Anjos Existem?
_Bem como eu disse_o rosto de Tea se alargou num sorriso desagradável _Enquanto aquele moleque distraía a gente com o seu show de "coitado do bichinho", os amigos dele mudaram as esferas de lugar.
_Você já falou isso antes, quando vimos aquele buraco_resmungou Tidaba.
Haviam acabado de encontrar as três esferas que faltavam, escondidas no oco de uma árvore. O novo esconderijo não era muito longe da clareira onde, há apenas alguns minutos, haviam avistado o buraco mencionado por Tidaba, cercado de terra revolvida. O pirata verde estranhou que tivessem escondido as esferas tão perto do esconderijo anterior, em vez de levá-las embora, porém Tea impacientemente argumentou que o guardião das esferas devia ter percebido que não teria tempo de fugir nem arrumar um esconderijo mais distante."Preferiu largá-las a ser apanhado", concluiu, enquanto rumavam até onde o sinal estava mais forte "O pivete(Gohan)devia estar protegendo ele, quando nossa caçada conduziu a gente pra perto das bolas."
E agora estavam diante delas, as peças que seus líderes tanto queriam. Com sorte, pensava Tea, talvez ele conseguisse uma boa recompensa - como uma provinha daquele alimento especial que mestre Turles deu para o imbecil do Kófi...
Uma lufada de vento trouxe até seus narizes e guelras o cheiro desagradável de madeira queimada, resultante do golpe favorito de Kófi. Nenhum deles comentou que o misterioso "pivete" ainda estava vivo, segundo os dados indicados pelos scouteres, mas sentiram arrepios. Especialmente Tidaba - só de lembrar como havia atacado estupidamente o garoto, suas escamas ficavam quase brancas!
_Mestre Turles vai ficar bravo se destruírem a floresta _resmungou Dromel _Ele estava entusi...
_ Quer ir pedir pra eles pegarem leve? _Tea cortou-o, colocando uma esfera embaixo de cada braço_Temos que sair daqui já! _ olhou feio para Tidaba, que também não se mexia. De má vontade, o verdinho pegou a esfera que restava. Tea já havia saído do chão e olhava em torno, tentando localizar a direção da nave-base.
_Pra que a pressa? _Dromel caçoou, sem sair do chão_Você não disse que quem estava cuidando das esferas já foi embora?
_O amigo daquele pivete pode voltar com reforços. Ouvi mestre Turles dizer que esses caras conseguem reduzir o ki para não serem detectados!
O queixo de Tidaba caiu:
_Peraí! Tá dizendo que pode ter amigos daquele monstrinho vigiando a gente sem a gente saber?_números começaram a apitar em seu scouter de repente. Em pânico, Tidaba largou no chão a esfera que segurava e ergueu-se no ar:
_ Você nos trouxe pra uma CILADA! E ainda nos chama d... _parou ao perceber os olhares nervosos dos companheiros.
Tidaba olhou para trás.
Uma imensa bola de luz amarela vinha lentamente na sua direção. Tidaba e Tea flutuaram um para cada lado, desviando-se facilmente. Dromel agachou-se e cobriu a cabeça com as mãos,embora não estivesse no caminho. Para surpresa deles, a bola passou direto e seguiu em frente. Tea e Tidaba trocaram um olhar surpreso e depois olharam em torno, procurando captar um novo ataque. Dromel, por sua vez, ao ver que nada acontecia, juntou-se a eles, no ar, as zombarias já prontinhas em sua bocarra:
_Pfff. Era por causa disso que vocês dois tavam se borrando? Espera só até eu contar pro pessoal...
Como se tivesse ouvido, a bola de energia fez uma curva para cima e subiu alguns metros no ar. Em seguida, dividiu-se em três esferas um pouco menores, que se voltaram na direção dos piratas, numa velocidade que aumentava a cada segundo.
_MERDAAAAAAA! _o grito de Dromel expressou o que todos sentiam.
Os três se separaram, cada um partindo velozmente numa direção. Tidaba e Dromel foram logo pulverizados. Tea, mais rápido, conseguiu escapar por mais alguns instantes, agarrado a uma das preciosas esferas. Quando viu que seria inútil, largou-a, apenas alguns segundos antes de ser atingido pela luz dolorosa e cegante.
