O sol havia-se posto algumas horas antes quando Elia foi encaminhada para aquele que seria o seu quarto pelo tempo que ela precisasse. Palavras de Tony Stark, que ela não tinha dúvida tinham sido sugeridas por Peper, que ela tivera o prazer de conhecer durante o almoço.

O quarto era de certa forma impessoal. Amplo, com um dos lados inteiramente coberto de janelas com uma vista de cortar a respiração sobre a cidade que nunca dorme. Paredes brancas, uma grande cama de casal de design moderno, um edredão cinzento a cobrir o colchão, duas mesas de apoio de cada lado da cama com um candeeiro de metal prateado cada uma. Um grande armário embutido entreaberto, algumas roupas já o adornavam, provavelmente emprestadas por Peper e Natasha e uma área de estar em frente à cama, composta por dois sofás brancos e uma televisão LCD na parede com uma estante baixa e vazia sob esta. Um suave tapete cinza cobria grande parte do chão de flutuante negro.

Pequenos toques tinham sido adicionados para tornar a divisão mais aconchegante. Uma manta azul sobre um dos sofás. Duas grandes almofadas cinza, acompanhadas por uma mais pequena de lentejoulas prateadas e uma outra do mesmo tom de azul da manta, sobre a cama. Um vaso de orquídeas de um rosa claro numa das mesas de apoio.

Despiu as roupas que Natasha lhe havia emprestado, trocando-as por um top cinzento e uns calções pretos que encontrara no armário. Preparava-se para se deitar quando duas batidas soaram da porta do seu quarto. As suas sobrancelhas uniram-se numa expressão contrariada e um suspiro saiu-lhe pelos lábios. Contrariada dirigiu-se à porta abrindo-a apenas o suficiente para ver quem havia se entreposto entre si e o seu merecido descanso.

Não se surpreendeu com quem encontrou.

- Clint.

O arqueiro mostrou-lhe um sorriso algo que culpado.

- Só queria ver se te estavas a acomodar bem.

Resignando-se e mostrando ela própria um sorriso, abriu mais a porta e permitiu que Clint entrasse. Este, sem cerimónias sentou-se num dos sofás da zona de estar, batendo gentilmente no tecido ao seu lado indicando a Elia que se sentasse.

Ela fechou a porta e dirigiu-se para o lado daquele que, mais do que um amigo, se havia tornado um irmão ao longo dos anos.

- Eu estou bem Clint. – tentou tranquiliza-lo numa voz suave, mesmo sabendo que levaria tempo até que ele acreditasse nas suas palavras. Sabendo que levaria tempo até que ela mesma acreditasse. E talvez não houvesse tempo suficiente para que as palavras deixassem de ser uma mentira bem ensaiada na sua língua.

Um riso sem humor foi emitido pelo agente mais velho.

- Há anos que dizes que estás bem. No entanto ambos sabemos o quão mentira essas palavras são.

Porque é que ele a conhecia tão bem?

- De que adianta dizer o contrário? Não vai mudar o que aconteceu. Ou a forma como me sinto sobre isso. Dizer que quero esconder-me do mundo e chorar até não poder mais não vai ajudar-me em nada.

O braço de Clint envolveu-lhe então os ombros, puxando-a mais para si. O calor que parecia irradiar do corpo masculino fez com que Elia se aconchegasse de imediato – os seus braços rodaram o tronco largo enquanto a sua cabeça encontrou lugar sobre um dos ombros. Os seus olhos fecharam-se, o seu corpo relaxou e a sua mente, naqueles breves momentos, encontrou alguma paz, enquanto Elia se sentia, pela primeira vez em meses, em casa.

- Eu estou aqui para ti pequena. Sabes disso, certo? Não tens de fingir comigo. – ele disse-lhe suavemente. Elia sentiu que ele depositava a cabeça sobre a sua, a respiração pesada a perder-se nos seus cabelos mogno. – Eu não te estou a pedir que sorrias como se o mundo fosse cor de rosa e não tivesses de te preocupar com nada. Ambos sabemos que o mundo em que vivemos é tudo menos cor de rosa. Estou apenas a pedir-te que me deixes estar lá para ti, em vez de te fechares sobre ti mesma. Isso também não te vai ajudar em nada.

A morena optou por não responder. Os seus braços fecharam-se mais em torno de Clint, enquanto ela se permitia a um momento de vulnerabilidade. Enquanto ela permitia que ele estivesse lá para ela. Porque Elia sabia que, se havia alguém que valia a pena ter ao seu lado era Clint.

Sentiu que ele a envolvia com os dois braços num abraço apertado, retribuindo o aperto em que ela o prendera, fazendo com que Elia sorrisse genuinamente pela primeira vez no que parecia ser demasiado tempo.

