MIZPÁ (sf);

Vínculo emocional entre duas pessoas que estão separadas fisicamente ou pela morte.

Seu coração ainda pulsava caoticamente quando ela o enlaçou em seus braços e sussurrou algumas palavras, que se dissipavam como murmúrios distantes perdendo-se no ar.

-Sasuke-kun.

Ele tentou acalmar as compassadas que retumbavam em seu peito, concentrando-se na voz que o chamava. Sentiu o calor afastar-se e uma mão pequena lhe limpar a tez suada, sua garganta ardia como o inferno, e como se ela pudesse ler sua mente, lhe ofereceu um cantil.

-Beba água. –Ela falou suavemente, colocando o gargalo em seus lábios ressecados.

Sasuke sorveu o líquido que atravessou sua laringe trazendo o paraíso. Ele tossiu um pouco ao se engasgar e sentiu a presença feminina em sua frente lhe dando leves tapinhas nas costas. A vertigem o açoitou como um furacão, trazendo a escuridão. Ele respirou aliviado quando sentiu algo morno fluindo pelas suas costas e abrangendo seus ferimentos.

-Você está desidratado, aquele maldito disse que você dormiu por dois dias.

Sasuke procurou pelo rosto dela, encontrando olhos azulados que o fitavam com genuína preocupação.

-Sinto muito, mas o Naruto e nem a testuda puderam entrar. –Ino sorriu fracamente.

Sasuke a fitou com certa decepção que logo foi mascarada com irritação, ele crispou os lábios, azedo.

-Ino? –Ele grunhiu. - O que está fazendo aqui?

-Te ajudando, oras. –Ela riu sem humor. - Estamos preocupados com você, Kakashi-sama ralou para conseguir me deixar entrar nesse buraco.

Sasuke estalou a língua olhando para um ponto qualquer da cela, tentando ignorar a presença da kunoichi.

-Eles não podem fazer isso com você. –Disse ela enquanto o avaliava, as mãos de Ino envolveram a dele, pegando gentilmente o dedo quebrado, Sasuke grunhiu de dor em resposta e tentou puxar a mão de volta, mas Ino a segurou antes. –Eu vou concertá-lo.

O chakra verde emanou circulando pelo osso, convertendo o dedo com um estalo, ele crispou os lábios segurando o grunhido de dor.

-Como você está? Sente alguma dor, mais algum osso quebrado? –Ela o questionou. –Tire a camiseta, por favor.

Sasuke obedeceu, retirando a camiseta. Seu peitoral magro estava pintado de hematomas que iam dos tons verdes claros aos pretos, colorindo sua pele pálida.

Ino sentiu o bili subir pela garganta ao ver o quão judiado ele estava, pensou em como Sakura reagiria a aquilo e conteve a vontade de tomá-lo novamente nos braços.

Ela concentrou-se em seu trabalho, fazendo alguns exames básicos.

-Você deveria estar ao menos respondendo a estes testes, aquele bastardo aumentou muito a dose da coleira.

Sasuke bufou como se isso não fosse de grande importância, e recebeu um olhar severo da loira.

-Não faça isso.

Ele deu de ombros.

-Como você pode ser tão teimoso, Sakura está sofrendo. – 'Por sua causa', ela quis dizer, mas guardou aquelas palavras para si, sabia que a amiga ficaria enraivecida se soubesse que Ino andava espalhando seus segredos por ai, ainda mais para Uchiha Sasuke.

Ino suspirou, dedicando uma última olhadela para Sasuke antes de Isao aparecer.

-A hora de visitas acabou mocinha.

-Ainda tenho meia hora. –Ela revidou sem olhá-lo.

-Garota. –Isao deu um passo adentrando na cela, a presença de seu chakra se mostrou forte o bastante para até Sasuke sentir. –Eu não gosto de repetir o que eu falo.

-Ino. –Sasuke murmurou captando o olhar preocupado da kunoichi. –Vá.

-Mas.

-Apenas vá. –Ele disse, puxando para um abraço e colando a boca no ouvido da Yamanaka, os olhos dela arregalaram-se e ela concordou relutante.

-Eu vou voltar. –Ino disse antes de se despedir. –E tire essas ideias idiotas da cabeça.

-Tsk. –O Uchiha estalou a língua, mandando-a embora com um acenar de mão.

Os passos se perderam no longo corredor e ele se viu novamente sozinho, porém aliviado.

.

Ino saiu da torre do Hokage cabisbaixa, havia entregado o relatório da missão e recebido um olhar apreensivo de Kakashi. Não só o mundo pesava sobre as suas costas naquele momento, como também nas do Hokage.

