Destino ? Sorte ? Acaso ? Ou talvez nenhum deles, apenas o divino carma. Em suas mãos agora encontrava-se um pequeno pedaço de papel dobrado pela metade, com uma ínfima e quase imperceptível gota de sangue, e, escrito nele, um nome e uma hora dos quais certamente se lembraria pelo resto da sua vida, um nome e uma hora que vingariam a morte de Raito. Enquanto o padre professava a homilia pela morte de Kira, a passagem certa para a sua excomunhão, Misa olhou fixamente para Ryuk e assentiu com a cabeça, o sinal estava dado, e Ryuk sabia o que fazer... espremeu aquela folhinha em sua mão, tentando não rasgá-la, e, em meio a tanta amargura do seu coração, brilhou um pequeno sorriso maquiavélico enquanto ela lembrava-se dos eventos acontecidos exatamente ontem, após à morte de Raito; lembrava-se do místico e maravilhoso instante em que aquele fragmento do Death Note tinha chegado às suas mãos...


FLASHBACK

Ela não quis ver Raito, que era levado em seu respectivo caixão até o salão do velório, que estava do outro lado da cidade; apenas estendeu os braços para receber a caixa na qual estava a roupa ensangüentada dele. A enfermeira que estava atendendo no hospital viu aquela loira de olhos castanhos chorosos e grandes olheiras; ela tinha os mesmos olhos lacrimosos e enormes olheiras. Ambas estavam igualmente tristes.

- Senhorita Amane...

- Chame-me de senhora Yagami, por favor - solicitou Misa, tentando conter o pranto, que não a ajudava em nada, combinado com a fadiga que tinha sentido nos últimos dias.

- Eu e algumas amigas do hospital admirávamos Kira, e lamentamos muito a sua perda - ela quis falar, mas a enfermeira começou a derramar grossas lágrimas de choro, enquanto Misa ficava impressionada, não pelo fato de que ela chorasse por ele, mas sim pela rapidez da difusão da notícia. Poucas horas após à morte de Raito, a SPK anunciou, através do governo norte-americano, que Kira tinha sido descoberto, a identificação de Raito Yagami e a sua recente morte. Essa notícia caiu como uma bomba nos meios de comunicação, aconteceu na segunda-feira, 28 de fevereiro, às cinco da tarde; e agora, três horas depois, mais de metade do mundo falava sobre o acontecimento.

