As vitórias, barreiras e obstáculos que alcançamos, ultrapassamos e vencemos ao longo da nossa efémera e bela passagem pela vida e pelo mundo terreno, devem ser frescas, dignas, repletas de bondade, nobreza, honra e valentia, não tendo em mente o fracasso nem a humilhação de outrem. As nossas reais e difíceis lutas e provações localizam-se no nosso interior, no nosso coração, no nosso espírito e no nosso intelecto, essas vitórias de facto é que valem a pena, fazem-nos crescer espiritualmente, adoçam o nosso coração e tornam as nossas ações repletas de pureza e dignidade, transformando-nos em seres humanos que viajam incondicionalmente através do quente e maravilhoso mundo da paz, da luz e do amor. Ângela travou diversas e penosas batalhas contra o seu teimoso e ingénuo coração, durante três longos e amaldiçoados anos de treino nas tenebrosas e lindas terras geladas de Bluegard, contudo cortou corajosamente as grossas algas que a impediam de prosseguir o seu caminho de amazona de Bronze. Agora ao sabor dos frescos e encorajadores ventos da mudança viaja até ao antigo santuário de Atena, deixando para trás o reino de linho branco e os beijos de brisas de pétalas, onde o seu passado esquecido e misterioso se envolve perdidamente com o fumo enevoado de prata fina e desconhecida que cobre a graciosa aldeia branca, para abraçar carinhosamente as sábias e ternas planícies gregas, reino da civilização e do pleno conhecimento.

A linda ruiva sentada num pequeno banquinho de madeira polida, embalada pelos solavancos da carruagem, emaranhava-se feliz no meio de milhares de fios de linha coloridos, tricotando habilmente diversas pulseiras feitas de fios de arco-íris e paixão, por vezes lançava um pequeno olhar a sua armadura que silenciosa e calma a observava do fundo da sua antiguidade magnifica e imponente, fazendo lembrar as inúmeras relíquias geladas que adormecidas acompanham a velha e hostil Sibéria na sua longa e fria travessia através dos séculos solitários. Kardia de escorpião comia deliciado uma maçã muito vermelha e suculenta, tecendo alguns comentários minuto sim, minuto não, quebrando o ressoar imaculado do silêncio imperfeito. Dégel de Aquário afundava-se confortavelmente num mar de letras miudinhas e desalinhadas, escritas provavelmente à pressa por alguém cuja mão já tremia com a idade avançada e impiedosa.

- Estamos a chegar Senhor Dégel! – Exclamou a amazona de Cisne, terminando uma linda bracelete cor de esperança.

- Ainda bem, acho que estou um pouco enjoado, bolas! – Reclamou Kardia, esfregando o estômago revolto.

- A culpa é exclusivamente tua, quantas maçãs comeste desde que partimos? – Censurou o Aquário, enrolando delicadamente o seu tesouro intelectual.

- Bem, algumas, não muitas, isso posso garantir. – Respondeu o dourado de escorpião.

- Claro que não, tu devoraste um cesto inteiro, mas foram apenas algumas, sim, sim! – Retaliou a amazona, mostrando um grande cesto de verga castanha completamente vazio. – Estava cheio, fui eu própria que coloquei a fruta, por isso não me venhas com histórias da treta. – Disse Ângela sem misericórdia.

- Não estava nada cheio. – Defendeu-se o cavaleiro com a sua habitual pele bronzeada bastante pálida e fantasmagórica. – Oh Dégel porque é que não deixámos esta miúda impertinente lá em Bluegard, ela nunca me vai facilitar a vida? – Perguntou Kardia adoptando um tom infantil.

- Calem-se os dois. Nem a alma mais santa aguenta estas discussões sem sentido, façam-me um favor e cresçam de uma vez por todas. – Pediu o jovem aristocrata desesperado, erguendo-se e preparando-se para sair da carruagem seguido pelos dois combatentes da teimosia.

O Escorpião correu rapidamente até ao seu templo, tentando manter a maior distância possível daquela miúda infernal que fazia o seu angelical coração arder de raiva. Dégel acompanhou a sua aluna até uma pequena e aconchegante casinha, pintada de branco muito limpo e brilhante.

