A sexta feira logo após meu jantar com Ron e Ginny era feriado em nossa cidade e, como já combinado há pouco menos de um mês, fiz uma viagem curta de três dias com meus pais para a cidade onde moravam meus avós maternos. O passeio foi bastante divertido e fez valer as quase dez horas que passamos dentro do carro, somando-se ida e volta, considerando que a comida de minha avó continuava tão deliciosa quanto quando eu era criança e meu primo Duda ainda era engraçado como nessa mesma época.
A semana seguinte passou devagar, e a única novidade que tivemos foi quando na quinta-feira agendaram uma reunião com todos da empresa para o dia seguinte de manhã. O assunto não foi divulgado, mas os rumores correram mesmo assim. Não pensei muito nisso e continuei o que estava fazendo, respondendo a alguns e-mails mais antigos.
No dia seguinte cheguei no horário marcado e fui direto para nossa maior sala de reuniões, onde algumas pessoas já estavam acomodadas. Me sentei ao lado de Jefrey e esperamos até que McGonagall, diretora da filial, iniciasse seu discurso, alguns minutos mais tarde.
Em suma, as fofocas eram verdadeiras e as operações em nossa cidade seriam reduzidas em 30%, ao passo que o escritório na capital absorveria os funcionários daqui, visto a alta sofrida na demanda nos últimos meses. Não havia intenção de dispensar ninguém, e como a quantidade de clientes especiais era maior na outra filial, eles iniciariam imediatamente a avaliação dos convidados a transferência com base nos projetos mais bem aceitos do último ano. Como bem explicado, poderíamos negar caso não fosse de nosso interesse ser transferidos, mas é importante saber que lá existem maiores possibilidades de crescimento. O prazo para conclusão da transição e início dos transferidos na outra unidade seria de aproximadamente seis meses.
-É uma oportunidade boa, não acha? - Jefrey me perguntou a caminho de nossas mesas.
-Com certeza, mas se fosse convidado eu não sei se aceitaria. - Fui sincero ao responder.
-Eu não aceitaria, porque acredito que Anna não iria querer deixar o emprego dela aqui e ir para lá com as crianças, longe da nossa família e em um lugar onde eles não podem crescer tão livres. - Explicou, referindo-se à mulher e aos três filhos. - Mas no seu caso, solteiro ainda e sem ninguém que te prenda, eu não pensaria duas vezes.
-Não sei, ainda não pensei sobre isso. E também não acredito que serei convidado, então não há por que me preocupar. - Afirmei encerrando o assunto e me voltando para minhas tarefas.
Cheguei em casa e encontrei meus pais ainda tomando café da tarde juntos na cozinha, rindo sobre algo dito antes que eu entrasse.
-Oi, meu amor. - Minha mãe cumprimentou assim que me viu.
-Oi, mãe. - Retribui e me abaixei para beijar seu rosto. - Oi,pai. - Fiz o mesmo com ele, sentado do outro lado da pequena mesa.
-Oi, Harry.
-Chegou cedo hoje. - Ela comentou quando deixei minha mochila no chão e me sentei com eles. - Quer um pouco de café?
-Quero, por favor. - Aceitei e me levantei para pegar uma caneca no armário. - As coisas estão mais calmas essa semana.
-Que bom. - Meu pai comentou enquanto eu me servia.
-Mas acho que fechei outro projeto hoje, vou confirmar na segunda. Se der certo, terei bastante trabalho para os próximos dois meses.
-Isso é ótimo, filho. Tenho certeza que dará certo. - Minha mãe desejou e fez um carinho na minha mão.
-Tivemos uma reunião hoje sobre a mudança, e é verdade. Vai acontecer em seis meses. - Contei a eles, que me olharam com mais atenção.
-E você vai? - Ela me perguntou imediatamente.
-Não sei ainda, eles estão avaliando o desempenho de todos e pelo que entendi os melhores serão convidados. Trinta por cento dos funcionários serão transferidos e eles disseram que será um convite aberto e haverá possibilidade de negar. - Expliquei e eles me olharam com atenção. - De qualquer forma, acho que nem serei convidado, então não terei que me preocupar.
-Se estão levando os melhores é claro que você vai. - Meu pai afirmou, se manifestando pela primeira vez, e eu o olhei em dúvida. - Você sempre nos disse que seus projetos são muito bem aceitos, não faz sentido que você não vá.
-Mas você pode negar. - Minha mãe disse, como quem espera que aquela seja minha resposta.
-E por que ele negaria, Lily? As possibilidades que ele teria lá não se comparam com as daqui.
-Pois eu acho que ele tem possibilidades ótimas aqui, não preciso desejar que nosso filho vá embora. - Ela se defendeu categoricamente.
