O dia seguinte veio sem grandes expectativas para o Host Club. Quais eram as chances de eles avistarem as garotas novamente e entenderem o que se passava? Afinal, tinha sido quase um mês sem notá-las. E apenas Hikaru e Kaoru sabiam qual era o prédio de duas delas – Kyouya tinha comentado que vira a loira entrando no prédio de Artes na noite anterior quando o grupo conversava sobre o quinteto. Mesmo assim, seria difícil. Eram muitos alunos, muitas salas de aula, horários que variavam muito de um curso para outro. Só o prédio de Artes suportava diversos cursos, dificultando a busca. Procurar pela universidade inteira então…

- Oe, Hikaru. Acorde. – Kaoru sussurrou em um tom repreendedor para o irmão ao perceber a distração do mais velho – A professora está falando da prova do mês que vem e do trabalho que temos que fazer.

- Sabe, Kaoru… Nós devíamos achar aquela garota. Ela parece conhecer bem as regras daqui. Vai ser mais fácil nos divertirmos se soubermos com o que estamos lidando. – Hikaru estava completamente desinteressado na aula, se lembrando da visita ao prédio de Artes que fizeram antes da aula no dia anterior.

- Bom, daqui a meia hora teremos a troca de sala. Quem sabe ela não aparece no corredor? – Kaoru parecia não levar o irmão a sério, especialmente por ainda precisarem terminar o colegial e ele estar pensando em achar uma universitária.

Hikaru suspirou. Talvez ele fosse o único realmente curioso sobre o grupo. Sem dizer mais nada, ele se levantou e se retirou da sala pela porta dos fundos, a mais próxima de onde estavam. A professora não se importou. Kaoru, por sua vez, percebeu que algo estava errado, mas achou melhor não ir atrás do irmão. Alguém tinha de anotar as informações da aula para estudarem depois. E não tinham feito nenhum amigo no colégio ainda. Ou, pelo menos, ele não conseguia caracterizar ninguém dessa forma. Talvez aquilo estivesse para mudar, mas…

No corredor, Hikaru se dirigiu para os banheiros. O telefone em seu bolso tinha vibrado algumas vezes, indicando que ele tinha recebido mensagens. Sem pressa, ele as abriu para ler. Com uma mão no bolso da calça preta, ele apoiou as costas do colete azul-marinho de lã que usava por cima da camisa na parede. Não bastasse o cabelo ruivo, ele não usava, como tinha dito o rapaz no dia anterior, "as cores da escola". Pura bobagem aquilo tudo. Talvez por isso as garotas tivessem despertado tanto sua curiosidade.

A primeira mensagem era de Kyouya. Aparentemente, um recado tinha sido deixado em seu carro, pedindo para que ele e os amigos estrangeiros estivessem na mesa mais afastada da cantina na hora do almoço. Hikaru sorriu. Aquilo poderia ser bom. O ruivo decidiu responder.

Eu e meu irmão podemos ir para lá um pouco mais cedo. Não vamos ter a última aula hoje. O idiota do Tono continua usando o quase uniforme desse lugar como se estivesse evitando uma maldição?

A mensagem seguinte era de Kaoru. Era para não demorar em voltar, que a professora passaria um exercício em grupo que parecia importante. "Que bobagem… E vamos fazer grupo com quem, afinal?". Hikaru respondeu apenas com um "ok" e passou para a próxima. Enquanto lia, seu telefone vibrou, indicando que uma nova mensagem chegava.

A terceira era de Haruhi, dizendo para ele não faltar nas aulas como tinha feito no dia anterior só porque tinha se cansado. O ruivo riu de canto. Pela hora, a mensagem tinha chegado atrasada. Ele passou para a próxima e última. Era a resposta de Kyouya. O moreno dizia para que os gêmeos almoçassem assim que conseguissem, porque, se fosse o que ele estava imaginando, o grupo não teria muito tempo para sentar e comer.

"Que diabos ele quer dizer com isso?", Hikaru franziu o cenho. A resposta, no entanto, foi um "ok" sem mais explicações ou perguntas. O ruivo conferiu a hora. Mais vinte minutos e a aula acabaria. Guardando o celular de volta no bolso da calça, ele bebeu um pouco de água no bebedouro do corredor antes de voltar para a sala. Já estava com a mão na maçaneta quando avistou, no outro lado do corredor, andando apressada, uma garota morena de saia preta longa e uma blusa em dégradé de rosa para branco. O cabelo, dessa vez, estava solto. Mas ele sabia que era a garota do dia anterior. Sem pensar duas vezes, ele deu meia-volta e a seguiu.


