Dispensáveis... ou Não

"Dá logo!" "Tudo que você tivé é nossu!" "Chuta mais forte! Quero ouvi ele gritá!"

Os gritos vinham do fundo da caverna, misturados com sons de golpes diversos, mas não se ouvia nenhum grito de dor. Turles seguiu seu anfitrião até a fonte de todo aquele barulho, com Sepsi e Bier poucos passos atrás. Seu nariz estava franzido de repugnância enquanto passava pelas pessoas que estavam dentro da caverna - mulheres e crianças, pois os caçadores estavam fora. Enquanto as crianças fitavam os estranhos com curiosidade, as mulheres apenas lançavam olhares assustados e voltavam a cozinhar ou a qualquer outra tarefa considerada "feminina", ali. Era um desses mundos em que a vida de uma pessoa é rigorosamente delimitada pelo gênero. Gente suja, desagradável, com baixíssimo poder de luta e cérebros ainda menores.

Mas Turles precisava de pelo menos um deles. Os birakas eram primitivos porém duros, de uma resistência física que rivalizava a dos Saiyajins. Precisavam ser resistentes, pelo jeito como viviam, principalmente as crianças. Sua lei mais sagrada era: os mais velhos sempre antes dos mais novos. Como produziam filhos em grande quantidade e a competição com as outras tribos e predadores por caça era intensa, preocupavam-se apenas em alimentar os filhos mais velhos e saudáveis. Os caçulas ficavam com as sobras, quando havia; eles próprios eram sobras. Mais da metade de cada ninhada morria antes de chegar aos doze anos. Os que sobreviviam até essa idade ganhavam um nome e o direito de aprender a caçar. Os melhores caçadores – e os que conquistassem a simpatia do patriarca, é claro - recebiam o direito de escolher uma fêmea assim que tivessem idade para procriar.

O garoto no qual Turles estava interessado tinha apenas oito anos.

Finalmente, chegaram ao fundo da caverna. O pequeno espaço estava tomado por um bolo de moleques, tão juntos que não dava para ver o que eles chutavam e socavam com tanto empenho. A agitação era tanta que pequenas nuvens de poeira se levantavam, tornando ainda mais difícil respirar ali dentro e dificultando a visibilidade; mesmo assim,Turles reparou que apenas dois adolescentes estavam vestidos com túnicas sujas de couro e uma espécie de bota, amarrada aos tornozelos. A maior parte vestia apenas alguns farrapos em forma de saiotes e tangas. Uns três ou quatro, menores do que os outros, estavam nus. O velho que servia de guia a Turles - e que era o pai de toda aquela molecada - deu um grito:

Se afastem, bando de vagabundo!

Os garotos pararam para olhá-lo espantados. Era a primeira vez que o patriarca intervinha numa de suas brigas. Mas a surpresa durou apenas alguns segundos, antes que voltassem alegremente a chutar e socar o que quer que estivesse no chão. O velho avançou com um rosnado, mas Turles tocou-lhe no ombro:

Posso?

Ora, mas é claro! Mate quantos quiser! Vai sobrá mais comida pra quem merece.

"Será um alívio sair daqui" pensou o visitante "E ainda dizem que Saiyajins tratavam mal suas crianças." Não conhecera seus pais, mas tampouco precisara esperar até ficar mais velho para que lhe dessem valor. Avançou para o bolo, dispersando crianças com empurrões e pontapés. Os poucos que quiseram reagir foram detidos por apenas um olhar; o resto sabiamente recuou em silêncio, revelando um garotinho encolhido no chão.

Turles inclinou-se e pescou a pequena vítima, notando de passagem que, em vez de tentar proteger-se com os braços, o moleque os mantivera sob o corpo, a mão direita crispada sobre algo que obviamente fora a causa da briga. Avaliou-o demoradamente. Apesar de subnutrido, não parecia tão fraco quanto deveria ser, criado naquelas condições... e também não parecia tão machucado quanto era de se esperar. Mas também, a pele escura dele dificultava a visibilidade dos ferimentos. Um trapo de couro, amarrado com nó cego, pendia-lhe da cintura, mal dando para cobrir suas partes íntimas. Turles lançou um olhar para os garotos nus, pouco mais velhos do que o molequinho que estava segurando. Evidentemente, o direito de usar roupas - mesmo que fosse só um trapinho - era privilégio dos mais velhos. Se o garoto que tinha nas mãos era o caçula e insistia em andar, hã, vestido, estava quebrando as regras! Não admirava que os outros estivessem batendo nele. Examinou-o com mais atenção: a aparente ausência de ferimentos do garoto... não era porque estavam escondidos pela cor da pele: era porque não existiam mesmo!