Gohan não sabia mais o que fazer. Já estava ficando exausto e Kófi parecia insensível à maior parte de seus golpes. "Tenho que sair daqui e ver Bulma", pensava "Mas se eu fugir ele vai atrás de mim e pode usar de novo aquele raio bucal. Como vou me livrar dele?"
Não teve tempo de pensar numa saída, porque Kófi investia de novo, rindo. Gohan mal conseguiu aparar uma série de socos; quando achou uma oportunidade de revidar, uma joelhada de surpresa atirou-o contra uma árvore, tirando-lhe todo o ar. Por alguns instantes deixou-se ficar caído, lutando para recuperar o fôlego; então, sentiu o ki de Kófi subir e o viu escancarando a boca:
_CAPUC...
Antes mesmo que ele terminasse de gritar, Gohan ergueu as mãos e soltou um rápido kamehame-ha a fim de bloquear o golpe, exatamente como vira seu pai fazer com Nappa meses atrás:
_HAAAAAAAAA!
_...CINOOOO!
As duas forças se chocaram e, por alguns instantes, resistiam uma à outra; então explodiram lançando em volta tudo o que estava em torno. Vegeta não teve tempo de fugir e foi atirado violentamente para trás. Seu traseiro nu chocou-se contra o chão já cheio de destroços. Um grosso galho o atingiu bem no meio das pernas, fazendo Vegeta perder o fô último instante, conseguiu refrear-se para não gritar, mas não conseguia tampouco se mover, enquanto as nuvens de poeira baixavam, revelando duas silhuetas ofegantes.
Felizmente, ambos os lutadores estavam concentrados demais um no outro para notar qualquer movimento de outro ser em seu campo de batalha. Embora Kófi permanecesse de pé, não era mais o pirata de uniforme impecável de uma hora antes: a maior parte de sua armadura fora destruída e um sangue amarelado corria de alguns arranhões. Tirando isso, ele ainda parecia bastante disposto. Gohan aparentemente sofrera menos danos, mas não parecia capaz de resistir muito tempo. Cerrando os dentes para não gemer, Vegeta arrastou-se para trás de uma pilha de troncos e galhos chamuscados. Além do golpe em seus genitais, recebera vários arranhões dos detritos arremessados na explosão; mas esses ele nem sentia. E mesmo o latejar entre suas pernas não se comparava à dor que tinha na alma.
Seu scouter fora destruído, mas antes disso havia registrado cerca de 20.000... aquilo era muito mais do que ele já tivera, mesmo em sua melhor forma!
"Como... como isso é possível? Como um pirralho inexperiente e um gigante débil mental conseguem um poder que nem mesmo eu alcancei, em todos aqueles anos de treinamento e batalhas? EU é que deveriater essa força!"
Durante seus anos trabalhando para Freeza, a única coisa que o fazia suportar as humilhações diárias era a confiança em seu próprio potencial. Ele sempre estivera na linha de fogo e mais de uma vez escapara por pouco da morte. Não porque se arriscasse demais, mas porque Zarbon e Dodoria viviam inventando desculpas para convencer seu mestre a enviar Vegeta para as missões mais uma forma de mostrar ao príncipe que podiam fazer com ele o que quisessem. Assim como as vezes (poucas, pois Freeza não queria perder ainda seu "macaquinho" de estimação) em que Vegeta fora punido por alguma desculpa boba. Tolos.. Em vez de quebrar a sua vontade, só aumentavam a sua força e seu ódio. E também havia o inferno de seu treinamento diário.
A maioria dos soldados de Freeza só se exercitava porque o regulamento e os superiores exceção da Tropa Ginyu, que era a elite, qualquer um que treinasse a sério na arena do quartel tinha como trilha sonora uma chuva de sarcasmos e piadinhas. E quando se tratava dos detestados Saiyajins, a chuva se transformava numa verdadeira torrente. Diariamente, Vegeta tinha seu autocontrole testado até o limite, e ainda precisava impedir Nappa e Radditz de reagirem. Foi um comentário de Gurdo, depois de uma sessão de exercícios particularmente dura, que alertou o príncipe de que poderia estar dando demais na vista:
"Pra que tanto esforço? Se não fosse absurdo, eu diria que você está tentando ficar mais forte que o mestre Freeza."