- Eu protejo-te daquilo que tu não vês.

E uma lágrima escorreu pelo rosto da agente, enquanto esta se apertou mais no abraço.

- E eu a ti.

Elia não soube precisar durante quanto tempo ambos ficaram ali, no sofá, segurando-se um ao outro. Mas os seus olhos estavam vermelhos e inchados quando finalmente se separaram para que ela pudesse ir descansar. Clint ofereceu a sua companhia para a noite, ao que ela sorriu e recusou para grande frustração do amigo. Despediram-se à porta com mais um abraço e Elia ficou à porta a vê-lo afastar-se, após ter recebido um carinhoso beijo na testa, antes de recolher ao quarto novamente.

O tapete era fofo sob os seus pés enquanto se dirigia à cama. O seu corpo acolhendo de forma grata a maneira como o colchão se moldou ao si quando se deitou. Apagou a luz com o auxílio do comando que se encontrava sobre uma das mesas de apoio, fechou os olhos e entregou-se ao mundo da escuridão.

Mas então o negro tornou-se vermelho. Vermelho que adornava paredes e chão. Elia olhou freneticamente em volta, tentando orientar-se no inesperado e desconhecido espaço. O cenário começou a tomar forma, transformando-se numa sala de estar adornada por mobiliário partido. Vidros estalaram sob os seus pés, chamando a sua atenção. Ao olhar para baixo tudo o que viu foi sangue. Sangue e cabelos de um tom caramelo. Um nó formou-se na sua garganta, a cena em tudo familiar sufocando-a. Tentou recuar, mas os passos que dava não colocavam nenhum espaço entre si e o corpo no gélido chão.

Rodou sobre si própria, desesperada por encontrar uma saída. Uma dupla porta dava acesso à cozinha. Mais um corpo estendido entre as portadas abertas. Sangue acumulando-se à volta da figura masculina. E então olhos azuis olhavam-na de forma gélida penetrando e escrutinando a sua alma. O medo esmagou-a, as suas pernas cedendo sob o peso do seu corpo. Uma arma brilhou sob a luz do luar que entrava pela janela. Então Elia fechou os olhos, preparando-se para a dor que ela sabia que não viria. Oh, quantas vezes tinha ela revivido aquele momento? Quantas vezes esperou a morte que não veio?

Quando abriu os olhos não estava mais na quebrada sala de estar. O chão sob si era de cimento, sangue escorrendo pelas rachadelas da superfície demasiado maltratada. Tentou fechar novamente os olhos, tentando evitar a imagem que sabia que encontraria. Mas o seu corpo traiu-a, os seus olhos dirigindo-se para os corpos espalhados pelo espaço. Sangue acumulando-se em volta das figuras rígidas, que a olhavam de forma acusatória através de olhos vidrados e desprovidos de vida.

Porque ela não fora capaz de os salvar. Porque não fora forte o suficiente. E agora estava sozinha. Sozinha num mundo cheio de escuridão, num mundo que não conhecia compaixão. E então as lágrimas começaram a cair livremente, escorrendo pela sua face como um rio que vira retirada a barragem que o dominava.

Os seus olhos agitaram-se, percorrendo sem permissão o rosto de todos os cadáveres, reconhecendo cada um deles. E foi quando os seus olhos encontraram olhos azuis límpidos, mortos, que a sua alma se encolheu até desaparecer e um grito animalesco deixou os seus lábios.

O seu corpo estava coberto de suor quando ela foi capaz de abrir os olhos para a realidade. Músculos convulsionando, lágrimas molhando a sua face e coração tentando escapar do seu peito.

Trémula, sentou-se na cama e arrastou o seu corpo até estar encostada à cabeceira, procurando algum tipo de apoio. Os seus olhos fecharam-se enquanto as suas mãos passavam pelo rosto e se perdiam nos seus cabelos, fechando-se violentamente sobre os fios e puxando-os. A dor física aliviando momentaneamente a psicológica.

- Miss Steal. – a voz robótica da inteligência artificial criada por Tony Stark interrompeu o seu comportamento caótico, parando as suas mãos entre dolorosos puxões de mechas de cabelo mogno – Pude perceber que se encontra perto de um ataque de pânico. Devo chamar auxílio?

Elia inspirou profundamente, tentando acalmar os seus erráticos batimentos cardíacos e estabilizar a sua respiração, de modo a que as suas palavras saíssem o mais firme possível.

- Não JARVIS. – foi capaz de responder segundos depois. A suas mãos abandonando o seu cabelo e caindo pesadamente no seu colo. – Está tudo bem, obrigada.

- Se assim o deseja. Tenha uma boa noite.