- Obrigada - foi só o que Misa conseguiu esboçar, com os seus olhos tristes, olhando para o chão. À medida que avançava até a saída, suas mãos começaram a esfriar rapidamente eseus braços começaram a tremer, desequilibrando a caixa com os pertences de Raito; as batidas do seu coração começaram a ficar cada vez mais fortes, fazendo com que essas batidas fossem a única coisa que ela escutava, os seus passos eram imprecisos e sua mente começou a sofrer uma terrível dor de cabeça. Não podia suportar, na sua mente, o pensamento de que aquele era o fim, seu amado Raito, seu amado Kira, tinha partido para sempre e agora a sua vida tinha se tornado absolutamente sem sentido. Uma terrível náusea invadiu-lhe o estômago, e com a pouca força que tinha, andou rapidamente até o banheiro. Mal entrou no banheiro vazio, não segurou a caixa nas mãos por muito tempo, jogou-a enquanto esvaziava o estômago. Os péssimos sentimentos e o mal-estar a sufocavam-na completamente, mas matava-a mais ainda a culpa por não ter confessado tantas coisas a ele. "Se eu pelo menos tivesse dito a ele que o amava, uma última vez...". Ela voltou a sentir aquele nó na garganta, que não a abandonava desde que ficara sabendo da morte de Raito, há algumas horas; era a cena mais triste e patética que alguém pudesse ver, ou melhor, que alguém via: uma jovem loira desalinhada e abatida chorando aos borbotões, quase desmaiada no chão do banheiro de um hospital. Porém, naquele silêncio absoluto, onde eram escutados apenas os seus gemidos, ela sentiu que alguém a observava; levantou-se com dificuldade, agarrando-se à porta. Andou com os saltos altos até a pia, quando escutou algo se rachando; acidentalmente, tinha quebrado o relógio de Raito, uma das muitas coisas que tinham ficado espalhadas pelo chão, quando ela deixara cair a caixa das suas mãos. Olhou para aquela peça quebrada e abaixou-se para apanhá-la. Quando as pontas dos seus dedos tocaram aquele relógio quebrado, um flashback atingiu a sua cabeça instantaneamente, ela arregalou os olhos ao mesmo tempo que, pela sua mente, começaram a aparecer uma lembrança após a outra sobre o Death Note. Uma mistura de medo e satisfação invadiu-lhe a mente, a primeira aparição na sua mente foi a de Rem, depois a prisão por L, depois, quando ela recuperou novamente o seu Death Note, e depois, sucessivamente, começaram a aparecer as noites sem dormir, nas quais matava, em nome de Raito, a todas as pessoas que ele lhe ordenara. Outros acontecimentos completaram aquelas lembranças incompletas e inconclusivas que encaixavam como peças de quebra-cabeças na sua mente, e foi assim que ela se lembrou do grande Kira, o seu adorado Raito Yagami, como o verdadeiro Deus do Novo Mundo. Tudo começou a fazer sentido, agora ela não se arrependia nem um pouco das últimas palavras que tinha dito a Raito, agora ela sabia a verdade. Tantas lembranças que vinham-lhe à mente foram completamente ofuscadas ao perceber uma sombra de mais de dois metros que levantava-se sobre ela e cobria parte do chão do banheiro. Virou-se para trás para ver a grande figura do Shinigami.

- Bem, acho que agora você consegue me ver - enquanto sua mente se recuperava, ela demorou três segundos para levantar-se do lugar em que estava, e, por reflexo, abraçar Ryuk, que ficou estático e surpreso, tentado a desaparecer, mas aquela loira que chorava, agora agarrando-se a ele, parecia tão destroçada que o Shinigami optou por ficar imóvel.

- O que você está fazendo aqui ? - Misa separou-se de Ryuk, enquanto sua mente terminava de compreender tudo o que ela tinha começado a se lembrar.

- Acho que eu queria ver o fim de Raito, e, de passagem, saber se você estava bem - Misa sorriu levemente para Ryuk, depois de vários anos, e embora o Shinigami o escondesse, tinha criado afeição por aquela jovem, que parecia ser a única que não o tratava como conexão com o Death Note, mas sim como um amigo.

- Agora, um pouco melhor - disse ela, enquanto voltava a se agachar e apanhar, entre os escombros do relógio, um pedaço de papel com linhas, reconhecendo-o imediatamente, olhou-o com cautela... - Ele não devia ter morrido assim... - foi o pouco que ela conseguiu esboçar, enquanto o nó na sua garganta voltava a se formar.

- Você tem razão; eu nunca vi ninguém usar o Death Note como ele o usou; Raito era brilhante, é uma pena que não tenha escrito o nome do seu inimigo, e, ao que parece, ele tinha mais de um pedaço do Death Note nesse relógio - disse o Shinigami , ao perceber que Misa olhava aquele fragmento de papel escondido no estranho relógio que Raito sempre levava consigo; fragmento do qual Near nunca suspeitou.

- Exatamente - Misa arregalou os olhos ao se dar conta dessa resposta de Ryuk. Ela levantou-se imediatamente do chão e aproximou-se de Ryuk, olhando-o fixamente.

Olhando para o papel, Misa salientou mentalmente as palavras de Ryuk: "seu inimigo"... seu inimigo, seu inimigo...

- Near - sussurrou ela, ao lembrar-se das conversas de Mogi ao telefone, naquela manhã.

- Você o... conhece ? - perguntou ela, enxugando as lágrimas.

- Sim, é ele quem está com o meu Death Note e o de Rem - escutar aquela afirmação era quase como ir ao próprio paraíso; ela recostou a cabeça sobre o peito do Shinigami, e, ao virar-se para vê-lo, ele tinha um sorriso enorme e dois olhos vermelhos brilhantes... sabia o que Misa estava pensando.