Turles estava admirado: conhecera adultos que não aguentariam nem um terço dos golpes dados por aqueles moleques, e no entanto o irmãozinho deles parecia, quando muito, ter levado um tombo! Apalpou os membros, tocou o peito, em busca de fraturas - nada. O machucado mais feio era no olho esquerdo, visivelmente inchado, porém seu olho são era límpido e brilhante, fitando seu captor com curiosidade. Não havia sequer uma lágrima.

Você não estava mentindo quando disse que ele era resistente comentou para seu anfitrião.

O mais resistente da ninhada rosnou o patriarca Já perdeu dois irmão pouco mais velho que ele e todos os mais novos, mas continua aí. É um macaquinho teimoso, que se acha tão bom quanto os outro.

Macaquinho, hein? Escolha interessante de palavras. _voltou a olhar para o garoto pendurado em sua mão. Ele não fazia nenhuma tentativa de se soltar. Parecia quase à vontade ali, até satisfeito, apesar de suspenso pela pele do pescoço como um bichinho.

Não está com medo de mim, moleque?

O garotinho sorriu, revelando algumas falhas entre os dentes amarelados:

Eu não. Cê é muito mais forte que meus irmão, e eu não tenho medo deles olhou com desprezo para os manos, que permaneciam a uma distância segura, esperando para voltar a atacá-lo assim que o estranho fosse embora Eu vô chegá até os doze ano e me tornar um grande guerreiro! Vou ser o caçador mais forte da minha tribo, usar roupa de verdade e todos vão me respeitá! _concluiu, encarando os irmãos com ar de desafio.

Eles responderam com vaias, risadinhas e gestos aparentemente obscenos. Um dos garotos de túnica arreganhou os dentes e abaixou-se para pegar uma pedra, mas os olhares ameaçadores dos acompanhantes de Turles o fizeram largá-la no chão. Bier chegou a dar uns tapinhas em sua arma.

E se eu disser que posso tornar você muito mais forte agora? o chefe dos piratas prosseguiu, como se não tivesse notado nada.

O queixo do moleque caiu. Seu olho são ficou redondo de espanto. Depois, ele fechou a boca com um som de alçapão e olhou desconfiado para o seu captor. Ninguém podia culpá-lo por não acreditar, mas alguma coisa apitou no fundo da mente de Turles. Por mais que apreciasse a fibra do garoto, havia demasiada resistência nele, demasiada rebeldia. Precisava de uma cobaia dócil, que não questionasse nada, não de um "macaquinho teimoso" que poderia derrubá-lo depois que se tornasse mais forte.

Por outro lado... se o largasse ali teria de visitar mais aldeias birakas, em vez de sair logo daquela bola de esterco que chamavam de planeta. Só de pensar nisso as entranhas de Turles se encolheram. Além do mais, sempre gostara de correr riscos.

Um jovem com o seu potencial merece mais do que passar a vida caçando para imbecis que o tratam como lixo _ insistiu Se vir comigo, ganhará um poder inimaginável e o respeito do universo inteiro.

Cê não tá zombando de mim que nem meus irmão, tá? o garotinho apertou os lábios, o olho bom refletindo velhas mágoas. Era óbvio que fora enganado, e não só uma vez.

Turles reprimiu um sorriso. Por trás de toda a sua força de vontade, aquele moleque não passava de uma criança vulnerável. Ansiava em ser aprovado e ter alguém em quem confiar. Ali estava a arma de que o pirata precisava para transformar o pequeno selvagem numa cobaia dócil e fiel. Fingiu estar aborrecido com tanta desconfiança:

_Se já notou que sou mais forte que seus irmãos, também deve ter notado que não sou daqui _o menino fez que sim vigorosamente, e Turles continuou _ Eu vim de um planeta muito distante, porque preciso de um garotinho especial, capaz de resistir a qualquer coisa.