Kaoru sentia certo nervosismo. Com seu irmão ausente, ele estava sozinho no meio de pessoas estranhas. Estava sozinho para receber os olhares indagadores. Aquilo nunca o tinha incomodado, mas, por algum motivo que não entendia na hora, incomodava naquele fim de aula. Ele olhou o relógio. O que Hikaru estaria fazendo? Assim que pegou o telefone para mandar uma mensagem para o irmão, o aparelho vibrou. Era justamente seu irmão, avisando que não iria para o exercício em grupo. Da janela, o mais novo viu o outro percorrendo a quadra atrás de alguém, que andava despreocupadamente sem olhar para trás.

"A garota de ontem", uma voz o alertou dentro da cabeça. "Vá atrás deles", ela completou.

Sem pensar duas vezes, ele juntou suas coisas e as do irmão e saiu. Não se importava mais com a atividade. Passou no estacionamento para deixar as coisas no carro e então ligou para Hikaru. Precisava saber onde ele estava e pedir para que esperasse. Seria mais fácil acharem a garota se estivessem em dois. Quando o irmão atendeu, já sabia o que seria pedido. A ligação durou não mais que alguns segundos, suficientes para Hikaru dizer a Kaoru que procurasse nos ginásios internos. A garota tinha ido naquela direção.


No prédio de Saúde, o telefone da garota de coturnos vibrou em seu colo. Ela tinha adormecido na biblioteca com o aparelho na mão, se assustando com o aviso de mensagem. Por sorte, estava sentada à última mesa da fileira na parede da janela, então seu sobressalto não chamou atenção. Era uma mensagem de Hana dizendo para o grupo se encontrar na porta da cantina na hora do almoço. A morena sorriu. A amiga estava pondo o plano em prática.


Hikaru tinha alcançado o fim da área externa dos ginásios, encontrando com Kaoru na entrada principal. Nenhum deles tinha tido sucesso, mesmo olhando os vestiários femininos. Aparentemente, a garota tinha sumido. Os gêmeos pensavam em qual seria o próximo passo quando alguém assobiou para eles. Do outro lado dos bebedouros coletivos, a morena estava parada com um ar triunfante. Ela estendeu os braços para trás e se ergueu o suficiente para se sentar na mureta nem alta nem baixa que separava a área da quadra externa.

- Procurando por alguém? – ela tinha um tom zombeteiro ao falar.

Hikaru pareceu se ofender um pouco com a gozação.

- Opa, opa. Calma lá. Acho que o amigo de vocês já avisou do encontro, não? – ela balançou as pernas, deixando visível a bota preta reluzente que usava. O cadarço subia para a perna e o salto e a plataforma na parte da frente eram de borracha.

- Então Kyouya-senpai estava certo ao supor que elas falariam conosco. – Kaoru pareceu levemente surpreso, sem perceber imediatamente que falava em japonês.

A morena sorriu. Não era a primeira vez que tinha contato com alunos estrangeiros, muito menos do Japão. Apesar de estar acostumada a falar em inglês, não teve dificuldades para entender o comentário.

- Suponho que ele seja o moreno de óculos. – ela cruzou um dos braços sobre o corpo, ficando apoiada no outro – Parece que acertamos ao mandar o recado para ele. – ela respondia na mesma língua, o que pareceu surpreender os gêmeos – O que foi? Meus pais vieram do Japão, eu sei falar a língua de vocês. – ela estava visivelmente se divertindo.

- E o que querem conosco? – Hikaru não se sentia muito amigável na hora e não fazia questão de esconder.

- I have a better question. What do you want? – a mudança de idioma os pegou de surpresa mais uma vez. Ela continuou, sempre em inglês – Afinal, você veio atrás de mim como se me perder de vista fosse um pecado. Uma honra, sempre. Mas estranho. As únicas pessoas que vieram atrás de mim não tinham as melhores das intenções.

Pelo tom de voz, Kaoru percebeu que algo bem ruim já tinha acontecido à garota em alguma das vezes. Ou seriam algumas?

