Korra colocara seu chá gelado sentando-se no cantinho da varanda do térreo. Era primavera, havia pétalas de cerejeira cobrindo toda a parte visível do jardim. Observou seus dois pequenos milagres correrem entre a relva oculta por pontos lilás e branco que tomava o solo.

Ambos haviam decidido que adotariam uma criança, mas Korra sempre teve medo de não estar pronta. Foi quando houve um incêndio na periferia de Republic City, uma casa pobre, onde restando apenas uma sobrevivente. Uma garotinha de dois anos, quase passando da idade de ser adotada. A maioria das famílias sempre preferia recém-nascidos ou bebês de até um ano. Mako se encantou por ela, e sugeriu que fossem vê-la no orfanato. Ela foi, incerta. Mako a convidou para ir à sala da direção para preencher os formulários que autorizavam a visita, mas ela decidiu ficar esperando sentada em uma das cadeiras do corredor.

Com os dedos quase roxos de tanto apertar apreensiva, Korra aguardou que Mako voltasse com os papeis já preenchidos para ela assinar.

Foi quando duas mãozinhas a puxaram pela perna

— Me leva, tia. — pediu ela com a voz doce.

Korra quase teve um choque. Apesar de aparentemente nem ter completado três anos, a garotinha apenas sabia que precisava de amor, de uma família. Korra comovida a pegou no colo, olhando para seus olhos escuros.

— Você quer que eu te leve? — perguntou ela retoricamente com um timbre suave, quase infantil.

A mão da garotinha se elevou até a sua face, e seus olhos se mantiveram fixos pelo que pareia ser um momento só delas. Ali Korra soube que já era mãe dela. Talvez pela ternura que a garotinha despertou, ou pela certeza de que faria de tudo para proteger aquela garota. Em breves segundos já se sentiu responsável por ela, por amá-la e por cuidar dela.

Nem pode sentir Mako se aproximar das duas. Ele observou a cena com uma emoção contida, sabendo que acontecia ali algo muito especial.

Ela só foi despertada daquele momento quando ouviu a voz grave se pronunciar.

— Vejo que já se conheceram. — falou Mako com um sorriso de soslaio

— O quê? É ela? — perguntou Korra debilmente, nem imaginava que a garotinha que a abordou poderia ser ela.

Mako assentiu, envolveu carinhosamente as duas no braço, sentindo o calor da família que começava ali.

Uns minutos depois Korra ficou sabendo que uma das auxiliares do orfanato ficou responsável de preparar a menina para a visita, mas esta se aproveitou de sua distração para sair andando pelo orfanato proporcionando aquele feliz encontro.

Se seu primeiro milagre veio das chamas de uma tragédia, o segundo veio da água. Vindo de seu ventre com Korra imersa em seu elemento natural, sentindo a mão de Mako junto a sua, a apetando inúmeras vezes em seus espasmos de dor, ajudada por sua mãe e Katara, que apesar da idade avançada, fez questão de cuidar dela, dando suporte com massagens e outros métodos alternativos para auxiliar a dor. E assim seu pequeno Kyo veio ao mundo. Bem preguiçosamente, diga-se de passagem, ficando na água embaladinho como se ainda estivesse em sua barriga nos segundos que se seguiram antes de retirá-lo de lá. Quando Korra o colocou contra o peito, perto de onde ele sempre faria morada.

Agora os observa brincando da varanda, apreciando o cheiro e o clima ameno da estação quando Mako se sentou perto dela, reclamando um lugar atrás dela, envolvendo-a nos braços, trazendo um chá de alecrim. Korra inalou o cheiro doce e fechou os olhos apoiando a cabeça contra seu ombro e naquele momento pensou que estava tudo como devia ser.