E esse garotinho... sou eu?na sua surpresa e alegria, o moleque chegou a abrir o olho machucado. Ouviram murmúrios incrédulos atrás deles. Não era nem preciso olhar para saber que aqueles pestinhas agora estavam fervendo de inveja. O Saiyajin mordia-se para não rir, mas permaneceu bem sério:

Acha que eu viria de tão longe pra salvar você de seus irmãos, se não tivesse um bom motivo? Mas, se continua duvidando, é melhor eu continuar a procurar começou a baixar a mão _Talvez em outra aldeia...

O menino agarrou-se desesperado ao pulso dele:

Desculpa! Eu não quis ofendê, não me deixa aqui! Eu faço qualquer coisa pra ficá mais forte! Te dou tudo o que eu tiver... ofereceu o objeto que havia protegido com tanto empenho: a cabeça ensanguentada de um pássaro qualquer Não é muita coisa, porque meus irmão sempre me tiram tudo que eu consigo pegá dos resto de caçada, mas prometo que qualqué coisa que eu arrum...

Jogue essa porcaria fora! o Saiyajin cortou a algaravia, já no fim da sua paciência_Você tem uma coisa muito mais valiosa do que restos de animais, mas se quer mesmo vir comigo vai ter que aprender a ficar quieto!

O menino imediatamente largou a preciosa dádiva ao mesmo tempo que fechava a boca, produzindo novamente o barulho de alçapão. O pirata sorriu, satisfeito com tanta obediência:

_ Consegue andar?

O garotinho fez que sim e Turles estendeu o braço para largá-lo. Mas antes que o pusesse no chão, o patriarca praticamente voou até eles e arrancou seu filho da mão do Saiyajin:

Se ele é tão valioso assim, quero muito mais do que me prometeu! Vai me dar algumas dessas arma que os seus homens carregam, e umas couraça, como essas que v... AAAI!

Apesar de falhados, os dentes do moleque eram suficientes para causar dor. Furioso, o velho ergueu o punho cerrado:

Seu pedacinho de bosta! Vou arrancar a sua boc.. sua boca escancarou-se e seus olhos fitaram o nada. A mão esquerda abriu, libertando o filho, que caiu sentado no chão de pedra.

Bier havia se aproveitado da distração para chegar por trás e derrubar o patriarca com uma violenta coronhada. O garoto arrastou-se para o lado, escapando por pouco de ser esmagado pelo corpo do velho, levantou-se e cuspiu no rosto de seu nada amado papai. Os dois garotos de túnica gritaram horrorizados e precipitaram-se, não sobre o caçula, que retornava calmamente até Turles, mas sobre seu patriarca. Foram soterrados por uma avalanche de crianças imundas que riam, caçoavam e arrancavam as roupas dos três que os haviam oprimido.

Uma cuspidinha acabou com o reinado deles Sepsi observou, desdenhoso.

Bier e Turles sorriram maldosamente, porém o garoto escolhido estava preocupado. Olhava ansioso para o túnel por onde seu pai e os piratas haviam entrado, pois não havia outra saída:

Temos que saí daqui antes que os caçador chegue! Todo mundo tá acostumado com o barulho dos meus irmão, mas vão estranhá se o patriarca não voltá.

Sepsi e Bier começaram a rir. Ele achava mesmo que os caçadores de sua tribo eram páreo para os grandes piratas? Que ridículo!

Mas seu chefe pareceu levar a sério o aviso:

Ele tem razão; não seria bom alertar o resto da tribo. Eu vou com o moleque na frente. Vocês dois fiquem... e façam a limpeza explicou, antes de se virar.

Os dois piratas sorriram, erguendo as armas que o patriarca havia cobiçado. Embora fossem de espécies diferentes, tinham o mesmo sorriso desagradável.