-Querida, fica a menos de uma hora daqui e eu acho que seria ótimo para ele. - Meu pai explicou e ela negou com a cabeça.
A cena dos dois me fez rir, e eles me olharam questionadores.
-Não vamos pensar nisso agora, está bem? Ainda falta muito tempo. - Sugeri, mas eles não concordaram. - E como o papai disse, se eu for ainda assim estarei muito perto de casa, mamãe. E de qualquer forma, ainda não pensei sobre o assunto.
Terminamos nosso lanche sem pressa e já um pouco tarde, por isso não jantamos e ficamos um tempo juntos na sala conversando e depois assistindo a um filme de comédia que passava na TV. Acordei já bem tarde no sofá, com meu pai me chamando para ir me deitar em meu quarto e a casa já toda escura.
No sábado, como de costume, me levantei bem depois de horário habitual e encontrei apenas um bilhete com meu nome sobre a mesa de jantar:
"Harry,
Fomos passar o dia com Molly e Arthur no clube. Chegaremos a noite.
Beijos,
Mamãe e Papai"
Os textos não mudaram nada desde que eles começaram a me deixar sozinhos em casa por curtos períodos de tempo, quando eu tinha dez anos, e isso sempre me fazia rir. Tomei café e enquanto lavava a louça que havia usado ouvi meu celular tocando. A mensagem instantânea recebida era de Ron, me convidando para almoçar fora e informando que Mione iria também.
Respondi dizendo que aceitava o convite e informando que estaria em sua casa dentro de uma hora. Tomei um banho rápido, vesti uma roupa leve combinando com o clima e saí para encontrá-los.
-Oi. - Ele me cumprimentou ao abrir a porta para mim, e ainda usando apenas a calça do pijama.
-Você ainda não está pronto? - Questionei, como resposta ao seu cumprimento.
-Estou indo tomar banho agora. - Informou enquanto fechava a porta.
O acompanhei pelo corredor e entrei com ele em seu quarto.
-Ginny já está pronta, pelo menos? Porque você sabe que ela demora bem mais que você para se arrumar. - Perguntei, me sentando em sua cama enquanto ele apanhava sua roupa no armário em frente.
-Ela não vai.
-Por que?
-Não sei, só me disse que não estava a fim e voltou a dormir. - Respondeu dando de ombros, sem dar maior atenção ao assunto. - Vou tomar banho, volto em uns vinte minutos.
Saí do quarto junto com ele e bati na porta ao lado. Não precisei insistir antes que ela me mandasse entrar, o que indicava que ela não estava dormindo, como disse ao irmão. A luz ainda estava apagada, e eu acendi antes de me deitar nos pés de sua cama.
-Oi, Harry. - Ginny cumprimentou um pouco desanimada, deitada de bruços.
-Por que você não vai com a gente? - Perguntei preocupado com seu estado de espírito incomum.
-Hoje não estou a fim. - Deu de ombros como se não fosse nada demais.
-Você nunca foi disso. - Afirmei desconfiado e ela riu. - Estou falando sério, o que foi?
-Não é nada mesmo, só estou com cólica. Tudo o que eu quero hoje é ficar em casa. - Explicou puxando um dos travesseiros de encontro a barriga e se acomodando de lado para me encarar.
-Ah sim, entendi. Não dá mesmo para abrir uma exceção? - Pedi, sem nenhuma vontade de deixá-la sozinha em casa assim e passar o dia apenas com Ron e Mione.
-Desculpe, mas dessa vez não mesmo.
-Ok, vou ficar com você então. - Decidi e lancei a ela um sorriso animador.
Ela riu e negou com a cabeça antes de se manifestar:
-Não precisa, Harry, obrigada.
-Você acha mesmo que quero passar o dia só com os dois? - Justifiquei ocultando a parte de não querer deixá-la sozinha, pois isso certamente a faria insistir por horas a fio que era besteira da minha parte.
-Mas você já tinha confirmado. - Argumentou.
-Eu não sabia que você não ia. - Expliquei antes de me levantar. - Vou avisar o Ron que mudei de ideia.
Antes que eu colocasse os pés no chão ele entrou, já pronto e me convidando para irmos.
-Eu não vou mais, Ron. Espero que não se importe.
-Por que não?
-Vou ficar para fazer companhia à Ginny, ela está doente. - Expliquei e ele se virou para ela com olhar questionador.
-Estou com cólica. - Esclareceu sem que ele precisasse perguntar.
-E isso por acaso doença, Harry? - Indagou cético.
-Eu nunca tive cólicas, então não posso menosprezar os sintomas que não conheço. Você deveria fazer o mesmo, cara. - Argumentei e Ginny riu ao meu lado, me fazendo rir também.