Ela suspirou sobrecarregada, tinha em mente a amiga que estava uma pilha de nervos e que insistia em fazer turnos prolongados no hospital, a fim de tentar omitir a preocupação pulsante que sentia pelo Uchiha.

"Está estampado na sua cara testuda" Ino disse alguns dias atrás para Sakura, que franziu o cenho e deu as costas, "Talvez admitir isso te deixe mais tranquila, converse comigo!", a loira quase implorou.

O estômago da Yamanaka embrulhou quando ela fitou a fachada do hospital, ela inspirou uma lufada de ar antes de sustentar um pouco de coragem para encarar Sakura. A loira andou pelos extensos corredores, encontrando alguns enfermeiros que lhe lançavam olhares preocupados.

Sakura estava sentada atrás de uma grande mesa de mogno, vários documentos em cima da sua mesa e uma mão que escrevia fervorosamente num caderno. Ino estava há exatos cinco minutos ao pé da porta, esperando por ser notada, até que pigarreou e captou o olhar da kunoichi que foi do papél para a loira.

-Ino.

-Testuda.

-O que quer? –Ela retorquiu sem humor. - Eu estou muito ocupada.

-Da pra ver no seu rosto o quanto você está angustiada. –Ino a fitou com inquietação no olhar. –Eu sei que...

-Ele desistiu de tudo. –Sakura a cortou sustentando o olhar severo sobre a amiga. –O que você quer que eu faça?

-Que você se acalme, vai dar tudo certo.

-Ino, eu estou perfeitamente calma.

-Não está! Você está enfurnada nesse hospital.

-A guerra acabou, mas não os feridos, agora me dê licença que preciso começar a minha ronda. –A médica-nin disse enquanto juntava alguns papeis e colocava dentro de uma pasta.

Ino se posicionou na frente dela, bloqueando a saída.

-Eu estou preocupada.

-E eu estou ocupada. –Sakura desviou de Ino, esbarrando no ombro da loira antes de sair.

A Haruno marchou aos passos duro pelo corredor, já não bastava Naruto lhe enchendo a cabeça com ideias idiotas de como invadir a prisão e libertar o Uchiha, agora vinha Ino tentando consolá-la.

Como se ela precisasse.

Ela rolou os olhos e apertou fortemente as unhas contra a carne de sua mão.

Estava esgotada.

Sakura entrou numa porta que dava para um amplo banheiro feminino, ela entrou em uma das cabines, abaixou o tampo do vaso e se sentou lá.

A preocupação com o Uchiha estava vinte e quatro horas presentes em sua mente, às vezes permitia-se chorar quando estava absolutamente sozinha, mas nunca deixaria alguém saber disso.

E ao mesmo tempo tinha raiva de Sasuke.

Raiva pela desistência dele.

Ódio pela maneira displicente como seus sentimentos e de todos os outros eram tratados.

Como se tudo o que fizeram fosse em vão.

Ela imaginava que deveria ser muito difícil para alguém que perdeu tudo se abrir para a vida, entretanto, até quando ela teria que dar essas chances?

Até quando esperaria?

Como ajudar uma pessoa que não desejava ser ajudada.

Sakura levantou-se irritada chutando a porta, que se escancarou com a força.

-Merda.

Saiu do banheiro, ainda mais irritada, talvez fosse melhor ir para um campo de treinamento descontar toda a sua frustração em árvores. Ela apertou a pasta contra o peito tentando afastar a raiva, havia se comprometido a fazer uma ronda e depois poderia ir embora.

Naruto estava plantado no meio do hall do hospital, quando a avistou, um enorme sorriso tomou os lábios do loiro.

-Sakura-chan!

-O que você quer? –Ela foi ríspida, sentia-se culpada em tratá-lo assim, mas afastar Naruto era melhor do que tê-lo ruminando sobre o caso de Sasuke ao seu lado.

-Vamos ao Ichiraku. –Ele sorriu inabalado.

-Agora? –Ela soergueu as sobrancelhas. –Eu estou...

-Cansada? –Ele completou. –Mas acho que também deve estar com fome.

Sakura deixou os braços penderem ao lado do corpo, Naruto sabia como dobrá-la às vezes. Com um suspiro ela assentiu, seguindo-o para fora do hospital.

Já era noite, algumas estrelas pontilhavam a vastidão escura do céu, uma lua grande iluminava toda Konoha.

-Parece que você tem muita coisa na cabeça 'ttebayo.

-Na verdade não. –Sakura mentiu. –O hospital está cheio, mas já estive em situações piores.

A guerra era algo que ambos queriam apagar da memória, e com um arrepio mútuo eles mudaram de assunto.

-E Hinata, o que você vai fazer a respeito?