Aquele imbecil do Nappa abriu a boca e ia por tudo a perder; por sorte, Jeice e outros soldados que estavam perto começaram a rir das"besteiras" de Gurdo. Como se fosse realmente possível um macaco Saiyajin ultrapassar o grande Freeza! Era absurdo mesmo! A insinuação se transformou numa piada e foi aparentemente esquecida.
Teria sido mesmo? Será que Gurdo e os companheiros dele não o haviam espionado, durante seus treinos secretos?
Desde aquele dia, Vegeta procurou pegar mais leve com seus exercícios no Planeta Gelo. Somente quando estava no espaço, acompanhado apenas de Radditz e Nappa, podia treinar com toda a sua força. De início, obrigava os dois a atacá-lo; depois, quando ficou evidente que já havia superado a ambos, passou a treinar sozinho, aproveitando o pouco tempo livre que tinha. Cada progresso, por pequeno que fosse, o deixava mais próximo de seu objetivo, e isso o fazia suportar seus momentos na base. Um dia, ele seria o ser mais forte do universo... e todos aqueles que pisavam nele pagariam dolorosamente!
Por causa de seu excesso de confiança, esse dia nunca chegou.
"Tudo o que eu consegui com tanto esforço e dor desapareceu, e eu nem ao menos sei como"
Apesar disso, nunca deixou de treinar. Quando, depois de tentativas repetidas e dolorosas, ficou evidente que seria até perigoso ficar forçando, passou a treinar fisicamente, apenas. Mesmo sem o aumento de força que a concentração de seu ki trazia, ele já era mais forte, mais ágil e mais veloz que qualquer animal daquelas selvas, e durante aqueles anos todos aprimorou essas habilidades. Porém, por mais que fizesse, nada podia recuperar o que ele havia perdido. Mais do que perder a esperança de ser resgatado, era a perda de seus poderes que o devorava e que o fizera descuidar de si mesmo por tanto tempo.
"Quando criança, eu era muito mais forte do que sou hoje."
E agora sabia que, mesmo em sua melhor forma, ele não fora nada. Todo o sofrimento, a paciência e os esforços haviam sido perda de tempo.
Uma parte sua queria morrer ali mesmo. Queria que Kófi soltasse novamente seu raio bucal, desintegrando a ele e ao maldito pirralho que expusera sua vergonha. Ao menos o universo não saberia que o antes príncipe dos Saiyajins não havia sido transformado num verme fraco, que se espojava na lama. Mas outro lado seu, mais racional, o censurava. Dizia-lhe que não devia se deixar levar pelas emoções; por mais odioso que fosse aquele pirralho, ele poderia representar sua própria salvação.
No entanto, esse mesmo lado também sabia que era mais que provável que o moleque morresse agora. E estava gemendo de impotência e desespero.
Gohan sentia suas forças chegando ao fim. "Será que esse... esse monstro é indestrutível? Ele é pior do que o Nappa e o Turles juntos!" Mas não teve muito tempo de pensar, pois Kófi vinha para cima dele de novo.
_Ho! Ho! Parou por quê? Vamos continuar! Agora é que tá ficando bom! _incitava ele em tom alegre, desfechando uma série de socos no garoto.
Gohan desviou-se inclinando o corpo para a esquerda, depois para a direita; então abaixou-se rápido, escapando de um chute que quebraria o pescoço e aproveitou que o inimigo deixara a guarda aberta para socar sua virilha com toda a força. Kófi se curvou instantaneamente, a boca escancarada para urrar, mas seu grito foi abafado por uma valente cabeçada. Gohan sentiu, mais do que ouviu, um barulho semelhante a pedras roçando umas nas outras, e percebeu que havia quebrado os dentes do adversário. Sem perder tempo, acertou um chute no estômago, enquanto Kófi ainda estava atordoado.