- E... o que você está planejando ? - perguntou ele, ao ver a jovem com um olhar analisador. Os olhos dela, vermelhos de tanto chorar, pousaram-se, com expressão suplicante, sobre os olhos vermelhos de Ryuk.

- Isso significa que você vai me ajudar ? - Ryuk sorriu-lhe abertamente, os humanos eram realmente interessantes, e principalmente quando se tratava de vingança. Aceitara ajudar Misa porque, embora quisesse negar, tanto Raito quanto Misa tinham se tornado parte da sua vida, e embora soubesse de antemão que adicionaria Raito ao seu Death Note, nada o impedia de ainda estar no mundo dos humanos e cobrar o favor a quem fizera com que sua vida passasse de enfadonha para bastante interessante.

Com aquele sorriso malévolo de Ryuk, Misa teve margem para poder saborear o doce néctar da vingança; seu primeiro impulso foi pedir a Ryuk para que escrevesse o nome de Near. No entando, aquilo parecia tão fácil que não dava mérito à devida vingança pelo ato , então, querer matá-lo da forma mais horrenda possível, mas só contava com um papelzinho que mal era suficiente para um nome e uma data; em outras palavras, as possibilidades de detalhá-la eram nulas. Seus pensamentos voltaram a ser interrompidos quando a enfermeira com quem havia falado há poucos minutos entrou abruptamente no banheiro das mulheres.

- Senhorita Amane...

- Senhora Yagami - Misa corrigiu-a calmamente, enquanto escondia o papel no decote do seu vestido preto.

- Acabaram de me informar que Kira localiza-se no salão do velório. Por favor, deixe-me ajudá-la a levar essas coisas para o seu carro - ambas recolheram todas as embalagens que estavam na roupa velha de Raito, e então Misa começou a caminhar até a Capela do Velório. A cada instante que caminhava, em vez de chorar por seu amado, esbofeteava-se mentalmente e mudava o modo de pensar sobre como matar Near; ao passo que Ryuk, sentado como co-piloto, observava a jovem, com suas fases contínuas de choro e de segurar as lágrimas. Ainda faltavam vinte ruas para chegarem ao velório quando tanto Misa quanto Ryuk ficaram subitamente impressionados: os carros estavam estacionados na rua, centenas de pessoas passavam caminhando, todas vestidas de preto, muitas com pôsteres de Kira, outras com pôsteres e cartazes com o nome de Raito Yagami, mulheres chorando, homens com medo por já não terem a proteção de Kira, muitos outros apenas caminhando, de luto; em suma, tudo estava abarrotado.

- Como as pessoas ficam sabendo rapidamente dos acontecimentos - comentou Ryuk, ao ver a imensa quantidade de pessoas - Provavelmente todo o mundo vai ficar sabendo da morte de Raito - Misa virou-se para olhar à sua esquerda, várias câmeras de vídeo passaram junto ao seu carro. A morte de Kira era notícia internacional. Milhões de pessoas estariam cientes do seu velório e do seu enterro... ela começou a sentir-se um pouco menos sozinha neste mundo; havia muitíssimas pessoas que compartilhavam o seu sofrimento. Claro, não tanto quanto o sofrimento dela.

- Misa, vamos descer do carro ?

- Não, primeiro eu preciso que você me ajude a eliminar Near - o seu tom de voz começou a soar decisivo, potente, como, em sua alma, começa a sentir rancor. Abriu o porta-luvas do seu carro, onde havia uma agenda, arrancou a folha correspondente à data atual, que era 29 de janeiro de 2013, e começou a escrever. Ryuk olhava-a, intrigado. Escrever um bilhete que não fosse no fragmento do Death Note não contribuía em nada para a vingança. A loira analisou cada letra que escrevia, cada palavra correta, como Kira faria... ela terminou de escrever e entregou o papel a Ryuk.

