A morena parou diante do chafariz. Seu ponto era a alguns metros de lá, dentro do prédio de Educação. Ela tinha escolhido lá por gostar de crianças. Teria uma distração agradável enquanto esperava. E animaria as funcionárias do lugar. Poderia, de quebra, estimular as crianças a realizarem atividades em grupo. Afinal, a ideia era que os estrangeiros se unissem para resolver os problemas apresentados.
Ela olhou uma última vez o relógio. Faltavam quinze minutos para o almoço. Um último olhar para a água que caía do chafariz e então a garota se dirigiu para a cantina, que ficava ao lado do prédio de Educação. Vindas da direção oposta, ela avistou Catarina e Jenna, conversando animadas sobre alguma coisa. Jenna riu pouco antes de avistar a morena e acenou.
- Já sabem o que fazer, certo? Entramos juntas, para causar impacto. – Hana sorriu, esperando pela resposta das amigas. Quando elas confirmaram, a morena olhou ao redor – Onde estão a Mei e a Anastácia?
Catarina deu os ombros, balançando os cachos loiros com o movimento.
- Mandei uma mensagem para a Mei dizendo que já estávamos a caminho, mas ela não respondeu. Deve estar treinando para a aula prática ou qualquer coisa assim e já vem.
- Eu falei com a Anny. – Jenna pegou o celular enquanto falava, ajeitando os cabelos tingidos – Ela disse que vai levar cinco minutinhos mais que o previsto porque o professor a odeia. – ela lia a tela do aparelho, reproduzindo fielmente as palavras da amiga – Na verdade, é porque o grupo dela atrasou, então fazer a conclusão do trabalho demorou um pouco mais do que deveria. – ela tornou a guardar o telefone no bolso.
- Então logo mais elas devem chegar. – Hana olhava ao redor, sorrindo ao ver dois pontos ruivos se aproximando – Vamos sentar em algum lugar e esperar. – então ela se virou, indo em direção a um banco um tanto quanto fora do campo de visão de qualquer lugar que se olhasse, exceto de frente.
As outras duas a seguiram.
- Eu só espero que o Kyouya-senpai esteja errado e a gente não precise sair correndo. Afinal, o que diabos ele quis dizer com "não vamos ter tempo de comer"? – Hikaru suspirou. Não estava gostando daquela história.
- Ele falou como foi exatamente o bilhete que elas mandaram ou apenas nos disse para vir aqui? – Kaoru empurrou a porta de entrada da cantina enquanto falava, sentindo o ar quente lhe envolver.
- Nada. Só vir e pegar a mesa que elas falaram. – Hikaru olhou ao redor, logo apontando para uma mesa do outro lado do lugar – Aquela, mais especificamente.
Kaoru olhou ao redor, decidindo o que comer. Pelos olhares que recebiam, ele sabia que ou se adaptavam ou se juntavam às meninas. A segunda opção parecia ser a mais promissora. A bem da verdade, ele não se incomodaria. Já Hikaru… O irmão não parecia muito feliz com a ideia. Kaoru suspirou. Por que Hikaru tinha de ser tão teimoso?
Quando deu a hora e todas estavam reunidas diante da entrada da cantina, Hana e Anastácia empurraram as portas da entrada. O cheiro de comida logo as atingiu, fazendo-as perceber a fome que sentiam. O combinado era pegarem apenas um salgado para comer e almoçar depois, mas não tinham pensado em como evitar a fome. "O que a animação não faz… Foi algo bem idiota não pensar nisso", Hana suspirou.
- Ok, vamos lá. Compramos algo para beliscar e voltamos aqui em quinze minutos, ok? Senão é capaz de eles desistirem. – a morena ajeitou os cabelos ao falar, olhando para as amigas.
A cantina inteira as acompanhava enquanto elas passeavam pelo lugar atrás de um salgado bom e barato e voltavam para a porta. Enquanto comiam, se dirigiram para a mesa mais isolada – a mesa delas –, onde sete alunos do exterior as esperavam. Kyouya anotava algo em um caderno de bolso, enquanto Hani devorava um bolo. Hikaru estava largado sobre a mesa, com Kaoru tentando animá-lo. Tamaki tentava achar um jeito de mimar Haruhi, que, por sua vez, não parecia interessada. Mori, em pé atrás do primo, olhava fixamente para o grupo de garotas que se aproximava rindo alto e abrindo passagem sem esforços.