Para sua surpresa, uma mão imensa fechou-se sobre sua perna. Gohan mal teve tempo de gritar de surpresa e já estava girando como uma pedra numa funda, do mesmo jeito que fizera com o pirata verde. Só que, em vez de atirá-lo fora, Kófi rodou-o no ar várias vezes, rindo alegremente até ouvir alguns ruídos suspeitos. Rápido, suspendeu o garoto pelos pés com uma das mãos para impedi-lo de chutar, e esticou o braço o mais longe que podia para que o vômito não respingasse no que restava de sua armadura. Quando os sons desagradáveis pararam, Kófi colheu as folhas de um arbusto próximo e limpou o rosto do garoto. Fitou com curiosidade a carinha pálida e redonda e os olhos que ainda giravam, atordoados. Se Gohan não estivesse tão tonto, poderia ter percebido uma ponta de piedade nos olhos do gigante.
_Foi por pouco. Podemoch continuar?_sua voz sibilava pelos buracos dos dentes quebrados. Balançou Gohan um pouco para chamar sua atenção, depois olhou-o decepcionado, como uma criança que acaba de perceber que a bateria de seu brinquedo se esgotou_Che não puder lutar mais vou ter que te matar. Eu não queria fajer icho ainda... apejar de vochê ter destruído a minha preja..
O "vou ter que te matar" chegou até Gohan. Embora ainda estivesse um pouco tonto, ele percebia outra coisa também: não conseguia mais sentir o ki dos três sujeitos que tinham ido atrás das esferas.O senhor Kuririn deve ter acabado com eles! Não sinto seu ki... ele deve ter fugido pra longe, com aquela moto que Bulma nos emprestou... Bulma! Ela está me esperando! Tenho que me livrar desse monstro de qualquer jeito..."
Com uma expressão determinada, começou a balançar o corpo para os lados. Achando que o garoto queria se soltar, Kofi apertou-lhe um pouco mais os tornozelos e olhou-o com curiosidade. Rezando para ter energia suficiente, Gohan juntou as mãos sob a cabeça e preparou-se para lançar outro mazenko.
Mas antes, que pudesse atirar, o grandalhão agarrou-lhe os punhozinhos com a mão livre, apertando-os com força:
_Dechta vej não, echpertinho!
Gohan berrou, de dor e desespero: não apenas sentia como se suas mãos estivessem sendo esmagadas, mas estava completamente imobilizado. Segurando firme as mãos e pés do menino, Kófi ergueu-o bem alto. Logo em seguida, desceu o corpinho com força, sobre o alto de sua própria cabeça:
_Icho é por ter quebrado och meuch dentech!
O grito do garoto chegou a tinir nos ouvidos de Vegeta."Moleque idiota... poderia ter se livrado desse bobo alegre de tantas maneiras diferentes. Que desperdício... "
Kófi largou sua presa no chão no chão e afastou-se alguns passos, satisfeito, enquanto Gohan abraçava o estômago, os joelhos curvados em posição fetal:
_Aaai... que dor... que dor...ah;... agh.. _um filete de sangue saiu de sua boca e manchou a grama junto ao seu rosto.
_Deixa de nem ujei tanta forcha achim! Che eu quijeche te machucar de verdade, teria quebrado a chua coluna. Mach admito que vochê é bem durão pra um garotinho._ botou as mãos na cintura e ficou alguns instantes pensativo, como se não soubesse o que fazer em seguida _Bom... gochtei muito de lutar com vochê, mach che eu não voltar logo, vão pegar no meu pé. Mach não che preocupe... vochê não vai chentir nada. Vou te tranchformar em pó,igualzinho ao bicho que vochê dejintegrou.
Gohan só conseguiu apertar os dentes. Sentia-se incapaz até mesmo de tirar as mãos do estômago para se defender. Fechou os olhos úmidos, pedindo perdão mentalmente a Kuririn, seu pai, Piccolo, Bulma e todos os que contavam com ele, por não ter sido forte o bastante. Como em resposta a seu apelo, sentiu um ki muito familiar perto dele. Seus olhos se abriram, surpresos - desgraçadamente.
_TAIYO KEEEN!_berrou a voz de Kuririn.
Tudo desapareceu num intenso clarão. A poucos passos de onde estava, Gohan ouvia o escândalo feito por Kófi, que achava que tinha ficado cego. A julgar pelos estrondos que ouviu, o gigante devia estar se chocando contra os troncos das árvores que haviam derrubado na luta... ou batendo nelas, o que era mais provável! Embora também tivesse sido ofuscado, o menino não entrou em pânico e lutou para se levantar. Foi desnecessário, pois logo sentiu um par de mãos fortes erguendo-o no ar e percebeu que estava sendo carregado no colo.