- Leia - em poucas palavras, Ryuk compreendeu a intenção da loira; Misa tinha escrito um dos piores medos e aflições do ser humano: saber a hora da sua morte e não poder fazer nada a respeito.

- Ele não vai acreditar nesta carta, todos sabem que Raito morreu - disse Ryuk, o que a fez esboçar um sorriso que, longe de ser gentil, era sobretudo o mesmo sorriso exibido por Raito ao elaborar planos, um sorriso perverso.

- A enfermeira com quem eu me encontrei me disse que ele chegou ao hospital acompanhado apenas por um agente de polícia. Near não o viu morrer. Misa-Misa se fez entender ?

- Com isto, o jogo acabou - respondeu ele, rindo e recitando as mesmas palavras que Near dissera a Raito depois de ser descoberto; instantaneamente, Misa tirou-lhe o bilhete das mãos...

- Adorei o que você acabou de dizer, complementa o meu bilhete... - ela colocou o bilhete em um envelope próximo que ela tinha e o pôs novamente no porta-luvas do seu veículo - Rykuk, a hora que eu escrevi na carta é a hora em que Raito vai ser enterrado, amanhã. Quando nós estivermos lá e eu assentir duas vezes com a cabeça, será o sinal para que você venha até o meu carro, pegue a carta e entregue-a a Near, um minuto antes da hora indicada.

- Isso está ficando interessante... mais alguma coisa, Misa ?

- Sim ! Eu preciso de um último favor.

- Que é...

- Até onde eu sei, não existe nenhuma regra que impeça um Shinigami de escrever em um caderno de um Death Note diferente do seu, não é mesmo ?

- Errr, sim.

- Ótimo, eu não posso escrever o nome de Near porque não sei o seu verdadeiro nome e nem conheço o seu rosto, mas você, sim; já que ele não tem nenhuma intenção de me matar, você, matando-o, não irá sacrificar a sua vida, além disso recuperará o Death Note e o de Rem.

- Aparentemente, você sabe muito sobre o Death Note - disse Ryuk, enquanto escrevia, intrigado, já que fazia menos de uma hora que Misa tinha recuperado todas as suas memórias.

- Rem fez com que eu aprendesse; mais uma coisa, depois de ele ler a carta, assegure-se de se livrar dela, para que não haja evidência.

- Não deixarei que lhe descubram.

- É bom saber que os Shinigamis têm coração - Misa inclinou-se até Ryuk e beijou-lhe o rosto, o que fez com que ele, envergonhado, desaparecesse.

END FLASHBACK


O dia do enterro foi um verdadeiro escândalo. O alcance internacional que representou a morte de Kira era eminente. O mundo tingiu-se literalmente de negro; milhões de pessoas andavam de luto, e todos os meios de comunicação não paravam de exibir a biografia de Raito Yagami e do seu alcance como Kira. Transmitiam-se repetidamente as imagens de pessoas que tinham cometido crimes contra a humanidade, os quais Kira tinha assassinado. Os noticiários mostravam tabelas de queda da criminalidade nos últimos seis anos, desde o aparecimento de Kira. Não havia emissora que não transmitisse algo a respeito de Raito. Fotos dele apareceram nos grandes outdoors de um dia para o outro. Era um espetáculo que teria deixado Raito enlouquecido; até mesmo as igrejas estavam repletas de pessoas , rezando pelo Deus que deixava este mundo. E, para completar, o aeroporto do Japão teve que suspender os seus vôos nesse dia, pois, devido à grande estagnação de vôos, o limite de viagens tinha quadruplicado e havia saturado as companhias aéreas, milhões de pessoas tinham pedido para viajar, para estarem presentes no enterro do grande Raito Yagami. Nunca era demais mencionar que a cidade de Kanto tornou-se um verdadeiro caos, várias empresas suspenderam os seus negócios naquele dia em respeito a Kira, centenas de pessoas deixaram os seus empregos, milhares de veículos dirigiam-se ao cemitério em que Raito seria enterrado, e milhões de redes sociais expandiam a notícia sobre aquele acontecimento. Kira tinha revolucionado o mundo, e sua marca não ficaria impressa apenas naquele dia, mas sim o transcenderia, como um dos maiores acontecimentos da História mundial.

