disse sua mãe puxando o travesseiro de seu rosto e a fazendo se sentar para tomar o terceiro chá do dia.

— Ingrata, porque não é a senhora que está tendo uma oferta combo de um parto com virose hemorrágica.

— É um bom sinal Korra. Esse sangue é sobre vida.

— Exceto que vida é tudo que isso nunca será.

Korra sabia que na Tribo da Água as mulheres atribuíam um significado quase místico à esse período. Era o sangue de onde vinha a vida, afinal. Mas além do fato dela não se importar muito com esse misticismo, ela tinha certeza que uma vida era tudo que ela jamais geraria. Katara certa vez lhe disse que não tinha total dimensão dos danos que o veneno causaria, e não precisava ser uma aprendiz dela pra imaginar que esterilidade poderia ser um deles.

— Querida, em todo caso, isso significa que você está ficando bem, após todo esse tempo. Ele não é um sangue de vida apenas por vir de onde ela é gerada, mas também pó ser o único sangue que não advém de um trauma, fruto de um processo natural do seu corpo. E após sangrar tanto nessas ingratas batalhas que traçou nos últimos anos, fique feliz por um sinal dos vitória.

Ela olhou para a mãe com carinho, talvez pudesse processar tudo e abraçá-la, se não fosse o ímpeto de se desfazer de qualquer coisa que tivesse ingerido.

Sua mãe se apresso em ampará-la com uma bacia.

Quando não tinha mais nada para se livrar, sua mãe pegou o recipiente e acenou para uma presença que não notara.

— Olá, Mako.— cumprimentou, sua mãe.

Korra se virou e o cumprimentando com um sorriso, enquanto Senna lançava um olhar de despedida para ambos e se dirigia a porta.

— Olá, eu estava esperando você no pier e como não apareceu eu...— começou Mako, sem jeito, assim que Senna se retirou.

— Tudo bem, eu lembro que havia combinado de ir com você — interrompeu. Ele acenou concordando, e a observou por alguns segundos. Ela usava como pijama uma regata branca e short flanela, seu cabelo estava preso em uma tentativa não muito bem sucedida de rabo-de-cavalo, onde a maioria dos fios curtos pendiam sobre seu pescoço, e sua expressão era cansada.

— Korra, tudo bem? Encontrei com Jinora e ela mandou eu trazer isso, — indagou a observando preocupadamente e a entregando a xícara de chá.

Havia a esperado pelas últimas duas horas por ela. Nesse tempo, reorganizou os grupos de buscas em sete postos estratégicos da cidade e estava prestes embarcar as oito com uma equipe para Omashu. Não se irritara com o atraso, Korra odiava manhãs e ele desconfiava que ela se quer soubesse o significado de cedo.Talvez tivesse riscado do dicionário, ou acrescendo algo como duas horas mais tarde.

— É... É só uma...Indisposição.— disse embaraçadamente pegando umas almofadas e se dirigindo a uma poltrona.— Mas acho que não posso ir agora.

Imaginava o escândalo que sua mãe faria se quer pensasse em sair assim e que não seria nada agradável vomitar em meio a uma missão. Ele continuou a fita-la com ar de preocupação e ela nem pensava em entrar no mérito do motivo de sua indisposição.- Em todo caso você entrou com cara de quem estava louco pra me contar algo, fala, descobriu algo?

— Bem... Não sobre o Wu. Estava olhando o Diário Oficial e...

— Espíritos! Que tipo de pessoa lê o Diário Oficial?— interrompeu Korra, debochada e não contendo o riso.

— O tipo de pessoa que odeia seu emprego?— respondeu ele em um tom displicente. Acostumara-se a olhar todos os dias o Diário Oficial esperando que ser guarda costas do Wu fosse apenas um pesadelo horrível. Jurara que olharia até sua nomeação como detetive aparecesse lá novamente.

— Vai aparecer logo, officer — disse, jogando-lhe uma de suas almofadas.

— E também,— continuou agarrando a almofada e sentando-se em sua cama — Acaba sendo mais legal que ler certas colunas no jornal normal, com especulações sobre um tal romance entre a Avatar e a herdeira Sato.

