Rolei na cama antes de me levantar e esfreguei os olhos com a claridade que vazava por entre as frestas da janela. Me debrucei para fora e peguei meu celular no chão, jogado em cima da camiseta que eu estava usando ontem, e encontrei uma mensagem não lida da minha mãe, enviada hoje às 7 da manhã e dizendo que tudo bem eu ficar para dormir na casa dos meus amigos. O relógio me dizia que já passava um pouco das onze da manhã e a casa silenciosa indicava que Tia Molly e Tio Arthur já haviam saído para algum lugar.
Joguei as pernas para fora da cama e me espreguicei antes de vestir a calça jeans que também estava no chão. Não me importei em calçar os sapatos ou vestir a camiseta e me encaminhei ao banheiro que havia ao lado do quarto do Ron, onde dormi aproveitando sua ausência. Meu próximo destino era a porta do outro lado do corredor, que eu abri já sabendo que seria inútil bater e anunciar minha chegada.
-Bom dia! - Cumprimentei quando acendi a luz e me joguei deitado nos pés da cama de Ginny para acordá-la. - Hora de levantar.
Ela estava deitada de bruços e se virou devagar para cima enquanto resmungava algo que não consegui entender.
-Acordar para que? - Perguntou puxando o edredom e cobrindo o rosto.
-Para tomar café comigo. - Falei enquanto puxava sua coberta e o descobria de novo. - Já é quase meio dia.
-Convide minha mãe, ela adora tomar café com as visitas. - Recusou e se virou novamente para fugir da claridade.
-Então ela não deve gostar de mim, ou não me considera mais uma visita, porque saiu.
-Nem eu gosto das pessoas que me acordam, Harry. - Comentou ainda sonolenta. - Cadê o Ron?
-Acho que ainda não chegou.
Esperei que ela se mexesse e isso não aconteceu, então me manifestei de novo.
-Vamos, levante. - Pedi sacudindo um pouco sua perna.
-Tá, já vou. - Respondeu sem se mexer. - Saia para que eu me levante.
-Não, você vai dormir de novo. - Neguei rindo, pois eu já conhecia esse truque.
-Anda, Harry. Estou só de camiseta. - Insistiu, ainda na mesma posição e sem dar sinais de que iria se mexer.
-Entendo que seja decepcionante para você, mas não estou interessado em olhar. - Zombei e ela riu um pouco antes de finalmente se virar.
-Cara chato. - Reclamou. - E folgado. - Completou quando viu que eu estava confortavelmente deitado logo abaixo de seus pés. - Vou ao banheiro e já volto.
Esperei onde estava enquanto ela se levantava da cama vestindo apenas uma camiseta larga que terminava logo abaixo do bumbum e se dirigia ao banheiro ao lado de seu quarto, de onde retornou usando também um short.
-Vem. - Chamou parada na porta e eu me levantei para acompanhá-la até a cozinha.
A casa onde eles moravam era a mesma que eu frequentava desde criança, então tudo era quase tão familiar para mim quanto para eles. Ela foi direto à geladeira, de onde voltou com um pote de geleia e uma caixa de leite, e eu me encostei na pia para ela passar por mim e deixar tudo sobre a pequena mesa no centro do cômodo.
-Quer panquecas? - Perguntei quando ela foi novamente até os armários.
-Quero. - Aceitou e se virou para mim com duas xícaras nas mãos. - Pega os pratos atrás de você, por favor.
Fiz o que ela pediu e preparei nosso desjejum enquanto jogava conversa fora. Ginny fez café suficiente para nós dois e nos sentamos com uma pilha de panquecas quentes e duas xícaras cheias entre nós.
-Essas panquecas são incríveis. - Elogiou passando um pouco de geleia no segundo pedaço.
-Obrigado, mas tudo que eu faço é incrível. - Contestei convencido.
-É por isso que ninguém nunca te elogia, Harry, você sempre faz isso sozinho.
-Quem disse que ninguém me elogia? - Questionei cético e ela riu.
-As pessoas que te conhecem direito, pelo menos, já devem saber que fazer isso é meio perda de tempo.
-Sua mãe me elogia com frequência. E ela me conhece muito bem. - Defendi meu ponto de vista.
-Mães não contam.
-E por que não?
-Sua mãe também sempre elogia o Rony. Quer motivo melhor que esse? - Argumentou, muito convincente.
-Verdade, mãe não conta. - Concordei e ela acenou enquanto mastigava, de um jeito que diz claramente "como eu disse".
Comemos em silêncio por alguns minutos até que eu me lembrei de algo sobre o que deveríamos ter conversado ontem e acabamos esquecendo:
-Falou com a Luna? - Perguntei e ela me olhou confusa. - Sobre a viagem. - Esclareci.
-Ah, sim. Ainda não falei, vou encontrá-la na terça e confirmo. Mas não estava já tudo certo?
-Ela me disse que provavelmente estaria livre, mas que iria confirmar na semana passada. - Informei enquanto ela tomava um gole de sua bebida.
-Se ela não puder, vamos só nós três. - Opinou dando de ombros.