E então o silêncio voltou ao quarto. Mas Elia sabia que se voltasse a fechar os olhos teria tudo menos uma boa noite. Assim, afastou as cobertas de seu corpo e colocou os pés descalços no chão, a temperatura fria da superfície acalmando a sua pele sobreaquecida. Não se preocupando em encontrar uns chinelos, fez com rapidez o caminho até a porta do seu quarto e aventurou-se pelo corredor deserto do primeiro andar de dormitórios da torre. As suaves luzes brancas acenderam-se automaticamente assim que o seu corpo passou a ombreira da porta, iluminando o caminho até ao amplo elevador. As portas de metal abrindo-se quando o seu dedo fez contacto com o botão de chamada.

A superfície espelhada das paredes do elevador mostrou-lhe uma jovem mulher de cabelo mogno desgrenhado e círculos negros sogros sob os olhos esmeralda. Com os longos dedos das suas mãos tentou dominar os rebeldes fios enquanto se encostava a uma das paredes.

- Para onde, miss Steal? – perguntou JARVIS.

- Para o andar comum, por favor.

E então o elevador moveu-se, levando-a para o espaço que ficava três andares abaixo do andar no qual se situava o seu quarto.

A sala de estar partilhada pelos Avengers encontrava-se deserta, apenas com as suaves luzes ambiente, que ficavam ligadas durante toda a noite, a iluminarem o local. Os sofás de couro preto pareciam mais do que convidativos à morena, no seu estado de exaustão, mas ela moveu-se para a esquerda, dirigindo-se à cozinha de armários de madeira negra e balcões de mármore imaculados que lhe permitiam ver o seu reflexo.

Encheu com água a cafeteira elétrica disponível em cima do balcão lateral, devolvendo-a depois à base e ligando-a. Enquanto esperava que a água aquecesse abriu alguns dos armários que se encontravam sobre a sua cabeça em busca de chá. Foi quatro portas abertas depois que encontrou duas prateleiras repletas de caixas de chá. Com tantas opções ao seu dispor foi difícil decidir qual lhe parecia o mais saboroso. Acabou por optar por um chá vermelho com sementes de girassol. Retirou uma das saquetas e colocou-a numa chávena branca. O doce e fresco aroma enchendo o ar quando acrescentou a água quente. No entanto, quando observou o tom avermelhado adquirido pela água arrependeu-se da sua escolha.

Suspirando, verteu o conteúdo na pia e colocou mais água a aquecer, resumindo depois a sua busca por um novo sabor de chá. Jasmim e pétalas de rosa pareceu-lhe uma opção segura. Foi quando retirou o pacote com as saquetas de chá do armário que o barulho de passos a sobressaltou.

Numa ação reflexo, ainda com o corpo ligeiramente trémulo e a mente nublada, retirou rapidamente uma faca do suporte que se encontrava à sua direita e virou-se para o seu possível atacante, adquirindo uma posição de ataque.

O seu corpo relaxou quando encontrou à sua frente um surpreendido Steve Rogers, que recuou dois passos perante a ação súbita da agente. Esta, algo que envergonhada, recuou, voltando-se novamente para o balcão e devolvendo a faca ao suporte.

- Peço desculpa Capitão. – optou por dizer num tom baixo, não encarando o super soldado.

- Está tudo bem. Eu é que peço desculpa, não era minha intenção assustá-la. – ouviu-o dizer atrás de si – Noite difícil?

Um fraco sorriso agraciou os lábios de Elia enquanto olhava a água começar a ferver dentro da cafeteira.

- Algo parecido.

-Há demónios que apenas caçam à noite.

A frase do Capitão surpreendeu-a, criando um momento de silêncio que foi quebrado pelo borbulhar de água quente.

- Chá? – perguntou – Jasmim e pétalas de rosa, não sei se é do seu agrado…

- Aceito uma chávena, obrigada.

Preparou então duas chávenas, colocando um saco de chá em cada uma e enchendo-as com água fumegante. Deixou que o chá difundisse durante algum tempo antes de pegar nas chávenas e se virar na direção do balcão que ocupava quase todo o centro da cozinha.

Steve já se encontrava sentado num dos altos bancos e Elia reparou pela primeira vez nos olhos ligeiramente inchados, na sombra sobre estes e nos fios revoltos de cabelo loiro que adornavam a cabeça do soldado.

Ofereceu-lhe um pequeno sorriso enquanto colocava uma das chávenas em frente a ele.

- Noite difícil, Capitão? – retribuiu a pergunta, arrancando-lhe um pequeno sorriso em retorno. Um sorriso que não atingiu os olhos azuis exaustos, que revelavam tantos ou mais demónios do que aqueles que assombravam Elia.

- Algo parecido. – ele respondeu-lhe – E Steve é suficiente.

Elia acabou por soltar uma pequena risada.