- E aí, esperaram muito? – Anastácia, com o mesmo coturno do dia anterior, tinha um tom desafiador ao falar.
Kyouya analisou o short verde militar, a meia-calça preta, a regata branca e a jaqueta de couro também preta da outra antes de responder. Aparentemente, ele não esperava estilos tão destoantes entre si do grupo. Então ele conferiu as horas e se voltou para as garotas ao falar.
- Um pouco. O combinado foi quando desse a hora do almoço. – ele ajeitou os óculos.
Hana sorriu largamente. Era uma brecha e ela iria aproveitá-la.
- Não, queridinho. Nós dissemos para vocês estarem aqui quando desse a hora do almoço. Mas nunca dissemos quando nós chegaríamos. – ela olhava fixamente para Kyouya da mesma forma que ele olhava para ela. Era quase possível ver faíscas saindo do espaço entre eles.
- E o que querem de nós? – Hikaru soava ranzinza.
- Ora, nós queremos entreter vocês! – Catarina se adiantou, fazendo os cachos loiros escorregarem para frente dos ombros – Vocês vão ter dez minutos para resolver o primeiro enigma. Se acertarem, vão saber onde é o próximo ponto. Senão, não.
A conversa tinha se desenrolado toda em inglês, de forma que era a vez de Mei de brincar com as expectativas. A estudante de Odontologia começou a falar em japonês, atraindo os olhares do grupo.
- Nós montamos um labirinto. A cada lugar certo que forem encontrarão um enigma que precisa ser resolvido. Se resolverem certo, saberão dizer para onde tem que ir depois. De vez em quando encontrarão com a gente. Cada uma determinou o que faria. Pode ser um desafio ou uma pergunta, qualquer coisa. Vocês precisam acertar para entender onde é o próximo lugar. Ao final, estaremos todas esperando no ponto de encontro final. O que espera vocês lá é uma surpresa. – ela sorriu com satisfação ao ver o desconcerto de quase todos os alunos estrangeiros.
- Agora que vocês entenderam… – Hana, que tinha voltado a falar em inglês, tirou um papel do bolso – Esse é o primeiro enigma. Assim que elas tiverem se posto em seus lugares, vou deixar o papel com vocês e sair. Acertem em dez minutos, de preferência. Não é algo que leve muito tempo mesmo. Não queremos torrar seus cérebros logo de início. – ela sorria de forma desafiadora.
Quando a garota acabou de falar, as outras acenaram e saíram, passando com a mesma facilidade de antes. Na porta, alguns alunos mais velhos pareciam dispostos a não deixar que as meninas passassem. Mori foi o primeiro a notar, saindo de onde estava e indo até a saída. Ultrapassou as meninas sem dificuldades – suas pernas longas ajudavam bastante – e ergueu o trio inconveniente em um único movimento. O espanto era geral. Mesmo as quatro, que achavam estarem prontas para qualquer coisa, tinham se assustado, mas logo riam alto e agradeciam, saindo da cantina.
- Takashi está animado com a brincadeira também! – Hani tinha um tom infantilmente alegre, terminando o bolo – E por que você ficou para trás?
Hana, que se divertia com a situação, olhava enquanto Mori punha os rapazes assustados no chão e voltava para a mesa. Ao responder, tinha tornado a olhar para o loiro baixinho, que parecia uma criança do Primário. Mas ela tinha entendido, olhando para ele pela primeira vez, que ele não era só aquilo que aparentava. Ele tinha algo mais. Algo perigoso.
- Vocês vão entender. – ela deixou o papel sobre a mesa, acenando com a cabeça para Mori em agradecimento quando o moreno voltou – Divirtam-se. – e então saiu, passando com menos dificuldade ainda pelos alunos. Aparentemente, seria muito bom se conseguissem que o grupo de estrangeiros ficasse ao lado delas. Mesmo que fosse por apenas um ano.
Hana se dirigiu para o prédio da Educação, pensando em que parte ficaria. No enigma que guiava para lá, apenas tinha especificado o prédio, mas ela não poderia ficar em um ponto muito escondido. Ela olhou ao redor. No térreo ficava o refeitório das crianças da creche, além da cozinha e de uma sala de brinquedos. Nos três andares de cima, alguns dormitórios e algumas salas de aula. Nos dois últimos, os auditórios e as salas de aula do pessoal que fazia os cursos universitários. Como o interesse era pequeno em comparação com os demais cursos da universidade, não tinha problema o espaço ser menor também. "Se bem que esse prédio não é tão pequeno assim…", ela suspirou.