-Nossa, quanta empatia da sua parte para com as cólicas da minha irmã. - Comentou com ironia, olhando avaliador de um para o outro. - Bom, já vou indo então. Melhoras.
-Obrigada. Mande um beijo para Mione.
-Da minha parte também. - Pedi.
-Mandarei. Tchau, e divirtam-se os dois. - Desejou sarcástico antes de virar as costas e sair.
-Acho que isso não é o certo a se desejar para alguém que está com dor. - Falei pensativo, e Ginny concordou.
-Ron e seu ótimo senso de oportunidade. - Comentou antes de apoiar os travesseiros nas costas e se sentar. - Como foi a viagem na semana passada?
Conversamos por mais de uma hora em seu quarto e nesse meio tempo eu contei a ela sobre a confirmação da mudança para daqui a seis meses. Sua opinião era exatamente a mesma do meu pai: eu com certeza seria convidado e deveria aceitar a oportunidade, pois seria ótima para minha vida profissional.
-Como vocês podem ter tanta certeza assim de que irei? - Perguntei em dúvida. - Não que eu seja ruim, eu realmente me acho bom, mas o escritório tem projetistas ótimos.
-Desde que você entrou lá não teve um único projeto recusado, e eu posso não entender nada disso, mas os que você já me mostrou são incríveis. - Opinou.
-Obrigado, mas eu prefiro não pensar nisso agora. Vou deixar para me preocupar caso realmente aconteça. - Me decidi. - Não gosto de sofrer por ansiedade.
Ela assentiu e acomodou melhor o travesseiro a que estava abraçada.
-Ainda está doendo?
-Sim.
-Por que não toma remédio? - Sugeri.
-Eu já tomei, mas não passou.
-E não tem nada mais que melhore isso?
-Sim, vou fazer uma bolsa de água quente. - Informou e jogou as cobertas para o lado.
-Deixe que eu faço para você, onde está? - Me ofereci, já em pé.
-Desse jeito eu acho que vou te chamar pra passar uns dias aqui todo mês. - Brincou e eu ri.
-Não se acostume, se for um mês que eu não esteja de bom humor ainda te jogo na piscina gelada. - Ameacei e esperei ela ir até seu armário e me entregar a bolsa para que eu aquecesse.
Ela se sentou na pequena mesa na cozinha e esperou que eu preparasse para ela, como prometi que faria, e depois fomos os dois para a sala. Ela se acomodou deitada no sofá maior e eu fiz o mesmo no que restou, deixamos as cortinas fechadas e aproveitamos o ambiente um pouco escuro para passar o sábado descansando.
Após alguns episódios de uma série de comédia olhei para o lado e vi que Ginny dormia profundamente, a bolsa ainda apoiada sobre a barriga. Observei sua expressão tranquila por alguns minutos e deduzi que ela deveria estar melhor, o que me deixou também aliviado. Voltei meus olhos para a TV e me permiti relaxar também.
Algum tempo depois a ouvi se mexer no sofá e quando olhei em sua direção ela já estava em pé ao meu lado, usando a mesma camiseta com que tinha dormido e o short pequeno do pijama. Antes que eu perguntasse se estava tudo bem Ginny passou uma perna por cima de mim e se sentou sobre meu quadril antes de se debruçar e atacar meu pescoço. Fechei os olhos quando seus lábios passearam pela minha pele e contive um gemido quando suas mãos invadiram minha camiseta. Fechei meus dedos em sua coxa e subi em direção ao quadril, apreciando o toque macio de sua pele sob a roupa apertada. Pedi um beijo para ela e mesmo minha voz estando quase inaudível ela entendeu e se levantou o suficiente para me olhar antes de se abaixar lentamente em minha direção e fechar os olhos antecipando o contato de nossos lábios. Fechei também os meus e esperei pelo que me pareceram dias até que sua boca chegasse à minha.
Acordei nessa hora, dando um pulo e olhando desesperado em volta à procura de alguém que tivesse presenciado isso, como se talvez meu sonho estivesse sendo transmitido em tempo real para quem ali estivesse. Puxei a almofada embaixo dos meus pés e apoiei no colo, onde ela seria mais útil, e com o coração ainda acelerado vi a sala tão silenciosa quanto antes, exceto pelo barulho da TV, e Ginny ressonando do outro lado da sala, exatamente como minutos atrás e tão diferente do meu sonho.
Fechei os olhos com força e me concentrei em esquecer aquelas imagens, começar a ter sonhos eróticos com ela não seria um bom sinal nem que eu estivesse sozinho em meu quarto, muito menos em qualquer lugar e pior ainda com ela dormindo no sofá ao lado.