- A partir de hoje esta será a tua casa. – Anunciou o Aquário, com a fria tristeza a rasgar-lhe o coração, abrindo a porta castanha e convidativa.

- Obrigada, mestre Dégel, ela é fantástica! – Agradeceu a linda amazona, deparando-se com uma lareirazinha acolhedora decorando um dos cantos da minúscula saleta. – Gostava de encontrar o Régulos. – Murmurou Ângela recordando seu amigo.

- Ângela agora que abitas o santuário e o coração da Deusa Atena, lembra-te das tuas obrigações, deveres e prioridades, só então a diversão tem lugar na tua mente, espero que tenhas consciência de que a tua vida mudou radicalmente, não falhes por favor. – Preveniu o Aquário duramente, olhando nas profundezas azuis daquela jovem.

- Eu sei disso senhor Dégel, não preciso de mais recomendações obrigada. – Respondeu a linda ruiva de forma orgulhosa e convicta das suas infindáveis capacidades.

- Espero que saibas. – Disse Dégel. – Bem vemo-nos por aí amazona de Cisne. – Despediu-se com um gesto automático sem vida nem energia.

- Só uma última pergunta, sou a única amazona neste santuário? – Perguntou Ângela esperançada.

- Brevemente descobrirás, procura e logo encontrarás a tua resposta. – Respondeu Dégel saindo apressadamente pela porta ainda aberta.

- Que cavaleiro mais casmurro poças! – Exclamou a jovem entredentes, vendo o Aquário afastar-se rumo às doze casas zodiacais, embrenhando-se por fim na paz e calma que emanava das suas profundezas sagradas.

A jovem amazona percorreu com atenção a sua nova e deserta casa, passando pelo quarto, onde reinava a simplicidade, depois pela cozinha, onde um bolo de frutas repousava sossegado num prato de porcelana rachada, voltando de novo à saleta para comer uma fatia daquela iguaria dos Deuses.

Algumas horas mais tarde, várias pancadinhas suaves mas enérgicas bateram à porta, captando a atenção da jovem que se afundava num pesado livro sobre as diversas e fascinantes civilizações que caminharam sobre o globo, ganhara o hábito e o prazer pela leitura pelo convívio com o seu mestre.

- Entre está aberta. – Respondeu em voz ensonada, retomando da sua viagem ao mundo disciplinado e extremamente organizado dos romanos, onde a palavra de ordem era Utilitarismo.

- Não acredito, és mesmo tu miúda! – Exclamou um jovem radiante, correndo para a sua amiga, abraçando-a com força junto do seu peito.

- Régulos, nem acredito que estás aqui! Tinha tantas saudades tuas! – Exclamou Ângela, beijando carinhosamente a face do jovem leão de ouro.

- Estás linda! – Reparou o jovem cavaleiro, olhando o atraente rosto da Cisne de Bronze, mergulhando naquelas profundezas marinhas, doces e melosas, perdendo-se naquelas labaredas infinitas e flamejantes, afogando-se naquele sorriso ternurento repleto de bondade.

- Tu também não estás nada mal. – Disse Ângela sorrindo de felicidade, servindo uma parcela do seu bolo a Régulos que a aceitou prontamente, saboreando cada cristalizada frutinha do bosque.

- Vamos dar um passeio, o Aldebaran certamente gostará de te ver. – Sugeriu o Leão, pegando na mão da sua amiga como se ambos ainda fossem duas crianças, contudo Ângela não se importou, gostava realmente de Régulos.

Juntos caminharam felizes pelos terrenos do santuário, sorrindo, saltando, cumprimentando algumas pessoas que com eles se cruzavam, correndo atrás das cegonhas, chapinhando num pequeno riacho muito fresco e transparente, em fim a liberdade e a felicidade percorria os seus corações e espíritos baloiçando até ao infinito da imaginação e do surreal.

- Foi neste jardim que nos conhecemos, lembras-te? – Perguntou Ângela sentada junto de uma maravilhosa cascata.

- Claro que me lembro. – Respondeu o Leão de Ouro perdido na nostalgia contagiante e cintilante. – Olha quem vem ali! – Disse alegremente, apontando para uma enorme sombra que deambulava entre a vegetação e as dançantes flores cheirosas e coloridas.