No mais luxuoso cemitério do Japão, Misa ocupava o centro das atenções de muitíssimas câmeras e repórteres, enquanto muitos outros focavam-se em detalhar o caixão de mármore no qual Raito fora colocado, e no Panteão luxuoso que fora designado para Kira. Sua placa reluzente em ouro brilhava acima de todas as decorações do lugar. Algumas outras câmeras e meios de comunicação visual focavam-se nos milhões de pessoas vestidas de preto e com flores que eram colocadas ao redor do Panteão. O lugar transbordava de pessoas, e, apesar de já não haver espaço o suficiente dentro do vasto campo que tinha o cemitério, as pessoas do lado de fora, congestionando ruas, estavam paradas escutando através dos alto-falantes que tinham sido postos fora do cemitério. A intercessão que o padre fazia por Kira com grande sentimento, assumindo inclusive para o sacerdote a possibilidade de ser excomungado, por louvar e amenizar a missa daquele que era um dos maiores assassinos da História. No entanto, as pessoas sempre o distinguiriam como a justiça do mundo, que não deixara que o mal vencesse, que defendia os fracos, que queria criar o mundo perfeito, onde não houvesse maldade. Kira era a esperança de todos, e era obrigação de prestar as suas honras a quem merecia ser honrado.

Fortes enjôos atacavam Misa a toda hora, as câmeras, a multidão, ao ver o seu amado jazendo no caixão, tudo aquilo afetava sobremaneira o seu ser. Ela baixou a cabeça, enquanto tentava evitar gritar, agarrar-se ao caixão e pedir a Ryuk para que a matasse naquele mesmo instante. Mas tal idéia era absurda; ela não podia dar-se ao luxo de enlouquecer, e muito menos agora que devia ser forte, pelos dois. Calculou aproximadamente vinte minutos antes da hora indicada para a morte do albino. Assentiu duas vezes em frente a Ryuk, que olhava, pasmo, o poder de Kira; ao se virar e ver Misa pela última vez, deu-se conta de que jamais voltaria a encontrá-la; a hora de ir embora havia chegado. E nunca pensou que jamais fosse encontrar duas pessoas tão diferentes dele e de cada um dos outros. Caminhou até ela, que agora não devia estar vendo-o, por causa das pessoas ao seu redor.

- Misa... vou cumprir com o que eu prometi - disse ele, colocando um joelho no chão, para ficar da altura de Misa, que estava sentada.

- Você vai vê-lo ? - perguntou Misa, sem se importar com quem a tivesse escutando.

- Por mais tempo do que você imagina.

- Ao lado do envelope você irá encontrar um medalhão em forma de coração, leve-o.

Ryuk assentiu, embora duvidasse que, ao chegar, Raito se lembrasse dela, era preciso mais do que um simples medalhão para que um Shinigami pudesse ter memórias da sua vida passada. Abriu as suas asas e, antes de ir, viu, do céu, a cidade de Kanto, no Japão, que contrastava ao máximo ao notar metade da cidade vazia e a outra metade reunida para despedir-se de Raito Yagami.

- Ora, Raito Yagami, as conseqüências que você assumiu por usar o Death Note valeram a pena.

Seguiu sua rota em direção ao centro da SPK; passou por cada uma das portas e por cada uma das medidas de segurança até chegar a uma sala de estar na qual estavam os membros da SNK, todos com a vista voltada para a grande TV que ocupava um terço da parede da sala, cada agente com um sorriso de satisfação no rosto, falando entre si do luxo que se davam por terem resolvido o caso. Ninguém percebeu a presença de Ryuk, que emergia por trás, exceto Near.

- Boa tarde, Ryuk, é bom ver você novamente por aqui - disse Near, sem afastar a vista da montagem do brinquedo que ele fazia como uma réplica exata do Panteão de Kira, que estava sendo mostrado pela TV. Todos instantaneamente viraram-se para vê-lo.