Seu mestre cumprira tudo o que lhe prometera. Ele agora era grande e poderoso. Tinha um nome que qualquer garoto biraka morreria pra ter. Tinha roupas bonitas e dentes perfeitos. Algumas vezes até o deixavam ficar com alguma fêmea mais atraente dos planetas que saqueavam, mesmo que por pouco tempo. Era respeitado - ninguém gostava dele, Kófi sabia, mas não ligava, já que ali ninguém gostava mesmo de ninguém. Esse negócio de amizade que algumas raças prezam tanto é bobagem de gente fraca. Respeito é que é bom. Se mestre Turles, Juice ou Sepsi diziam que ele liderava os batedores, os outros tinham que obedecer e pronto! Até mesmo o chato do Tea.

E o que tinha que fazer por todas essas coisas boas era tão simples! Só precisava tomar alguns remédios, brigar com alguém de vez em quando e deixar que o mestre e seus assistentes lhe fizessem exames. Achava até divertido. Alguns remédios tinham um gosto ruim, mas o deixavam mais forte e ele não sentia dor, mesmo se apanhasse muito. Outros não funcionavam. Outros o deixavam doente, mas era só voltar pro tanque e ele ficava bom de novo. Mestre Turles ficava bravo quando isso acontecia, porque ele, Kófi, era muito valioso. O último da sua espécie, ouvira seus superiores dizerem várias vezes. Sepsi contou-lhe que um dos Icejins, aquele tal de Kula ou Kuler, havia acabado com todo mundo que vivia no seu planeta. Tentara sentir alguma coisa, porém só ficou meio decepcionado porque as esposas do patriarca nunca veriam como ele estava forte e bonito agora. Algumas delas tratavam-no bem quando os machos não estavam perto; tinha uma que até lhe dava um pouquinho da sua comida escondido, mesmo correndo risco de ser castigada. Kófi sempre desconfiou de que ela fosse sua mãe... mas todo mundo morre, mesmo. Aquele menino que havia lutado com ele também devia estar morto agora. Kófi sentia pena de tê-lo matado... apesar do moleque ter quebrado seus dentes novos e desintegrado a sua presa, depois que ele lhe ofereceu um troféu tão bonito! Ainda sentia raiva daquela ingratidão...

E assim mesmo, no fundo, uma parte dele gostaria de ver aquele menino de novo...

Esquisito, isso.

Soltou um gemido alto, que a máscara respiratória não conseguiu abafar. Ele se remexeu, como se quisesse livrar-se do emaranhado de fios conectados ao seu corpo.

_Pulsação acelerando. Denopa* reduzido em 50... não, 60 por cento... 62... 63 _disse o assistente responsável pelo painel de controle do tanque _A aceleração do processo de cura deve estar causando a dor!.

_Aplique mais uma dose de sedativo, idiota! _Turles ordenou _Antes que ele arrebente o tanque!

Enquanto o assistente se apressava a obedecer, o Saiyajin cruzou os braços e observou os movimentos do gigante despido ficarem cada vez mais lentos, até adormecer novamente.

Ainda não havia encontrado a droga perfeita. Quando Kófi quase matou o pirralho do Kakaroto, Turles achou que havia realizado o trabalho da sua vida, porém passara perto. Seus homens haviam encontrado Kófi estendido no chão, contorcendo-se de dores e quase nu, pois havia arrancado os resto da armadura para aliviar a pressão de seu ventre inchado. Turles tivera vontade de mandar jogá-lo de volta no mato... se não fosse por algumas coisinhas.

Talvez Kófi lhe tivesse um favor, tomando escondido aquelas pílulas a mais.

_Espere uma hora antes de aplicar de novo a mistura de frutas –diluída em soro, desta vez _ ordenou para o assistente _Ainda não chegou o momento de jogar esse imbecil no lixo.

_ Agora que você está vestido e alimentado... _Bulma começou, depois que Vegeta raspou o terceiro prato.

_Alimentado?_rosnou o Saiyajin _Isso é uma piada! Essas migalhas que vocês me deram não enchem nem um terço do estômago de um saiyajin. E chama esse lixo de roupa? _deu um puxão na camiseta roxa três vezes o seu tamanho, que fazia conjunto com uma bermuda pink e tênis laranja apertados _Eu tinha mais dignidade quando estava nu!