Alguns instantes mais tarde, sentiu que o colocavam no chão. Lentamente, o rosto ansioso de seu amigo surgia diante dele.
_S-senhor Kuririn... _murmurou, pois ainda não estavam totalmente fora do alcance da fúria de Kófi _pensei que o senhor estivesse longe daqui. A...as esferas...
_Chh..._cortou o monge, também em voz baixa _Eu joguei todas dentro de um buraco. Com sorte, ninguém virá atrás delas tão cedo.
_Os piratas sabiam o tempo todo que as esferas estavam aqui perto. Só que o Turles disse pra eles não procurarem. Ele está brincando com a gente...
Kuririn franziu a testa, mas não respondeu. Depois de se certificar que não havia ninguém por perto, atirou no chão uma cápsula, fazendo aparecer a minimoto que haviam usado para levar as esferas para longe de sua nave. O veículo só tinha assento para uma pessoa, mas possuía uma espécie de caixa atrás para transporte de materiais, onde ele acomodou Gohan.
_Vamos pensar nisso depois. Primeiro temos que cuidar de você.
Gracas à excelência da Corp. Capsula, a moto não era muito barulhenta; seu suave zum zum só chamaria a atenção de quem estivesse muito perto, e os sensos aguçados de Kuririn o alertavam para qualquer ruído suspeito. Infelizmente, a moto também era lenta. A pé, movendo-se em grandes saltos, os dois iriam mais rápido. Gohan sentia que estava atrasando a ambos, mas não tinha como protestar. Apesar do corpo dolorido, começou a sentir sonolento. Já estava cochilando quando sentiu que paravam e ouviu Kuririn resmungar alto: "Droga! Não acredito".
_Que foi? Não chegamos ainda?
_Bem que eu gostaria, mas ainda estamos muito longe. E ainda por cima o combustível está acabando. Acha que consegue caminhar?
_Consigo. Estou me sentido muito melhor agora _Gohan tentou saltar para fora do bagageiro, mas quase caiu de cara no chão. Kuririn segurou-o em tempo, com uma risadinha:
_É melhor esquecer os pulos. Você está todo machucado, não esqueça _tornou a recolher a moto na cápsula.
Apesar da insistência de Gohan de que estava melhor, depois de meia hora de caminhada ficou logo evidente que ele precisava bem mais de que alguns minutos de descanso. Seu estômago voltara a doer, agora de fome. Exceto o café da manhã desperdiçado e as últimas gotas do cantil de kuririn, não consumira mais nada naquele dia. Ainda por cima, seu rosto estava inchando: aquelas folhas que Kófi esfregara em seu rosto deviam ter provocado alguma reação alérgica.
Kuririn teve de apoiá-lo sobre um ombro, para que ele não caísse, e conduziu-o até o pé de uma árvore.
_Gohan, isso é besteira. Sei que você não quer nos atrasar, mas se forçar desse jeito só deixa tudo pior. A tal cabeçada que você levou na barriga deve ter machucado bem mais do que parece. Sem falar na sua cara _ fitou com pena o rostinho vermelho, onde começavam a aparecer pequenas pústulas.
_Está doendo um pouco e me sinto enjoado, mas acho que é de fome _Gohan replicou suavemente _ Aquele gorilão me fez vomitar tudo o que comi hoje de manhã_pensou um pouco _Ele esfregou umas folhas no meu rosto... acho que estava tentando me limpar e não sabia que elas eram venenosas. Sei que parece loucura, mas... acho que no fundo ele realmente não queria me matar. Ficou me dizendo isso o tempo inteiro.
Kuririn balançou a cabeça, mas preferiu não discutir a suposta bondade do assecla de Turles.