- É bom vê-lo também, você tem algumas maçãs ?

- Vou ordenar para que as tragam; a propósito, eu preciso falar com você.

- Eu também... mas a sós - Near ficou um pouco intrigado com a situação, mas aceitou, já que era ele quem portava agora os Death Note. Com certeza Ryuk queria conversar com ele sobre aquilo; pediu a todos os seus subordinados para que os deixassem a sós, havia também outras salas de operações nas quais se podia ver o enterro de Raito. Esperaram pelas maçãs, e uma vez que Ryuk as obtivera, ambos ficaram a sós na sala.

- Sobre o que você queria falar comigo ? - Ryuk virou-se para ver o relógio da parede que estava pendurado do seu lado direito. Um enorme sorriso desenhou-se em seu rosto ao ver a hora: 5:43.

- Não pense que vou lhe dar os Death Note, a SPK prefere tê-las como medida de segurança; não quero ofender, Ryuk, mas duvidados que eles sejam entregues a mais alguém.

- Não é preciso que você os dê a mim; mas eu, sim, tenho que dar isto a você - Near olhou para o envelope branco que tinha a sua letra escrita de forma gótica. Abriu-o cuidadosamente, a cada palavra que ia lendo, o seu rosto mostrava-se cada vez mais assustado e confuso. Ryuk soltou uma gargalhada, o conteúdo deixou Near em estado de choque:

"Near: ninguém se dá ao luxo de tentar matar ao Deus do Novo Mundo. É uma pena que você não vá contemplar a minha glória, o meu Mundo Perfeito começa com a sua morte. Verei você do meu céu em seu inferno... 29 de janeiro, 5:45 da tarde. Agora sim, o jogo acabou".

A primeira reação dele foi olhar para o relógio: 5:44. Em questão de segundos, sua mente começou a analisar, tudo, mas, principalmente, a questionar tudo...

"Raito não pode ter escrito isso, ou pode ? Se sim, quando ? Por que esta data ?..."

- Não pode ter sido antes de nos conhecermos, ele teria me matado há tempos, e, depois da sua confissão, ele morreu... este bilhete não pode ser real - ele não terminou de analisar sem que antes Ryuk rebatesse o que ele acabara de mencionar...

- Near... por acaso você viu Raito morrer depois da confissão dele, ou perdeu-o de vista depois que a ambulância o levou ?... - os olhos do Shinigami brilhavam de felicidade, a expressão atônita de Near não tinha preço. "Uma verdade a respeito dos humanos é que eles são muito presunçosos". Imediatamente Near virou-se para observar Ryuk, que lhe apontou para a tela da TV. Raito Yagami estava começando a ser sepultado.

- Adeus, Nate River - Near sentiu uma respiração aguda no peito, sua respiração ficou sufocada, seu coração estava oprimido e sua mente ainda confusa... uma rápida pergunta passou pela sua mente... Raito Yagami estava morto, ou o que estava vendo era uma farsa ? O albino sentiu o coração parar abruptamente para depois fechar os olhos e deixar-se desabar em frente à TV, caindo por cima da réplica da sepultura de brinquedo que ele tinha montado. Ryuk terminou de contemplar a cena, pegou o astuto bilhete de Misa e colocou-o dentro do seu Death Note, caminhou para tirar os dois Death Note do cofre que estavam sendo mantidos na central de segurança da SPK, e, de passagem, procurar outra maçã.

Levantou vôo novamente, sua estadia aqui na Terra tinha acabado, e, ao invés de se lamentar, estava grato por ter desfrutado em observar os humanos, socializar com eles e até mesmo ter feito amizade com dois deles. Na verdade, esta última parte o deixava ainda sorridente, já que agora, no mundo dos Shinigamis, encontraria uma pessoa conhecida e muito amiga sua...; agora que se lembrara, tocou o pescoço para certificar-se da incumbência que Misa tinha lhe , o medalhão ia pendurado, o qual, ao contato do Shinigami, abriu-se mostrando uma foto de Raito e Misa. Imediatamente uma idéia veio-lhe à mente. Ele voltou ao funeral, que estava prestes a terminar. Ele dirigiu-se a Misa, que olhava, distraída, para o Panteão fechado.