- Senhor Aldebaran! – Gritou Ângela correndo para os braços do generoso Touro, todavia os olhos analíticos do Felino pousaram sobre uma figura que se mascarava com o imenso tamanho do cavaleiro.

- Bem-vinda de novo minha querida, bem-vinda! Dá cá um abraço ao tio Aldebaran! – Pediu o amável senhor, tomando a linda jovem nos seus protetores braços de carinho. – Como tu cresceste pequena Ângela! – Comentou energeticamente, passando a sua descumunal mão pelos volumosos cabelos de fogo. – Régulos meu rapaz o que se passa contigo? – Perguntou, vendo o ar interrogativo esculpido no lindo rosto do defensor da quinta casa da paz e da justiça.

- Quem é ela? – Questionou finalmente, apontando para uma jovem escondida por trás do Touro Dourado, chamando a atenção da amazona de Cisne que só então reparara.

- Ah! Quase que me esquecia. Esta é a Bianca, minha aprendiza e amazona de bronze de Leão Menor. – Apresentou, puxando uma jovem loura muito bonita com uns brilhantes olhos verdes a dançaram no seu rosto requintado.

- Olá Bianca! – Saudou educadamente Ângela, feliz por encontrar tão rapidamente a sua resposta ansiada.

- Olá aos dois! – Respondeu Bianca, olhando Régulos e a sua brilhante armadura com admiração.

- Fico feliz por se terem conhecido, acho que podem ser amigas! – Sugeriu Aldebaran maravilhado com aquela ideia fenomenal.

- Sim, acho que sim! – Assentiram as duas raparigas.

- Ângela está na hora do recolher, é melhor irmos andando. – Preveniu Régulos, vislumbrando o sol escondendo-se com as nuvens pintadas de vermelho.

- Gosto do teu sentido de responsabilidade meu jovem cavaleiro de Leão, se o teu pai te pudesse ver certamente teria um enorme orgulho em ti. – Elogiou o Touro pensativo, recordando com pesar o seu grande herói e amigo Ilias de Leão, a estrela mais brilhante e corajosa que plana no universo.

Régulos levou Ângela a casa, depois seguiu para seu templo repleto de calor e um delicioso cheirinho a comida quentinha e com certeza deliciosa. A jovem jantou sozinha, lembrando os magníficos e avantajados jantares na mansão senhorial situada na graciosa Bluegard. Quando terminou a sua solitária refeição, pegou o mesmo livro intitulado, " Civilizações do mundo e os seus legados", levou um banquinho e sentou-se a saborear os deliciosos raios de luar de mel e saudade, imergindo nas lendas romanas.

De súbito, o coração de Ângela disparou com uma força aterradora, com o impulso, o seu precioso exemplar caiu ao chão com estrondo. Um cheiro de puras rosas inundava o ar, deslizando através da beleza cativante e silenciosa de Albafica de Peixes.

- Boa noite Albafica! – Disse a ruiva num murmúrio pouco audível, mascarado pela emoção.

- Boa noite. – Respondeu o belo cavaleiro com indiferença, seguindo o seu perfumado caminho, deixando nas suas costas a esperança de uma paixão quase impossível desenhada no peito da amazona de Cisne.

Ângela recolheu ao acolhedor interior da sua casa, mergulhando naquela beleza mágica, intransponível, intocável, sonhadora. O seu passado continuava distante, imerso em escuridão, nevoeiro e gelo, longe e inalcançável, perdido e roubado pelos Deuses egoístas e injustos, porém os últimos três anos brilhavam nos seus olhos azuis como estrelas flamejantes que cruzam a misticidade da neve e o desespero do destino, escondido por um manto de linho amaldiçoado, apenas as correntes da paixão ardente que nutre por Albafica de Peixes enfrentam a mágoa e a injustiça do gelo. Ângela embalada pelas sagradas asas do Cisne aterrou na sua cama com plena consciência que a sua tarefa não iria ser fácil.

Qual o papel de Bianca na vida de Ângela? O que as separa? O que as une?