Então, vinda de ela não sabia onde, uma criança segurou em sua saia.
- Tia…
Hana baixou o olhar, fitando uma expressão infantil e chorosa. Ela se abaixou para falar com a criança.
- Oi, meu amor. O que houve…? – ela tinha um tom carinhoso, quase maternal, ao falar.
- Eu… Eu me perdi… A gente… A gente ia brincar lá fora e eu me perdi…
A criança parecia a ponto de chorar. Hana a pegou no colo e se levantou. Acariciava as pequenas costas para que o garotinho se acalmasse e olhou ao redor. Não havia nenhuma funcionária por perto. Talvez estivessem nos fundos, no jardim exclusivo da Educação. A garota começou a andar, sentindo que o menor a abraçava no pescoço. Sem perceber, ela sorriu de canto.
- Você lembra onde iam brincar? – ela desviou brevemente o olhar para a criança e logo voltou a olhar em volta.
- Lá fora, no jardim. A gente ia ver as flores hoje. – ele tinha um tom mais calmo ao falar, o que era bom.
- Ver as flores? Isso é legal. – ela sorriu, recebendo um sorriso de volta do garoto – E de qual você gosta mais?
- Ah! Tem uma que é rosa! – ele parecia empolgado com o assunto, soltando o pescoço de Hana e começando a gesticular com os braços – Ela é bem pequenininha e também pode ser amarela. Foi o que a professora me falou. Mas eu gosto mais da rosa.
Hana riu. Ele provavelmente estava misturando duas espécies – ou mais – na descrição, mas não importava. Algumas flores realmente se pareciam.
- E você sabe o nome dela? – quando terminou a pergunta, já tinham chegado ao jardim. Uma das funcionárias – havia apenas duas ali – veio rapidamente na direção dos dois.
- Ah, muito obrigada! Estávamos ficando preocupadas, mas hoje estamos com pouca gente e não podíamos sair! – a mulher estendeu os braços para pegar o garoto, que não parecia querer se soltar de Hana – Vamos, Matheu, você quer ver as flores, não quer?
- Não se preocupe. Ele estava perto da porta quando cheguei. – Hana sorriu – E isso explica porque aqui está vazio. – ela sentiu o pequeno lhe abraçar com mais força – Ora, ora. Vamos. Você não quer ir brincar com seus amigos?
O garotinho concordou com a cabeça, mas não quis soltar.
- Você… Você cheira que nem a mamãe…
Hana entendeu. Ele se sentia sozinho. Talvez fosse pouco aceito pelos amiguinhos. Ele não tinha a mãe há tempo suficiente para aceitar a perda, mas não para se desapegar. As memórias ainda eram fortes. Ela sorriu de canto.
- Seu nome é Matheu, não é? – ela tinha posto o garoto diante de si, em pé em um banco que havia logo na entrada do jardim. A funcionária apenas olhava preocupada. Fazia tempo que o pequeno não se apegava a alguém. O garotinho concordou, recebendo uma leve carícia no topo da cabeça quando Hana voltou a falar – Então, Matheu, seja um menino corajoso. É importante ficar com seus amiguinhos. Você sente falta dela, não é? – o tom era calmo, maternal, e transmitia segurança.
Matheu concordou, ficando novamente com uma expressão chorosa.
- Você quer que eu venha te ver de novo? – a morena sorria, acenando brevemente com a cabeça para a funcionária como se dissesse que estava tudo bem.
O garoto sorriu.
- Sim!
- Então me prometa que você vai ser um bom menino e vai brincar com seus amiguinhos. – o pequeno concordou com a cabeça – Mesmo, hein. Se você for um mau menino, eu não vou poder te ver. – ele concordou mais determinado – Muito bom, Matheu. – ela sorria para ele – Agora vá lá mexer com as flores. – Hana o pôs no chão e o viu ir correndo até onde o resto da turma estava.
A funcionária suspirou, aliviada.