-Eu... -Naruto enrubesceu. –Eu não sei Sakura-chan.

-Vou te dar uma dica: chame-a pra sair. –Ela respondeu apontando o indicador para o amigo.

-Você já viu o pai dela? –Naruto estremeceu ao se lembrar de Hiashi o fitando intensamente.

-Você enfrentou a Juubi e tem medo do pai da Hinata? –Sakura riu. –Pelo amor de Deus Naruto, seja corajoso.

O loiro suspirou vencido.

-Eu não sei...

-Ela é incrível, sabia?

Eles dobraram uma esquina e entraram no Ichiraku. Acomodando-se no balcão e sendo recepcionados por Teuchi.

-Boa noite Naruto e Sakura-chan! –Ele os cumprimentou com seu sorriso bem humorado.

-Boa noite, Teuchi-san. –Sakura retorquiu, sentando-se. –Vou querer o de sempre.

-E você também Naruto?

-Claro!

-Voltando ao assunto. –Sakura o fitou de esguelha.

-Eu estou preocupado com o Sasuke. –Naruto dirigiu um olhar intenso para Sakura, ela suspirou em resposta.

-Naruto.

-Eu não vou falar pra gente invadir o presídio, isso pioraria as coisas, fora que deixaria Kakashi-sensei numa situação ruim, mas eu não posso deixar de pensar em como o meu melhor amigo está.

-Temos que ser pacientes. –Ela fingiu um sorriso.

-Você parece não ligar mais pra isso, eu sei que o teme é um idiota, mas ele faz parte da família.

-Sinceramente eu vim aqui para comer, não pra ficar discutindo sobre esse tipo de coisa.

-Coisa? – Naruto a questionou, ofendido. –É o nosso amigo que está sendo torturado naquele lugar.

-Rumor. –Sakura revirou os olhos, mesmo que por dentro ela temesse que essa fosse à realidade.

-O que aconteceu com você 'ttebayo?

-Nada.

-O que o Sasuke te falou, Sakura-chan? O que ele fez pra você ficar tão brava?

-Eu vou embora. –Ela disse se levantando, Naruto ergueu-se logo atrás dela.

-Eu estou tentando conversar com você.

-E eu já disse que não quero falar sobre isso, porque, justamente isso, não tem o que se falar. Pare de ser impertinente.

-Sakura-chan...

-Perdi a fome Naruto, eu sei que você consegue comer o meu prato também.

-Vamos conversar.

-Não. –Ela o fitou com agressividade.

-Tudo bem. –Ele ciciou. –Outro dia então.

"Não vai haver outro dia" ela quis bradar, mas achou melhor não prolongar aquela discussão sem sentido. Deu as costas ao amigo e marchou para seu apartamento, ela estava entupida de raiva. Ao chegar a seu lar, despiu-se correndo para o banho, a água tinha um efeito maravilhoso sobre o seu humor e talvez um banho quente acalmasse seus ânimos.

Ela abriu o registro e relaxou os ombros. Aquele era o único momento em que se autorizava a não odiar o Uchiha e com isso, Sakura experimentava novamente o temor subir pela sua garganta.

Medo de ele estar sendo torturado.

Medo de não revê-lo.

Medo de perdê-lo.

Para sempre.

As lágrimas explodiram em seus olhos, mesclando-se a água que a banhava. Sakura permitiu-se derramar e entregar-se a aqueles sentimentos que a assolavam desde que Sasuke foi preso.

-Sasuke-kun. –Ela grunhiu agonizando de uma dor que apertava seu peito. –Sasuke-kun.

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Sakura deparou-se com a imagem no espelho; olhos pequenos devido ao choro, nariz e bochechas excessivamente avermelhados e algumas lágrimas que ainda teimavam em deslizar em suas bochechas.

Ela suspirou, limpando a face com as costas da mão. Enrolou-se numa toalha felpuda e desejou dormir até o fim do mundo. Seus músculos latejavam a cada passo dado, o sinal da exaustão que ela havia ignorado o dia inteiro agora cobrava seu preço.

Sakura praticamente se arrastou para seu quarto após ter vestido um pijama confortável, quando estava prestes a deitar em sua cama ouviu alguém bater loucamente em sua porta.

-SAKURA-CHAN! –Escutou seu amigo chamando-a e cogitou em ignorá-lo.

Insistentemente Naruto bateu contra a porta mais algumas vezes até Sakura ir atendê-lo. Seu temperamento não estava dos melhores e era melhor Naruto ter um ótimo motivo para interromper a sua queda livre para a cama.

Sakura abriu a porta encontrando um Naruto afobado que mal conseguia pronunciar seu nome.

-Sas...Teme...Ele...Está...Em coma.

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