— O quê? — perguntou não contendo a gargalhada. — A Asami é linda e tal, mas... Eu já tenho uma esposa.

— Não, você não fez isso — implorou jogando de volta a almofada e gesticulando exasperadamente. — Nunca mais faça piadas com suas vidas passada, é... Creepy e... Apenas não faça.

— Sim, o que você tem pra mostrar?

— Veja quem foi nomeada Conselheira Oficial da República Unida.

— Não brinca! — exclamou Korra se apressando para tomar o jornal de sua mão — Sou eu. Eu Mako? E eu tenho um salário. O mais perto que já cheguei de um salário foi receber alguns trocados lutando na Terra.

— Espera, você trabalhou de lutadora? — indagou Mako com um misto de surpresa e preocupação.

— Longa história. —cortou displicente, voltando sua atenção inteiramente para o fato de ter um salário — Espíritos, eu nunca tive um salário na vida. O que é que se faz?- Perguntou, com um misto de sinceridade e jocosidade. Era muito dinheiro e ela definitivamente não estava acostumada a isso. A ideia de trabalhar e receber um salário parecia muito abstrata. Sempre tivera pessoas cuidando dela e mesmo no tempo que passou sozinha, contava com alguns suprimentos que seus pais lhe deram para a viagem e com algum dinheiro que gastou para se manter por um tempo. Também nunca recebeu nada quando jogava nos furões de Fogo, até porque após o campeonato teve todo o tumulto com Amon e Hiroshi.

— Pessoas costumam comprar coisas. Sobreviver. E a senhorita vai me explicar direito essa história de lutar na terra.

— Prometo contar depois, ok?— Ela sabia que tinham muito a falar sobre esses três anos.- Agora eu nem sei se é certo receber por isso.- Ponderou, não podia negar que sempre usufruíra de certos privilégios por ser a avatar, fora praticamente criada pela White lótus por isso. Mas a ideia de receber uma espécie de salário por isso parecia especialmente errada. -Como os outros avatares viviam? Digo, aposto que antigamente não havia vagas em Conselhos da República Unida, ou White lótus para cuidar de avatares... Ou mesmo pais. Como Aang construiu esse castelo, afinal?

Provavelmente não teve pais em todas suas encarnações, o que fazia da questão levantada subitamente séria e importante.

Nunca havia parado pra pensar no que fazia nas vidas passadas, sempre prestara atenção nas aventuras e partes emocionantes das histórias dos avatares, coisas corriqueiras como essa se quer eram filtradas por suas mente, mas apostava que devia ter sido ensinado a ela em aulas de história.

— Sinto informar, Avatar Korra, mas eu acho que você roubava.

Ela riu com gosto. Além de tudo era estranhamente engraçado ver Mako a chamando de Avatar Korra e falando como se ela e os outros avatares fossem a mesma pessoa.

—Quem diria hein, esse castelo todo com dinheiro negro — ironizou, percorrendo o olhar pela sua volta. A ideia de que havia levantado aquelas paredes na sua vida passada lhe ocorreu pela primeira vez. Toda a história de reencarnação não havia sido absorvida completamente por sua mente mesmo após 21 anos. Nunca conseguira pensar nos demais avatares e ela mesma como a mesma pessoa. Apesar de saber que eram, tecnicamente. Olhando em volta, estava certa que não poderia ser a mesma pessoa que construíra um castelo daqueles. Até porque, sempre simpatizara mais com as pequenas ocas do sul. Definitivamente, não era essa pessoa. Não era nem a mesa pessoa que era há quatro anos atrás.

Ainda sentia seu corpo se enfraquecer mediante ao embrulho no seu estômago e a sensação que ele não parava de girar, acompanhado de uma dor latente abaixo do abdômen fazendo-a apertar fortemente almofadas contra si, afim de desviar a atenção da dor, quando Mako a encarou preocupado mais uma vez.

— Korra, o que aconteceu? Você está bem?

Teria enrolado pra responder se não tivesse lhe ocorrido que talvez Mako ainda estivesse lá ao invés de se apressando para sua missão porque queria saber se ela realmente estava bem. Provavelmente não havia passado coisas agradáveis em sua mente já que estivera envenenada por três anos.