_Pois vai ficar com essa roupa mesmo, nem que eu tenha que acorrentá-la no seu corpo! _ Bulma cerrou os punhos _Ninguém anda pelado dentro da MINHA casa! Você acha que foi fácil achar roupas que servissem nesse seu corpo baixinho e cheio de músculos?

Por sorte, o doutor Briefs tinha a mania de mandar colocar cápsulas com peças de roupas avulsas nas casas que fabricava ("Para não faltar nada", dizia). Bulma sempre achara aquilo uma despesa sem sentido, porém desta vez estava grata pela excentricidade do pai. Não estava sendo dramática, tivera realmente um trabalhão: primeiro, para encontrar a cápsula com as roupas daquela casa e depois para selecionar as peças que poderiam servir no seu hóspede selvagem. Essa busca fora ainda mais demorada por causa das interrupções de Kuririn querendo saber onde estava o bloqueador de sinais e Gohan vindo perguntar alguma coisa sobre o funcionamento do desencriptador. A cereja do bolo foi quando Vegeta saiu do banheiro coberto de espuma e mais nada, gritando que seus olhos haviam pegado fogo (xampu, é claro).

Aquela visão provavelmente ficaria gravada nas retinas de Bulma pelo resto da vida.

_Migalhas?_Oolong olhou horrorizado para os pratos e tigelas vazias _Ele comeu nossos últimos pacotes de massa de yakissoba e todo o peixe que pesquei hoje! Nesse passo, vai acabar com todos os nossos suprimentos!

Vegeta levantou-se de um jeito tão brusco que fez o porquinho se encolher embaixo da mesa; depois cruzou os braços e bufou:

_Não é do meu interesse que passem fome. Caçarei alguma coisa mais tarde_ olhou para Bulma _Onde estão o careca e o moleque?

_Kuririn levou o bloqueador de sinais. _percebendo que Vegeta não entendia, ela explicou rápido _É um aparelho que impede que os piratas detectem as nossas esferas do dragão... claro que Kuririn vai aproveitar pra mudar o esconderijo delas, se os homens do Turles ainda não as pegaram. E Gohan está vendo se capta alguma mensagem útil pra gente no scouter.

Os olhos do Saiyajin se iluminaram em compreensão:

_Agora lembro que você disse que podia traduzir as mensagens. Onde está o tal des... o aparelho que faz isso?

_Vou lhe mostrar depois. Antes, gostaria de conversar com você em particular.

Vegeta virou-lhe as costas e foi andando na direção de uma porta, onde lembrava ter visto a mulher dormindo cercada de dispositivos:

_Já estou cheio do som da sua voz. Se não vai me mostrar, acharei sozinho.

Os olhos de Bulma chegaram a soltar faíscas. Ela correu e se postou na frente dele, com os punhos cerrados:

_Escute aqui, seu mal-agradecido! Eu sou a ÚNICA pessoa no universo que quer ajudá-lo. Seu ex-chefe jogou você fora porque deve ter ficado cheio das suas grosserias e ninguém deu a mínima, ou você já teria sido resgatado. Até meus amigos, que adoram ajudar os outros, acham que você deveria voltar pra sua selva. Então, vai me tratar com o respeito devido a uma dama, se não quiser ficar preso neste planeta pulando de galho em galho ATÉ OS PELOS DO SEU RABO FICAREM COMPLETAMENTE BRANCOS! Entendeu?

Por alguns segundos, Vegeta apenas a fitou, de olhos arregalados. Depois, fez "humpf", e a seguiu em silêncio. Oolong, que havia recuado prudentemente durante a bronca, largou-se aliviado sobre uma poltrona e soltou o ar que havia preso nos pulmões.

Bulma não podia levar Vegeta até o laboratório, uma vez que Gohan estava lá, de modo que levou-o para fora da casa.

_Gostaria que a gente pudesse conversar lá fora _ suspirou, fitando a cachoeira que ocultava a caverna _Estou cheia de ficar escondida aqui dentro...

_Deixe de enrolar e diga logo o que quer!

_Tá bom, tá bom. Você é um chato, sabia? _ ela olhou-o feio por cima do ombro, antes de se virar na sua direção _Como foi que tiraram os seus poderes?