_Vivo esquecendo que você é meio Saiyajin. Seu pai sempre fica faminto depois de cada batalha _lembrou-se de quando Goku comera toda a comida do restaurante onde haviam ido, depois de seu primeiro torneio de artes marciais. Com a consciência doendo, pensou na refeição frugal de sanduíches e frutas daquela manhã, e ocorreu-lhe que deveria ter dado uma porção maior a Gohan em vez de dividir de igual para igual _Vocês devem comer daquele jeito pra repor as energias. Nem pensei nisso. Sua mãe me mataria se soubesse.
_Não mataria, não. Ela ficaria muito agradecida porque o senhor salvou minha vida.
_Bom... acho que é melhor a gente acampar por aqui hoje _Kuririn forçou um sorriso_ Vou ver se acho água pra você... quem sabe até alguma das frutas que nós colhemos_já ia se afastando, quando lembrou de alguma coisa e se virou _Se aparecer algum bicho ou um dos amigos do Turles, não lute! Chame por mim, tá bom?
_Tá.
Kuririn explorou toda a área em torno. Infelizmente, não havia nenhuma fonte de água nas ao menos alguma das árvores onde haviam colhido frutas na véspera. Estavam absolutamente sem recursos. Poderia caçar algum animal, mas não queria se afastar demais, nem deixar Gohan sozinho muito tempo. Sua frustração era tanta que ele esmurrou uma árvore, produzindo uma chuva de lascas:
_Droga! Droga! Estou fazendo tudo errado! Por que eu não racionei a comida? Por que não guardei água quando tive a chance?
Poderia usar o walkie-talkie para chamar Bulma, mas seria muito perigoso ela ou Oolong virem buscá-los. O que devia era botar Gohan em cima dos ombros e voar para o esconderijo, ainda tinha bastante energia para isso. Mas não teria energia pra lutar se seu ki atraísse algum pirata. Pior: voando, ele poderia atrair os piratas para o esconderijo, arriscando as vidas dos amigos.
_O que é que eu vou fazer?_gemeu baixinho.
CRAC!
Kuririn deu um pulo, ao mesmo tempo em que girava na direção do som - direto de onde Gohan estava! Num instante, o pequeno monge chegou até a árvore onde deixara o menino, mas encontrou o local vazio. Por alguns segundos entrou em pânico, até sentir o ki do garoto ali pertinho:
_Gohan! Onde você está?_olhou em torno, se esforçando para não gritar muito alto, apesar do medo.
Gohan chamou atrás dele:
_Senhor Kuririn! Venha ver isto _a vozinha do menino vinha de trás de uma árvore grossa e de casca escura. Kuririn praticamente desapareceu pra depois reaparecer do outro lado da árvore. Gohan estava ajoelhado junto desta, examinando alguma coisa. O monge sentiu uma pontada de alívio ao notar que Gohan parecia um pouco mais disposto do que minutos atrás, mas não disfarçou a irritação:
_Você me deu um susto, garoto. Achei que tinha sido levado por alguma fera!
Gohan olhou para o chão por alguns instantes, contrito, depois ergueu-os rapidamente.
_Desculpe... ouvi um barulhão e vim olhar, mas não tinha ninguém. Olha só pra isto.
Kuririn olhou. Um grande pedaço da casca fora arrancado, expondo uma substância grossa e alaranjada, de aparência cremosa. Ele franziu a testa, meio repugnado, mas o cheiro doce que vinha daquela coisa fez seu estômago grunhir.
_É.. mel?_indagou,esperançoso.
_Não. Não tem favo nem abelhas. É a seiva da própria árvore. O barulho que ouvimos deve ter sido algum bicho arrancando a casca pra se alimentar, mas quando cheguei perto ele fugiu._Gohan mergulhou os dedos na seiva e começou a levá-la à boca, mas Kuririn o deteve.
_Espera! Pode ser veneno. Ou ter alguma substância alucinógena, tipo aquela vez q... _os olhinhos famintos do menino mataram seu discurso prudente.
Bolas... Gohan estava certo, somente um animal teria arrancado a casca daquele jeito - e que outro motivo teria, senão o de se alimentar? Não havia piratas por perto. Mesmo se algum deles resolvesse estragar árvores só pra se divertir, faria muito mais do que apenas arrancar um pedaço da casca. Para reforçar seu pensamento, um pequeno inseto pousou na seiva e começou a chupá-la com uma tromba. Os dois jovens ficaram olhando a criaturinha por alguns segundos, depois os olhos de Gohan encontraram os do amigo, como se dissesse: "viu?"