— É só que.. Bem...— introduziu hesitante e embaraçada — Depois de eu ser envenenada, minha menstruação parou e agora, bem... Voltou.

— Por três anos?— perguntou Mako, sinceramente preocupado. Sua orelhas queimaram ao entrar no tema, mas tinha certeza que aquilo não era um bom sinal.

— É, mas a Katara falou que não era por causa do veneno, nem por alguma doença, era... Eu. Mas agora tá tudo ok — finalizou esperando que ele logo desfizesse aquela expressão preocupada.

Ele a fitou pensando em tudo que ela havia passado.. Ela estava magra. O corpo que outrora fora atlético havia substituído por uma versão quase sem músculos e até com ossos da clavícula mais evidentes. Lembrava-se bem de seu estado emocional quando deixou Republic City, sua depressão. Ela quase não comia...

—Venha— pediu pegando suas duas mãos esperando que ela se levantasse

— Ah, Mako, não, me deixa aqui. E já ta na hora de você ir. — protestou fazendo muxoxo.

— Não.— insistiu puxando-s pelas mãos novamente até que ela cedeu. Em seguida a encaminhou até a cama para que se sentasse.

— Fecha os olhos— pediu, estendendo suas mãos.

— O que você ta fazendo?— perguntou, obedecendo ao pedido.

— Bem, eu não sou um aprendiz da Katara mas... Bem, só não abra os olhos nem se assuste ok?

Korra assentiu.

Ela sentiu um leve aquecimento na ponta dos seus dedos e em seguida ciclos de energia sendo circunscritos na palma de sua mão. Podia reconhecer o caminho que era circunscrito, ele estava estabilizando seus pólos de energia vital através daqueles desenhos. Seus chakras. Nunca havia visto algo assim ser feito com fogo. Podia sentir seu corpo relaxar enquanto a dor e sensação de mal estar se dissipava.

Abriu os olhos algum tempo depois, após essa longa sensação de relaxamento se apoderar de seu corpo e o observou por um longo período. Se perguntou como ele conseguia ser tão habilidoso. Havia feito uma pequena chama, menor que uma faísca e inteiramente azul. Não sabia se surpreendia mais por ele conseguir realizar uma combustão completa em uma chama tão pequena, por saber fazer mandalas curativas ou pela habilidade de não queimá-la mesmo com aquela proximidade. Seu toque era tão delicado e sua expressão era de extrema concentração.

— A dica é fechar os olhos, Korra.— contou com o cenho franzido, sem tirar os olhos de suas mão.

— O que foi isso? — perguntou curiosa.

— Mandalas espirituais.

Korra acenou, podia entender como aqueles ciclos atuavam em seu corpo etérico, estabilizando seus meridianos.

— Como aprendeu isso?

— Minha mãe. Ela fazia isso quando eu e o Bolin ficávamos doentes. Não me pergunte como ela aprendeu.

— Não tem nem palpites?

— Bem, ela era apaixonada por alquimia e algumas ciências esotéricas e espirituais antigas.

—Sério? Acho que não dá pra imaginar muitos firebendings ligados à isso.— Em geral, ela sempre acreditara que espiritualidade era mais para pessoas do ar, talvez como desculpa por seu próprio não talento para isso.

— Ela era meio louca, sabe. Mas também divertida e expansiva. Uma vez, ela quis testar choques elétricos no pai, jurava que as correntes elétricas dos raios poderiam manipular sua energia vital, revertendo anomalias nos centros de energia.

— E ele?

— Dividiu a casa em dois lados por uma semana.— disse, rindo.

— Parece ter muito boas lembranças. — Korra constatou após observar o modo que ele falava da mãe, como se tivesse sido transportado subitamente para outra época.

— Sim, todos os dias havia uma invencionice. Mas fecha os olhos.

Ela fechou e foi tomada por uma sensação melhor e mais apaziguadora que da primeira vez. Uma de suas mãos distraidamente se apoiou na cama. Então aconteceu.

Ela pôde ver exatamente onde Wu estava.