Glossário é um tipo de dicionário específico para palavras e expressões pouco conhecidas, seja por serem de natureza técnica, regional ou de outro idioma.
KEKAU (v.);
Em indonésio: acordar de um pesadelo.
Pinga.
Pinga.
Pinga.
Sasuke angustiou-se com o som da goteira que pingava, e adentrava em suas entranhas reverberando eternamente pelo seu cérebro. Ele encostou as costas na parede esticando as pernas sobre o colchonete, tentando afrouxar o aperto que a camisa de força impunha sobre o seu corpo se chacoalhando, entretanto, o esgotamento fê-lo parar ofegante.
-Maldita coleira. –Sasuke Vociferou zangado, desejando ter o mínimo de chakra para explodir aquele buraco com um chidori. -Tsk. –Ele estalou a língua e ouviu o ruído ecoar.
O suor escorria pela sua tez molhando a venda, Sasuke podia sentir os farrapos que usava por debaixo da camisa de força se aderindo asquerosamente a sua pele. O local parecia não ser limpo há anos, talvez fosse alguma prisão desativada que fora reaberta especialmente para ele. Fungou experimentando o fedor de mofo entrando pelas narinas e embrulhando o seu estômago.
-Droga. –Murmurou quando a fome o aplacou.
"Se pelo menos Naruto viesse novamente", ele pensou quando uma nova onda de barulhos irrompeu de sua barriga.
Não comia há horas, ou seria dias?
O alívio escapou pelos lábios ressecados de Sasuke quando ouviu os passos se aproximando de sua cela.
-Hora do seu almoço. –A Anbu falou enquanto abria a entrada da cela.
Ele sentiu quando ela se aproximou e se posicionou em sua frente, podia sentir o cheiro de sabonete e shampoo que emanava da shinobi e a invejou por isso.
-Abra a boca. –Ela disse e ele obedeceu.
A comida estava fria e parecia ter sido feita há dias, ela desceu pelo seu esôfago e caiu pesadamente no estômago. Talvez passasse mal, mas não podia recusar algo que lhe era dado de uma vez a duas ao dia.
Aparentemente a Anbu estava de bom humor, pois lhe dera bastante água e se prontificara caso Sasuke quisesse mais.
-Você deveria agradecer ao tratamento de rei que esta tendo. –O escárnio transbordava das palavras dela. –Eu sinceramente, não sei como a sua cabeça ainda está ligada ao pescoço.
Ele riu sarcasticamente.
-Também me pergunto o mesmo.
Sasuke supôs que as visitas houvessem sido suspendidas, uma vez que Naruto não aparecera mais. Ele deixou escapar um riso fraco ao imaginar que o seu melhor amigo estaria arquitetando algum plano estúpido para invadir a prisão ou aprontando uma gritaria na torre do Hokage, Kakashi deveria estar enlouquecido e a um passo de banir Uzumaki Naruto de Konoha, já que o loiro já havia provado ser um grande insuportável quando cismava com alguma coisa.
Por algum motivo seus pensamentos voaram até Sakura; como ela estaria agora? Será que pensava nele? Será que ainda se preocupava?
Sasuke se desvencilhou de tais expectativas e considerou que Sakura merecia alguém que não temesse amar. Seu maldito cérebro trouxe a memória do último encontro que tivera com Sakura, a Haruno o fitava com os olhos aguados e a raiva que outrora dominava sua expressão se desmanchara, dando espaço à decepção.
As palavras da kunoichi bateram duramente contra os ideais de Sasuke naquele dia, e foi com um esforço homérico que não cedeu aos desejos de seu coração.
Ele suspirou pesadamente, há anos que carregava aquele fardo pesado de dor e solidão nos ombros e quando se viu inserido no time sete, aqueles elementos que sempre lhe fizeram companhia desapareceram por um breve período de tempo. Até Itachi retornar a Konoha e lhe dizer que ainda era fraco; "Falta-lhe ódio irmãozinho tolo" ele disse enquanto apertava o seu pescoço.
"Poder, eu preciso de poder" Sasuke pensou ingenuamente.
Itachi desejou e trabalhou secretamente para que seu irmão mais novo se transformasse em um herói, e para isso ele se tornou o vilão, para que Sasuke o superasse e fosse admirado pela Vila na qual se sacrificara. Entretanto, convencido de que não poderia se ligar as pessoas, e imbuído de ódio e pavor, Sasuke empenhou-se em cortar os laços.
Era através daquela ferida que Itachi causara que entrava a luz proveniente do time sete. A luz que se interpunha entre Sasuke e seu objetivo.
A verdade sobre Itachi liquefez toda a sua sanidade, ele ansiava do fundo do seu âmago a destruição de Konoha, todos tinham que pagar pelo o que fizeram ao seu clã. TODOS.
Sasuke estremeceu ao sentir sua mão esquerda comichando. Aquela mão que quase tomara a vida de Sakura.
Seu corpo estava cansado, sua mente exausta. Arrastou-se até seu tronco se encontrar com o colchonete duro, fechou os olhos e esperou que o sono lhe abatesse.
Sasuke estava sentado naquele banco, sozinho. Observou o céu azulado sem nuvens e as árvores que rodeavam o parque. Respirou fundo, sentindo o ar limpo entrar em seus pulmões e sorriu da sua maneira ao sentir o calor do sol aquecendo seu corpo.
Sakura apareceu sorridente como sempre. Ela trazia nos braços uma cesta de vime recheada de tomates vermelhos, Sasuke sentiu salivar ao imaginar o gosto e a textura daqueles lindos tomates.
-Trouxe pra você. –Ela disse sentando-se ao seu lado. –Eu os comprei especialmente para você.
-Não precisava. –Mentiu, agradecendo internamente.
Ela riu.
-Porque você tentou me matar?
-O que? –Sasuke a fitou surpreso com aquela pergunta.
-Por quê? –Sakura repetiu, ainda sorrindo.
-Eu... –Sasuke engoliu a seco. –Não há como eu expressar a quantidade de arrependimento que eu sinto.
-Não há? –Naruto apareceu repentinamente, roubando um tomate da cesta e mordendo um pedaço apetitoso. –Você não merece os tomates da Sakura-chan.
-Você tentou me matar. –Ela franziu o cenho, o sorriso se desmanchando em seus lábios. –Você nem pestanejou.
Sakura encarou o vazio.
-Não há como confiar em você Sasuke. –Naruto apontou para Sasuke. – Não há como confiar num Uchiha.
-É por isso que seu clã foi dizimado. – Sakura e Naruto falaram em conjunto. -Faça um favor ao mundo e se mate.
Ainda sonolento Sasuke transgrediu do sonho para a realidade e tentou desesperadamente se mover e arrancar aquela venda maldita dos olhos. A camisa o comprimia tanto que o ar mal entrava em seus pulmões.
Queria enxergar.
Queria respirar.
Queria sair dali.
Seu coração pulsava ruidosamente contra seus ouvidos e a escuridão intensificava todos os sentidos que agora o apavoravam. Estava tão vulnerável e assustado que involuntariamente clamou por sua mãe.
-Está... Tudo... Bem. –Ele mentiu para si mesmo, lambendo os lábios ressecados e esperando que seu coração se acalmasse.