A pergunta pegou Hikaru desprevenido. O que ele queria? Na verdade, não tinha pensado em nada ao ir atrás dela. Não tinha pensado no que faria se a encontrasse. E, agora que ela estava lá, ele não sabia o que fazer. Claro, ele tinha perguntas, mas nenhuma lhe pareceu inteligente o suficiente para verbalizar. Ele queria entendê-las, mas… Não era para isso que serviria o almoço? O silêncio se estendia ao redor deles, mas nenhum dos três pareceu se importar. A garota sorria com paciência, olhando de um gêmeo para outro e então para algum lugar ao redor deles. Kaoru olhava do irmão para a desconhecida e então para o irmão de novo. Hikaru tinha decidido fitar o chão.

- Nossos amigos viram as outras meninas. – Kaoru começou, sentindo-se hesitante – As outras que se vestem diferente. Achei legal. Vocês não se importam com o que os outros vão dizer. Ou pelo menos não se deixam abalar com isso. – o ruivo sorriu – Acho que podemos nos dar bem.

- Ora, isso não é um pouco de atrevimento seu? Achar que podemos nos dar bem só por que nenhum de nós gosta de usar uma blusa bordô e uma jeans colada. E se eu for uma pessoa insuportável? – ela sorria com calma, apesar do tom desafiador.

Hikaru sorriu como se achasse graça, fitando a garota diante de si e recebendo um olhar firme de volta.

- Algum problema, ruivo? – o tom era de quem não abaixaria a cabeça por nada. Um orgulho que eles conheciam bem.

- Nenhum, morena. – o tom do mais velho era de perceptível desafio - Será que podemos ao menos saber seu nome?

- Oh, a ansiedade. A-do-ro. – ela riu – Por enquanto, não. Mas, se eu estiver certa, o amigo de vocês, Kyouya, sabe. Perguntem a ele. – então ela desceu da mureta, ajeitando a roupa antes de olhar para os gêmeos novamente – See ya.

Os dois acompanharam as costas da garota enquanto ela se retirava. Como era possível que ela parecesse saber tanto sobre eles e eles não soubesse nada a respeito dela? O mais velho sacou o celular assim que perderam a morena de vista, ligando para Kyouya. Quando a voz do outro soou, o ruivo se apressou em perguntar se ele sabia o nome das meninas.

- Por que a pressa? Vamos nos encontrar com elas em poucas horas. – o tom despreocupado de Kyouya era apenas para alfinetar Hikaru. E estava funcionando.

- Porque nós encontramos a morena de ontem. Ela sabe falar japonês. Fluente. E ficou nos desafiando. – Hikaru tinha um tom irritado por baixo de todo o controle que aparentava.

- Desafiando? Não vejo como. – Kyouya parecia se divertir com a conversa, apesar de manter o tom.

Kaoru suspirou e pegou o telefone do irmão.

- Desculpe, Kyouya-senpai. Nós nos vemos no almoço. – e então desligou. Hikaru não conseguia acreditar no que tinha acontecido.

- Mas… O que foi isso, Kaoru?

O mais novo apenas deu de ombros.

- Vamos, temos mais uma aula para ver antes de almoçar. E vamos ter bastante tempo livre para você reclamar. – Kaoru então se virou e foi em direção ao prédio.

Hikaru não teve escolha senão ir atrás.


Hana passeava pelos jardins da universidade, lançando olhares às janelas das salas conforme passava de um prédio a outro. Todas as garotas tinham concordado com a "caça ao tesouro" para os estudantes do exterior. A recompensa seria perguntarem o que quisessem e ter todas as respostas. Talvez até deixassem que eles fizessem um pedido. "Pelo visto, os loiros são os mais inocentes. O quatro-olhos é esperto, não podemos deixar que ele decida.", ela olhou novamente as horas enquanto pensava no que fazer. Estava impaciente por causa da empolgação. Tinham preparado tudo na noite anterior, durante e depois do jantar.

A cada dois pontos, uma delas estaria esperando. Se eles acertassem a pergunta, poderiam seguir para o ponto seguinte. No caso dos pontos sem ninguém, achariam o próximo se resolvessem o enigma corretamente. Cada enigma apontava em uma direção. Elas tinham criado um labirinto dentro do campus. Caberia a eles achar o centro. Ao final, todas iriam para o ponto de encontro, onde esperariam pelos alunos estrangeiros para a "rodada final", como Hana havia chamado.

Poderia ser bem interessante.