-Claro, mas precisamos comprar as coisas para levar, então é bom saber ao certo quantas pessoas serão. - Expliquei e ela assentiu.
-Eu faço as compras depois que falar com ela, não tenho nada para fazer essa semana mesmo. - Se ofereceu.
-Nenhuma resposta ainda? - Quis saber, me referindo à sua busca por um consultório que a contratasse para exercer a profissão.
-Nada. Acho que eles ficam relutantes porque eu acabei de terminar a faculdade, e também aqui não tem muitas opções. - Explicou e eu concordei. - Meu pai se ofereceu para abrir um consultório para mim na capital, naquele prédio onde ele tem as salas comerciais.
-Me lembro onde é. E por que você não aceitou? É uma oportunidade e tanto para começar a carreira. - Opinei, impressionado com a oferta.
Apesar de ficar apenas há uma hora de carro da capital, nossa cidade não oferecia muitas oportunidades para algumas profissões. Arquitetura era uma delas, mas eu tive sorte e consegui um emprego legal na unidade local de um escritório bem conhecido por lá.
-Eu não disse que não, só que vou esperar mais um pouco e ver se realmente não consigo nada por minha própria conta aqui na cidade mesmo. - Justificou sua negativa.
-Entendi. Mas é seu pai, Ginny, não há nada demais em aceitar. - Argumentei não vendo muito sentido em sua relutância.
-Eu sei que não, só que antes eu quero tentar sozinha, sem ajuda de ninguém. - Explicou com paciência.
-Muito honrado. Nem parece você. - Desdenhei e ela me jogou um guardanapo.
-Idiota. - Me ofendeu enquanto eu ria.
Ouvimos o barulho da porta sendo destrancada e momentos depois a voz de Ron chamou da sala:
-Gi?
-Na cozinha. - Respondeu alto o suficiente para que ele ouvisse.
Escutamos seus passos no chão de madeira e ele entrou sorridente no ambiente para nos fazer companhia.
-Bom dia, pessoal. - Cumprimentou muito feliz, com um sorriso no rosto, e puxou a caneca de Ginny para ele, dando um gole antes de colocá-la na mesa.
-Bom dia. - Ela respondeu enquanto puxava sua bebida de volta para ela.
Quando ela fez isso ele se virou e pegou a minha, também bebendo um pouco.
-Devolva. - Ordenei reavendo meu café.
-Vocês estão muito egoístas hoje. - Comentou se acomodando na cadeira e pescando uma panqueca do centro da mesa. - E o que você já está fazendo aqui essa hora?
-Dormi aqui. - Expliquei e ele assentiu. - E se eu babei no seu lençol me desculpe.
Ginny me acompanhou na risada enquanto ele fazia uma cara de nojo teatral.
-E a sua noite, Roniquinho, como foi? - Ela perguntou irônica.
-Muito melhor que a de vocês, tenho certeza. - Respondeu com superioridade e nós dois reviramos os olhos com desdém. - Minha noite foi memorável.
-Tomara que a dela também tenha sido. - Ginny alfinetou e nós dois rimos novamente.
-Bem, trocamos telefone e já marcamos o próximo encontro. Então acho que a dela também foi. - Defendeu-se mostrando o celular para dar mais credibilidade ao fato.
-Que orgulho! - Ela comentou irônica.
-E como é o nome da moça? - Perguntei mantendo o assunto.
-Hermione.
-Como? - Ginny e eu perguntamos juntos e com o cenho franzido.
-Hermione. - Respondeu rindo um pouco. - Não é tão estranho, vai. - Defendeu.
-Não é mais estranho que você defendê-la, realmente. - Comentei e os dois riram.
-E quando é o próximo encontro?
-Sábado que vem.
-No dia da nossa viagem? - Ginny questionou com a sobrancelha arqueada, como um desafio.
-É aniversário dela, e fui convidado. Não pude falar não. - Justificou-se dando de ombros.
-Mas a gente já tinha combinado isso há semanas. - Argumentei e ele me olhou como quem se desculpa.
-Não precisam desmarcar pro mim. Eu sei que comigo seria bem mais legal, mas vão os três. - Opinou sendo convencido.
-Mas é claro que vamos, ou você acha que a gente vai perder o final de semana porque você está de quatro pela moça do nome estranho? - Ginny confirmou e eu acenei concordando.
-Onde estão papai e mamãe? - Perguntou à irmã, mudando de repente o foco da conversa.
-Não sei, quando acordamos eles já tinham saído.
Ele assentiu antes de se levantar e se virar.
-Ok, vou dormir um pouco.
Sem nos dar tempo de responder saiu da cozinha e nos deixou sozinhos novamente.
Ginny e eu terminamos nossa refeição sem pressa em meio a uma conversa agradável, e nos despedimos alguns minutos depois quando ela me acompanhou até a garagem para que eu fosse embora. Cheguei em casa e encontrei meus pais deitados juntos no sofá da sala assistindo um filme, assim apenas me livrei dos sapatos e me juntei a eles para aproveitar o resto do domingo.