_Está bem... _com um suspiro, Kuririn enfiou os dedos na substância viscosa. Também não aguentava mais de fome _Acho que isso não vai nos deixar muito pior do que já estamos _levou os dedos melados à boca. Seus olhos se arregalaram e apanhou mais um punhado _Huummm... é gostoso... prova um pouco, Goh...
Gohan já estava praticamente com a cara enfiada na árvore, bebendo a seiva na concha das mãos como se fosse água. Parecia até um bebê se empanturrando com papinha! Mesmo sabendo que devia ter cuidado para não fazer barulhos, Kuririn caiu na risada. Gohan começou a rir também, apontando para a boca melada do amigo. Por alguns instantes o medo e as preocupações saíram de seus ombros e os dois riram alegremente, como se estivessem de volta aos bons tempos com seus amigos na casa do Kame.
Kuririn quis enxugar os olhos mas mudou de idéia a tempo. Não seria nada bom se as pálpebras ficassem grudadas.
_Fazia tempo que eu não ria assim._ suspirou e mudou de assunto _Engraçado, essa coisa gosmenta matou a minha fome_fez um gesto de apalpar a barriga, mas se deteve para não sujar a roupa _Mas gostaria que a gente tivesse um pouco d'água. Esse troço é muito doce.
_Podemos procurar no caminho. Não estamos tão longe do lago, agora._Gohan propôs animadamente.
Kuririn automaticamente abriu a boca para descartar a sugestão, mas olhou melhor para o amigo e arregalou os olhos. Gohan estava de pé, os ombros bem erguidos, não se apoiava mais na árvore. Seus imensos olhos estavam bem abertos, em vez de semifechados de exaustão. Embora não parecesse exatamente cheio de energia, estava muito melhor que minutos atrás, quando precisara da sua ajuda para chegar ao pé de uma árvore. Até mesmo seu rostinho melado parecia menos vermelho que antes. O melhor amigo de Goku olhou para a ferida aberta na árvore, desconfiado. Seria aquela planta igual aos feijões senzu? Ou só produziria uma sensação de bem estar temporária, como as causadas por café e chocolate?
_T...tem certeza? Há poucos minutos você estava quase desmaiando!
_Eu sei, mas agora tô me sentindo muito melhor. Meu corpo ainda está um pouco dolorido, mas não me incomoda tanto. Até o meu rosto parou de coçar. O senhor não está se sentindo melhor também?
Kuririn teve de admitir que sim. Não estava mais cansado. Na verdade, sentia-se capaz de enfrentar outro Kófi, sozinho!
_A gente devia levar um pouco dessa coisa pra Bulma analisar. Pena que eu não tenha nenhum potinho aqui comigo. Talvez o meu cantil..._ olhou para a peça, de má vontade. Era o único dos seus pertences que não descartara, além da cápsula-moto, quando fora resgatar Gohan.
_Não precisa. Espera só um pouco _o menino lambeu as mãos e esfregou-as na roupa, procurando limpá-las o melhor que podia. Depois pegou um pedacinho da casca, usou-o para empurrar uma boa porção de resina sobre uma folha e fez um embrulhinho. Ele ainda enrolou outra folha por cima, para não vazar, e amarrou tudo com um fio tirado da faixa que usava como cinto. Kuririn mal podia acreditar:
_Gohan, você é um gênio! De onde tirou essa idéia?
_Mamãe aprendeu com uma vizinha a embrulhar arroz e carne com folhas de repolho. O papai adora.
A menção à comida de Chichi encheu a boca do monge de água, isso é, saliva. Mesmo que a resina tivesse matado a fome, o que gostaria naquele momento era de comer a boa e velha comida da Terra, com seus temperos.
_Peça pra sua mãe me convidar, quando fizer de novo. Vou levar um pedaço da casca também, para ajudar a identificar, se tiver árvores como essa perto do lago.