- Apenas se me tratares por Elia. Acho adequado, uma vez que parece que vamos ser companheiros de casa durante algum tempo.

Mais uma vez o loiro sorriu. Elia observou-o levantar a chávena e soprar o seu conteúdo, antes de levar a fina porcelana branca aos lábios, enquanto se recostava no balcão atrás de si. Contemplou o conteúdo da sua própria chávena durante um longo minuto, ponderando a sua próxima frase cuidadosamente.

- Às vezes, quando lutamos contra os demónios que circulam o mundo estamos destinados a trazer alguns connosco. – disse suavemente, ainda com os seus olhos treinados no líquido quente que estava ainda por provar – E de noite, quando estamos mais vulneráveis, eles parecem maiores e mais assustadores de alguma forma. – olhou então para Steve, que tinha toda a sua atenção depositada na sua pequena forma encostada descuidadamente ao balcão revestido de pedra mármore.

- É parte do trabalho. – respondeu-lhe ele cuidadosamente. – A parte não tão bonita.

Seguiu-se outro momento de silêncio, um que Elia aproveitou para apreciar o seu chá pela primeira vez. O doce sabor encheu a sua boca, o líquido quente reconfortando-a quando passou pela sua garganta, os seus músculos e mente relaxando um pouco. Colocou então a chávena no balcão e, usando os seus braços para se elevar, sentou-se no balcão ao qual estava encostada.

- O que é que vês quando olhas para as tuas mãos? – observou a expressão de Steve moldar-se em surpresa. Envolveu a chávena com as duas mãos, apreciando o calor que se espalhou pela sua pele. – Cada vez que eu olho para as minhas eu vejo sangue. – tomou mais um momento, analisando a expressão no rosto do super soldado, falhando em ler a sua expressão, o que de certa forma a inquietou. – Eu comecei como sniper. A minha primeira missão foi colocar-me num local isolado e atirar sobre um homem. Quarenta anos, calvo, com um bigode que denunciava alguns pelos brancos. Traficante de armas e suspeito de tráfico humano.

- Não parece um homem simpático.

Elia riu-se perante o comentário.

- Não era. – tomou mais um gole do seu chá, observando o capitão fazer o mesmo – Quando estamos a ser treinados na academia eles dizem-nos que a parte mais difícil é apertar o gatilho. Mas quando finalmente estamos no terreno acabamos por perceber que apertar o gatilho é a parte mais fácil. Difícil é esperar pelo dia em que nos vamos arrepender de o ter feito.

- Alguma vez te arrependeste?

Elia sorriu sem qualquer tipo de humor.

- Não. Apenas me arrependi de não o ter feito mais cedo. – respondeu, vendo entendimento passar pelos olhos de Steve. – Isso faz de mim uma má pessoa? – acabou por perguntar com sinceridade.

- Não. Isso faz de ti humana. Uma humana com demónios às suas costas, mas ainda assim, humana.

Acabaram por ambos ficar mais uma hora na cozinha, conversando sobre assuntos mais leves enquanto Elia preparava para ambos outra chávena de chá. Quando voltou a encontrar a sua cama, acolheu a escuridão com gratidão, aproveitando as poucas horas de sono que tinha pela frente.

Quando acordou, a céu estava cor de laranja e um peso adicional pressionava as suas costas.

- Horas de acordar Bela Adormecida.

A morena resmungou sob a sua respiração, mentalmente amaldiçoando de todas as maneiras que a sua sonolenta mente podia pensar a pessoa que a despertara tão rudemente. Com toda a energia que conseguiu reunir no seu corpo cansado, elevou as suas costas abruptamente, enviando o peso adicional sobre a cama e recebendo, de forma satisfatória, uma exclamação de dor.

- Isto era mesmo necessário?

- Tu sabes que eu não sou uma pessoa matinal Nat.

- Yup, sem brincadeira!

Elia suspirou enquanto se voltava na cama, colocando as costas sobre o colchão e tapando a cara com a almofada que outrora dera suporte à sua cabeça.

- O que é que se passa?

- As tuas coisas, que eu e o Clint tínhamos guardado no armazém, chegaram. Definitivamente estás a precisar de roupas novas.

A informação fez Elia sentar-se abruptamente na cama. Almofada caindo algures ao seu lado.

- Tu vasculhaste as minhas coisas? – perguntou incrédula enquanto observava a ruiva. Ruiva essa que tinha um sorriso muito aberto e muito travesso para aquela hora da manhã.

- Claro que vasculhei as tuas coisas! Infelizmente não temos tempo de ir às compras, então vamos ter de encontrar algo adequado para a festa nas tuas coisas. E eu acho que em último recurso te posso emprestar alguma coisa.

Confusão apoderou-se da agente mais nova.

- Festa? Que festa?