Não era nem a última coisa que Vegeta poderia imaginar que ela ia dizer. Tinha quase certeza de que ela o havia chamado ali para lhe ditar regras de comportamento, prometer outras roupas, ou alguma outra bobagem. No máximo, talvez perguntar-lhe que outras plantas curativas ele conhecia.

Que mulher irritante. Ela é totalmente imprevisível!

Sem ter como adivinhar o que ele estava pensando, Bulma achou que sua careta era por estar revivendo experiências desagradáveis. Deu um sorriso constrangido:

_Não precisa entrar em detalhes. Eu sei que deve ter sido horrível, mas é que...

_Eu não sei como aconteceu. _Vegeta fechou os olhos por alguns instantes, lembrando aquele dia do seu retorno à base _Desde que cheguei aqui não paro de pensar como conseguiram.

Fez uma pausa, respirou fundo e abriu os olhos:

_Naquele dia, eu voltei à base depois de uma missão. Fui recebido por soldados que me levaram à enfermaria e recebi ordens de entrar no tanque de regeneração, embora não estivesse ferido.

_Tanque de regeneração?

Vegeta fitou-a surpreso:

_Nâo sabe o que é um tanque de regeneração? Como é que vocês tratam os seus doentes no seu planeta?_antes que ela pudesse falar em algum método primitivo e desagradável, ele continuou _ Esqueça, não me interessa. Esse tanque é um... espaço onde o paciente fica mergulhado num líquido revitalizador até ficar completamente curado. O tempo que leva depende da gravidade dos ferimentos. Pode levar um dia, ou alguns minutos.

_Vocês tem algo capaz de curar em questão de minutos? Mas isso é fantástico!_Bulma chegou a torcer as mãos _Se a Corporação Cápsula pudesse produzir esses tanques na Terra, não teríamos mais hospitais! O que eu não daria pra examinar um deles...

_É muito fácil. Basta ir lá fora e deixar que a peguem.

A moça fez uma cara tão chocada que Vegeta não pode conter um meio sorriso:

_Ouvi alguns piratas reclamando que Turles exige que levem os prisioneiros vivos para ele poder fazer experiências. _ o horror nos olhos de Bulma ia aumentando enquanto ele falava, fazendo o outro canto da boca se erguer, depois os lábios se estirarem num sorriso amplo e sádico _É bem provável que, depois deixar você à beira da morte, ele a ponha num tanque, para ser curada o suficiente para aguentar uma nova sessão... e depois, mais outra, até você não pensar em outra coisa além da morte...

_PÁRA! _Bulma recuou, como o Saiyajin fosse uma aranha nojenta rastejando em sua direção , as mãos erguidas até o rosto _Você... Você é um monstro tão asqueroso quanto Turles! Como pode achar graça numa coisa dessas?

Vegeta parou de sorrir.

_Idiota! Você não queria conhecer os tanques de regeneração? Eles servem para prolongar a vida dos prisioneiros e para recuperar os guerreiros feridos em batalha. No meu caso, não havia nenhum motivo para usá-lo, mas tive que seguir ordens; logo que entrei, perdi a consciência. Não sei quanto tempo fiquei adormecido. Quando acordei, recebi ordens de...

Num tom inexpressivo, contou como havia adormecido novamente em sua nave, para acordar bem mais tarde num ponto desconhecido do universo, sem comunicação com o mundo exterior e com o computador da nave avariado.

_A transformação deve ter acontecido durante o tempo em que você ficou no tanque _Bulma analisou _Seria fácil inserir colocar qualquer coisa no seu corpo durante esse tempo. Mas pra que fizeram você dormir de novo depois?

_Humpf! É óbvio que foi para eu não perceber que a nave não estava seguindo para o planeta que me des... destinaram. _viu os lábios dela se abrindo e cortou-a novamente _Agora é a minha vez de perguntar: por que quer saber?

_Porque se eu descobrir como neutralizaram seus poderes de Saiyajin, talvez eu possa restaurá-los.

*Denopa – órgão digestivo que reúne as funções do fígado, vesícula e pâncreas terrestres. É comum em alguns alienígenas.