Se sentia extremamente estúpida.
Levara quatro dias para executar o plano. Kuvira planejava atacar a cidade levando Wu como refém real para facilitar a negociação. Eles pretendiam atacar a frota que marchava rumo a cidade antes de chegarem a Haru's Village, entretanto, o primeiro passo do plano não se tratava de uma ataque direto; consistia em por primeiramente o príncipe em segurança, mediante uma invasão secreta. Foram bem sucedidos em imobilizar os guardas que mantinham Wu cativo, e o resgataram. Estavam prestes a sair do lugar e sinalizar para que a outra parte do plano fosse executada quando Korra percebeu que não podia ignorar a energia espiritual que exalava de um dos convés do navio. Seria a arma secreta de Kuvira? E se pudesse destruí-la antes mesmo de ela poder usar e acabar com tudo aquilo? Esses pensamentos soavam em sua cabeça como ordens de comando , enquanto ela espreitava os corredores, esperando o momento certo dela e seus amigos pularem da embarcação rumo ao submarino que os aguardava.
–Levem o príncipe em segurança. – Pediu incisiva, olhando seriamente para Asami e Mako.
–Korra, o que você vai fazer?- Perguntou Mako.
– Só leve-o daqui. Agora. –Ordenou, correndo em direção ao corredores. Alguns guardas detectaram os fugitivos, e se preparavam para o contra-ataque, quando os três se jogaram no mar.
Foi uma atitude estúpida.
Agora podia ver. Kuvira havia instalado um sistema de segurança na saleta anterior a do objeto que emanava aquela energia espiritual tão forte, e agora estava presa em um convés de platina, atada com três barras do material. O sistema havia se ativado assim que pisou no centro do cômodo, a jogando contra a parede, prendendo-a com aquelas barras e bloqueando seu chi com um choque, que veio no momento do impacto na parede. Odiava não poder dobrar, sentia-se incapaz. O efeito paralisante não havia passado quando ouviu duas vozes.
–Olha quem temos aqui- Zombou a primeira a primeira voz dando um sorriso de satisfação
–A avatar.- Afirmou a segunda voz, como se estivesse tentando dizer a si mesmo que aquilo estava acontecendo.
Ela observou os dois homens se aproximarem cautelosamente. Havia certo receio em seus olhares, certamente não achavam a coisa mais segura do mundo se aproximar da avatar. Mas havia também curiosidade, e outra coisa que ela demorou para entender.
–Ela vai nos render muito.- Lembrou um, encarando-a. O homem tinha um cheiro forte de álcool, seu hálito não negava o consumo.
– Kuvira nos dará tudo quando souber. – Disse outro, mal podendo esperar para contatar a chefe.
–Ela não precisa saber agora. – A figura com hálito de álcool propôs, fitando-a novamente e elevando a mão até seu pescoço. Os dedos frios deslizaram da sua clavícula até a base do seu maxilar, fazendo-a sentir um arrepio percorrer sua espinha.
A percepção do que se passava na cabeça daqueles homens caiu sobre si fazendo-a congelar.
–É, a princesinha dos quatro elementos não é nada mal...- Respondeu o outro, aproximando-se mais.
– Ela é tão linda... - Disse o que a segurava, deslocando os dedos para sua nuca e forçando seu rosto contra o seu. Estava há centímetros de distância, e ela pôde observar seu olhar percorrer cada centímetro de sua face.
Ela buscou se concentrar no mar lá fora. Era seu elemento natural. Eles cometeram o deslize de deixar a porta aberta. Se Ming podia dobrar sem os braços, ela também podia. Não tinha certeza se o efeito do bloqueio de chi havia passado, mas quando aquela figura procurou romper a pequena diferença de distância que havia entre seus rostos, pôde sentir uma rajada de água invadir o compartimento como uma bala, derrubando-os e quebrando uma boa fração do navio.
Aparentemente foi o momento que Mako e Asami julgaram ideal para tomar de assalto. O submarino emergiu, Asami correu para ela, destravando o sistema de segurança que possuía a caixa de comando no centro do convés, enquanto Mako disparava raios contra os guardas que já estavam levantando.
–Você não vai levar nossa belezinha. – Respondeu o que a segurara anteriormente, contra-atacando com um lança de metal, conjurada na hora.
O firebender sentiu o sangue queimar em suas veias quando entendeu o que aquele homem havia planejado. Antes que o guarda pudesse impregnar o devido impulso para lançar, ele respondeu a tentativa o eletrocutando através do objeto de sua própria dobra.
– Você está bem?- Perguntou a amiga, após digitar uma série códigos que fizeram as barras de platina ceder.
–Sim, vamos embora. –Disse Korra, envergonhada. Sabia que aquilo tudo era culpa de sua imprudência, e agora os amigos estavam se arriscando por ela. A missão toda foi arruinada pro sua culpa.