- Ele está morto - um leve sorriso desenhou-se nos lábios da loira.

- Eu lhe agradeço, Ryuk - disse ela, em um sussurro, enquanto continuava a olhar para o Panteão, com um olhar inexpressivo.

- Não me agradeça ainda - Ryuk segurou vários dos cabelos dourados da jovem, e, com as suas garras afiadas, cortou-os. Misa tirou a vista no mesmo instante para fixá-la no Shinigami, tentando pedir uma explicação, deixando todos os pensamentos sobre Raito para trás.

- Eu preciso disso para que você se lembre - para um Shinigami, era absolutamente proibido comunicar os humanos com o Reino Shinigami, mas se já havia quebrado a regra de roubar Death Note de outras pessoas e de ajudar seres humanos a matar, por que não abrir uma exceção à regra mais uma vez ?

- Obrigada, Ryuk, adeus - sussurrou Misa, feliz; no entanto, as palavras do Shinigami deixaram-na ainda mais esperançosa...

- Prefiro um até logo - Ryuk riu para si mesmo, agora que tinha estado tanto tempo no mundo real, não parecia uma má idéia vir com mais freqüência, além do mais, não conseguia ficar longe das suas deliciosas maçãs, isso sem falar na curiosidade que o estava matando sobre começar a presenciar a reação das pessoas após saberem quem tinha sido Kira.


Um relâmpago tirou-a dos seus pensamentos, as grandes gotas de água contidas na janela tornavam-se cada vez maiores, assim como o aumento das suas lágrimas. Hoje, 28 de fevereiro, aniversário do seu amado Raito, e quando completava um mês da sua morte. Virou-se para ver o céu escuro, e enquanto submergia-se em pensamentos quase masoquistas, nos quais Raito voltava a abraçá-la de novo, sentiu uma mão tocar suavemente a sua barriga saliente. Dirigiu o seu olhar para Sayu, que estava em sua cadeira de rodas, presenteando-a com um reconfortante sorriso. O coração dela derretia-se só de pensar que uma parte de Raito estava dentro dela, ainda tinha uma razão para viver, e enquanto aquele bebezinho estivesse ao seu lado, ela deixaria a contemplação da morte de lado. Devolveu o sorriso a Sayu, e as duas jovens caminharam até o cemitério, o qual certamente estaria lotado por hoje ser o aniversário do seu amado Raito.

Durante a viagem, um fugaz pensamento cruzou a sua mente:

"Será que Misa é sempre inoportuna ? Misa-Misa tinha que fazer isso... meu amado Kira, perdoe-me por não ter lhe contado em vida..."

Hoje, antes de visitar Sayu e a mãe de Raito, Misa deixou aproximadamente duas dezenas de maçãs na sala de jantar do seu apartamento, junto a um envelope médico, com um bilhete que dizia: "Você já sabe para quem é este ultra-som...".


N/A: Eu tentei ser o mais fiel (como lhes disse antes) aos personagens, me baseei apenas nos 37 capítulos, por isso qualquer contexto fora de lugar (referente aos filmes) carece de fundamento.

BTW: muito obrigada por ler a minha versão do episódio que considerei para todos aqueles que estavam do lado de Kira. Como vocês já sabem, todas as fics são suscetíveis a melhoras, por isso podem deixar reviews para qualquer coisa: modificação, correção, se quiserem me maltratar, me elogiar, me engrandecer, me amar (brincadeira)... o que quer que seja... ali está o botãozinho para a review :D. E, finalmente, agradeço-lhes novamente por lerem parte do meu grande mundo de idéias !

Uma última nota: o horário que publiquei a fic foi entre a meia-noite e as 11:59 da manhã do dia 28 de fevereiro (horário da Guatemala).


N/T: E, a seguir, o epílogo.