Na terça-feira pela tarde continuei sentado na sala de reuniões anotando os primeiros detalhes do projeto que tinham acabado de me passar quando senti meu celular vibrar no bolso da calça e o display indicar que era Ginny me ligando. Aproveitei que todos já haviam saído da sala e levei o aparelho ao ouvido.
-Oi, Gi.
-Oi, Harry. - Cumprimentou e pelo barulho em volta ela provavelmente estava em algum lugar movimentado. - Acabei de me encontrar com a Luna, ela disse que não vai.
-Por que? - Perguntei interessado e parei de escrever para esperar sua resposta.
-Aconteceu algum problema na empresa, algo assim, e ela vai precisar trabalhar. - Se lamentou enquanto me respondia.
-Justo essa semana, já tínhamos combinado tudo. - Também me lamentei. - E agora, já era o final de semana?
-Acho que sim. E meus pais recusaram alugar a casa para um aniversário por causa disso. - Comentou e eu ouvi a porta do carro bater e o barulho em volta cessar.
-Então vamos nós dois. - Sugeri, me encostando mais confortável na cadeira e mudando o celular de mão. - O que acha? Já estava tudo certo mesmo, pelo menos não desperdiçamos o final de semana.
-É, acho que é uma boa ideia. - Comentou pensativa. - Por mim tudo bem, e assim nos divertimos também. - Decidiu por fim. - Já que vamos mesmo assim eu passo no mercado e compro as coisas para levarmos.
-Ok, se precisar de ajuda me liga. - Ofereci.
-Quer algo em especial? - Questionou e eu escutei o carro sendo ligado.
-Não que eu me lembre, compre as mesmas coisas de sempre. - Neguei ao mesmo tempo em que um colega acenou para mim de fora do corredor, me chamando. - Estão me chamando e preciso ir, Ginny.
-Ok, me liga quando der para combinarmos os horários. Beijos. - Se despediu.
-Te ligo a noite, beijos. - Confirmei e desliguei o telefone, voltando ao trabalho.
Liguei de volta para ela quando cheguei em casa e combinamos de que na sexta-feira eu sairia do trabalho direto para sua casa para viajarmos no mesmo dia e passar o final de semana inteiro nas montanhas. A cidade era bastante turística, e apesar da baixa temporada os finais de semana por lá sempre eram divertidos e animados, mesmo com o clima frio quase constante.
No dia marcado me despedi dos meus pais pela manhã avisando que estaria de volta no domingo a noite, informei onde e com quem estaria, e fui para o trabalho com minha mochila de roupas já devidamente guardada no porta malas do carro. Saí do escritório alguns minutos antes do meu horário normal e cheguei à casa de Ginny um pouco mais cedo do que o combinado, então é claro que ela ainda não estava pronta.
-Oi, Tia Molly. - Cumprimentei quando sua mãe abriu a porta para me receber.
-Olá, querido. Como vai? - Retribuiu meu abraço e me convidou para entrar.
Conversamos por uns cinco minutos antes de Ginny aparecer na sala com uma mochila jogada nos ombros e os cabelos soltos.
-Oi, Harry. - Cumprimentou sem me olhar direito e já se dirigindo à mãe, sentada ao meu lado. - Mamãe, onde estão as chaves da casa?
-Na primeira gaveta do escritório, deixa que eu pego para você. - Se ofereceu e me pediu licença antes de sair.
-Quer ajuda com a mochila? - Perguntei, mas sem me levantar do sofá.
-Não precisa, só me ajuda a levar as coisas que comprei para o carro.
A acompanhei até a cozinha e me espantei com a quantidade de sacolas sobre a mesa.
-Você fez compras para um mês? - Perguntei irônico, mas ela pareceu não perceber meu tom.
-Não, só comprei algumas coisas diferentes para comer. Você e Ron acham que todo mundo consegue viver só de Doritos e Gatorade. - Deu de ombros pegando metade das sacolas e deixando o restante para mim.
-Ron saiu? - Perguntei enquanto descia os degraus em direção à garagem.
-Sim, disse que sairia com o pessoal do escritório hoje.
Acomodamos tudo no banco traseiro do carro e voltamos para pegar as chaves e sua mochila que haviam ficado na sala.
-Aqui. - Tia Molly ofereceu a ela um molho contendo algumas chaves. - Todas as chaves de lá. Não se esqueçam de trancar tudo quando saírem. E me avisem quando chegar.
-Fique tranquila, mamãe, trancaremos tudo e ligaremos para você. - Se despediu da mãe com um abraço e se afastou para que eu fizesse o mesmo.
-Tchau, querido. E dirija com cuidado. - Recomendou quando me abraçou brevemente e se virou para nos acompanhar até o lado de fora da casa.
-Eu escolho a música. - Ginny determinou enquanto caminhávamos até o veículo estacionado em frente.
-Nem pensar, seu gosto é péssimo. - Neguei categoricamente.
Nos acomodamos nos bancos dianteiros do meu carro enquanto ela argumentava minha negativa e acenamos para sua mãe, que retribuiu o gesto. Liguei o som e selecionei a pasta do meu pen drive que tocaria nas duas horas e meia de estrada que se estendia a nossa frente, e rumamos para nossa viagem de final de semana.
