— Sei que está ocupada com a mudança, mas... As coisas estão um pouco estranhas esses dias... Mal nos vemos e você não tem atendido as ligações... Eu não sei o que aconteceu... Se você atendesse... — Dizia a voz hesitante de Mako na secretária eletrônica enquanto ela ouvia sentada no chão segurando uma pedra verde circunscrita por um brilho cintilante. — Espero ver você na festa de reinauguração do parque. Enfim, só... É isso. Eu amo você.
Ela não sabia dizer quanto tempo passou ali, repetindo aquela gravação no telefone. Metade das caixas de sua mudança ainda estavam empilhadas, tomando o já pequeno espaço que o cômodo do seu loft possuía. Mas ela não conseguia pensar em ter vontade de desmontar mais nada, só ficar ali, ouvindo a voz dele, enquanto fitava uma carta escrita por Wu.
Recebera há alguns dias o convite de peregrinar por alguns estados da Terra em uma missão diplomática, afim de consolidar o processo de independência dos estados e atenuar alguns conflitos mais eminentes. Ficava feliz em poder ajudar, mas tudo aquilo a fazia pensar mais sobre como seria o futuro dela e de Mako.
Ela não temia suas diferenças, tão pouco a assustadora semelhança que possuíam.
Ambos eram tão impulsivos e obstinados.
Fogo em sua forma mais pura.
Eram calor e vida
Duas chamas que se fortaleciam juntos.
Duas chamas que partilhavam a mesma energia.
Mas ela era a avatar. Nada seria fácil. Não era apenas a coisa sobre ter filhos que a assustava. Mesmo se tivesse, poderia dar um lar seguro e normal a crianças? Os filhos do Aang até hoje falavam do quando os deveres do pai o distanciaram deles.
E Mako? Seria certo submetê-lo a uma vida onde ela nem sempre poderia estar? Sabia que seu trabalho como avatar só estava começando. Mais problemas viriam em breve, e sabia que poderia contar com Mako. Ele a seguiria em cada batalha, afinal. Mas ele tinha sua própria vida também. As missões diplomáticas como aquela exigiriam sempre mais dela. E nunca possuiriam tempo determinado.
Desde quando eles começaram a namorar anos atrás suas obrigações se mostraram um desafio para o relacionamento.
Seu olhar se voltou para a esfera que possuía em uma de suas mãos. Ela possuía aquele brilho esverdeado que sempre a impressionara.
Costumava mexer escondida nas coisas de Katara só para poder vê-la. Amava a história por trás da pedra. Avatar Aang dera a sua mestra quando a pediu em casamento. Era uma pedra originária da caverna dos dois amantes, lugar onde partilharam seu primeiro beijo. Korra não sabia citar algum detalhe na história que não tenha amado. Ia da lenda dos amantes desafortunados à história de Katara com Aang.
Certa vez fora flagrada pela mestra vasculhando suas coisas para olhar a pedra, e pediu para que ela contasse a história mais uma vez. Após contar, a curandeira a olhou carinhosamente o modo que ela olhava a pedra e fez algo que ela nunca esperaria.
— Um dia — disse colocando as mãos sobre as suas, cobrindo totalmente a pedra, e apertando-as com firmeza. — essa pedra brilhará de novo. E aí você saberá. — prosseguiu, olhando-a com doçura, enquanto umas de suas mãos acariciavam sua face.
A pequena Korra observou-a em silêncio, sabendo que partilhavam um momento só delas, mesmo sem saber exatamente o que aquilo significava.
Quando Katara retirou as mãos da pedra, ela não mais brilhava.
— É sua. — afirmou a dobradora de água.
A menina fez menção de recusar, mas algo em si dizia que era verdade. Suas mãos apertaram firmemente a pedra.
A partir daquele momento ela era sua.
— Essa pedra nunca deixou de brilhar desde que conheci você. — disse uma figura à sua frente, inclinando-se para olhar o objeto.
Asami lembrava-se de sempre ter visto aquela pedra no quarto de Korra. As vezes, durante os tempos mais sombrios que Korra passara, ela fitava aquela pedra admirada. Ela nunca deixou de brilhar.
Korra cumprimentou a amiga com um sorriso, sem estranhar o fato dela ter conseguido entrar repentinamente. Havia dado a chave para ela enquanto ela a ajudava na mudança.
— Eu não quero falar sobre isso. — admitiu com um suspiro, guardando a pedra no bolso.
— Ótimo, porque nem eu. — respondeu a garota com um sorriso. — Agora venha, eu não vou deixar você aqui com essa cara de domingo de manhã enquanto tem uma festa para acontecer daqui a algumas horas. — ordenou Asami, puxando suas mãos para que se levantasse.
A outra obedeceu.
Não estava animada para a festa que Raiko organizara, ela podia ter como desculpa a inauguração do parque como marco simbólico do restabelecimento da cidade, mas na prática era o tipo de festa que existia só para ter uma festa. Mas ver Asami tão animada, e a perspectiva de poder ajeitar as coisas com Mako aquela noite, a animou também. Elas passaram o resto da tarde se preparando para a festa. Havia vestidos, sapatos e penteados a escolher, unhas a pintar e até maquiagem a preparar.