Outros guardas perceberam o tumulto, atacando-os. Uma das equipes se encarregou de inutilizar o submarino com dobras de metal, os três se jogaram no mar. Korra utilizou dobra de ar para submergi-los durante a fuga, fazendo a frota inimiga perdê-los de vista.
Já estava se cansando, quando foram pegos por uma rede e lançados contra o assoalho de um navio da República Unida.
–Lin sempre delicada – Ouviu Asami zombar, enquanto buscava se livrar da rede.
Korra não se importava com os modos poucos ortodoxos da chefe. Ela devia estar furiosa, e com razão. Quando se desfez do emaranhado que a prendia, dirigiu-se a uma das grade de proteção do navio e se apoiou lá, ainda desnorteada.
–O que deu em você? – Irrompeu Mako à sua frente, exasperado.
–Eu lamento, eu não quis estragar as coisas. – Desculpou-se, constrangida.
–Nós somos uma equipe, Korra. Você não pode continuar achando que tem que lidar com tudo sozinha.- Falou segurando seus braços e deslizando nervosamente as mãos sobre as marcas que a barra de platina havia deixado – E não é a operação. – Prosseguiu, inspecionando as marcas com o olhar. - Tem ideia do que poderia ter acontecido? Ou do que aqueles homens pretendiam fazer com você?- Indagou a fitando seriamente.
– Eu estou bem, e eu só lamento, ok? – Disse, esquivando-se do seu toque com um nervoso balançar de ombros. Não tinha cara para olhá-lo depois do que aconteceu.
–Você sabe onde estamos? – Perguntou olhando para a proa. Algo parecia familiar.
–Não reconhece mais o Trovoada?- Perguntou uma voz grave que ela conhecia bem.
–Iroh!- Exclamou Korra correndo em sua direção e dando-lhe um efusivo abraço. Ela havia organizado o ataque com Lin e sub-representantes da marinha. O General encontrava-se montando guarda ao Oeste da península quando partiram, três dias atrás. – Não sabia que estaria aqui.
– Eu não poderia perder. – Disse o General, que se esforçara para chegar com suas tropas em tempo hábil assim que soube da invasão que Kuvira pretendia fazer, chacoalhando o cabelo da jovem carinhosamente.
–Olá, Mako. – Iroh disse acenando para ele quando Korra desfez o abraço, mantendo, no entanto, um de seus braços entrelaçados no corpo do outro.
–Olá... - Cumprimentou de volta, aproximando-se dos dois e forçando um sorriso.- Eu não lembro de vocês serem tão... Próximos?- Comentou, querendo soar meramente curioso.
– E não éramos. – Disse Korra rindo e olhando para o marinheiro real, ainda sem desgrudar do pescoço dele. – O sul enfrentou um problemão com ataques piratas a algumas ilhas e pediu reforços a República Unida.
–É, e a sede da White Lótus foi por meses uma boa base de apoio. – Disse o General dando uma olhadela para a avatar. – A Korra gostava de ouvir sobre o conflito, e sempre tinha contribuições brilhantes a fazer.
Na época que o Sul pediu cooperação internacional, Korra havia acabado de recuperar os movimentos das pernas. Havia certa onda de otimismo crescendo em si após eras. Foi animador ter a tropas por perto, ao menos ocasionalmente, quando estas aportavam após semanas por lá. Ela podia passar horas ouvindo Iroh contar sobre as batalhas, saques e zonas perigosas da área. Ficava feliz em se inteirar das operações, táticas e mesmo em poder palpitar à respeito das estratégias.
Korra corou com o elogio, e ambos começaram a relembrar alguns acontecimentos.
Mako sentiu crescer uma desagradável ideia sobre isso. Eles pareciam tão... Íntimos. Ela irritantemente permanecia grudada a ele. E ela havia corado. Eles haviam passado tanto tempo juntos, se tornaram amigos... Quem sabe mais o quê. Ainda por cima ele se sentia por fora da conversa, e não hesitou em sair com a primeira desculpa que veio em mente.
...
– Então você está aí. – Disse Korra da escadaria da adega após passar os últimos minutos procurando Mako.
O rapaz deferia socos contra um saco de pancadas improvisado no centro do compartimento.
Ótimo lugar para atacar de pugilista. Riu Korra, imaginando o porquê marujos bêbados resolverem colocar aquilo logo ali.
–Vai dizer por que você sumiu? – Perguntou ao perceber que ele a ignoraria.
–Achei que estava ocupada demais pra notar.- Respondeu, não tirando olhar do alvo.
– Não, isso não ciúmes, certo?
– Por que você é sempre tão presunçosa? - Indagou encarando-a.
– Tá na sua cara.- Respondeu ela rindo do rosto emburrado do firebender. – E espíritos, é o Iroh, ok? Não temos nada. – Concluiu lançando os braços em volta do pescoço do namorado.
–Você está tentando usar seu charme para me distrair?- Perguntou, não conseguindo se manter bravo com ela.- Porque está dando certo. – Concluiu fechando a distância entre eles.