- Você faz Pediatria? Soube lidar tão bem com ele. Fazia tempo que ele não se apegava assim…
- Na verdade, eu estudo Moda. Estava de passagem só. Isso me lembra… Estou em uma atividade com alguns alunos de outros cursos, será que eu posso ficar por aqui um pouco? – Hana sorria para a funcionária, às vezes acenando para Matheu quando ele mostrava algo para ela.
- Moda? – a mulher riu de canto – Bom, como quiser. Daqui a pouco vamos ter que entrar com as crianças, mas sinta-se à vontade. – ela então se despediu e voltou para o grupo de crianças.
Hana suspirou e se sentou no mesmo banco em que tinha posto o garotinho.
"Talvez eu devesse fazer Pediatria um dia…".
Na cantina, o Host Club levantava ideias sobre o que poderia ser a resposta do primeiro enigma.
Não importa o quanto coma, sempre tenho fome. Não importa o quanto encha, sempre estou vazio. Você precisa cuidar de mim o dia todo, todo dia. Quem sou eu?
- Tem que ser o estômago, mas e daí? – Hikaru parecia frustrado.
- Bom, isso nos deixa com alguns cursos como opção. – Haruhi tinha um tom calmo – Pode ser a Gastronomia, a Nutrição, a Medicina, a Enfermagem.
- Não pode ser também o pessoal da Farmácia? Afinal, eles também veem distúrbios alimentares, não é? – Kaoru ia enumerando as opções nos dedos.
- Também pode ser a Fisioterapia. Elas falaram sobre "sempre ter fome", o que pode indicar alguém que coma muito. Se seguirmos o raciocínio até o fim, pessoas que precisam perder muito peso podem, dependendo do caso, precisar de reabilitação para conseguir andar normalmente. – Kyouya ajeitou os óculos.
- Então ficamos com todas as opções relacionadas a todo o processo, desde o ganho até a perda de peso e uma possível reabilitação. – Tamaki se ajeitou na cadeira, cruzando os braços diante do corpo – Mas qual delas é a certa?
- Não vamos olhar uma por uma, né? – Hikaru parecia realmente desconfortável com a ideia.
- Vamos para a Gastronomia! – Hani parecia empolgado com a ideia, imaginando se poderia comer algum doce.
- Sim. – Mori concordou com a cabeça, fitando o papel no centro da mesa.
- Mas elas falaram em cuidados. Não é mais provável que seja algum curso da área de Saúde? – Haruhi pegou o papel na mão, o analisando.
- De fato. Pelo que foi escrito, a impressão é de alguém com distúrbios alimentares. Mas isso não afunila muito nossas opções. – Kyouya tinha um ar calmo e já imaginava para onde precisariam ir, mas preferiu deixar o grupo decidir.
Ainda tinham três minutos para acabarem os dez sugeridos.
- Não podemos nos dividir? – Hikaru estava visivelmente impaciente.
- Bom, elas não falaram nada… Mas isso não acabaria com a ideia do jogo? – Kaoru tinha um tom preocupado. Quando o irmão ficava irritado, nada de bom poderia sair.
- Que se dane esse jogo idiota! – o gêmeo mais velho bufou, afundando mais na cadeira.
- Se for o pessoal da Medicina, tem que ser os voltados para cirurgia, não? – Haruhi desviou o olhar para Kyouya.
- Por que acha isso?
- Não sei. Mas, lendo o enigma, é a primeira coisa que ocorre quando penso na Medicina. Uma cirurgia de redução de estômago. – Haruhi tornou a por o papel na mesa.
- Bom, então não vai ser Medicina. Os alunos que querem se especializar em cirurgia são encaminhados para outras faculdades. – Kaoru parecia ter se animado – Então sobra Nutrição, Enfermagem e Farmácia.
- Vamos para Nutrição! – Hani parecia ter se animado novamente ao se lembrar de que os alunos de Nutrição também aprendiam a cozinhar.
- Vindo delas, é mais provável que seja algo pouco óbvio. – Haruhi olhava de um Host para outro.
- Então tem que ser Farmácia. – Tamaki, que parecia distraído até então, se ajeitou na cadeira – Não foi o último curso que levantamos?
Um minuto.
- Então a gente não vai comer…? – Hani tinha um ar desolado.
- Acho que podemos passar na Nutrição antes. É caminho, não é? – Kaoru sorria ao falar, rindo ao ver a animação de Hani crescer.
Com a decisão tomada, eles se retiraram da cantina e se puseram a caminho do prédio de Saúde.