Se fosse outra época, Korra nem pensaria em passar tanto tempo preparando para uma festa. Pouco antes de se arrumarem oficialmente, elas cozinharam. Korra riu com a pouca habilidade de Asami para cozinhar, e da própria dispensa, que continha, como qualquer casa de solteiro bem preparado para lidar com a vida, uma série de enlatados e macarrão.
...
Luzes azuladas iluminavam a pista de dança enquanto ela tentava seguir o encalço de Asami. Tentava disfarçar o fato de ter passado a festa em busca de um par de olhos âmbar. Ela tentou se distrair ali, mas se mantinha ansiosa, buscando visualizar qualquer sinal dele.
— Hoje consigo coragem. — falou Asami fitando Iroh de longe enquanto dançava.
— Vai dar certo. — falou Korra, sabendo dos planos dela. — Seria absolutamente ilógico se não desse. — afirmou com sinceridade. Iroh e Asami eram incríveis de qualquer perspectiva e tinha muito em comum. Não havia razão lógica para que não se dessem uma chance.
A mulher de olhos verdes assentiu, lançando-lhe uma olhadela que ela não entendeu de primeira.
— Vou pegar uma bebida — anunciou de repente, sumindo em meio a multidão enquanto Korra protestava, até sentir um toque delicado em sua mão fazendo-a se virar nervosamente. Assim que o fez, seus olhos contemplaram a visão que passara a noite buscando. Seus olhares se sustentavam enquanto o refrão de uma música suave começava a tocar.
Have I found you?
Flightless bird, brown hair bleeding
Or lost you?
Ele a contemplou em seu vestido longo de cetim azul de modelo sóbrio, mas de caimento suntuoso em seu corpo. Seus cabelos estavam presos em um elegante coque marcado por um diadema azulado. Sua pele corou em um sorriso enquanto o encarava.
Quando ela pode se abster da visão daquelas duas esferas âmbar, ela apressou-se em jogar seus braços em torno dele, apertando o mais firme que podia, enquanto sua face encaixava-se na curva de seu pescoço. Havia sentido tanta saudade.
Ele não hesitou em envolvê-la em seus braços de volta, e nenhum dos dois sabia dizer quando começaram a se mover no ritmo da música. Nada precisava ser dito. Tudo que queriam era aquele momento. Seus corpos se balançavam no ritmo doce da canção, e quando seus olhares voltaram a se encontrar, renderam-se ao magnetismo que durou até depois da musica acabar.
Quando a música foi se silenciando, a agitação na pista mostrou que era hora de se retirarem, mas nenhum dos dois fez menção de desfazer o contato.
— Korra — chamou uma voz grave que conhecia bem, fazendo-a libertar Mako daquele abraço e virar-se para olhar. — Raiko espera que discurse sobre sua viagem ao Reino da Terra.
— Qual viagem? — perguntou Mako.
— Wu me chamou para uma missão diplomática em alguns estados. — apressou-se em dizer. Mako apenas acenou — E Iroh, certo, daqui a pouco vou lá. — completou, virando-se pra Iroh. Quando buscou voltar sua atenção para Mako, ele havia sumido.
— Mako, espera — pediu Korra, o seguindo escadaria abaixo.
Ele parou, virando-se para ela.
— Você nem me falou que iria para Terra. — disse após um suspiro frustrado.
— Por isso... Tenho pensado em como pode ser nossa vida... — introduziu, buscando ser o mais franca que podia — Eu só não sei como isso pode dar certo. Você já pensou realmente em como pode ser nossa vida? Que sempre estarei indo e vindo, que nossos horários nem sempre vão se encontrar? Que às vezes poderá ser necessário eu cometer um crime pra que possamos nos ver durante o depoimento, ou na audiência? — indagou exasperada, enquanto sua face esquentava-se com as lágrimas que queria se formar. Mas ela não permitiu.
Mako aproximou-se fitando-a com serenidade..
— Você acha que nunca pensei nisso? Quando nos conhecemos eu fiquei louco. — disse, lembrando-se de ter chegado a achar que ficar com Asami faria mais sentido, uma vez que bem... Ela era o tipo de garota perfeita. Eles se davam bem, e ela era maravilhosa. Sem o peso do mundo nas costas como a Korra, com todas aquelas responsabilidades, e sem aquele bendito gênio. — Recusei-me a me permitir gostar de você. Você chegou bagunçando minha vida, e colocando mais do que deveria no lugar. Mas eu percebi que não poderia me trair desse modo. Eu sabia que não seria algo fácil, e não será. Eu sempre soube. Mas estou nisso Korra.
Seus olhares se encontraram por um longo momento, seu corpo parecia ter se congelado e seu coração nunca esteve tão inquieto, mas ela se obrigou a se aproximar com mais um passo, quando foi detida por seis palavras
— Só não sei se você está. — completou Mako com a voz cortada.
Ela não sabia o que dizer, e antes que pudesse articular algum pensamento, ouviu uma voz vinda da escadaria.
— Korra, Raiko espera que você faça um discurso. — disse a voz de Iroh.
Seu olhar continuou fixo ao de Mako, mesmo sabendo que deveria ir.
— Vá. — aquiesceu Mako.
Ela assentiu lançando um último olhar de desculpas, sabendo que era seu papel ir, e se virou em direção a Iroh, que a chamara do alto da escadaria, enquanto Mako retirava-se da festa.