Seus lábios se tocaram, e seu estômago pareceu levar uma facada. Foi fácil o beijo se intensificar rapidamente. Suas mãos deslizaram por suas costas trazendo-a para mais perto de si. Suas peles quentes colidiam querendo todo o calor um do outro. Ele a queria. A desejava urgentemente. Não interrompeu o beijo, quando seus braços a levantaram levando-a ao balcão da adega, sentando-a de frente para si. Queria que ela fosse sua. Urgentemente e completamente.
–Eu amo você. – Disse encarando-a por um breve momento, antes de começar a deferir beijos no seu pescoço e leves mordidas na clavícula, oscilando o percurso até a parte livre do seu colo. O detetive sentiu-se particularmente grato por ela ter trocado a usual regata azul por uma camiseta básica que dava aquele acesso. Ela sentia seu corpo queimar, era como se correntes elétricas percorressem cada um dos pontos em que ele tocava, entorpecendo-a.
Suas mãos direcionaram-se a seus seios, fazendo-os enrijecer com o contato. Korra abafou o som que saiu de sua boca provocado pela a sensação que a pressão daquelas mãos quentes sobre seus seios exerciam sobre ela. Ele gostava do fato daquele par se encaixar perfeitamente em suas mãos, como se tivessem sido feitos unicamente para ele. Seus dedos percorreram um caminho até a fina alça de sua blusa, enquanto seus lábios se voltaram novamente para a curva do seu pescoço. Ele podia inalar a fragrância de sua pele e cabelos, e senti-la tomar conta de seus sentidos. A queria tanto.
Ela foi tomada por alguns pensamentos que a inquietaram. Queria mesmo que as coisas passassem daquilo? Estava pronta para ir mais longe? Essas incertezas trouxeram uma onda de nervosismo. Antes que os dedos de Mako pudessem deslizar aquela alça, ela se pegou afastando-os. Ele parou imediatamente e a encarou.
– Fiz algo...- Ia perguntando, realmente preocupado, quando foi interrompido. Obviamente ela poderia apenas não querer aquilo, e para isso ela não lhe devia explicações, mas poderia também ser algo que ele fez. Não queria tê-la machucado, ou feito nada que a fizesse se sentir desconfortável, ou desrespeitada.
–Não, só... - Hesitou, desviando o olhar e apoiando as mãos no balcão.
–Korra, você sabe que pode me falar qualquer coisa. - Falou, segurando sua face e fazendo com que o seu olhar voltasse para o seu.
–Só não acho que estou pronta. - Admitiu embaraçada. Sabia que devia estar parecendo excessivamente estúpida a essa altura. Primeiro o fracasso com o plano e agora isso.
–Espere, você nunca... -Começou Mako hesitante. Ela havia dito que saiu com rapazes do reino da terra, e foram três anos fora. Não esperava por isso.
–Não... Nunca. - Interrompeu nervosamente - E eu sei o que falei aquele dia, mas eu só... Estava com raiva.
Admitiu de vez. A verdade era que não se encontrara com ninguém desde que terminaram. Tudo que aconteceu deixou sua vida tão tumultuada que encontros era tudo que menos pensava. E talvez, se tivesse pensado nisso realmente alguma vez durante aquele período, descobriria que não conseguiria sair com mais alguém justamente porque seu coração já tinha escolhido alguém.
Ele sabia como a Korra era quando estava com raiva, o quanto podia ser impulsiva e falar sem pensar. Fora longe só para provocá-lo. Mas ele não conseguia se sentir magoado com a mentira.
Ele a olhou como se estivesse vendo-a mais uma vez. Ela sabia que parecia patética. Aquilo devia ser esquecido, então o puxou para mais um beijo. Era tempo de fazer aquilo. Ela era a avatar. Não deveria ter medo. Queria que ele soubesse que ela iria até o fim, não iria hesitar.
–Korra. - Chamou Mako, a afastando.
–O que é?- Perguntou, puxando-o para outro beijo.
–Por favor - Interrompeu o beijo mais uma vez, esquivando-se. - Eu não quero que faça isso porque acha que deve fazer. - Disse, olhando-a após o breve segundo que levou para recuperar o controle.
Pôde ver no seu olhar o que já sentiu em seu beijo: Havia determinação, como se ela tivesse estabelecido que tinha que acontecer. Não desejo, vontade, só um certo desespero.
Ela abaixou o olhar preparando-se pra sair. Ele aproximou-se dela, e seus olhares encontraram-se novamente, até ele envolvê-la em um abraço.
–No seu tempo, ok?- Sussurrou, após inalar a fragrância emanada por seus cabelos e deferir um beijo em sua testa.
Ela assentiu.
–Agora acho que está um pouco tarde para todos nós.
–Sim. - Concordou ela. - É melhor eu ir.
Ele a acompanhou até seus aposentos e quase perdeu a noção do tempo mais uma vez com o beijo de despedida.
Os dias a seguir seriam difíceis, ambos sabiam. Mas naquela noite, eles souberam como era ter a mais completa paz em meio a uma guerra.