Prosseguiram viagem. Kuririn, no entanto, avisou que fariam paradas de vez em quando e que Gohan devia avisar se sentisse alguma coisa. Nada de se fazer de forte! Mas, à medida que avançavam, nada de anormal aconteceu, e Kuririn achou que poderiam caminhar mais um pouco. E as paradas acabaram sendo totalmente deixadas de lado. Faltava pouco, agora, e deviam aproveitar que o dia ainda estava claro - sem falar que perto do esconderijo havia muita água. De vez em quando ele checava Gohan com receio de estar forçando demais o amiguinho mas, exceto um pouco de coceira no rosto, o menino parecia normal, até animado:
_Acho que essa seiva é mesmo como os senzus, só que demora um pouco pra fazer efeito. Olha, outra árvore de seiva ali! Elas são bem fáceis de identificar, quando a gente conhece.
_Você pode até jogar o embrulho fora. Ou dá pra mim, que já estou cansando de novo_o monge brincou, mas estava sério, os pontos tatuados quase sumidos sob as rugas em sua testa _Gohan, você não acha isso conveniente demais?
_Como assim?
_A gente estava cansado e com fome, e você estava todo machucado e com essa erupção no rosto. Aí, do nada, um bicho - se era mesmo um bicho - abre uma árvore pertinho da gente que mata a fome e cura. É como se alguém tivesse escutado a gente e dito: "ó, tá aqui a solução!"
_O senhor quer dizer que um dos piratas poderia estar nos seguindo pra descobrir o esconderijo e por isso nos ajudou? _a idéia era tão horrível que Gohan arregalou os olhos e olhou automaticamente em torno, como se esperasse ver um dos asseclas de Turles agachado atrás de uma árvore_Mas se fosse um pirata, a gente já teria sentido ele. Eles não podem esconder o ki como a gente. Eu sinto vários kis por perto, mas são muito pequenos pra ser de pessoas.
_É verdade _ Kuririn suspirou _Acho que tô delirando de sede.
_Não, o senhor tem razão, foi muito conveniente. O animal que feriu a árvore poderia estar sendo guiado por Kamisamar. Papai me disse no hospital que, mesmo que Kamisamar tenha morrido junto com o senhor Piccolo, ele está no Céu olhando pela gente. E também tem o senhor Kaioh... Qualquer um deles poderia ter nos mandado um anjo pra nos ajudar quando as coisas ficam ruins demais. Apesar de tudo que aconteceu, tivemos muita sorte até agora.
_Você acredita mesmo em anjos da guarda? _Kuririn teve de se esforçar para não rir.
Mesmo sendo monge e tendo conhecido Kamisamar em pessoa, Kuririn era cético em relação a algumas coisas. Na triste época em que morava no templo Oorin, antes de fugir para a casa de mestre Kame, o jovem lutador aprendera que não podia contar com nenhuma ajuda de cima, apenas consigo mesmo. Com o tempo, havia descoberto que você pode contar com amigos também, se eles são sinceros como Goku - mas amigos são mortais e tem seus limites. Para Kuririn, as forças celestiais só intervinham mesmo quando havia alguma coisa importante em jogo, como a segurança da Terra, do universo, etc. A maior parte do tempo se limitavam a assistir o sofrimento dos mortais sem dar a mínima. Claro que ele não se atrevia a dizer isso abertamente.
_Vovô me disse que os anjos existem entre a gente, mas não podemos ver suas asas _ Gohan declarou, com segurança _Há aqueles que vivem pra fazer o bem, como o papai... e há aqueles que fazem o bem mesmo quando não querem, como o senhor Piccolo _ por um instante ele se calou e fitou para o matinho no chão, meio encabulado, depois ganhou coragem e ergueu os olhos para o amigo _Quando o senhor apareceu pra me salvar no meio daquele clarão, achei que era o meu anjo da guarda.
Tantos nomes que Kuririn já havia recebido em sua vida, a maioria insultos, alguns poucos realmente elogiosos... Nunca imaginaria que alguém fosse chamá-lo de anjo. Só mesmo o filho de Goku, com seu olhar puro, para pensar uma coisa dessas.
Ele engasgou, ficou saber o que dizer... e então ouviu um som muito agradável:
_Gohan... escuta... é barulho de água correndo! Estamos chegando lá! Água! ÁGUA! ÁÁÁÁGUAAAAAA!
Esquecendo amigo, cuidados para não fazer barulho e o resto, saiu correndo como louco.
